Pluralismo
acadêmico e a ética do desacordo
A
ciência avança por meio da crítica. Todo pesquisador tem uma dívida com seus
críticos. Em seus melhores momentos, a crítica nos ajuda a refinar nossas
ideias ao apontar argumentos que não havíamos considerado, referências que não
conhecíamos e dados que desafiam nossas hipóteses. Mesmo quando erra o alvo,
ela ainda pode ser benéfica, pois nos obriga a esclarecer melhor nossas
posições, corrigir ambiguidades e evitar novas confusões.
Ao
longo das últimas semanas, venho mantendo com o professor Luis Felipe Miguel um
debate em torno de uma questão delicada: por que haveria menos conservadores em
certas áreas da universidade, especialmente nas ciências sociais? Em seu
primeiro artigo, Luis Felipe Miguel contesta a ideia de que a direita esteja
ausente na universidade e sugere que, onde posições conservadoras têm menos
espaço, isso refletiria sobretudo a menor capacidade explicativa dessas
perspectivas diante do mundo social. Ele sugere também que, se existem
mecanismos de exclusão ideológica na universidade, eles provavelmente se
aplicam em medida semelhante à esquerda e à direita.
Em
minha resposta, argumentei que antes de atribuir a distribuição ideológica do
corpo docente apenas ao mérito relativo das teorias em disputa, seria prudente
investigar também mecanismos de seleção, custos reputacionais, conformidade
disciplinar e exclusão informal. Argumentei também que o grau e diferença entre
exclusões à direita e à esquerda é uma questão empírica que precisa ser
confrontada com estudos disponíveis. O debate, portanto, não é apenas sobre a
presença de conservadores na universidade, mas sobre como aplicamos, ao
analisar esse problema, os critérios críticos e metodológicos que usamos para
compreender outras assimetrias sociais.
Fico
feliz que o professor Luis Felipe Miguel tenha dedicado mais um artigo a essa
questão, desta vez respondendo diretamente ao meu último texto. Ainda assim,
para que o nosso debate fosse mais produtivo, eu gostaria que ele tivesse
partido de uma representação mais fiel das minhas posições, evitando rebater
teses que eu não apresentei no meu texto – e das quais eu mesmo discordo. Um
engajamento direto com meus reais argumentos e as referências que apresentei
elevaria a qualidade da nossa interlocução.
De toda
forma, agradeço a resposta, pois ela me oferece a oportunidade de esclarecer o
que realmente quis dizer. Na intenção de que minha crítica incida sobre
posições efetivamente defendidas, procurarei seguir o mesmo procedimento
adotado no primeiro artigo, inspirado nas regras de Rapoport: reproduzir da
forma mais fiel possível os argumentos do interlocutor, explicitar os pontos de
concordância e aprendizado e, só então, oferecer uma crítica. Esse esforço não
decorre apenas de educação ou cortesia, mas porque refletem um dever elementar
do debate intelectual – mesmo quando não é plenamente retribuído.
<><>
“Meritocracia”
O
primeiro ponto a esclarecer é em torno da “meritocracia”. Sinto que isso talvez
seja um ponto tangencial em relação aos temas principais do pluralismo
acadêmico, mas, além de tr econo como se fosse central, Miguel apresenta minha
posição de forma tão distante do que eu de fato propus em meu artigo original
que esclarecimentos se fazem necessários.
Luis
Felipe Miguel sugere no seu primeiro artigo que uma das qualidades intelectuais
que confere vantagem à esquerda sobre a direita na universidade é a adoção de
uma visão crítica das estruturas sociais, o que implica rejeição (ou ao menos
suspeita) de explicações “meritocráticas” de desigualdades sociais. Sugere,
portanto, que um dos motivos pelos quais conservadores estão ausentes nas
ciências sociais é justamente sua falta de traquejo com essa “pegada crítica”.
No meu
artigo, eu sugiro que o próprio Luis Felipe Miguel parece perder um pouco de
traquejo crítico ao explicar a ausência de conservadores nas ciências sociais
unicamente por questão de mérito. Sugiro também que, dada a natureza delicada
desse tema, deveríamos tentar ser um pouco mais rigorosos – e “críticos” – ao
explorar a questão.
