Campeão
de processos contra jornalistas, 'Véio da Havan' acumula sentenças favoráveis
em SC
Empresário,
patriota, benfeitor, apresentador e, agora, ator. Durante a Copa do Mundo,
Luciano Hang invade a sala de milhões de brasileiros sempre que a bola para de
rolar. Nos intervalos das transmissões, o dono da Havan aparece fantasiado, faz
piadas e vende a imagem de um empresário otimista, envolto pelas cores da
bandeira e pelo entusiasmo com a seleção.
É um
papel que ele interpreta com desenvoltura. Existe, porém, outro palco em que
Luciano Hang parece ainda mais confortável. Nele, não há gramado, torcida ou
arbitragem. Há jornalistas, advogados, juízes e desembargadores. E, assim como
um time acostumado a atuar diante da própria torcida, o empresário acumula seus
melhores resultados quando joga em casa.
Foi
para entender esse fenômeno que os repórteres João Paulo Saconi e Adriana
Gonçalves Ribeiro passaram cinco meses apurando histórias em Brusque, no
interior de Santa Catarina, cidade onde Hang fundou a Havan há 40 anos e
continua exercendo uma influência que extrapola o comércio.
Lá
encontramos jornalistas que decidiram parar de escrever sobre ele. Advogados
que preferem não enfrentá-lo. Moradores que se recusam a dar entrevistas. E um
desembargador que precisou pedir desculpas às filhas depois que elas passaram a
receber ameaças por causa de um voto contrário a Luciano Hang. Vamos aos fatos.
Dados
da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji, revelam o
tamanho da ofensiva de Luciano Hang contra jornalistas, a liberdade de imprensa
e a liberdade de expressão: de 2014 até 2022, o dono da Havan moveu 55
processos judiciais para tentar tirar de circulação notícias negativas e posts
críticos da internet. Desse total, 42 ações judiciais são contra jornalistas e
empresas de comunicação – o que representa 76% dos casos. Em seguida, vêm sete
casos contra páginas pessoais e seis contra sites independentes.
A
maioria absoluta dos processos de Hang ocorreu após 2018, quando ele despontou
no noticiário político como cabo eleitoral do então candidato à Presidência da
República Jair Bolsonaro. O empresário exige no Judiciário censura de
reportagens e indenizações que variam de R$ 20 mil a R$ 2 milhões.
Para um
magnata com patrimônio de R$ 11,4 bilhões, os valores são irrisórios. Para o
jornalismo independente, são asfixiantes. Ao todo, as ações de Hang monitoradas
pela Abraji somam R$ 7 milhões em pedidos de indenização.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
A
prática é conhecida internacionalmente como SLAPP – Strategic Lawsuits Against
Public Participation (Processos Estratégicos Contra a Participação Pública, em
tradução livre). A Abraji classifica os casos como assédio judicial. O objetivo
não é necessariamente vencer a ação, mas sangrar financeira e psicologicamente
os críticos até silenciá-los.
Em
maio, o Ministério Público Federal, o MPF, publicou uma nota técnica em que
defende que sejam considerados como assédio judicial contra jornalistas os
casos em que houver o uso excessivo de mecanismos judiciais, em contextos de
desequilíbrio de poder, com o objetivo de evitar a divulgação de informações de
interesse público.
Por
causa desse tipo de ofensiva, é comum jornalistas e veículos de imprensa se
autocensurarem. Um dos sites independentes processados por Hang enfrenta um
pedido de indenização de R$ 100 mil. Em primeira instância, foi condenado a
pagar R$ 50 mil. O caso segue em tramitação, mas o jornalista deixou de cobrir
o empresário com medo de novas retaliações.
“Assim
que a gente recebeu o processo, até por recomendação dos advogados, paramos de
falar [sobre Hang]. Não temos estrutura para fazer isso. A gente tem que ser
realista nesse momento, mais do que apaixonado pelo jornalismo”, desabafou um
dos responsáveis pelo site, sob anonimato.
A
jornalista Sabrina Pereira foi processada por Hang três meses depois de fundar
o site Jornal Livre, em Santa Catarina, em 2018. Ela derrotou o bilionário em
todas as instâncias, mas a fatura ficou cara para ela: além do desgaste
emocional, teve de pagar R$ 10 mil em honorários advocatícios – um baque
impensável para quem ainda era apenas uma estudante de jornalismo.
“O
emocional ficou abalado no início, porque eu era uma formiga duelando com um
homem rico e poderoso”, relata Pereira. “Todas as portas se fecharam, mesmo eu
passando em seletivas profissionais importantes, mas mantive o jornal”.
Na mira
de Hang também estão veículos como O Globo, Folha de S.Paulo, piauí e
Metrópoles, além de profissionais renomados como Patrícia Campos Mello, Miriam
Leitão, Juca Kfouri e Guilherme Amado.
Até
humoristas entraram na lista: José Simão foi processado por chamar Hang de
“fascista” e os produtos da Havan de “vagabundos”, e o canal do YouTube Galãs
Feios virou alvo após repercutir uma notícia do UOL.
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Jogando em casa
É na
geografia das ações judiciais que a tática de Hang se revela. Dos 55 processos,
38 foram iniciados em Brusque, em Santa Catarina. A cidade é sede da Havan há
quatro décadas e terra natal do empresário.
Na 1ª
Vara Cível da cidade, a taxa de êxito de Hang é alta: 26 casos foram julgados
como procedentes ou parcialmente procedentes a favor do empresário. Ou seja, um
aproveitamento de 68,4%. Longe de sua área de influência, a história muda. Em
São Paulo, onde moveu 12 ações, o sucesso de Hang na primeira instância
despenca para 25%.
“Percebemos
que o Luciano Hang costumava processar jornalistas em São Paulo, onde sofreu
algumas derrotas. Depois, começou a abrir casos em Brusque, obtendo sucesso”,
conta a advogada Letícia Kleim, coordenadora jurídica da Abraji e responsável
pelo levantamento.
“Essa é
uma prática conhecida internacionalmente como forum shopping. Não só a Justiça
de Santa Catarina pode ser mais hostil à liberdade de imprensa, como ele [Hang]
exerce uma influência econômica que se torna também política. Ainda que não
seja declarada, ela impacta objetivamente os casos”, diz Kleim.
Em
Brusque, o bilionário é onipresente. Restaura prédios históricos, faz doações,
e sua megaloja funciona como o principal centro de lazer de uma cidade onde
quase 80% do eleitorado votou em Jair Bolsonaro em 2022 – o mesmo ex-presidente
com quem Hang costumava dividir palanques.
A
influência do empresário chega ao próprio Judiciário local. Em dezembro de
2024, Hang ofereceu um jantar para desembargadores do Tribunal de Justiça de
Santa Catarina, o TJSC, em um palacete que havia restaurado. Pelo menos quatro
magistrados que relatavam processos envolvendo o empresário posaram para fotos
ao lado dele. O caso foi parar no Conselho Nacional de Justiça, o CNJ, que
acabou arquivando a apuração.
Nesse
mesmo convescote estava o desembargador Gilberto Gomes de Oliveira. O filho
dele, Gilberto Gomes de Oliveira Júnior, era justamente o juiz titular da 1ª
Vara Cível de Brusque, uma das duas varas cíveis da cidade, o que o fez ser
responsável por analisar alguns processos movidos por Hang até fevereiro de
2026.
As
sentenças de Oliveira Júnior a favor do dono da Havan chamam a atenção por
terem trechos semelhantes. Em seis delas, o magistrado usou exatamente a mesma
frase: “É certo que a reportagem publicada pela parte ré ultrapassou o mero
caráter informativo”. Em 15 decisões, ele ainda repetiu a mesma citação de um
livro de 2007.
Em
outras dez, usou o mesmo trecho para dizer que jornalistas agiram “com
manifesta desídia [falta de cuidado], já que foram negligentes na veiculação de
notícia que vincula o requerente [Hang e/ou a Havan] sem a mínima base fática
de comprovação”.
Foi
Oliveira Júnior quem condenou José Simão a pagar R$ 50 mil, tratando uma coluna
de opinião humorística como matéria jornalística. Ele também mandou a Folha de
S.Paulo e a jornalista Patrícia Campos Mello pagarem R$ 100 mil a Hang pela
reportagem sobre disparos de WhatsApp nas eleições de 2018. E ainda censurou o
repórter Guilherme Amado, do Metrópoles, por revelar o grupo de WhatsApp onde
empresários cogitavam um golpe de Estado.
Os três
casos foram revertidos a favor dos jornalistas em instâncias superiores. Vale
ressaltar que, três anos antes de censurar Amado, o mesmo juiz usou o argumento
da “liberdade de expressão” e do “risco de censura” para impedir a exclusão de
uma entrevista dada por Hang na pandemia.
Decisões
pró-Hang não foram tomadas somente por Oliveira Júnior. Em abril deste ano, a
juíza Joana Ribeiro – nova responsável pela 1ª Vara Cível de Brusque – condenou
o Diário do Centro do Mundo, o DCM, a pagar R$ 120 mil ao empresário e à Havan.
Na decisão, ela rechaçou a tese de lawfare – uso da lei para perseguição –,
afirmando estar “ausente demonstração concreta de abuso”.
Procurados
pelo Intercept Brasil, Oliveira Júnior e Joana Ribeiro não responderam aos
nossos questionamentos. Já o TJSC disse que “não se manifesta sobre decisões
judiciais bem como sobre processos em tramitação, em respeito à independência
da atividade jurisdicional, ao devido processo legal e às normas que regem a
atuação do Poder Judiciário”. O tribunal acrescentou, porém, que as decisões
judiciais são proferidas “de forma fundamentada pelos magistrados competentes”,
assegurados “o contraditório, a ampla defesa e os recursos previstos no sistema
de Justiça”.
Já Hang
declarou, em nota enviada ao Intercept por meio de sua assessoria, que
considera a liberdade de imprensa “fundamental para a democracia”, mas ponderou
que ela “não pode ser usada como escudo para espalhar mentiras ou perseguir
quem pensa diferente”.
O
empresário também rejeitou “qualquer tentativa de atribuir influência indevida
sobre instituições ou autoridades” e disse que confia “plenamente na Justiça
brasileira e na independência dos magistrados, que decidem com base na lei e
nos fatos”.
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Quando a máquina se volta contra um juiz
O que
acontece quando o Judiciário decide parar as ações judiciais contra jornalistas
de Luciano Hang? Em um caso, o alvo passou a ser o próprio juiz – e a fúria
bolsonarista se voltou contra um magistrado que, ironicamente, nunca escondeu
sua inclinação à direita.
O
desembargador Yhon Tostes atua na magistratura catarinense há três décadas. Em
varas criminais, já foi ameaçado por traficantes. Nada disso, porém, o preparou
para a violência que ele e sua família sofreram em 2025.
O
estopim foi um bloco de recursos de Hang contra a imprensa que caiu nas mãos de
Tostes. O desembargador escreveu um texto de 69 páginas para barrar o assédio
judicial e defender a liberdade de expressão. Hang não aceitou a derrota.
Em
setembro passado, o bilionário foi ao Instagram e publicou um vídeo
descontextualizado da leitura do voto do magistrado. A legenda inflamava seus
seguidores: “Desembargador diz que Luciano Hang, por ser ‘homem branco’, não é
vulnerável em casos de discurso de ódio”. Hang ocultou que Tostes estava, na
verdade, citando um consenso da literatura jurídica sobre grupos historicamente
vulneráveis.
O post
teve mais de 57 mil curtidas até a publicação desta reportagem e funcionou como
chamariz para o linchamento digital. Em mais de 17 mil comentários, Tostes foi
chamado de “juiz formado na escola TikTok”, teve sua mãe ofendida e seu e-mail,
exposto. Bolsonaristas acusaram o desembargador – uma pessoa que se define como
liberal e heterossexual – de ser um “gay petista”.
O
terror digital rapidamente virou uma ameaça física. O caso atingiu em cheio as
filhas de Tostes, de 25 e 28 anos, e seus netos. Um pastor chegou a publicar
que “o diabo deveria colocar fogo” nas duas mulheres. A gravidade da situação
obrigou o TJSC a fornecer escolta do Núcleo de Inteligência e Segurança
Institucional para a família.
Em
outubro de 2025, durante uma sessão em vídeo a que a Cartas Marcadas teve
acesso, Tostes desabafou aos seus pares. Classificou o episódio como o “mais
torpe” de sua vida.
“Eu
tenho sentado com minhas filhas, pedindo perdão para elas, por essa história
ter atingido elas, que não têm absolutamente nada a ver com o que o pai
produz”, lamentou o magistrado.
Mesmo
sob devassa, Tostes não cedeu. Manteve seu voto contra Luciano Hang, sendo
acompanhado por unanimidade pelos colegas da 2ª Câmara, que lhe prestaram
solidariedade.
Procurado
pelo Intercept, o desembargador Yhon Tostes não respondeu. Para o advogado
Rodrigo Sartoti, que atuou em um dos casos relatados por Tostes, a resiliência
do desembargador produziu um documento histórico: “É um estudo longo, denso e
profundo sobre as liberdades de expressão e de imprensa”, resume.
Fonte:
Por João Paulo Saconi e Adriana Gonçalves Ribeiro, em The Intercept

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