quinta-feira, 30 de julho de 2026

Saúde na Argentina é o retrato do ser humano Milei

No momento em que o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, tece rasgados elogios ao SUS e ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, por tratar a saúde como direito universal, portanto descolado das regras cruéis do “mercado”, vale descobrir como a saúde pública é operada num certo país vizinho, cujo mandatário maior é conhecido praticante do capitalismo de destruição, evolução do neoliberalismo dos anos 90 para algo ainda mais francamente desumano.

Javier Milei, presidente argentino, não é apenas o sujeito mal-educado que veio ao Brasil ofender Lula e todos os brasileiros, disponibilizando à campanha de Flávio Bolsonaro todo seu repertório de dejetos verbais. É um governante que impõe fome e miséria ao seu povo. Nem sequer respeita o princípio civilizatório de deixar a saúde pública livre das severidades da austeridade fiscal e da desregulamentação econômica.

A forma como Milei lida com a saúde pública retrata sua persona. O dado mais claro a confirmar a afirmação é o corte de 40%, em termos reais, no orçamento do Ministério da Saúde. Em maio último, seu governo baixou uma Decisão Administrativa impondo corte adicional de 63 bilhões de pesos nos gastos correntes da pasta, informou com estardalhaço La Izquierda Diario.

O governo Milei desmantelou o histórico programa Remediar, criado em 2002 para garantir a entrega gratuita de medicamentos em cerca de 7.800 centros de atenção primária na Argentina, afetando a assistência a milhões de cidadãos vulneráveis. Sua austeridade cega também reduziu em termos reais as verbas destinadas à compra e à distribuição de medicamentos para tratamento de câncer. Os programas de assistência e tratamento gratuito para pacientes com HIV/Aids sofreram cortes sucessivos e expressivos, perfazendo uma queda real de 67% em 2024 e de 46%, prevista, em 2025, conforme noticiado pela Associated Press e El Diario, acompanhados pela CNN Brasil.

Paralelamente, as transferências de verbas federais para o Fortalecimento dos Sistemas Provinciais de Saúde caíram mais de 60%. A falta de repasse sobrecarregou os hospitais locais, gerando atraso em cirurgias marcadas e falta de insumos médicos.

Já o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU 70/23) eliminou os controles estatais de preços sobre a medicina privada, o que resultou em reajustes imediatos superiores a 40% no valor da consulta, empurrando grande parcela de pacientes da classe média para um sistema público em frangalhos. O Globo noticiou a barbaridade.

Mas maldade pouca é bobagem. Milei reduziu os subsídios do Programa de Atenção Médica Integral (PAMI), o plano de saúde estatal dos aposentados. Idosos perderam o acesso à cobertura integral de medicamentos gratuitos, resultando na estimativa de que uma em cada quatro receitas médicas deixou de ser aviada por incapacidade econômica dos pacientes.

A mídia progressista argentina não cansa de denunciar que o represamento de repasses do Tesouro Nacional resulta numa dívida acumulada de mais de 500 bilhões de pesos com médicos, clínicas e farmácias, e que o Ministério da Saúde demitiu mais de 2 mil funcionários, em prejuízo das coordenações de vigilância epidemiológica e controle de doenças endêmicas.

Para imitar e bajular Donald Trump, que fez isso antes, Javier Milei oficializou a saída da Argentina da OMS, alegando discordâncias profundas sobre as diretrizes globais sanitárias aplicadas na pandemia de Covid-19. É esse sujeito que veio ao Brasil ofender Lula.

¨      Associação Argentina de Saúde Pública repudia declarações do presidente Milei

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) recebeu, nesta segunda-feira (27), um ofício da Associação Argentina de Saúde Pública (Asociación Argentina de Salud Pública – AASAP) de solidariedade institucional à comunidade sanitária brasileira, em que reafirmou seu compromisso com a cooperação entre Brasil e Argentina na defesa do direito à saúde, da equidade e do fortalecimento dos sistemas públicos de saúde na América Latina. A manifestação foi motivada pelas declarações proferidas pelo presidente da República Argentina, Javier Milei, durante agenda política realizada no Brasil, no último sábado (25).

No documento encaminhado à Abrasco, a AASAP afirma que tais manifestações não representam a entidade nem os amplos setores da Saúde Pública argentina, que mantêm, há décadas, uma trajetória de colaboração com instituições brasileiras. No ofício, a associação ressalta que a saúde das populações depende de capacidades construídas de forma cooperativa entre os países, como a vigilância epidemiológica regional, a resposta coordenada às emergências sanitárias, o acesso a medicamentos e tecnologias, a atenção em regiões de fronteira, a cooperação científica e a atuação conjunta em organismos multilaterais.

Segundo a entidade, essas iniciativas se apoiam no respeito institucional entre os Estados e são essenciais para a proteção da vida e da saúde de milhões de pessoas. A AASAP também destaca a histórica aproximação entre a Saúde Coletiva brasileira e a Saúde Pública argentina, marcada pelo intercâmbio acadêmico, científico e institucional, e defende que as associações científicas têm papel fundamental na preservação desses vínculos, especialmente em contextos de instabilidade política.

Ao final da mensagem, assinada pela presidente da AASAP, Alejandra Sánchez Cabezas, a entidade reafirma sua disposição em aprofundar o trabalho conjunto com a Abrasco e seguir construindo agendas comuns em defesa do direito à saúde, da equidade e do fortalecimento dos sistemas públicos de saúde na América Latina.

A Abrasco agradece a manifestação da Associação Argentina de Saúde Pública e reafirma seu compromisso histórico com a cooperação internacional, a produção compartilhada de conhecimento, o fortalecimento dos sistemas públicos de saúde e a integração latino-americana em defesa da democracia, da ciência e do direito universal à saúde.

 

Fonte: Por Paulo Henrique Arantes, em Brasil 247/Abrasco

 

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