quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A lição do fracasso das negociações comerciais entre o Canadá e os EUA: negociar pode ser inútil

O colapso catastrófico das negociações comerciais entre o Canadá e os Estados Unidos serve de alerta para nações do mundo todo de que qualquer diálogo com o atual governo americano está fadado ao fracasso desde o início, segundo observadores que afirmam que esse episódio recente indica que buscar um acordo justo é inútil.

Andrea Lawlor, professora associada de ciência política na Universidade McMaster, em Ontário, disse: “Independentemente da proximidade da relação histórica, o governo americano sinalizou que agora prioriza seus interesses acima de qualquer tipo de coordenação ou harmonia econômica global.

"A impressão que tenho é que essas negociações 'fracassaram'. No entanto, não tenho certeza se realmente havia algo de bom a ser conquistado."

Os dois países estão agora em uma guerra comercial cada vez mais acirrada, após semanas de negociações urgentes terem fracassado pouco antes do prazo final das 0h (horário do leste dos EUA) de sábado, quando os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre US$ 20 bilhões (R$ 14,6 bilhões) em produtos canadenses.

Um Mark Carney desafiador afirmou no sábado que rejeitou o acordo devido às exigências de última hora dos EUA que teriam prejudicado a soberania do Canadá . O primeiro-ministro canadense disse: “Eles pediram demais e ofereceram de menos… você está em guerra quando é atacado, e nós fomos atacados”. Ele prometeu igualar as tarifas americanas “dólar por dólar”.

Donald Trump anunciou inicialmente as tarifas em 20 de julho, alegando que o Canadá havia discriminado injustamente as empresas americanas.

O principal exemplo dado pela Casa Branca é a proibição, pelo Canadá, da venda de bebidas alcoólicas americanas em oito das suas dez províncias e nos três territórios. A retirada de bebidas destiladas, vinhos e cervejas americanas das prateleiras entrou em vigor após a primeira rodada de tarifas impostas por Trump ao Canadá no início de 2025.

O fracasso das negociações foi uma surpresa. Trump havia afirmado na terça-feira que uma prorrogação de três dias seria aplicada ao prazo das tarifas, já que um acordo estava praticamente assinado. Na quarta-feira, ele disse a repórteres que um acordo "muito justo para ambos os lados" havia sido fechado.

Mas, à medida que os detalhes do acordo começaram a vazar para a mídia canadense, cresceu o alarme de que Carney e seus negociadores estivessem cedendo demais em troca de tarifas mais baixas sobre aço, alumínio e carros.

O primeiro-ministro de Manitoba, Wab Kinew, e seu homólogo da Nova Escócia, Tim Houston, confirmaram esta semana que Carney pediu às províncias que recolocassem as bebidas alcoólicas americanas nas prateleiras para selar o acordo comercial.

Kinew disse a repórteres que acreditava que o Canadá "deveria lutar" contra Trump e que "não se consegue um bom acordo com uma pessoa ruim". Ele incentivou os canadenses a evitarem comprar bebidas alcoólicas americanas, mesmo que os governadores concordassem em recolocá-las nas prateleiras.

Os receios de ceder às pressões de Trump também surgiram numa teleconferência de alto nível realizada pelo embaixador do Canadá nos EUA, Mark Wiseman, com o conselho comercial Canadá-EUA.

Fontes disseram à Canadian Broadcasting Corporation que o ex-negociador-chefe de comércio do Canadá, Steve Verheul, alertou na ligação que concessões agora só levariam a mais exigências dos americanos no futuro.

JD Vance, o vice-presidente dos EUA, também foi gravado em um evento privado, aparentemente zombando de Carney por recuar em "várias questões" enquanto as negociações comerciais estavam em andamento.

Em vez disso, Carney tomou a decisão drástica de trazer seus negociadores de volta para Ottawa, sem mais reuniões planejadas – e de lançar uma série de críticas contra Trump, que por sua vez acusou o Canadá de querer “os benefícios de ser um Estado, sem sê-lo”.

Os produtos abrangidos pelos elevados impostos de importação dos EUA incluem tudo, desde anoraques a enfeites de Natal.

