quinta-feira, 18 de junho de 2026

Por que Irã 'vende' acordo com EUA como uma vitória

A liderança do Irã tenta apresentar seu memorando de entendimento em negociação com os Estados Unidos não como um recuo, mas como uma conquista obtida pela resistência. Não é uma narrativa fácil de sustentar dentro do país.

O Irã acaba de passar por uma guerra devastadora, a economia nacional está sob forte pressão e parte da própria base de apoio da República Islâmica do Irã passou meses condenando qualquer aproximação com os EUA.

Há também iranianos, dentro e fora do país, que veem a crise não como uma oportunidade para a diplomacia, mas como uma chance de mudança de regime.

É nesse cenário político dividido que o Irã tenta agora "vender" internamente os méritos do acordo.

Integrantes do alto escalão iraniano apresentam o acordo como uma vitória.

Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento e principal representante iraniano nas negociações com os EUA, afirmou que o Irã deu "um longo passo rumo à vitória final".

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, descreveu o acordo firmado com os EUA como potencialmente transformador e disse que, se for plenamente implementado, poderá resolver muitos dos problemas do Irã e criar "um mundo diferente" no país e no Oriente Médio.

O apoio de Qalibaf ao acordo com os EUA tem peso porque ele não pertence ao campo moderado de Pezeshkian. Sua manifestação pública em favor do acordo sugere um respaldo de setores mais influentes do regime, inclusive de integrantes da Guarda Revolucionária Islâmica.

A liderança iraniana também procura apresentar o acordo como uma vitória porque, na avaliação de Teerã, os EUA e Israel não alcançaram seus principais objetivos.

Eles não forçaram o Irã a se render, não derrubaram a República Islâmica, não encerraram o programa nuclear iraniano por meio de ação militar e não romperam os vínculos do país com o Hezbollah (grupo que atua no Líbano).

Em vez disso, o Irã continua à mesa de negociações, com o Líbano incluído na estrutura do acordo e o alívio de sanções sob discussão.

Mas essa narrativa oficial é contestada dentro do próprio Irã.

Segundo relatos, um deputado da ala linha-dura que ocupa a vice-presidência da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento classificou a minuta do acordo como um documento que transformaria o Irã em uma colônia dos EUA.

Ele também acusou os negociadores de desrespeitarem uma orientação do líder supremo do Irã de não reabrir o estreito de Ormuz ao tráfego marítimo comercial.

A crítica tem peso porque não vem da oposição nem de grupos externos ao regime. Ela vem de dentro de uma das instituições responsáveis por acompanhar as questões de segurança nacional.

Durante meses, vozes da ala linha-dura no Parlamento, veículos de comunicação alinhados ao governo e participantes de atos pró-regime repetiram o argumento de que os EUA não são um parceiro confiável.

Esses grupos apontam que os esforços diplomáticos ainda estavam em andamento pouco antes do início da guerra e argumentam que o governo do presidente americano, Donald Trump, usou as negociações como cobertura enquanto Israel e os EUA preparavam uma ação militar. Para eles, qualquer acordo com os EUA corre o risco de ser visto como uma política de apaziguamento (em resumo, fazer concessões para evitar conflitos).

Ainda assim, algumas dessas vozes iranianas parecem estar mais silenciosas agora. Isso pode indicar que a decisão de avançar foi autorizada pelos níveis mais altos do Estado. Isso não significa, no entanto, que haja consenso.

Pode indicar que, ao menos por enquanto, o centro do poder concluiu que o custo de rejeitar um acordo seria maior do que o custo de enfrentar a insatisfação da ala linha-dura.

A pressão econômica é central nesse cálculo.

A liderança iraniana pode apresentar o acordo como resultado de sua capacidade de pressão militar, citando tanto as ameaças relacionadas ao estreito de Ormuz quanto os ataques contra interesses energéticos dos EUA e de seus aliados na região. Mas a economia também teve papel decisivo ao forçar o Irã a negociar.

A guerra, as sanções, as restrições à navegação marítima, o acesso reduzido aos mercados de petróleo e às reservas em moeda forte, além da inflação elevada, pressionaram tanto o país quanto a população.

Para muitas famílias, a questão não é se o acordo soa como uma vitória, mas se ele será capaz de conter a alta do custo de vida e afastar o risco de uma nova guerra.

