quarta-feira, 17 de junho de 2026

Washington Araújo: O debate público sequestrado pela mentira

Brasília descobriu uma nova forma de fazer política: substituir dados por slogans, estudos por vídeos virais e problemas complexos por soluções instantâneas. O resultado dessa escolha já está à vista. Setores do Parlamento brasileiro correm o risco de trocar a função histórica de produzir consensos pela tentação de fabricar indignação permanente.

Não se trata de um episódio isolado. Tampouco de divergências ideológicas, que são parte natural da democracia. O problema é outro. A mentira, a meia-verdade e a manipulação do medo deixaram de ser acidentes ocasionais e passaram a integrar a estratégia de grupos parlamentares interessados em transformar a política em espetáculo permanente. A prioridade deixa de ser resolver problemas nacionais. O objetivo passa a ser produzir engajamento, constranger adversários e alimentar as redes sociais.

A aprovação, em 10 de junho de 2026, da admissibilidade da PEC 32/2015 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara tornou visível esse fenômeno. Por 44 votos favoráveis e 18 contrários, os deputados autorizaram o prosseguimento da proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O tema é legítimo e merece discussão. O que causa perplexidade é a facilidade com que um assunto de enorme complexidade jurídica, social e educacional foi apresentado à população como solução quase automática para a violência.

Décadas de estudos nacionais e internacionais mostram que criminalidade e encarceramento não mantêm relação tão simples quanto sugerem discursos inflamados. Mesmo assim, o marketing do medo continua rendendo dividendos eleitorais. Quanto maior a indignação produzida, menor parece ser o interesse em ouvir pesquisadores, especialistas em segurança pública, educadores e entidades ligadas à proteção da infância.

A mesma lógica apareceu na discussão sobre a jornada de trabalho. Em 27 de maio de 2026, a comissão especial da Câmara aprovou a PEC 221/2019, que propõe o fim da escala seis por um, por 34 votos a 4. Antes mesmo de qualquer deliberação final do Congresso, uma avalanche de previsões catastróficas tomou conta do debate. Multiplicaram-se afirmações sobre destruição em massa de empregos, colapso econômico e fechamento generalizado de empresas, quase sempre sem números, sem estudos comparativos e sem evidências apresentadas ao público.

A mentira contemporânea raramente surge sob a forma de uma falsidade absoluta. Seu mecanismo é mais sofisticado. Seleciona-se um fragmento da realidade, amplifica-se o medo e escondem-se as informações que poderiam oferecer equilíbrio ao debate. O resultado é uma população emocionalmente mobilizada e intelectualmente desarmada.

As chamadas pautas-bomba completam esse ambiente de degradação. Em junho, cálculos do Ministério da Fazenda apontaram impacto potencial de R$ 111 bilhões anuais em nove propostas em tramitação no Congresso. Uma delas, relacionada à renegociação de dívidas rurais, poderia produzir um custo de R$ 140 bilhões em treze anos. São números gigantescos. Ainda assim, grande parte das discussões públicas concentra-se apenas nos benefícios imediatos, enquanto os custos acabam empurrados para as futuras gerações.

Nenhum Parlamento existe para funcionar como agência de publicidade do medo. Deputados e senadores recebem mandatos para legislar, fiscalizar e construir soluções. Quando parte dessa energia é desviada para a produção deliberada de confusão, a sociedade perde sua capacidade de decidir racionalmente.

A mentira produz manchetes, aplausos e curtidas. Produz também vídeos virais e carreiras políticas construídas sobre a exploração permanente da indignação. Mas existe uma conta que sempre chega. Ela aparece na erosão da confiança pública, na radicalização da sociedade e na destruição gradual da capacidade de diálogo.

As democracias não morrem apenas pelas mãos de aventureiros ou por meio de golpes espetaculares. Muitas vezes, elas adoecem lentamente, corroídas pela banalização da mentira, pela substituição dos fatos pelas emoções e pela transformação da tribuna parlamentar em palco de manipulação coletiva. Nenhuma sociedade consegue construir o futuro quando seus representantes preferem administrar ressentimentos em vez de enfrentar a realidade.

¨      O voto do ressentido. Por Inez Lemos

As reflexões sobre ressentimento me conduziram à conexão com o machismo e, por sua vez, ao bolsonarismo.

Quase todo taxista, motorista de Uber, como empresário do agro, me revelou "não gostar do Lula". Tentam mudar de assunto quando questiono os motivos. Um fazendeiro bem-sucedido confessou que foi nos governos Lula que mais ganhou dinheiro. Contudo, algo o impede de simpatizar com ele. Considera injusto que um nordestino tenha maior relevância e prestígio do que ele, que trabalhou a vida toda, testemunhando ressentimento, incômodo de classe.

O machismo circula em torno de preconceitos, na lógica da disputa. A dificuldade em aceitar que o outro, o diferente, possa suplantá-lo, é da ordem do insuportável. Como posso me distanciar do tripé: poder, sexo e dinheiro sem me angustiar? O ressentido procura alguém para atacar, derrubar, jorrar sua ira. No fundo, precisa se livrar do sofrimento, transferindo-o a um outro, tipo: sofra no meu lugar, por favor?

O ressentido não consegue se livrar do sentimento de fracassado, humilhado, cultivando apego ao sofrimento, eternizando-se no gozo — dor que se apresenta na antessala do sono, na penumbra do tormento.

Ocorre quando o sujeito se sente oprimido, sufocado e perdido entre práticas sociais que lhe ensinaram e que não funcionam mais. Experiências das quais não consegue se separar subjetivamente. Como bancar o macho sem esconder a frustração? Como submeter sem se envergonhar?

