10
pontos para entender o Acordo de Meca e por que ele pode acelerar corrida
nuclear
O acordo firmado em
Meca por
Arábia Saudita, Turquia e Paquistão cria uma nova arquitetura de segurança no
Oriente Médio e sinaliza uma mudança importante no equilíbrio de forças da
região.
Embora
os três países tenham interesses distintos e o conteúdo integral do pacto
permaneça em segredo, a aliança tem como pano de fundo o conflito com o Irã, a
fragilidade das garantias oferecidas pelos Estados Unidos e o avanço da
militarização regional.
Entre
seus possíveis efeitos está o fortalecimento das capacidades militares dos
signatários — inclusive no campo nuclear. A seguir, dez pontos ajudam a
entender o que está por trás do Acordo de Defesa Conjunta de Meca e por que ele
pode acelerar a corrida armamentista no Oriente Médio.
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1. “Todos por um, um por todos”
Com
esse lema tribal, os chefes das ditaduras da Arábia Saudita, da Turquia e do
Paquistão assinaram, em 7 de agosto, o “Acordo de Defesa Conjunta de Meca” e o
selaram com uma oração na Grande Mesquita da cidade santa.
O fato
de a religião oficial dos três Estados signatários ser a corrente sunita do
islã (professada por cerca de 90% dos 2,19 bilhões de muçulmanos do mundo), de
os três serem vizinhos do Irã e de terem realizado sua cúpula na Casa de Alá,
um dos dois lugares sagrados (junto com a mesquita de Al Quds, em Jerusalém)
que o fundador da Teocracia Xiita do Irã (TCHI), o aiatolá Khomeini, quis
“libertar” das garras dos apóstatas para incluí-los em seu
projeto de império xiita, não é nenhuma casualidade.
O caso
do aiatolá é uma anomalia quando se trata das razões das guerras, que quase
sempre são promovidas por questões econômicas. A cruzada de Khomeini contra
Israel e a Arábia Saudita tinha uma
natureza absolutamente religiosa: os judeus e os sunitas, embora fossem
filhos de Abraão, não mereciam ser os guardiões desses templos.
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2. Dois Motivos
Dois
são os principais motivos para que a Tróica sunita, composta pelo
maior exportador de petróleo do mundo, pelo detentor do segundo maior exército
da Otan e pelo único país “muçulmano” com armas nucleares, tenha levado cerca
de meio século para enfrentar a TCHI,
instalada em 1978 pelos G4 no Irã:
a) Encontrá-la em
seu momento mais fraco, tanto pela derrota dos aiatolás na Síria, no Iraque, em
Gaza e no Líbano, quanto pelo aumento dos protestos sociais contra o
capitalismo totalitário islâmico, sobretudo por suas mulheres
invencíveis;
b) O contexto bélico atual, marcado pela convergência de uma série
de fatores que o tornaram possível:
- As interrupções
do fornecimento de energia, fertilizantes e outras mercadorias pelo
estreito de Ormuz, e suas graves consequências nos três Estados. O Irã
agora ameaça fechar também o Bab el-Mandeb.
- O fracasso
previsto das negociações de Islamabad.
- A facção
“Anti-Acordo” do regime iraniano, que em um
semigolpe de Estado palaciano afastou o setor “Pró-Acordo”,
prepara agora uma ofensiva militar com o objetivo de provocar a derrota
dos republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro nos EUA.
- A insuficiência
da proteção prometida pelos EUA diante dos ataques do Irã e dos batalhões
a soldo na região. O último ataque foi realizado pelos houthis contra uma
refinaria da Aramco em 9 de agosto.
Em 23
de junho, Riad assinou com os EUA um acordo nuclear, cujo impacto nos países da
região vai além do aspecto psicológico.
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3. Aliança Multinacional
Em 31
de julho, Riad anunciou a formação da Aliança Multinacional de Defesa Marítima
com o Paquistão, a Turquia, o Egito, o Catar e outros oito Estados para
proteger “as rotas marítimas internacionais” no Golfo Pérsico, no Bab
el-Mandeb, no mar Vermelho, no golfo de Áden e no mar Arábico.Embora o
propósito do pacto trilateral seja criar o núcleo de uma nova arquitetura de
segurança e defesa comum na região e insinuar um cerco militar ao Irã,
aumentando os custos das agressões contra Teerã, cada Estado busca atender a
seus interesses particulares.
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4. Os objetivos da Arábia Saudita
Criar
uma profundidade estratégica, algo que não conseguiu nem no Iraque após a queda
de Saddam Hussein, nem na Síria com a fuga de Bashar al-Assad.
Buscar
medidas multilaterais que ponham fim, não à guerra em curso, mas ao regime do
Irã e que, de uma vez por todas, Washington “esmague a cabeça da serpente”,
nas palavras do rei Abdullah; se não conseguir, uma dissuasão militar servirá
para negociar com Teerã a partir de uma posição de poder.
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Reivindicar
seu status de maior economia do Oriente Médio, líder da Opep e país mais
influente no “mundo muçulmano”. A guerra reduziu a confiança dos investidores
nos países árabes do Golfo Pérsico. Riad precisa recuperar sua fama de ser um
“refúgio seguro” para os investimentos. Sem segurança garantida, não haverá
investimento. No ano passado, Riad registrou um déficit orçamentário de 33,5
bilhões de dólares, coincidindo com os cortes na produção de milhões de barris
diários e a queda do turismo. Projetos gigantescos, como o NEOM, de cidades
turísticas, foram paralisados.
Proteger
o megaprojeto de transformação econômica. A Visão 2030, que pretendia dar ao
país uma aparência moderna.
Desenvolver
uma infraestrutura de produção industrial militar. Riad assinou, em 2025, com
os EUA “o maior acordo de venda de defesa da história”, no valor de 142 bilhões
de dólares. A Turquia poderá ficar com parte desses montantes para criar
fábricas e, de quebra, permitir que a Arábia utilize suas rotas comerciais
alternativas ao estreito de Ormuz.
Utilizar
o porto paquistanês de Gwadar e o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC)
para enviar suas mercadorias à Ásia Central e ao restante do mundo. Riad
realizou um investimento de 10 bilhões de dólares nesse porto.
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Recorrer,
se necessário, ao numeroso e experiente exército paquistanês. Em 2025,
Islamabad enviou um esquadrão de caças e 8 mil militares para a Arábia Saudita.
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5. Os objetivos da Turquia:
- Aumentar sua
segurança diante das ameaças israelenses. “A Turquia é o novo Irã”, diz o
ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett. Na Síria, os dois aliados
dos EUA estão em guerra. Por isso, Tayyip Erdogan, que durante o genocídio
palestino não moveu um dedo para formar uma coalizão contra o regime
criminoso de Netanyahu, agora decidiu envolver Riad (seu velho inimigo) e
Islamabad para consolidar seu regime e conter o Estado judeu. O ataque de
Israel contra seu aliado Catar, em 9 de setembro de 2025 (que não tinha
como objetivo assassinar os líderes do Hamas), e que
obviamente ocorreu com o aval dos EUA, foi uma linha vermelha que Israel
se permitiu cruzar. Bennett advertiu Ancara sobre um “eixo hostil” com as
capacidades nucleares do Paquistão “para cercar Israel”. Agora enviarão o
Mossad para sabotar as usinas nucleares do Paquistão, como fizeram com o
Irã?
- Fortalecer ainda
mais a indústria militar turca. Erdogan transformou o negócio de
revólveres e drones em uma ferramenta de política externa, ganhando
influência nos países clientes, como o Paquistão e a Arábia Saudita.
- Receber
investimentos sauditas.
- Ancara, que
deseja o fim da guerra, prefere administrá-la em vez de entrar em conflito
com o Irã. Conta com o fato de que Teerã não se atreverá a lançar mísseis
contra um aliado da Otan.
- Contente com a
destruição do programa nuclear iraniano, Erdogan se preocupa tanto com um
colapso imediato do regime xiita quanto com um conflito prolongado que
desencadeie uma onda migratória em massa em direção ao território turco,
preocupação compartilhada por Ursula von der Leyen, chefe da Comissão
Europeia, que, no início da guerra, conversou com Erdogan para tratar
desse assunto. Ao que parece, foi Erdogan quem fez Trump desistir de armar
os curdos iranianos para uma luta contra o que resta do regime. Dar um
novo impulso à indústria militar turca, líder na produção de drones.
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6. Os objetivos do Paquistão
- Dar visibilidade
ao País dos Imaculados (esse é o significado de seu nome)
e a seus 240 milhões de habitantes, agora que os generais fracassaram em
mediar o conflito entre os EUA e o Irã.
- Contribuir para
pôr fim à guerra, que afetou gravemente o país. 85% do petróleo consumido
pelo Paquistão passa por Ormuz, assim como 25% do gás natural que comprava
do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, de onde também recebia
fertilizantes para suas plantações de arroz e de chá, algodão ou
cana-de-açúcar.
- Agora enfrenta
uma diminuição da produção, uma hiperinflação, mais fome e menos divisas
provenientes das exportações.Atrair capital saudita e de outros países
árabes para sua economia em troca de material militar.Acessar os mercados
da África, onde os xeques árabes os exploram há décadas.Contar com o
poderio industrial da Turquia, seu segundo maior fornecedor de armas,
depois da China.
- Embora a guerra
contra o Irã seja o pano de fundo deste pacto, o principal desafio dos
generais islamistas é a Índia, alvo de suas bombas nucleares.
No entanto, as amplas relações comerciais entre indianos e sauditas, que chegam a 43 bilhões de dólares, impedirão o uso da aliança contra o país de Jawaharlal Nehru. - Os Salman enviam
cerca de 700 mil barris de petróleo por dia para a Índia, ao mesmo tempo
que a Aramco participa de grandes projetos de refino e comercialização na
costa oeste deste país e, agora, negociam com a teocracia hinduísta de
Narendra Modi um investimento de até 100 bilhões de dólares em
infraestrutura no país mais populoso do mundo.
Depois,
há os 2,5 milhões de trabalhadores-escravizados indianos na Arábia, que enviam
milhões em remessas para seu país de origem.
E contra o Irã? Se os Guardiões Islâmicos voltarem a atacar a Arábia, o
Paquistão não fará nada, por:
a) Abrigar milhões
de xiitas (que representam entre 5% e 30% de seus 230 milhões de muçulmanos). O
batalhão Fatemiyun, formado por xiitas paquistaneses, estava lutando na Síria
sob o comando dos Guardiões Islâmicos e agora foi transferido para o Irã para
esmagar os protestos dos cidadãos e fazer volume nas noites dos drones
cor-de-rosa.
b) Compartilhar com o Irã 1.000 quilômetros de fronteira, além de
ser na conflituosa região do Baluchistão.
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7. O papel dos EUA:
Enquanto Donald Trump continua
refletindo sobre quando desferir o último e definitivo golpe contra a TCHI, ou
deixar que Israel termine esse “trabalho sujo” (nas palavras do chanceler
alemão Friedrich Merz), ou deixá-lo de presente para o próximo presidente dos
EUA, está permitindo que seus três aliados islamistas testem essa nova
arquitetura de segurança regional para que cuidem de sua própria segurança, de
seus gastos e sacrifiquem seus próprios cidadãos para salvar o sistema
capitalista mundial e a ordem liderada pela superpotência ocidental.
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8. A reação do Irã:
“Cuidado,
que um tigre está se aproximando!”, adverte um a seu amigo. “Nããão! —
responde o outro, incrédulo — acho que é um gato”, diz um provérbio persa.
“O pacto é uma resposta à incompetência dos EUA para defender seus aliados”,
dizem os iranianos, ocultando sua comoção diante da aliança militar entre seus
três poderosos vizinhos. Poderiam colocá-los em uma situação embaraçosa e pedir
que entrassem no tratado, mas, sem uma liderança e concentrados mais na tensa
situação interna (a taxa oficial de inflação é de 87,9%, centenas de fábricas e
oficinas foram bombardeadas ou fechadas pelo regime por “atitudes
anti-islâmicas” etc.), isso não parece possível.
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9. A reação de Israel e da Índia:
O
pacto, embora beneficie Israel por ser
anti-iraniano, também reduz a possibilidade de assinatura dos Acordos de Abraão
por Riad, aumenta o poder dos xeques nas negociações e dificulta as novas
aventuras do jihadismo judeu, encarnado pelo exército israelense,
caso a coalizão se amplie. No caso da Índia, embora esteja tranquila em relação
à Arábia, não está tanto em relação à Turquia. Quando, em 22 de abril de 2025,
durante a Operação Sindoor, a Índia lançou um ataque contra a área paquistanesa
da Caxemira, a Turquia enviou 300 drones a Islamabad. Como resposta, Modi
suspendeu importantes acordos econômicos com Ancara. Agora teme a modernização
da tecnologia militar paquistanesa e a colaboração de seus serviços de
inteligência com os generais islamistas. Nova Délhi continuará atacando os atores
não estatais terroristas em território de seu inimigo, sob o pretexto
de que os tratados internacionais não o impedem.
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10. Um pacto um tanto estranho:
Embora
as disposições do acordo continuem secretas, sabemos que os interesses
essenciais dos signatários não estão alinhados. Seus inimigos são diferentes e
os acordos militares não obrigam os signatários a se envolverem em uma guerra,
de modo que o mais provável é que, após o desaparecimento do regime iraniano,
ele se dissolva em um fórum. Pode ser que até mesmo antes disso ele se torne
letra morta, mas, de todo modo, acelerará a corrida armamentista regional,
inclusive a nuclear.
Enquanto
isso, Washington, Tel Aviv e Teerã se preparam para a batalha final que
devastará toda a região.
¨
Aliança inédita desafia a velha ordem política na
Palestina. Por Sayid Marcos Tenório
Depois
de duas décadas sem eleições legislativas, o povo palestino poderá finalmente
ser chamado a renovar suas instituições. O decreto presidencial estabelece 28
de novembro de 2026 para a escolha dos 132 integrantes do Conselho Legislativo,
com votação prevista em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Faixa de Gaza.
A
questão central, contudo, não é apenas se as eleições ocorrerão, mas se os
palestinos poderão escolher livremente seus representantes, inclusive os que
defendem a resistência, e se o resultado será respeitado.
A
última eleição legislativa ocorreu em janeiro de 2006. O Hamas, concorrendo
pela lista Mudança e Reforma, conquistou 74 cadeiras e derrotou a Fatah.
Em vez
de reconhecer a decisão popular, Israel, Estados Unidos e seus aliados
impuseram sanções e trabalharam para inviabilizar o governo liderado por Ismail
Haniyeh. A experiência mostrou que, para as potências ocidentais, a democracia
palestina só é aceita quando produz o resultado desejado.
Desde
então, a vida política palestina permaneceu aprisionada entre ocupação, divisão
interna e esvaziamento institucional.
O
Conselho Legislativo deixou de funcionar e foi dissolvido em 2018. As eleições
presidenciais não ocorrem desde 2005. Mahmoud Abbas, eleito originalmente para
quatro anos, permanece no poder há mais de duas décadas sem submeter novamente
sua liderança ao voto popular.
Esse
vazio democrático explica a importância das eleições anunciadas, mas também
revela por que Abbas é um dos principais fatores de incerteza.
O
presidente acumula promessas não cumpridas, adiamentos e recuos. Em 2021,
eleições legislativas e presidenciais chegaram a ser convocadas, mas foram
suspensas sob a justificativa de que Israel não havia garantido a participação
de Jerusalém Oriental.
Embora
essa participação seja um direito inegociável, a decisão foi amplamente
interpretada como uma manobra para evitar a derrota de uma Fatah fragmentada
diante do Hamas e de outras forças oposicionistas.
O
precedente permanece. Se a possibilidade de derrota voltar a ameaçar o grupo
que comanda a Autoridade Palestina, Abbas respeitará as urnas ou encontrará
outra justificativa para cancelá-las?
A
desconfiança é ampliada pelo isolamento de Mahmoud Abbas. Pesquisa realizada em
agosto de 2026 mostra que apenas 20% aprovam seu desempenho, enquanto 76% o
desaprovam. Nada menos que 79% defendem sua renúncia, percentual que chega a
82% na Cisjordânia.
Além
disso, 83% identificam corrupção nas instituições da Autoridade Palestina e 65%
consideram a própria Autoridade um peso, não uma conquista nacional. Trata-se
de uma profunda crise de confiança e legitimidade.
É nesse
cenário que surge o elemento mais inovador do processo: uma aliança
político-eleitoral nacional em construção, reunindo Hamas, Jihad Islâmica,
Frente Popular para a Libertação da Palestina, uma corrente reformista da
Fatah, Nasser al-Qudwa, Brigadas Nasser Salah al-Din e outras forças e
personalidades.
A
composição ainda depende de um programa comum e da confirmação formal de seus
participantes. Entretanto, sua articulação já representa uma novidade
histórica.
Correntes
islâmicas, nacionalistas, progressistas e dissidentes da Fatah aproximam-se
para disputar conjuntamente a direção política palestina. A possível
participação da Jihad Islâmica, tradicionalmente afastada das instituições
criadas pelos Acordos de Oslo, amplia ainda mais o alcance da iniciativa.
Essa
frente pode romper a velha polarização entre Fatah e Hamas e formar um campo
organizado em torno da unidade nacional, da reconstrução institucional e da
legitimidade da resistência contra a ocupação.
O Hamas
afirma trabalhar pela construção do “mais amplo consenso nacional possível” e
adverte contra a repetição do recuo de 2021.
A
aliança coloca a direção da Fatah diante de um desafio decisivo. De um lado, o
movimento enfrenta fragmentação e rejeição à administração de Abbas. De outro,
as forças da resistência articulam uma frente capaz de disputar as urnas para
além de suas bases tradicionais.
Se
consolidada, essa coalizão poderá alterar profundamente a relação de forças no
movimento nacional palestino.
Há,
porém, uma ameaça adicional: transformar as regras eleitorais em instrumento de
exclusão.
A
legislação exige das listas compromisso com a OLP (Organização para a
Libertação da Palestina), seu programa político e suas obrigações
internacionais. Essa formulação poderá ser usada para pressionar o Hamas e
outras organizações a aceitarem os limites de Oslo, reconhecerem Israel e
abandonarem a resistência armada.
Seria
uma democracia condicionada. Convoca-se o povo às urnas, mas tenta-se decidir
antecipadamente quais projetos ele poderá escolher.
O
calendário oficial continua fixando 28 de novembro para a votação.
O
verdadeiro teste, entretanto, será assegurar a participação de Jerusalém,
Cisjordânia e Gaza, impedir vetos israelenses e estrangeiros, garantir a
presença de todas as forças, e respeitar o resultado, mesmo que ele desmonte a
velha e corrupta ordem liderada por Abbas, e confirme nas urnas a força
política da resistência palestina.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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