Lawlor sugeriu que o Canadá logo voltaria à mesa de negociações, dado o provável impacto econômico das tarifas. Mas ela afirmou que qualquer negociação com o governo Trump deve ser entendida como passível de desmoronar a qualquer momento.

Ela disse: "Estamos em um estado de constante mudança, onde mesmo quando as negociações produzem acordos, estes não devem ser vistos como vinculativos para sempre."

¨      O que o Canadá arrisca ao retaliar as tarifas de Trump?

Os Estados Unidos e o Canadá acabam de entrar em um território desconhecido.

Após décadas de livre comércio, os aliados de longa data e importantes parceiros econômicos vivem agora uma guerra comercial crescente, sem uma saída clara à vista.

Para o primeiro-ministro canadense Mark Carney, a decisão de suspender, na sexta-feira (21/08), as negociações comerciais com o presidente americano Donald Trump e retaliar, em vez de aceitar um acordo que parecia próximo, será um importante teste político.

Ele é um dos primeiros líderes mundiais a abandonar a mesa de negociações com a Casa Branca — e o resultado será acompanhado de perto por outros governos.

Ambos os lados atribuíram o fracasso do acordo provisório a mudanças de última hora, com Carney afirmando que os EUA "pediram demais" e "ofereceram muito pouco".

Trump afirmou que o Canadá quer "os benefícios de ser um Estado [americano], sem sê-lo", após o colapso das negociações comerciais entre os dois países.

Ao comentar a interrupção das negociações — que desencadeou novas tarifas americanas de 50% sobre uma série de produtos canadenses —, Trump disse que os agricultores americanos vinham pagando "quantias enormes em tarifas" há anos.

Carney classificou as novas tarifas americanas como um "erro de cálculo" destinado a "nos prejudicar e nos dividir".

Ele confirmou que aplicaria tarifas equivalentes às de Trump, "dólar por dólar", a partir de 8 de setembro, incluindo taxas sobre aço, laticínios, eletrodomésticos e eletrônicos.

Os EUA e o Canadá estão agora em uma "guerra" comercial, afirmou ele.

A decisão de Carney vai testar a disposição dos canadenses em aceitar um certo nível de sofrimento econômico, enquanto Ottawa pressiona por mais concessões dos EUA.

Após rejeitar as táticas de alta pressão de Trump e optar por retaliar contra as novas tarifas, Carney precisará convencer os canadenses de que o prejuízo econômico compensa o custo de enfrentar o governo Trump em busca de um acordo melhor a longo prazo.

O Canadá enfrenta, assim como o Brasil, um dilema sobre como agir diante de tarifaços impostos pelo governo Trump.

No mês passado, os EUA anunciaram tarifas contra produtos brasileiros exportados para o país que podem chegar a 37,5%. O Brasil deu início a um processo formal para avaliar se vai usar uma lei de reciprocidade econômica contra os EUA. Além disso, o governo brasileiro abriu consultas sobre as tarifas americanas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

<><> 'Fomos atacados'

No sábado (23/08), Carney afirmou: "Tomamos esta medida com a certeza de que é no interesse do Canadá" e acusou os EUA de uma "jogada de poder" ao buscarem mudanças de última hora.

Questionado por um repórter se os EUA e o Canadá estavam em guerra comercial, ele respondeu: "Você está em guerra quando é atacado — e nós fomos atacados."

Falando em francês, ele disse que a escalada da disputa comercial "não foi uma escolha nossa", acrescentando: "O Canadá é forte, o Canadá está preparado, o Canadá está unido."

Isso causará transtornos para ambos os lados da fronteira, com as empresas enfrentando maior pressão das tarifas alfandegárias americanas e das tarifas canadenses de retaliação.

O Canadá envia cerca de 70% de suas exportações para os EUA, e o país é o principal parceiro comercial de vários Estados americanos, sendo Michigan, Kentucky, Indiana e Ohio alguns dos mais afetados.

Carney foi eleito com a promessa de agir com firmeza contra um governo Trump que tenta usar pressão econômica para promover os interesses americanos.

Muitos canadenses disseram aos pesquisadores que estão dispostos a lutar.

Uma pesquisa recente da Abacus Data sugeriu que cerca de 36% dos canadenses apoiariam a retaliação às tarifas americanas, enquanto uma pesquisa da Leger indicou que 56% dos canadenses querem que o governo federal adote uma postura firme e não faça mais concessões.