Eis a conexão entre ressentimento, machismo, misoginia e feminicídio.

O homem que cresceu acreditando na superioridade do macho, cultivando a fantasia de que "ser homem bastaria", não está bem dentro da própria pele.

Sofre ao se recusar a rever conceitos e posturas, crenças e valores. Como reconhecer que aceitar fracassos e frustrações não é confissão de humilhação, mas de maturidade emocional, dignidade diante de revisão — retificação subjetiva, contradição que cerca a condição humana.

Acredito que a saída para avançarmos rumo a uma vida amorosa, familiar e cidadã menos violenta, conturbada, com menos feminicídios, esteja na educação que ensine os homens a lidar com os sentimentos, aceitar as frustrações, respeitando os limites impostos pela convivência. Sem noção de alteridade, não há respeito pelo diferente, pelo contraditório.

O ressentido vai sempre votar no candidato que melhor compactue com seu sentimento de fracassado, incentivando-o a apelar, a se impor pela força — atos de covardia e insensatez.

O ressentimento social é sentido como uma injustiça diante da ordem simbólica fundada na meritocracia, quando o melhor nascido merece ser reconhecido e agraciado. O ressentido é um revoltado, um inconformado.

¨      A profissionalização do conservadorismo feminino. Por Jamille Narciso Bezerra

Não era uma sala de aula.

Não havia quadro, apostilas ou professores diante de uma turma. A formação acontecia no celular.

Durante meses, acompanhei um grupo de WhatsApp que reunia centenas de mulheres interessadas em disputar cargos eletivos em diferentes regiões do país. Ali circulavam orientações jurídicas, estratégias de campanha, dicas de comunicação, vídeos motivacionais e informações sobre gestão pública. O grupo funcionava como uma espécie de sala de aula distribuída, conectando mulheres de trajetórias distintas em torno de um mesmo objetivo: preparar-se para ocupar espaços de poder.

A cena ajuda a compreender um fenômeno que ainda recebe pouca atenção. O crescimento da representação feminina conservadora precisa ser pensado além dos resultados das urnas, da expansão das igrejas evangélicas ou do fortalecimento eleitoral da direita. Ele depende também de um trabalho contínuo de formação política.

Quando uma nova vereadora, deputada ou liderança conservadora ganha visibilidade, costuma-se atribuir sua trajetória à força da religião, ao conservadorismo dos costumes ou à influência das redes sociais. Essas explicações são cabíveis. Mas deixam escapar uma pergunta fundamental: o que acontece antes da candidatura?

A política costuma voltar seus olhos para as eleitas. Pouco se observa os espaços que as formam.

Nos últimos anos, partidos, movimentos religiosos, organizações da sociedade civil e plataformas digitais passaram a investir na formação de mulheres interessadas em ingressar na vida pública. O grupo de WhatsApp é apenas uma das peças desse processo. Cursos, mentorias, encontros presenciais, grupos digitais e treinamentos especializados compõem uma rede distribuída de formação política que opera muito antes das campanhas eleitorais.

O aspecto mais interessante desse processo é que não se ensina apenas política. Ensina-se também comunicação, presença pública, ocupação institucional e construção de autoridade. As participantes aprendem a falar em público, lidar com entrevistas, utilizar redes sociais, estruturar campanhas e apresentar-se como lideranças legítimas diante de suas comunidades.

Esse movimento revela uma transformação importante. Durante muito tempo, a participação feminina conservadora esteve associada principalmente a trajetórias comunitárias, religiosas ou familiares. Muitas lideranças emergiam do trabalho voluntário, das atividades desenvolvidas em igrejas, associações e projetos sociais. Embora esses espaços continuem relevantes, eles já não são suficientes para explicar o cenário atual.

O que está em curso é um processo de profissionalização.

A autoridade política deixa de depender exclusivamente do reconhecimento religioso ou comunitário e passa a incorporar competências técnicas, estratégias de comunicação, conhecimento institucional e formas mais sofisticadas de atuação pública. Em outras palavras, a participação política feminina conservadora está se tornando cada vez mais organizada, planejada e profissionalizada.

Em muitos casos as convicções religiosas continuam sendo o principal ponto de partida dessas trajetórias. A diferença é que a experiência religiosa passa a ser articulada com instrumentos de formação política capazes de transformar engajamento em representação e pertencimento em atuação institucional.

Talvez por isso seja insuficiente explicar a ascensão dessas lideranças apenas pelo crescimento demográfico dos evangélicos ou pelo avanço eleitoral da direita. Esses fatores ajudam a compreender o contexto, mas não explicam o mecanismo.

Ao concentrar a atenção apenas nos resultados eleitorais, corremos o risco de ignorar um aspecto decisivo da política contemporânea: representação é produzida por processos contínuos de formação, capacitação e organização. Quem investe nesses processos disputa as condições de produção das futuras lideranças.

Lideranças são formadas. E compreender quem está formando as mulheres que chegam à política talvez seja uma das chaves para entender uma transformação silenciosa que atravessa a democracia brasileira. Enquanto o debate público continua concentrado nas disputas eleitorais e nos nomes que já ocupam cargos de poder, uma nova geração de lideranças está sendo preparada muito antes da campanha, do voto e do mandato.

A eleição é apenas a etapa mais visível de um processo muito mais longo. Antes do voto existem redes, pedagogias, treinamentos, encontros e formas de produção da autoridade.

Olhar para esses espaços de formação é também olhar para o futuro da política.

 

Fonte: Brasil 247/Le Monde

 

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