O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, afirmou que o Irã não receberá dinheiro dos contribuintes americanos, mas poderá ter acesso a bilhões de dólares se cumprir seus compromissos e se as sanções forem flexibilizadas. Isso permite que o Irã apresente o acordo como um caminho para investimentos e reconstrução, e não como uma forma de dependência em relação aos EUA.

Ainda assim, os riscos são evidentes. Os detalhes do memorando firmado entre os países ainda não foram totalmente divulgados, e uma nova rodada de negociações deve começar na Suíça nesta sexta-feira (19/6).

As questões mais difíceis, o futuro do urânio enriquecido iraniano, o nível de enriquecimento permitido, os mecanismos de verificação, o alívio das sanções, o estreito de Ormuz e o Líbano, continuam pendentes e deverão ser discutidas nas próximas negociações.

Também há incertezas em relação a Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, rejeitou relatos de que Israel deixará o sul do Líbano (onde atua o Hezbollah) e afirmou que as forças israelenses permanecerão no território libanês pelo tempo que for necessário.

Trump, por sua vez, criticou publicamente a atuação de Israel no Líbano, afirmando que o número de mortos foi excessivo. Ele também afirmou ter ficado insatisfeito com um ataque israelense contra Beirute (capital libanesa) pouco antes da conclusão do acordo entre Irã e EUA, embora tenha insistido que sua relação com Netanyahu continua excelente.

Para o governo iraniano, as divergências expostas entre EUA e Israel são politicamente úteis. O governo iraniano pode apontá-las como sinal de que sua estratégia de pressão limitou a margem de manobra israelense. Ao mesmo tempo, elas tornam o acordo mais vulnerável.

Se Israel mantiver suas operações no Líbano, o Irã enfrentará pressão para reagir. E, se os EUA não conseguirem conter Israel, a alegação do Irã de que o Líbano está contemplado pelo acordo poderá ser colocada à prova rapidamente.

As reações do público da BBC News Persa sugerem que a narrativa oficial de vitória tem sido recebida de forma desigual.

Um desses iranianos afirmou continuar "desconfiado" e preocupado com a capacidade do governo de conduzir o país sob o novo entendimento.

Outro iraniano, contrário ao regime e que inicialmente apoiou uma intervenção militar dos EUA, questionou quais resultados concretos o ataque americano havia produzido, já que ele não resultou em mudanças políticas no Irã. "Nossa esperança era que o sistema no poder mudasse. Mas, além de miséria, inflação e mais danos à economia, que benefício isso trouxe para as pessoas?"

Outros se mostraram mais receptivos ao discurso do governo iraniano. Uma dessas pessoas afirmou que o Irã saiu vencedor e disse que a guerra demonstrou que as sanções não são suspensas por meio de "súplicas", mas pela demonstração de força.

Outra recebeu o acordo com mais cautela, dizendo que ele permitirá que as pessoas retomem o trabalho e a vida cotidiana com maior tranquilidade. "Acho que é temporário", afirmou. "Mas precisávamos de alguns meses de respiro e calma."

Talvez essa seja a interpretação mais realista. A República Islâmica do Irã vende o acordo como uma vitória porque não consegue apresentá-lo facilmente como uma necessidade.

Mas, para muitos iranianos, o sucesso do entendimento não será medido por slogans. Será medido pelo fim da guerra, pela redução do custo de vida, pela efetiva flexibilização das sanções e a capacidade da liderança de atravessar a próxima fase sem uma nova escalada do conflito.

¨      Trump sai derrotado em seus objetivos iniciais no Irã

Quando anunciou o acordo com o Irã, no domingo passado (14/06), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, destacou a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do suprimento mundial de petróleo. "Navios do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo flua!", escreveu o presidente.

Reabrir o Estreito de Ormuz nada mais é do que retornar à situação que havia antes do início da guerra – e especialistas alertam que a reabertura dessa via marítima, agora minada pelo Irã, nem mesmo será imediata.

Trump havia delineado objetivos bem mais ambiciosos quando anunciou que os Estados Unidos estavam entrando na guerra, logo após os ataques iniciais de Israel ao Irã. Em seu discurso, ele falou em troca de regime, impedir que o Irã obtenha armas nucleares e acabar com o apoio do Irã a milícias na região, como os houthis e o Hezbollah.

Mesmo que não se conheça o conteúdo do "memorando de entendimento" que Estados Unidos e Irã deverão assinar nesta sexta-feira em Genebra, o que já foi divulgado indica que Trump ficou bem aquém do que ele mesmo havia estabelecido.

<><> Aniquilar a indústria de mísseis

"Vamos destruir os mísseis deles e arrasar completamente a sua indústria de mísseis. Ela será totalmente aniquilada mais uma vez", afirmou Trump em 28 de fevereiro.

Relatos de serviços de inteligência ocidentais às agências de notícias Reuters e Bloomberg indicam que nem os estoques de mísseis do Irã nem sua indústria de misseis foram "aniquilados".

Cerca de um mês após o início da guerra, fontes dos EUA informaram à Reuters que um terço do arsenal iraniano havia sido destruído, enquanto outro terço provavelmente estava danificado, destruído ou soterrado.

Já a Bloomberg noticiou no domingo passado que estimativas de inteligência de março indicavam que o Irã ainda dispunha de cerca de 60% de seu arsenal de mísseis. Segundo essas mesmas fontes, o regime em Teerã dispõe hoje de cerca de três quartos das munições que tinha antes da guerra.

Numa estimativa mais otimista, o próprio Trump disse na semana passada que restavam ao Irã de 21% a 22% de seus mísseis.

Segundo a Bloomberg, que cita serviços de inteligência ocidentais, o regime iraniano pode ter aproveitado o cessar-fogo iniciado em 8 de abril para recompor seus estoques. Isso inclui mísseis russos não especificados que provavelmente saíram das linhas de produção no último ano, apontou uma das avaliações citadas pela agência de notícias.

Aliados ocidentais acreditam que o Irã muito provavelmente incorporou ao seu inventário armamentos russos recém-fabricados e recompôs grande parte de seu arsenal de mísseis durante o cessar-fogo de oito semanas, conferindo à República Islâmica poder de fogo para revidar com capacidade quase total caso as hostilidades sejam retomadas.

Antes da guerra, o Irã possuía o maior arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio, com um contingente entre 2.500 e 6 mil mísseis de diversos tipos. Alguns tinham capacidade de alcançar Israel, com alcances de até 2 mil quilômetros, e alguns carregavam ogivas de munição cluster, contra as quais é mais difícil se defender.

O Irã também é um grande fabricante de drones de longo alcance, em particular do drone Shahed de uso único (kamikaze).

O almirante americano Brad Cooper declarou ao Congresso, em 14 de maio, que a capacidade do Irã de fabricar e estocar mísseis e drones de longo alcance havia sofrido um retrocesso de anos. Ele afirmou que mais de 1.500 mísseis e 6 mil drones foram interceptados pelos EUA e seus aliados durante o conflito.

Se não está claro quantos mísseis restam ao Irã, certo está que o país ainda mantém a capacidade de atingir aliados dos EUA, como ocorreu em 6 de junho, quando lançou mísseis contra o Kuwait e o Bahrein, e em 7 de junho, quando disparou mísseis contra Israel.

<><> Destruir as Forças Armadas convencionais

"Vamos aniquilar a Marinha deles", prosseguiu Trump, em seu discurso de 28 de fevereiro.

Os EUA afirmam ter reduzido a capacidade militar convencional do Irã de projetar poder na região ou ameaçar operações americanas. De fato parece ter havido um grande retrocesso no potencial militar iraniano.

Cooper informou ao Congresso que os militares dos EUA destruíram 161 embarcações navais iranianas e neutralizaram 82% de seus sistemas de defesa aérea. Ele afirmou que a força aérea iraniana, que realizava até cem missões diárias antes da guerra, não realiza mais nenhuma.

Mesmo assim, é fato que o Irã conseguiu bloquear efetivamente o Estreito de Ormuz durante o conflito, retendo navios mercantes que transportam um quinto do suprimento mundial de petróleo e gás natural, utilizando para isso lanchas rápidas, minas, drones e embarcações equipadas com mísseis.

<><> Acabar com o apoio aos grupos terroristas no Oriente Médio

"Vamos garantir que os grupos terroristas que atuam como seus representantes [do Irã] na região não possam mais desestabilizar a região ou o mundo, nem atacar as nossas forças", afirmou Trump, ao delinear mais um objetivo, em 28 de fevereiro.

Em 2 de março, Trump acrescentou que não se pode permitir que Teerã continue a armar e financiar grupos que atuam como seus representantes no Iraque, no Líbano, em Gaza e no Iêmen.

O Irã não demonstrou disposição para interromper o apoio a esses grupos desde o início da guerra, mas avaliações militares dos EUA e análises independentes constataram que essa rede de representantes está bem menos eficaz.

Porém, grande parte desse cenário já era realidade antes do início da guerra. Israel havia eliminado muitos dos principais líderes do Hamas e milhares de seus combatentes em Gaza após o ataque ao seu território em 7 de outubro de 2023, além de ter abatido muitos líderes da milícia Hezbollah no Líbano.

O Irã também perdeu uma via importante para o reabastecimento do Hezbollah com o colapso do governo do ex-presidente Bashar al-Assad na Síria, em 2024. Sanções e as dificuldades econômicas do Irã também minaram sua capacidade de financiar esses grupos.

A exceção do Hezbollah, os grupos aliados ao Irã não desempenharam um papel relevante na guerra. O Hamas não atacou Israel a partir de seu enclave em Gaza, enquanto os houthis não causaram perturbações significativas à navegação no Mar Vermelho a partir do Iêmen.

Cooper disse ao Congresso, em maio, que o Irã não tem mais capacidade de fornecer, de forma confiável, armas avançadas a esses grupos, embora não tenha especificado o que isso significa.

Já o Irã deixou claro, nesta segunda-feira, que continua apoiando seus grupos aliados ao insistir que o acordo alcançado com os Estados Unidos inclui também o Líbano, onde o Hezbollah atua.

<><> Troca de regime

"Quando terminarmos, assumam o controle do governo. Ele estará ao alcance de vocês. Essa será, provavelmente, a única chance de vocês em gerações", declarou Trump, dirigindo-se à população iraniana, em 28 de fevereiro.

Em 6 de março, Trump declarou que a guerra só terminaria com a "rendição incondicional" do Irã, acompanhada de um novo líder "aceitável".

O objetivo da troca de regime claramente não foi alcançado, e no curso da guerra, Trump parou de incentivar os iranianos a derrubarem o regime dos mulás.

O que os Estados Unidos e Israel conseguiram foi trocar o comando do regime, com as mortes do líder supremo Ali Khamenei e vários outros líderes importantes. Mas isso tornou a Guarda Revolucionária ainda mais poderosa, e os novos líderes iranianos já indicaram adotar uma linha ainda mais dura, apesar de Trump, em 29 de março, ter descrito a nova liderança como "um regime novo e mais razoável".

"Quando as bombas começaram a cair, Trump disse ao povo iraniano que ‘a hora da sua liberdade está próxima'. Agora ele está fazendo um acordo com o regime que tentou derrubar", observou a revista britânica The Economist.

<><> Acabar com o programa nuclear

"E vamos garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear", prometeu Trump em 28 de fevereiro. Depois disso, ele até mesmo colocou esse como seu principal objetivo.

Mas, pelo que se sabe sobre o acordo alcançado, é isso que os 60 dias de negociação vão agora definir. O programa nuclear do Irã passará a ser uma questão central para os negociadores assim que o "memorando de entendimento" for formalmente assinado, nesta sexta-feira.

Ou seja, Estados Unidos e Irã retornam agora à mesma situação de três meses e meio atrás, quando já estavam negociando, antes de Israel e os EUA iniciarem, em 28 de fevereiro, a guerra que deixou milhares de mortos na região, desencadeou uma crise energética global e abalou a economia americana com uma disparada da inflação.

O regime em Teerã há anos afirma que não tem a intenção de construir uma bomba nuclear e que seu programa nuclear tem fins pacíficos, apesar de haver motivos para duvidar disso.

Especialistas dizem que o Irã possui 440,9 kg de urânio enriquecido a até 60% de pureza, o que é um passo técnico curto até os níveis de grau militar de 90%, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica.

A guerra não alterou significativamente essa capacidade nuclear. No mês passado, a inteligência dos EUA estimou que o Irã precisaria de menos de um ano para produzir uma arma nuclear – o mesmo prazo indicado após os ataques de Israel e EUA em junho de 2025 a instalações nucleares iranianas, quando Trump já havia declarado que

Trump defende que o urânio enriquecido do Irã seja retirado do país, enquanto o líder supremo iraniano, aiatolá Mojtaba Khamenei, teria defendido que o material não deve ser enviado para o exterior.

Tudo indica que essas negociações não serão fáceis – como nunca foram. O acordo nuclear anterior entre o Irã e as potências mundiais, alcançado em 2015, durante o governo do ex-presidente Barack Obama, e do qual Trump retirou os EUA durante seu primeiro mandato, levou quase 20 meses para ser negociado.

 

Fonte: Serviço Persa da BBC/DW Brasil

 

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