Os canadenses, frustrados com as tarifas americanas, já optaram por evitar viajar para lá. O boicote representou uma perda de cerca de US$ 2,35 bilhões em receita de viagens para os EUA no ano passado.

A decisão da maioria das províncias de retirar bebidas alcoólicas americanas das prateleiras das lojas prejudicou bastante esse setor.

Com base em dados comerciais do governo dos EUA, as exportações de vinho americano para o Canadá caíram 78% em relação ao ano anterior, uma perda de US$ 357 milhões em valor de exportação. A associação de destiladores dos EUA relatou números semelhantes, afirmando que as proibições provinciais causaram uma queda de mais de 70% nas exportações de bebidas destiladas americanas.

A proibição rapidamente se tornou um ponto de frustração para o governo Trump.

O primeiro-ministro do Canadá também precisará convencer as províncias, que até agora foram menos afetadas pela disputa comercial com os EUA, de que se retirar das negociações é um risco que vale a pena correr.

Ele os informou no sábado sobre a situação atual e, por enquanto, eles estão demonstrando união.

O primeiro-ministro da Columbia Britânica, David Eby, disse estar comprometido com o "projeto nacional em que estamos trabalhando", enquanto o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, afirmou: "Não começamos essa luta, mas posso garantir que vamos vencê-la".

<><> O que deu errado?

Ao longo da última semana, parecia que um acordo entre os governos de Washington e Ottawa estava próximo.

Ainda não está claro exatamente como as negociações fracassaram, mas, ao que tudo indica, foi uma questão de tempo.

Carney afirmou que os termos propostos pelos EUA em cima da hora "eram injustos, antieconômicos e colocavam em dúvida a confiabilidade de qualquer acordo".

Ele acrescentou no sábado que esses termos incluíam exigências para o setor automobilístico e restrições "inaceitáveis" a acordos comerciais com outros países.

Em uma frase mordaz, ele disse sobre o governo Trump: "Reconhecemos que, às vezes, sua assinatura é escrita a lápis."

O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, por sua vez, apontou para "novas exigências e recuos de outros compromissos por parte do Canadá".

Em um comunicado divulgado na sexta-feira, o Conselho de Bebidas Destiladas dos EUA sugeriu que "a recusa contínua das províncias canadenses em recolocar produtos destilados americanos nas prateleiras das lojas levou a esse resultado".

Houve também relatos na mídia canadense de que o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, estava insatisfeito com o acordo. A BBC entrou em contato com seu gabinete para obter um comentário.

E à medida que os detalhes sobre um acordo comercial provisório com os EUA foram sendo divulgados ao longo da última semana, alguns líderes provinciais, grupos industriais e opositores políticos manifestaram preocupação com o fato de o primeiro-ministro não ter cumprido a promessa de combater as medidas americanas — embora Carney tenha negado que isso tenha influenciado sua decisão.

O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford — geralmente um dos políticos canadenses mais ativos em relação às tarifas americanas — manteve-se em silêncio sobre o acordo provisório durante toda a semana. Mas, em uma carta enviada a Carney, ele expressou preocupação de que um acordo sob pressão "encorajaria os EUA a buscar uma concessão após a outra".

A província, que possui um grande setor industrial e automotivo, está entre as regiões mais afetadas por essa disputa comercial.

O líder da oposição conservadora, Pierre Poilievre, afirmou que qualquer acordo que incluísse tarifas "unilaterais" sobre a indústria canadense seria "um mau negócio".

No sábado, ele apoiou a decisão de Carney de se afastar por enquanto, dizendo: "O Canadá não pode aceitar tarifas unilaterais que irão desindustrializar nosso país."

O colapso deste acordo coloca em dúvida o futuro de negociações semelhantes, incluindo a revisão do pacto de livre comércio entre os EUA, o México e o Canadá.

Agora Carney – e o Canadá – precisam esperar para ver como Trump responderá.

¨      Trump acusa o Canadá de exigir demais: 'Quer privilégios de estado'

O Canadá está tentando obter privilégios semelhantes aos dos estados americanos, apesar de não ser um, afirmou o presidente dos EUA, Donald Trump. Suas declarações vieram após o colapso do acordo comercial entre os dois países e o anúncio de Ottawa de que responderia às novas tarifas de Washington com "dólar por dólar".