Segundo
ele, no entanto, eu teria dito que quem rejeita a meritocracia como explicação
da sociedade não pode, sem contradição, falar sobre mérito em sentido algum,
inclusive mérito epistêmico, melhores argumentos ou critérios de validade
acadêmica. Em outras palavras, ele sugere que eu não acredito ser possível
considerar a visão meritocrática da sociedade empiricamente incorreta e
desprovida de valor heurístico e, ao mesmo tempo, defender o rigor na ciência.
Com certeza seria um argumento estranho de se fazer – se eu o tivesse feito.
Imagino
que parte da confusão talvez decorra da possibilidade de estarmos usando o
termo “meritocracia” em sentidos ligeiramente distintos. Vale então esclarecer
o sentido que eu empreguei. Para começar, proponho distinguir uma concepção
normativa e uma concepção descritiva de meritocracia.
No
sentido normativo, meritocracia é a crença de que posições, recompensas e
reconhecimento devem corresponder a alguma medida de mérito ou excelência. No
sentido descritivo (ou explicativo), meritocracia pode designar a crença de que
o mundo real já é assim: isto é, que posições, recompensas e reconhecimento
correspondem, na prática, ao mérito de seus detentores.
Aderir
à meritocracia no sentido normativo não implica aderir a ela no sentido
descritivo. Nisso concordo plenamente com Luis Felipe Miguel. Por exemplo, eu
posso acreditar que existem ideias, trabalhos ou produtos melhores e piores, e
que os melhores deveriam ter mais espaço que os piores – e ao mesmo tempo
acreditar que no mundo social concreto, prestígio, autoridade, renda ou espaço
institucional frequentemente não são distribuídos segundo o mérito real de seus
detentores. É justamente isso que muitos consideram uma “visão crítica” da
sociedade: a adoção de um ideal de mérito normativo, aliada à suspeita de que
ele não se realiza no mundo real.
Ao
longo do meu argumento, presumi que Luis Felipe Miguel defende justamente esse
tipo de visão crítica. Em outras palavras, presumi que, como cientista social,
ele rejeita ou no mínimo suspeita do uso descritivo da noção de meritocracia,
que supõe que as assimetrias e desigualdades sociais são resultado apenas de
méritos reais. Nunca presumi que ele rejeita ou deveria rejeitar qualquer noção
de mérito como ideal normativo.
Em
resumo, jamais afirmei que quem critica a noção de meritocracia não pode falar
em mérito. Apontei apenas que alguém sensível ao peso causal de estruturas
sociais, e treinado para suspeitar de explicações puramente meritocráticas,
deveria também desconfiar de explicações puramente meritocráticas para
assimetrias dentro da academia – inclusive quando consideramos os grupos em
questão objetivamente mais ou menos meritosos que outros.
Para o
crédito de Luis Felipe Miguel, no seu segundo artigo encontramos algumas
hipóteses adicionais para a escassez de conservadores nas ciências sociais. Ele
admite, por exemplo, que diferentes carreiras podem atrair pessoas com perfis
distintos e que a docência no ensino superior talvez seja menos atraente para
certos grupos. O ponto é relevante, mas parece não levar em consideração as
referências que eu mobilizei no meu primeiro artigo, onde encontramos um debate
já bastante desenvolvido sobre autosseleção, tipificação da carreira acadêmica
e formação de preferências profissionais.
<><>
Literatura especializada
Isso me
leva a outro ponto importante: apesar das diversas afirmações e suposições que
lança nos seus artigos, Luis Felipe Miguel não se engaja explicitamente com o
debate especializado sobre o tema em questão. No meu texto, apresentei uma
série de referências e estudos empíricos – uma pequena amostra de um amplo
campo de pesquisa, consolidado há décadas, sobre o perfil ideológico do corpo
docente superior.
É
verdade que esse campo ainda engatinha no Brasil, que os estudos disponíveis
certamente não são definitivos (nullius in verba!), e que generalizações devem
ser feitas com cautela. Mas se trata de uma bibliografia extremamente
informativa, que nos ajuda a formular hipóteses e diagnósticos mais rigorosos
e, portanto, mais úteis para o debate público.
Em sua
resposta Luis Felipe Miguel optou por não dialogar com nenhuma dessas
referências ou oferecer justificativa para de econhecas. Seu diagnóstico
permaneceu apoiado em observações gerais sobre concursos, disciplinas e
correntes teóricas, além de algumas anedotas pessoais que, embora relevantes,
não substituem investigação sistemática.
Se
estamos tratando do perfil ideológico do corpo docente como um legítimo campo
de investigação científica, é razoável começar aqui a exigir certos critérios
de rigor e validação. A boa prática científica tipicamente favorece estudos
sistemáticos acima de impressões pessoais. Ignorar o debate especializado sem
justificativa explícita, por outro lado, parece contradizer os critérios de
validação acadêmica que Miguel diz estar defendendo, ao mesmo tempo em que
sugere que eu pretendo relativizar esses mesmos critérios. Voltarei a esse
ponto mais abaixo.
<><>
Métodos e classificações
Talvez
Luis Felipe Miguel pudesse responder que alguns dos estudos que mobilizo
dependem excessivamente da autodeclaração ideológica dos docentes – método que
ele parece considerar problemático. Seria uma objeção legítima. Categorias como
“direita”, “esquerda” e “conservadorismo” variam entre contextos e não se
deixam capturar plenamente por uma única pergunta de survey. Um relatório
recente da Heterodox Academy sobre diversidade política no corpo docente
discute justamente as limitações desse e outros métodos aplicados no campo.
Existem
estudos que recorrem a medidas alternativas de afinidade ideológica como, por
exemplo, produção acadêmica, orientações bibliográficas, atividade pública em
redes sociais e comportamento político-eleitoral. Nenhum desses métodos resolve
completamente o problema, é claro. Todos têm suas limitações. Porém,
notavelmente, todos tendem a convergir na direção contrária ao diagnóstico de
Miguel, que afirma que a suposta ausência de conservadores na universidade é um
“espantalho” que “falseia a realidade”.
Resta
perguntar se algum ceticismo metodológico também pode se aplicar ao diagnóstico
de Luis Felipe Miguel. Para entender como ele conclui que a escassez
conservadora na universidade é um mito, é válido indagar o que ele, afinal,
considera um “conservador”.
Em seus
dois artigos, Luis Felipe Miguel mobiliza diferentes registros dessa categoria.
Ele afirma que, por exemplo, em áreas como economia, direito, ciência política
e relações internacionais, “visões conservadoras” são majoritárias, pois os
modelos predominantes seriam “individualistas, estáticos, desistoricizantes”.
Em outro registro, sugere que professores podem ser conservadores não apenas
por posições políticas declaradas, mas por manejarem modelos “desprovidos de
pegada crítica”.
Também
são incluídos em um balde de conservadores pensadores tão diversos quanto
Hayek, Schumpeter e Nozick; as “visões institucionalistas” que supostamente
predominam em sua disciplina; a “neutralidade axiológica” qualificada como
conservadora; além de expressões mais explícitas da direita política e
intelectual, como olavismo, escola austríaca, fundamentalismo cristão e
bolsonarismo. Em dado momento, no extremo oposto do que muitos considerariam o
espectro político tradicional, Luis Felipe Miguel inclui até mesmo a militância
identitária, “no frigir dos ovos”, como um fenômeno “conservador”.
Não
estou sugerindo que exista uma única definição correta do termo, nem que as
definições adotadas por Luis Felipe Miguel estejam “erradas”. Mas não nos deve
surpreender que uma definição suficientemente expansiva de “conservadorismo”
nos levará à conclusão de que a universidade está repleta de conservadores.
Na
falta de critérios metodológicos explícitos ou de diálogo mais direto com
trabalhos existentes no campo, temos o direito de suspeitar que o diagnóstico
de Miguel se sustenta menos em evidências empíricas do que em uma
conceitualização abusivamente ampla de “conservadorismo”. Os estudos que
mencionei acima são claros sobre suas definições e honestos sobre suas
limitações. Se Miguel apresenta um diagnóstico tão discrepante, no mínimo cabe
adotarmos semelhante cautela metodológica.
<><>
Por que a ausência de conservadores importa?
Mais
uma confusão é sinalizada quando Luis Felipe Miguel parece me incluir entre
“vozes que clamam por mais direitistas na universidade”. O problema, de novo, é
que nunca apresentei essa demanda. Ao contrário, deixei absolutamente claro que
engenharias sociais destinadas a produzir determinada proporção ideológica no
corpo docente me parecem temerárias.
Entendo
que é fácil confundir a atenção a uma assimetria social com um clamor para que
ela seja “corrigida”, então esclareço mais uma vez: a meu ver, o problema não é
a ausência de conservadores enquanto tal. O ponto central é saber se essa
assimetria resulta apenas do mérito relativo das perspectivas em disputa ou se
envolve também mecanismos de exclusão informal, custos reputacionais,
autocensura, conformidade disciplinar, suspeição ideológica, formas sutis de
preconceito e perseguição explícita.
Importa
saber também se esses mecanismos afetam não só indivíduos de direita, mas
pessoas de outras matrizes ideológicas – inclusive muitas que possam ter sido
injustamente rotuladas como “conservadoras”, “neoliberais”, “reacionárias” ou
“fascistas” por meio de taxonomias abusivamente flexíveis que circulam na
universidade.
Interessa
saber também como tudo isso afeta a qualidade geral do trabalho acadêmico e da
educação superior, seja ao desencorajar temas de pesquisa relevantes, seja ao
empobrecer debates importantes. É certo que ainda faltam dados no Brasil para
cravar diagnósticos mais precisos, mas já podemos travar uma discussão
relativamente informada – e, como argumentei no último artigo, a relutância em
tratar desse tema como um legítimo campo de investigação científica não deixa
de ser um dado relevante em si mesmo. Enfim, não precisamos considerar a
ausência de conservadores como um problema significativo em si mesmo para en
econhea como um sintoma de algo que pode ser significativo.
<><>
Cotas para terraplanistas!
Outro
tópico de discussão de Miguel foi o Manifesto pelo Pluralismo e Pela Liberdade
Acadêmica, iniciativa da qual faço parte. Ele parece supor que nossa proposta é
que a universidade deva abrigar posições vinculadas a valores políticos
divergentes “como se isso fosse um objetivo em si mesmo”. Para ele, essa
posição opera com base em um relativismo científico que, se levado às últimas
consequências, resultará no ridículo lamento de que faltam terraplanistas no
departamento de geologia.
Concordo
que tratar a diversidade de valores dentro da universidade como um fim em si
mesmo traria consequências nefastas e caricatas. O problema é que o manifesto
não propõe nada disso. E admito que – muito embora o reductio ad absurdum dos
“terraplanistas na geologia” já tenha sido amplamente discutido, debatido, e
rebatido – esse ainda é um mal-entendido comum. Como o tema é recente no debate
brasileiro, cabe aqui um esclarecimento curto e simples.
A
diversidade de qualquer perfil intelectual ou ideológico no corpo docente
jamais deve ser considerado um bem final, mas apenas um bem instrumental. Em
outras palavras, essa diversidade só tem valor na medida em que contribui para
a atividade-fim da universidade, isso é, a excelência no trabalho acadêmico. Os
benefícios educacionais e científicos de ambientes plurais são bem conhecidos,
mas – e nisso eu concordo plenamente com Luis Felipe Miguel – esses benefícios
só ocorrem em um ambiente acadêmico estruturado e orientado por critérios
próprios de rigor e excelência.
<><>
Pluralismo e integridade acadêmica
Por
último, quero me aprofundar na relação entre pluralismo e rigor acadêmico. Como
vimos, Miguel sugere que a defesa do pluralismo ameaçaria critérios autônomos
de validade científica ao supostamente tratar a diversidade de posições como um
fim em si mesmo. Assim, argumenta ele, critérios de excelência acadêmica
ficariam subordinados a critérios de conveniência política.
A essa
altura talvez seja oportuno perguntar: o que são, afinal, critérios de
excelência acadêmica e rigor científico? A discussão tem sido um pouco abstrata
quanto a isso até agora. Se tantas ameaças rondam esses princípios, seria bom
tentar defini-los com mais precisão. Proponho, então, listar alguns exemplos
que podem ajudar a ancorar nossa discussão na realidade da práxis científica.
Entre
alguns critérios de rigor e excelência amplamente reconhecidos por praticantes
da ciência estão: representar da forma mais fiel possível a perspectiva dos
críticos; argumentar com base em dados e estudos disponíveis; manter-se a par
do debate especializado em torno dos temas que se propõe a discutir, mesmo
quando isso nos exige sair da nossa zona de conforto teórico ou ideológico;
explicitar nossos pressupostos e aceitar submetê-los à crítica; evitar
diagnósticos precipitados com base em simpatias ou antipatias ideológicas;
resistir à tentação de rotular oponentes antes de compreender seus argumentos;
aplicar métodos e critérios de validação com consistência e isonomia, mesmo que
levem a conclusões politicamente inconvenientes; admitir possíveis erros de
interpretação e se dispor a corrigi-los.
Esses
critérios não são exaustivos. Ofereço uma lista pequena e provisória só para
deixar claro que critérios de mérito acadêmico existem, sim, dentro da proposta
pluralista. Mas esses méritos não se medem por aderência prévia a esta ou
aquela orientação teórica, e muito menos a esta ou aquela orientação política.
Medem-se pela capacidade de sustentar, diante de críticos reais, os hábitos
intelectuais que tornam a ciência possível. Sem um ambiente plural que nos
exponha a críticos reais, esses hábitos naturalmente tendem a se atrofiar. E
sem esses hábitos, um ambiente plural não florescerá.
Assim
como em nossa discussão sobre a “meritocracia”, podemos tentar distinguir o
pluralismo acadêmico em sua dimensão descritiva e sua dimensão normativa.
Quando tentamos expressar descritivamente o que queremos dizer com pluralismo,
tipicamente falamos de um estado de coexistência produtiva de diferentes
valores, pressupostos e tradições intelectuais.
Já em
sua dimensão normativa, o pluralismo nos exige falar de algo como uma ética
intelectual que inclui, entre outros componentes, as práticas que listei mais
acima. Da mesma forma que uma sociedade “meritocrática” se desfaz quando seus
membros não são capazes de sustentar – ainda que imperfeitamente – um ideal
meritocrático, o pluralismo também perde a sua substância quando não é
sustentado por uma ética intelectual pluralista.
Este
artigo oferece uma definição inevitavelmente incompleta dessa ética, mas
suspeito que todo pesquisador saberá re econhecea como elemento constitutivo da
vida acadêmica. Isso porque o pluralismo não é, como se argumenta, um princípio
externo a ser imposto à força sobre a ciência. Afinal, estamos falando do
conjunto integrado de práticas, princípios, e hábitos intelectuais – ou
virtudes, se preferir – que tornam o desacordo intelectualmente produtivo. Sem
isso, não existe ciência.
Sei bem
que a presença de perspectivas divergentes pode produzir crítica disciplinada
por um lado, e também relativismo, polarização e faccionalismo por outro. O que
nos leva ao primeiro caminho e não ao segundo é justamente a presença de uma
ética intelectual pluralista. É na ausência dessa ética que vemos prosperar um
clima de moralismo intelectual persecutório e anticientífico, onde charlatões,
negacionistas e obscurantistas encontram terreno fértil para se entrincheirar
em departamentos acadêmicos.
O que
lamento, portanto, não é a ausência de terraplanistas nos cursos de geologia. O
que lamento é a ausência, cada vez mais visível em nossas universidades, de uma
ética intelectual pluralista. A julgar pelos signatários do Manifesto pelo
Pluralismo Acadêmico, muitos também lamentam. Felizmente, há cada vez mais
pesquisadores dispostos a trabalhar para restaurá-la.
Fonte:
Por Pedro Damazio Franco, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário