'O
problema é só ter uma opção': 60% dos órgãos públicos utilizam IA em gestão
pública
Embora
a aplicação dessas tecnologias no serviço público traga ganhos significativos,
permanecem preocupações relacionadas à segurança e ao risco de exposição de
documentos e dados sensíveis, especialmente se estamos falando de atendimento
ao cidadão, análise de dados e triagem de documentos pessoais.
Uma
pesquisa do NIC.br, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), revelou
que aproximadamente 60% dos órgãos públicos federais e estaduais no Brasil já
utilizam inteligência artificial (IA) em seus sistemas.
O
principal uso é a automatização de processos de trabalho (40%), seguido por
mineração de texto – transformar grande volumes de texto não estruturado em
dados organizados –, análise de linguagem empatados em segundo (35%) e
aprendizado de máquina (31%) em terceiro.
A
pesquisa também analisou como a IA generativa vem sendo empregada no setor
público, indicando que a ferramenta é utilizada em 65% dos casos para processos
internos e em 29% para a prestação de serviços voltados aos cidadãos.
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Uso de IA na gestão pública
Como
explica Manuella Maia Ribeiro, coordenadora de projetos de pesquisa TIC do
Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação
(Cetic.br), o avanço da inteligência artificial no setor público abre espaço
para ganhos concretos em diferentes frentes da administração, incluindo
produtividade, redução de custos, relacionamento com o cidadão, entre outros.
A
pesquisa mostra, contudo, que essa transformação ainda ocorre de forma
desigual. Enquanto o uso da IA já está presente em boa parte dos órgãos
federais (70%) e estaduais (58), apenas 27% das prefeituras brasileiras
afirmaram ter usado a tecnologia nos 12 meses anteriores ao levantamento. Nas
capitais, esse percentual sobe para 54%, indicando que a capacidade de adoção
ainda varia conforme o porte da administração pública.
Os
municípios maiores tendem a reunir condições institucionais e técnicas mais
favoráveis para planejar, contratar, implementar e acompanhar projetos
tecnológicos mais complexos, como iniciativas de inteligência artificial, diz
Ribeiro.
Já nas
administrações municipais com menor estrutura própria de TI, característica
mais frequente em municípios de menor porte populacional, é possível que a
adoção dependa mais de soluções prontas ou de fornecedores externos, ou até que
esses municípios não tenham condições de contratar ou usar esse tipo de
solução.
"Essa
limitação estrutural é relevante porque 51% das prefeituras brasileiras não
possuíam uma área de tecnologia da informação em 2025. A inexistência desse
setor era mais frequente entre municípios com até 10 mil habitantes, dos quais
67% não contavam com uma área desse tipo."
Outro
ponto levantado como motivo para não utilizar IA em tal organização pública é a
falta de pessoas capacitadas para o uso dessa tecnologia, tanto em nível
federal (21%) como estadual (19%). Em prefeituras, o número aumenta sobre a
falta de pessoas capacitadas (40%).
Segundo
a pesquisa, entre as instituições que já adotam essa tecnologia, quase 60%
oferecem capacitação aos servidores por meio de cursos ou treinamentos, 46%
disponibilizam ferramentas específicas para a rotina de trabalho e pouco mais
de 40% estabeleceram diretrizes ou elaboraram manuais sobre o uso da IA
generativa.
Por
outro lado, com menores proporções, estão preocupações relacionadas à proteção
de dados e privacidade (15% dos órgãos federais, 16% dos estaduais e 27% nos
municípios) e questões éticas (4% dos órgãos federais, 3% dos estaduais e 13%
nos municípios).
"É
fundamental a realização de ações voltadas para garantir que os funcionários
públicos tenham as capacidades necessárias para usar a IA de forma crítica,
segura e responsável."
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Soberania digital
Filipe
Medon, professor de direito e coordenador adjunto do Núcleo de Estudos
Avançados em Inteligência Artificial (AI Hub) da Fundação Getulio Vargas (FGV),
, explica que o fato do setor público usar IAs estrangeiras não é, por si só,
um risco à soberania digital brasileira.
Em vez
disso, o conceito de soberania está menos relacionado à origem da tecnologia e
mais à capacidade de o Estado manter autonomia sobre suas escolhas. "A
questão que se discute é uma dependência extrema, em que um país acaba
dependendo de um único outro país e, com isso, perde sua soberania."
"A
questão da soberania é justamente a capacidade que os Estados têm de entender
essa dependência e ser autônomos, no sentido de escolher o que fazer, não ser
excessivamente dependente. Soberania digital pode ser tanto o Estado
desenvolver soluções próprias como poder escolher uma solução de outro
país."
Nesse
contexto, a contratação de serviços internacionais não deve ser encarada como
um problema em si. "Não há uma oposição entre fazer contratações de
serviços internacionais. O problema é só ter uma opção e não ser capaz de sair
dessa única opção."
Contudo
essa lógica muda quando se trata de áreas estratégicas do Estado. Esse cenário
reforça a necessidade de investimentos em infraestrutura nacional voltada à IA.
"Certos
assuntos mais sigilosos, mais importantes, que são assuntos de fato de Estado,
deveriam estar em servidores nacionais, em tecnologia que tivesse o mínimo ou
nenhuma interferência estrangeira."
Ele
cita como exemplo o desenvolvimento de nuvens soberanas previsto no Plano
Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e defende que o país fortaleça sua
capacidade tecnológica.
"O
Brasil deve, assim como outros países, investir em modelos próprios de IA para
conseguir reduzir também problemas relacionados à falta de soberania
digital."
• OpenAI diz que ataque de sua IA atingiu
mais alvos do que se sabia
A
OpenAI, criadora do ChatGPT, revelou que o ataque cibernético realizado por
alguns de seus modelos de inteligência artificial mais avançados atingiu mais
de uma empresa.
Acreditava-se
que a Hugging Face, uma espécie de biblioteca digital de tecnologia muito usada
por desenvolvedores, era a única vítima do ataque sem precedentes. Mas a OpenAI
agora admitiu que seu bot atacou diversos "serviços disponíveis
publicamente".
A IA
descontrolada encontrou quatro logins online que lhe permitiram acessar quatro
serviços distintos e não identificados.
Enquanto
isso, em uma reunião de emergência com centenas de profissionais de segurança
cibernética, a Hugging Face descreveu como foi estar do outro lado do primeiro
ataque de IA totalmente autônomo do mundo.
A
empresa descreveu que a IA operou em velocidade sobre-humana, mas também tomou
decisões estranhas e cometeu erros que nenhum hacker humano teria cometido.
A
Hugging Face, que funciona como uma loja de aplicativos para ferramentas de IA,
afirmou que os agentes hackers trabalharam incansavelmente com milhares de
métodos diferentes testados simultaneamente.
A
empresa revelou pela primeira vez que havia sido hackeada por alguém usando uma
IA autônoma poderosa em 16 de julho e denunciou o caso à polícia.
Quase
uma semana depois, a OpenAI admitiu que foi sua IA que escapou de um ambiente
fechado e atacou a Hugging Face por conta própria durante um teste.
A IA
estava tentando encontrar as respostas para um teste de hacking que havia sido
elaborado pela OpenAI e atacou a Hugging Face.
Nesta
quarta-feira (29/07), a OpenAI atualizou sua declaração para incluir o detalhe
adicional de que o ataque foi além do que se pensava inicialmente.
"Os
modelos identificaram e usaram credenciais expostas publicamente em nível de
conta em outros serviços disponíveis publicamente. Isso inclui quatro contas em
quatro serviços como parte do incidente com a Hugging Face", disse a
empresa.
A
OpenAI não esclareceu se, com "serviços disponíveis publicamente",
estava se referindo a empresas.
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Comportamentos desajeitados
Na
terça-feira (28), a Cloud Security Alliance (CSA), associação do setor,
publicou um relatório baseado em uma reunião de emergência com a Hugging Face
realizada na semana anterior — relatório esse que a própria Hugging Face
revisou.
"Os
agentes seguiram rotas ineficientes e exibiram comportamentos desajeitados que
nenhum humano escolheria", escreveu a CSA.
Ainda
segundo o relatório, os agentes repetiram ações que já haviam concluído — um
sinal de uma IA perdendo o fio da meada e o contexto.
Eles
também teriam alucinado com uma série de comandos e textos incoerentes, agido
de forma descuidada e não apagado seus rastros adequadamente.
Mas, em
meio aos erros e comportamentos estranhos, a Hugging Face alertou que os
agentes de IA também fizeram movimentos técnicos brilhantes e foram capazes de
se adaptar rapidamente a novos cenários durante o ataque, que durou vários
dias.
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Jurassic Park
Foram
necessários três dias para que os agentes fossem descobertos dentro da rede de
TI da Hugging Face, e os especialistas em IA e segurança cibernética da empresa
levaram várias horas para conter e expulsar os invasores — algo com que
empresas comuns teriam dificuldades.
A
empresa não revelou o custo do ataque, mas afirmou que a equipe trabalhou por
muitas horas para reconstruir cerca de um terço de sua infraestrutura.
A
Hugging Face foi elogiada por sua transparência ao relatar o ocorrido ao setor
de IA e segurança cibernética.
A CSA
alertou que o incidente demonstra que os agentes de IA "encontraram um
meio" — uma referência à frase "a vida encontra um meio", dita
pelo personagem Dr. Ian Malcolm, no filme Jurassic Park, em relação à
capacidade da natureza de se adaptar.
"Eles
são orientados por objetivos, definem suas próprias submetas, adaptam-se em
tempo real para contornar defesas e operam com uma persistência na velocidade
de uma máquina que pode sobrepujar operações manuais", diz o relatório.
O
oficial de segurança cibernética Ritesh Patel, que participou da reunião de
emergência da Hugging Face com cerca de 450 outras pessoas, afirma que o setor
está trabalhando arduamente para lidar com a nova ameaça de agentes de IA
maliciosos.
"Esta
é a realidade dos agentes autônomos movidos por modelos de ponta: eles são
implacavelmente persistentes, às vezes extremamente ruidosos e tentarão todos
os caminhos possíveis para atingir seu objetivo, o que pode facilmente
sobrecarregar as defesas tradicionais", disse ele.
A
hacker ética Valentina Palmiotti — mais conhecida como Chompie — analisou o
relatório da CSA e afirma que a maneira como os agentes hackeiam pode parecer
aleatória, mas é claramente eficaz.
"Eles
lançam um monte de coisas e veem o que funciona", disse ela.
"Mas
eles também não se entediam, não dormem e podem ser infinitamente
tenazes."
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Comportamento descontrolado
Esta
não é a primeira vez que agentes de IA demonstram comportamento
"descontrolado".
O
relatório da CSA cita exemplos anteriores, como o de setembro de 2024, quando
um modelo anterior do ChatGPT "escapou" para obter uma resposta
necessária para outro teste.
Esse
evento foi contido nos próprios sistemas de TI da OpenAI, observou a CSA.
Mas,
segundo o documento, o comportamento "descontrolado" "é a norma,
não a exceção".
O
relatório também alerta os profissionais de segurança cibernética em todo o
mundo sobre a necessidade de se adaptarem ao novo normal de enxames de agentes
de IA trabalhando rapidamente de maneiras estranhas e desajeitadas, o que pode
levar a mais violações de segurança.
O
documento ainda instou pessoas que usam ou desenvolvem agentes de IA a serem
responsáveis na forma como os controlam, defendendo alguma maneira para que os
defensores da segurança cibernética descubram quem é o proprietário final dos
agentes, a fim de aumentar a transparência.
Relatórios
anteriores sugerem que a OpenAI levou quatro dias para perceber que sua IA
havia hackeado a Hugging Face.
A
OpenAI afirmou que divulgará em breve as conclusões de sua própria investigação
para ajudar as pessoas a aprenderem com o ocorrido.
• Lula defende investimento em pesquisa
Durante
a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC),
em Niterói (RJ), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu a relevância
de investimentos em pesquisa e inovação e apontou para a dominância em saberes
exercida por EUA e China.
Ao
ressaltar a importância dos investimentos em pesquisa e inovação, Lula falou da
dominância de Estados Unidos e China em temas centrais ao desenvolvimento
tecnológico, como inteligência artificial e terras raras.
O
presidente também chamou a atenção para o setor privado que, segundo ele, não
investe em pesquisa no Brasil, ao contrário do setor público. Lula acrescentou,
ainda, que "se não fosse" a pesquisa, não existiriam, por exemplo, o
biodiesel e o pré-sal.
"Precisamos
ter pontes para o saber. Ao investir na educação teremos reflexos na saúde e na
segurança. Todos nós devemos refletir muito no momento de exercer a
cidadania", afirmou.
Além
disso, o presidente, já em seu terceiro mandato, voltou a mencionar que seu
governo foi o responsável "por fazer mais universidades" no país e
enfatizou a importância de sistemas de inclusão como a Lei de Cotas e o Prouni,
que tornaram o ensino superior mais inclusivo.
Ao
mencionar as grandes potências, o presidente brasileiro afirmou não querer
"brigar" com Pequim e Washington, mas almeja que através da educação
o Brasil possa derrotá-los "estudando mais do que eles".
"Você
acha que eu quero brigar com a China? Eu não sou louco. Você acha que eu quero
brigar com os Estados Unidos? Eu não sou louco. Eu não sou louco. Eu não tenho
nem os aviões que eles têm, nem os tanques que eles têm, nem as bombas que eles
têm, nem o dinheiro que eles têm, nem o conhecimento científico tecnológico que
eles têm. Ao invés de ficar brigando com ele, eu quero derrotá-los. Estudando
mais do que eles, investindo mais do que eles, pesquisando mais do que
eles", disse Lula.
Fonte:
Sputnik Brasil/BBC News

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