"O Canadá quer privilégios de estado sem ser um!! Eles também cobraram tarifas altíssimas de nossos grandes agricultores por anos. Isso acabou!!!", escreveu o ocupante da Casa Branca em sua rede social.

Anteriormente, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou que o Canadá imporia tarifas retaliatórias sobre as importações norte-americanas, aplicando o princípio "dólar por dólar" assim que as novas tarifas impostas por Washington entrassem em vigor.

"Não podemos aceitar o que eles ofereceram, nem daremos o que eles pediram", declarou Carney, referindo-se ao fracasso das negociações.

Por sua vez, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que o Canadá se recusou a concluir as negociações de um acordo comercial com Washington. Segundo o alto funcionário norte-americano, as tarifas sobre uma série de produtos canadenses entraram em vigor em 22 de agosto, às 04h01 GMT (01h01, horário de Brasília).

Em julho, o presidente dos EUA assinou documentos impondo tarifas adicionais de 50% sobre uma ampla gama de produtos canadenses. A decisão teria sido uma resposta às restrições discriminatórias impostas por Ottawa aos produtos note-americanos.

As restrições afetam quase 300 categorias de produtos e se aplicam a todos os bens, sem exceção. De acordo com estimativas do governo americano, as medidas deveriam afetar aproximadamente US$ 20 bilhões (mais de R$ 102,8 bilhões) em importações do Canadá.

Os Estados Unidos são compostos por 50 estados. Trump defendeu repetidamente a adesão do Canadá aos EUA, sugerindo que o país poderia se tornar o 51º estado. Como possível candidato à posição de "51º estado", o ocupante da Casa Branca também mencionou a Groenlândia em diversas ocasiões.

<><> EUA dizem que Canadá não vencerá guerra comercial e terá de voltar a negociar

O secretário de Transportes dos Estados Unidos, Sean Duffy, afirmou neste domingo (23) que o Canadá não conseguirá vencer uma guerra comercial contra Washington e deverá retornar às negociações diante dos impactos que um confronto prolongado pode provocar sobre a economia do país.

A declaração ocorreu após o primeiro-ministro Mark Carney anunciar novas tarifas contra produtos estadunidenses em resposta à retomada das taxas de 50% impostas pelos EUA sobre importações do Canadá.

"Pensar que eles vão entrar em guerra com Donald Trump e realmente vencer essa guerra contra os EUA é, na minha opinião, uma atitude insensata", disse Duffy à Fox News.

Carney afirmou no sábado (22) que o Canadá havia sido atacado pelos Estados Unidos e que, diante de um ataque, o país estaria em guerra. Para Duffy, porém, a relação comercial entre os dois países coloca Ottawa em uma posição mais vulnerável, já que o Canadá depende mais das trocas com os Estados Unidos do que Washington depende do mercado canadense.

"O Canadá se beneficia muito mais do comércio com os EUA do que os EUA se beneficiam do comércio com o Canadá", afirmou o secretário.

A resposta de Ottawa prevê tarifas sobre produtos dos Estados Unidos a partir de 8 de setembro, com setores como eletrônicos, equipamentos agrícolas, papel e celulose, eletrodomésticos, produtos lácteos e aço entre os segmentos que poderão ser atingidos. Carney afirmou que a lista definitiva será divulgada nos próximos dias e que as medidas terão como princípio a reciprocidade, com tarifas aplicadas "dólar por dólar".

Parte do impasse envolve as tarifas aplicadas por Washington com base na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial dos Estados Unidos de 1962, que permite a adoção de barreiras comerciais sob justificativa de segurança nacional. Para Carney, os avanços obtidos nas negociações não foram suficientes para atender aos interesses do Canadá.

Os Estados Unidos são o principal parceiro comercial do Canadá e já chegaram a responder por cerca de 70% do destino das exportações canadenses. O governo do presidente Donald Trump sustenta que a política tarifária busca proteger empregos, fortalecer as cadeias de abastecimento e estimular a transferência de produção industrial para o território dos Estados Unidos.

 

Fonte: The Guardian/BBC News/Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário