quinta-feira, 27 de agosto de 2026

10 pontos para entender o Acordo de Meca e por que ele pode acelerar corrida nuclear

O acordo firmado em Meca por Arábia Saudita, Turquia e Paquistão cria uma nova arquitetura de segurança no Oriente Médio e sinaliza uma mudança importante no equilíbrio de forças da região.

Embora os três países tenham interesses distintos e o conteúdo integral do pacto permaneça em segredo, a aliança tem como pano de fundo o conflito com o Irã, a fragilidade das garantias oferecidas pelos Estados Unidos e o avanço da militarização regional.

Entre seus possíveis efeitos está o fortalecimento das capacidades militares dos signatários — inclusive no campo nuclear. A seguir, dez pontos ajudam a entender o que está por trás do Acordo de Defesa Conjunta de Meca e por que ele pode acelerar a corrida armamentista no Oriente Médio.

>>> 1. “Todos por um, um por todos

Com esse lema tribal, os chefes das ditaduras da Arábia Saudita, da Turquia e do Paquistão assinaram, em 7 de agosto, o “Acordo de Defesa Conjunta de Meca” e o selaram com uma oração na Grande Mesquita da cidade santa.

O fato de a religião oficial dos três Estados signatários ser a corrente sunita do islã (professada por cerca de 90% dos 2,19 bilhões de muçulmanos do mundo), de os três serem vizinhos do Irã e de terem realizado sua cúpula na Casa de Alá, um dos dois lugares sagrados (junto com a mesquita de Al Quds, em Jerusalém) que o fundador da Teocracia Xiita do Irã (TCHI), o aiatolá Khomeini, quis “libertar” das garras dos apóstatas para incluí-los em seu projeto de império xiita, não é nenhuma casualidade.

O caso do aiatolá é uma anomalia quando se trata das razões das guerras, que quase sempre são promovidas por questões econômicas. A cruzada de Khomeini contra Israel e a Arábia Saudita tinha uma natureza absolutamente religiosa: os judeus e os sunitas, embora fossem filhos de Abraão, não mereciam ser os guardiões desses templos.

>>> 2. Dois Motivos

Dois são os principais motivos para que a Tróica sunita, composta pelo maior exportador de petróleo do mundo, pelo detentor do segundo maior exército da Otan e pelo único país “muçulmano” com armas nucleares, tenha levado cerca de meio século para enfrentar a TCHI, instalada em 1978 pelos G4 no Irã:

a) Encontrá-la em seu momento mais fraco, tanto pela derrota dos aiatolás na Síria, no Iraque, em Gaza e no Líbano, quanto pelo aumento dos protestos sociais contra o capitalismo totalitário islâmico, sobretudo por suas mulheres invencíveis;
b) O contexto bélico atual, marcado pela convergência de uma série de fatores que o tornaram possível:

  • As interrupções do fornecimento de energia, fertilizantes e outras mercadorias pelo estreito de Ormuz, e suas graves consequências nos três Estados. O Irã agora ameaça fechar também o Bab el-Mandeb.
  • O fracasso previsto das negociações de Islamabad.
  • A facção “Anti-Acordo” do regime iraniano, que em um semigolpe de Estado palaciano afastou o setor “Pró-Acordo”, prepara agora uma ofensiva militar com o objetivo de provocar a derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro nos EUA.
  • A insuficiência da proteção prometida pelos EUA diante dos ataques do Irã e dos batalhões a soldo na região. O último ataque foi realizado pelos houthis contra uma refinaria da Aramco em 9 de agosto.

Em 23 de junho, Riad assinou com os EUA um acordo nuclear, cujo impacto nos países da região vai além do aspecto psicológico.

>>> 3.  Aliança Multinacional

Em 31 de julho, Riad anunciou a formação da Aliança Multinacional de Defesa Marítima com o Paquistão, a Turquia, o Egito, o Catar e outros oito Estados para proteger “as rotas marítimas internacionais” no Golfo Pérsico, no Bab el-Mandeb, no mar Vermelho, no golfo de Áden e no mar Arábico.Embora o propósito do pacto trilateral seja criar o núcleo de uma nova arquitetura de segurança e defesa comum na região e insinuar um cerco militar ao Irã, aumentando os custos das agressões contra Teerã, cada Estado busca atender a seus interesses particulares.

>>> 4. Os objetivos da Arábia Saudita

Criar uma profundidade estratégica, algo que não conseguiu nem no Iraque após a queda de Saddam Hussein, nem na Síria com a fuga de Bashar al-Assad.

Buscar medidas multilaterais que ponham fim, não à guerra em curso, mas ao regime do Irã e que, de uma vez por todas, Washington “esmague a cabeça da serpente”, nas palavras do rei Abdullah; se não conseguir, uma dissuasão militar servirá para negociar com Teerã a partir de uma posição de poder.

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Reivindicar seu status de maior economia do Oriente Médio, líder da Opep e país mais influente no “mundo muçulmano”. A guerra reduziu a confiança dos investidores nos países árabes do Golfo Pérsico. Riad precisa recuperar sua fama de ser um “refúgio seguro” para os investimentos. Sem segurança garantida, não haverá investimento. No ano passado, Riad registrou um déficit orçamentário de 33,5 bilhões de dólares, coincidindo com os cortes na produção de milhões de barris diários e a queda do turismo. Projetos gigantescos, como o NEOM, de cidades turísticas, foram paralisados.

Proteger o megaprojeto de transformação econômica. A Visão 2030, que pretendia dar ao país uma aparência moderna.

Desenvolver uma infraestrutura de produção industrial militar. Riad assinou, em 2025, com os EUA “o maior acordo de venda de defesa da história”, no valor de 142 bilhões de dólares. A Turquia poderá ficar com parte desses montantes para criar fábricas e, de quebra, permitir que a Arábia utilize suas rotas comerciais alternativas ao estreito de Ormuz.

Utilizar o porto paquistanês de Gwadar e o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) para enviar suas mercadorias à Ásia Central e ao restante do mundo. Riad realizou um investimento de 10 bilhões de dólares nesse porto.

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Recorrer, se necessário, ao numeroso e experiente exército paquistanês. Em 2025, Islamabad enviou um esquadrão de caças e 8 mil militares para a Arábia Saudita.

>>> 5. Os objetivos da Turquia:

  • Aumentar sua segurança diante das ameaças israelenses. “A Turquia é o novo Irã”, diz o ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett. Na Síria, os dois aliados dos EUA estão em guerra. Por isso, Tayyip Erdogan, que durante o genocídio palestino não moveu um dedo para formar uma coalizão contra o regime criminoso de Netanyahu, agora decidiu envolver Riad (seu velho inimigo) e Islamabad para consolidar seu regime e conter o Estado judeu. O ataque de Israel contra seu aliado Catar, em 9 de setembro de 2025 (que não tinha como objetivo assassinar os líderes do Hamas), e que obviamente ocorreu com o aval dos EUA, foi uma linha vermelha que Israel se permitiu cruzar. Bennett advertiu Ancara sobre um “eixo hostil” com as capacidades nucleares do Paquistão “para cercar Israel”. Agora enviarão o Mossad para sabotar as usinas nucleares do Paquistão, como fizeram com o Irã?
  • Fortalecer ainda mais a indústria militar turca. Erdogan transformou o negócio de revólveres e drones em uma ferramenta de política externa, ganhando influência nos países clientes, como o Paquistão e a Arábia Saudita.
  • Receber investimentos sauditas.
  • Ancara, que deseja o fim da guerra, prefere administrá-la em vez de entrar em conflito com o Irã. Conta com o fato de que Teerã não se atreverá a lançar mísseis contra um aliado da Otan.
  • Contente com a destruição do programa nuclear iraniano, Erdogan se preocupa tanto com um colapso imediato do regime xiita quanto com um conflito prolongado que desencadeie uma onda migratória em massa em direção ao território turco, preocupação compartilhada por Ursula von der Leyen, chefe da Comissão Europeia, que, no início da guerra, conversou com Erdogan para tratar desse assunto. Ao que parece, foi Erdogan quem fez Trump desistir de armar os curdos iranianos para uma luta contra o que resta do regime. Dar um novo impulso à indústria militar turca, líder na produção de drones.

>>> 6. Os objetivos do Paquistão

  • Dar visibilidade ao País dos Imaculados (esse é o significado de seu nome) e a seus 240 milhões de habitantes, agora que os generais fracassaram em mediar o conflito entre os EUA e o Irã.
  • Contribuir para pôr fim à guerra, que afetou gravemente o país. 85% do petróleo consumido pelo Paquistão passa por Ormuz, assim como 25% do gás natural que comprava do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, de onde também recebia fertilizantes para suas plantações de arroz e de chá, algodão ou cana-de-açúcar.
  • Agora enfrenta uma diminuição da produção, uma hiperinflação, mais fome e menos divisas provenientes das exportações.Atrair capital saudita e de outros países árabes para sua economia em troca de material militar.Acessar os mercados da África, onde os xeques árabes os exploram há décadas.Contar com o poderio industrial da Turquia, seu segundo maior fornecedor de armas, depois da China.
  • Embora a guerra contra o Irã seja o pano de fundo deste pacto, o principal desafio dos generais islamistas é a Índia, alvo de suas bombas nucleares.
    No entanto, as amplas relações comerciais entre indianos e sauditas, que chegam a 43 bilhões de dólares, impedirão o uso da aliança contra o país de Jawaharlal Nehru.
  • Os Salman enviam cerca de 700 mil barris de petróleo por dia para a Índia, ao mesmo tempo que a Aramco participa de grandes projetos de refino e comercialização na costa oeste deste país e, agora, negociam com a teocracia hinduísta de Narendra Modi um investimento de até 100 bilhões de dólares em infraestrutura no país mais populoso do mundo.

Depois, há os 2,5 milhões de trabalhadores-escravizados indianos na Arábia, que enviam milhões em remessas para seu país de origem.
E contra o Irã? Se os Guardiões Islâmicos voltarem a atacar a Arábia, o Paquistão não fará nada, por:

a) Abrigar milhões de xiitas (que representam entre 5% e 30% de seus 230 milhões de muçulmanos). O batalhão Fatemiyun, formado por xiitas paquistaneses, estava lutando na Síria sob o comando dos Guardiões Islâmicos e agora foi transferido para o Irã para esmagar os protestos dos cidadãos e fazer volume nas noites dos drones cor-de-rosa.
b) Compartilhar com o Irã 1.000 quilômetros de fronteira, além de ser na conflituosa região do Baluchistão.

>>> 7. O papel dos EUA:

Enquanto Donald Trump continua refletindo sobre quando desferir o último e definitivo golpe contra a TCHI, ou deixar que Israel termine esse “trabalho sujo” (nas palavras do chanceler alemão Friedrich Merz), ou deixá-lo de presente para o próximo presidente dos EUA, está permitindo que seus três aliados islamistas testem essa nova arquitetura de segurança regional para que cuidem de sua própria segurança, de seus gastos e sacrifiquem seus próprios cidadãos para salvar o sistema capitalista mundial e a ordem liderada pela superpotência ocidental.

>>> 8. A reação do Irã:

Cuidado, que um tigre está se aproximando!”, adverte um a seu amigo. “Nããão! — responde o outro, incrédulo — acho que é um gato”, diz um provérbio persa. “O pacto é uma resposta à incompetência dos EUA para defender seus aliados”, dizem os iranianos, ocultando sua comoção diante da aliança militar entre seus três poderosos vizinhos. Poderiam colocá-los em uma situação embaraçosa e pedir que entrassem no tratado, mas, sem uma liderança e concentrados mais na tensa situação interna (a taxa oficial de inflação é de 87,9%, centenas de fábricas e oficinas foram bombardeadas ou fechadas pelo regime por “atitudes anti-islâmicas” etc.), isso não parece possível.

>>> 9. A reação de Israel e da Índia:

O pacto, embora beneficie Israel por ser anti-iraniano, também reduz a possibilidade de assinatura dos Acordos de Abraão por Riad, aumenta o poder dos xeques nas negociações e dificulta as novas aventuras do jihadismo judeu, encarnado pelo exército israelense, caso a coalizão se amplie. No caso da Índia, embora esteja tranquila em relação à Arábia, não está tanto em relação à Turquia. Quando, em 22 de abril de 2025, durante a Operação Sindoor, a Índia lançou um ataque contra a área paquistanesa da Caxemira, a Turquia enviou 300 drones a Islamabad. Como resposta, Modi suspendeu importantes acordos econômicos com Ancara. Agora teme a modernização da tecnologia militar paquistanesa e a colaboração de seus serviços de inteligência com os generais islamistas. Nova Délhi continuará atacando os atores não estatais terroristas em território de seu inimigo, sob o pretexto de que os tratados internacionais não o impedem.

>>> 10. Um pacto um tanto estranho:

Embora as disposições do acordo continuem secretas, sabemos que os interesses essenciais dos signatários não estão alinhados. Seus inimigos são diferentes e os acordos militares não obrigam os signatários a se envolverem em uma guerra, de modo que o mais provável é que, após o desaparecimento do regime iraniano, ele se dissolva em um fórum. Pode ser que até mesmo antes disso ele se torne letra morta, mas, de todo modo, acelerará a corrida armamentista regional, inclusive a nuclear.

Enquanto isso, Washington, Tel Aviv e Teerã se preparam para a batalha final que devastará toda a região.

¨      Aliança inédita desafia a velha ordem política na Palestina. Por Sayid Marcos Tenório

Depois de duas décadas sem eleições legislativas, o povo palestino poderá finalmente ser chamado a renovar suas instituições. O decreto presidencial estabelece 28 de novembro de 2026 para a escolha dos 132 integrantes do Conselho Legislativo, com votação prevista em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Faixa de Gaza.

A questão central, contudo, não é apenas se as eleições ocorrerão, mas se os palestinos poderão escolher livremente seus representantes, inclusive os que defendem a resistência, e se o resultado será respeitado.

A última eleição legislativa ocorreu em janeiro de 2006. O Hamas, concorrendo pela lista Mudança e Reforma, conquistou 74 cadeiras e derrotou a Fatah.

Em vez de reconhecer a decisão popular, Israel, Estados Unidos e seus aliados impuseram sanções e trabalharam para inviabilizar o governo liderado por Ismail Haniyeh. A experiência mostrou que, para as potências ocidentais, a democracia palestina só é aceita quando produz o resultado desejado.

Desde então, a vida política palestina permaneceu aprisionada entre ocupação, divisão interna e esvaziamento institucional.

O Conselho Legislativo deixou de funcionar e foi dissolvido em 2018. As eleições presidenciais não ocorrem desde 2005. Mahmoud Abbas, eleito originalmente para quatro anos, permanece no poder há mais de duas décadas sem submeter novamente sua liderança ao voto popular.

Esse vazio democrático explica a importância das eleições anunciadas, mas também revela por que Abbas é um dos principais fatores de incerteza.

O presidente acumula promessas não cumpridas, adiamentos e recuos. Em 2021, eleições legislativas e presidenciais chegaram a ser convocadas, mas foram suspensas sob a justificativa de que Israel não havia garantido a participação de Jerusalém Oriental.

Embora essa participação seja um direito inegociável, a decisão foi amplamente interpretada como uma manobra para evitar a derrota de uma Fatah fragmentada diante do Hamas e de outras forças oposicionistas.

O precedente permanece. Se a possibilidade de derrota voltar a ameaçar o grupo que comanda a Autoridade Palestina, Abbas respeitará as urnas ou encontrará outra justificativa para cancelá-las?

A desconfiança é ampliada pelo isolamento de Mahmoud Abbas. Pesquisa realizada em agosto de 2026 mostra que apenas 20% aprovam seu desempenho, enquanto 76% o desaprovam. Nada menos que 79% defendem sua renúncia, percentual que chega a 82% na Cisjordânia.

Além disso, 83% identificam corrupção nas instituições da Autoridade Palestina e 65% consideram a própria Autoridade um peso, não uma conquista nacional. Trata-se de uma profunda crise de confiança e legitimidade.

É nesse cenário que surge o elemento mais inovador do processo: uma aliança político-eleitoral nacional em construção, reunindo Hamas, Jihad Islâmica, Frente Popular para a Libertação da Palestina, uma corrente reformista da Fatah, Nasser al-Qudwa, Brigadas Nasser Salah al-Din e outras forças e personalidades.

A composição ainda depende de um programa comum e da confirmação formal de seus participantes. Entretanto, sua articulação já representa uma novidade histórica.

Correntes islâmicas, nacionalistas, progressistas e dissidentes da Fatah aproximam-se para disputar conjuntamente a direção política palestina. A possível participação da Jihad Islâmica, tradicionalmente afastada das instituições criadas pelos Acordos de Oslo, amplia ainda mais o alcance da iniciativa.

Essa frente pode romper a velha polarização entre Fatah e Hamas e formar um campo organizado em torno da unidade nacional, da reconstrução institucional e da legitimidade da resistência contra a ocupação.

O Hamas afirma trabalhar pela construção do “mais amplo consenso nacional possível” e adverte contra a repetição do recuo de 2021. 

A aliança coloca a direção da Fatah diante de um desafio decisivo. De um lado, o movimento enfrenta fragmentação e rejeição à administração de Abbas. De outro, as forças da resistência articulam uma frente capaz de disputar as urnas para além de suas bases tradicionais.

Se consolidada, essa coalizão poderá alterar profundamente a relação de forças no movimento nacional palestino.

Há, porém, uma ameaça adicional: transformar as regras eleitorais em instrumento de exclusão.

A legislação exige das listas compromisso com a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), seu programa político e suas obrigações internacionais. Essa formulação poderá ser usada para pressionar o Hamas e outras organizações a aceitarem os limites de Oslo, reconhecerem Israel e abandonarem a resistência armada.

Seria uma democracia condicionada. Convoca-se o povo às urnas, mas tenta-se decidir antecipadamente quais projetos ele poderá escolher.

O calendário oficial continua fixando 28 de novembro para a votação.

O verdadeiro teste, entretanto, será assegurar a participação de Jerusalém, Cisjordânia e Gaza, impedir vetos israelenses e estrangeiros, garantir a presença de todas as forças, e respeitar o resultado, mesmo que ele desmonte a velha e corrupta ordem liderada por Abbas, e confirme nas urnas a força política da resistência palestina.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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