Paulo
Kliass: PEC 65 - A captura do Banco Central
Os
movimentos dos representantes dos interesses do financismo em nosso país são
cada vez mais ousados. O pessoal da Febraban e da Faria Lima não descansa
enquanto não conseguir completar o processo de implementação extremista do
programa do Consenso de Washington em nossas praias. Apesar de as diretrizes
desse fundamento do programa do neoliberalismo terem sido abandonadas nos
países do centro do capitalismo, as nossas elites sociais e econômicas ainda se
agarram aos preceitos do receituário da ortodoxia mais conservadora. Os
papagueadores daquilo que preconizavam os dirigentes do sistema financeiro
internacionalizado há décadas atrás seguem repetindo as bobagens que os
formuladores nos países já abandonaram desde as crises econômico-financeiras de
2008/9 e da covid.
A ideia
de reduzir a dimensão do setor público ao Estado mínimo envolve, dentre outras
ações, o aprofundamento dos processos de privatização de forma ampla e
generalizada. Isso significa não apenas a forma mais simbólica de promover a
transferência do patrimônio de empresas estatais para o capital privado. Na
verdade, existem inúmeros outros processos de privatização, como é o caso das
parceiras público-privadas (PPPs) ou da terceirização ou ainda das concessões.
Na verdade, trata-se de recorrer a todos os mecanismos possíveis de se promover
a retirada do Estado da atividade econômica. Com isso, permite-se a abertura
dos espaços de produção e/ou de comercialização de bens e serviços para o
capital privado. Esse processo é tragicamente complementado pela utilização de
outro tripé do neoliberalismo, qual seja, a política de austeridade fiscal.
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Usurpação de poder pelo financismo
Assim,
a compressão da capacidade de despesa e de investimento do Estado termina por
esmagar as possibilidades de o setor público cumprir com suas funções
constitucionais e institucionais. As demandas sociais por serviços públicos não
diminuem e as limitações impostas pela austeridade fiscal terminam por limitar
a ação do Estado para viabilizar o atendimento das necessidades da maioria da
população. Frente a esse quadro, a narrativa oficial se limita a afirmar que
não existe alternativa que não seja recorrer à opção do setor privado como
agente ofertante de saúde, educação, previdência social, segurança pública,
assistência social, saneamento, transportes, etc.
Esta
dificuldade em colocar o setor público como elemento central em qualquer
processo de retomada do desenvolvimento continua a ser uma repetição sem
limites de nossas elites a respeito de sua visão do processo econômico. Os
grandes meios de comunicação reproduzem à exaustão a suposta necessidade de
aprofundar o equilíbrio fiscal por meio da austeridade e de buscar a redução do
Estado à sua dimensão mínima. Esse é o espaço que serve ao financismo para
levar seu programa às últimas consequências.
O
próprio presidente Lula reconheceu os equívocos cometidos pelos sucessivos
governos progressistas na implementação das políticas públicas, em especial a
política econômica. Em uma intervenção recente no Fórum de
Mobilização Progressista em Barcelona, ele foi bastante explícito em uma espécie
de autocrítica a respeito de dificuldades e equívocos cometidos ao longo dos
últimos anos:
(…)
“Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico
dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome,
desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda
assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas
do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de
esquerda e praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da
governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso não surpreende agora
que o outro lado se apresente como antissistema. O primeiro mandamento para os
progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um
programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo.” (…)
No
domínio específico da política monetária e da relação com o Banco Central (BC),
a reflexão de Lula é bastante adequada para tudo o que ocorreu ao longo de seus
três mandatos e mesmo em grande parte do período em que Dilma Rousseff esteve à
frente do Palácio do Planalto. O sistema financeiro nunca deixou de dar as
cartas na definição de orientações estratégicas e também na implementação das
políticas no cotidiano do mercado bancário e financeiro. No entanto, ao que
tudo indica, o financismo não estava satisfeito com a enorme liberdade com que
sempre transitou neste circuito. E pressionou Bolsonaro e Paulo Guedes para que
encaminhasse um projeto ao Congresso Nacional tratando do BC. A peça se
transformou na Lei Complementar 179, em 2021, onde houve
um avanço significativo rumo a uma quase independência do órgão em relação ao
Poder Executivo.
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BC ainda mais dependente da banca privada
Tanto
foi assim que Lula teve que conviver durante a primeira metade de seu mandato
com a maioria da diretoria do banco indicada pelo seu antecessor, a quem havia
derrotado no voto popular em 2022. A principal mudança efetuada à época foi a
fixação de mandatos para os dirigentes do BC, de maneira a usurpar a
legitimidade de um presidente da República eleito e com legitimidade plena
conquistada nas urnas. No entanto, por mais uma vez, o apetite do financismo
não havia sido plenamente satisfeito. Assim, eles colocaram nas mãos do então
presidente do BC, Roberto Campos Neto, a incumbência de articular um projeto
ainda mais audacioso, desta vez envolvendo mudanças na própria Constituição.
Daí nasce a PEC 65, formalmente
apresentada por uma série de senadores do campo conservador ainda em 2023.
O
indicado por Bolsonaro ainda tenta, ao final de seu mandato à frente do BC,
angariar apoios à medida, mas a tramitação fica limitada em função de ampla
resistência enfrentada em diversos setores de nossa sociedade pelas mudanças
sugeridas. Mantendo a vergonhosa tradição da porta giratória entre o setor
público e o setor privado na esfera do sistema financeiro, Campos Neto torna-se
alto dirigente de uma das principais empresas no novo formato digital bancário,
o Nubank. Assim, ao mudar de lado do balcão, ele segue em sua cruzada em prol
da aprovação da PEC 65. Surpreendentemente, ele é logo apoiado pelo seu
sucessor. Gabriel Galípolo e todos os demais
integrantes da diretoria do BC indicados por Lula passam a apoiar também o
texto em discussão no Senado Federal.
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A PEC 65 e o terrorismo do sistema financeiro
Ao
longo da tramitação nas instâncias daquela casa legislativa, algumas mudanças
estão sendo operadas no texto originalmente apresentado. Com toda certeza,
trata-se de uma estratégia de incorporar algumas modificações de natureza
meramente cosmética, com o intuito de remover algumas resistências ainda
existentes à aceitação do texto. Assim, por exemplo, o relator na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) no Senado deu nova redação ao dispositivo que caracteriza
a natureza jurídica do BC, retirando o conceito de “empresa pública” e
introduzindo o conceito de “entidade pública de natureza especial”. No entanto,
permanece a ideia central de conferir “autonomia orçamentária, administrativa e
financeira” ao órgão.
Neste
sentido, o parecer do senador Plínio Valério é muito claro a respeito de suas
intenções mais verdadeiras a respeito da entidade que pretende consolidar:
(…) “A
literatura econômica e jurídica internacional é clara: a independência
financeira é o alicerce que sustenta as demais dimensões da autonomia. Sem o
controle de seu próprio orçamento e o custeio por receitas próprias,
a autoridade monetária permanece vulnerável a contingenciamentos e a
formas indiretas de pressões políticas, o que compromete a credibilidade das
metas de longo prazo e a mitigação do problema de inconsistência temporal.” (…)
[GN]
O que
se pretende é retirar toda e qualquer possibilidade de controle externo do BC
no novo formato, além de usurpar a legitimidade do Poder Executivo assegurado
pelo voto popular para condução da política monetária, da política cambial e do
processo de regulação/fiscalização do sistema financeiro. Assim, o BC torna-se
independente do governo e consolida-se como organismo totalmente dependente e
subordinado aos interesses do oligopólio da banca privada.
O
argumento de que o BC não deve estar sujeito a “pressões políticas” esconde a
realidade de todo o tipo de influência a que os dirigentes do órgão estão
sofrendo a todo instante. A instituição responsável por aspectos tão relevantes
da política econômica é permanentemente bombardeada por propostas e opiniões
originadas nos centros formuladores do financismo. Ocorre que tais decisões não
são “técnicas” como costumam alardear os escribas que defendem os interesses da
Faria Lima e da Febraban. Definir o patamar da Selic, estabelecer parâmetros em
torno da taxa de câmbio ou intervir no mercado bancário para reduzir os
conhecidos spreads gigantescas são obrigações que cabem ao BC
e guardam uma proximidade quase total com a política. Por isso, a legitimidade
institucional do órgão é fundamentalmente vinculada à dinâmica do desenho
republicano de nosso Estado.
Não
existe espaço para qualquer tipo de “independência” da autarquia criada em
1964. Ou bem ela depende do conjunto da sociedade brasileira ou então passa a
ser dependente — de fato e de direito — daqueles aos quais deveria regular e
fiscalizar. Seria um verdadeiro crime de lesa-pátria aceitar a lógica do
terrorismo imposta pelo setor financeiro e entregar o BC de corpo e alma para a
banca privada. Resistir é preciso!
¨
PEC 65 transforma Banco Central em balcão de papeis
podres de bancos privados. Por Maria Lucia Fattorelli
Inúmeros
alertas têm sido publicados acerca da Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) nº 65/2023, que tramita no
Senado e amplia de forma temerária a autonomia já concedida ao Banco
Central, colocando no texto constitucional mecanismos que consolidam sua
completa desvinculação da estrutura estatal brasileira e aprofundam a sua
submissão aos interesses do mercado financeiro privado. No entanto, pouco tem
sido dito acerca do dispositivo da PEC 65 que permite ao Banco
Central adquirir papeis podres de bancos sem limite e sem precisar dar
satisfação a qualquer poder ou órgão da administração pública. São títulos
privados emitidos por instituições financeiras sem qualquer lastro, como por
exemplo os CDBs do banco Master. O presente artigo detalha esse
golpe inserido na PEC 65/2023.
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Há anos o BC vem tentando adquirir papéis podres
Com o
advento da pandemia da covid-19, enquanto diversos
países lançavam programas para apoiar as indústrias e empresas em geral, a fim
de preservar empregos, no Brasil assistimos a edição de uma série de medidas
para favorecer brutalmente os interesses do mercado financeiro: o Banco Central liberou
pacote de alguns trilhões de reais em medidas de liquidez, de crédito e outras)
— conforme pode ser visto em videoconferência do BC à época — e,
adicionalmente, incluiu na Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) 10/2020 um dispositivo que permitia a
aquisição de ativos privados problemáticos, isto é, papéis podres em poder de
bancos.
Na
época, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, chegou a declarar
que o volume desses ativos somava R$ 972,9 bilhões!
A
gritaria foi grande, com várias notas técnicas publicadas pela Auditoria
Cidadã da Dívida, além de Carta-Aberta, notificação extrajudicial a lideranças
partidárias, entre outras iniciativas, mas a PEC 10 chegou a ser aprovada,
dando origem à Emenda Constitucional (EC) 106, tendo aquele dispositivo
(Artigo 7º) sido questionado junto ao Supremo Tribunal Federal por meio
da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 6417.
Cabe
ressaltar que aquele valor de R$ 972,9 bilhões não incluía a atualização
monetária dos títulos acumulados na “carteira podre” de bancos há 15 anos, como
revelou levantamento feito pela IVIX Value Creation, publicado pelo
Estadão.
Portanto,
o golpe financeiro inserido no Art. 7º da EC-106 poderia chegar a
vários trilhões de reais, e beneficiaria somente bancos e demais instituições
financeiras (fundos), às custas de comprometimento gravíssimo do orçamento
público e da geração de dívida pública sem contrapartida alguma, com trilhões
de reais gastos para a compra de ativos podres de bancos.
A EC
106 não estabeleceu limite algum para essa temerária operação, que também
não teria transparência alguma, como se depreende da notícia publicada no
jornal Valor Econômico, O Banco Central avalia comprar cestas de
títulos privados, no dia 20 de maio de 2020.
Em
resposta a pedidos fundamentados na Lei de Acesso à Informação,
o Banco Central informou que não chegou a realizar qualquer operação
de compra de títulos privados durante a pandemia, como autorizava
a EC-106. Por sua vez, a ADI 6417 foi arquivada sem o julgamento
do mérito, por ser medida restrita ao período de calamidade pública da
pandemia, que foi encerrado oficialmente em 22 de maio de 2022.
Dessa
forma, a autorização para compra de papéis podres de bancos incluída na EC
106 não chegou a produzir os efeitos desejados pelo mercado financeiro e a
pauta ficou suspensa até recentemente, quando foi publicado o novo relatório
da PEC 65/2023, de autoria do senador Plínio Valério, aprovado na Comissão
de Constituição e Justiça do Senado por votação simbólica, apesar de sua
flagrante inconstitucionalidade e de seu autor ter declarado não entender nada
de mercado financeiro.
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PEC 65/2023 permite negócios financeiros escusos
A PEC
65/2023 reinaugura a possibilidade de o Banco Central arrematar papel
podre de bancos de forma sorrateira. Inclui, ao artigo 164 da Constituição
Federal, um §8º que diz: “o Banco Central poderá́ utilizar seus
instrumentos de intervenção para manter níveis adequados de liquidez e a
funcionalidade dos mercados, inclusive mediante negócios jurídicos com
entidades e fundos que atuem no mercado secundário de títulos de emissão
do Tesouro Nacional, observados os
parâmetros estabelecidos em lei.”
Uma
leitura atenta e ciente dos planos anteriormente frustrados permite perceber o
que está por trás dos “negócios jurídicos com entidades e fundos” que
essa PEC autoriza. Só não vê quem não quer!
Trata-se
exatamente da possibilidade de compra de ativos privados de alto risco —
inclusive “papéis podres”, como os papéis fraudulentos emitidos pelo banco
Master — transferindo prejuízos privados ao setor público.
Caso
essa PEC 65 já tivesse sido aprovada, o Banco Central poderia ter
adquirido, na surdina, todos os R$ 52 bilhões de papéis podres que geraram o
prejuízo ao Fundo Garantidor de Crédito e mais os R$ 45 bilhões de
créditos de carbono falsos emitidos pelo banco Master.
A
sociedade sequer ficaria sabendo, pois todas essas operações estariam
justificadas sob o argumento de “manter níveis adequados de liquidez e a
funcionalidade dos mercados”!
Ademais,
a PEC 65/2023 transforma o Banco Central em “entidade
pública de natureza especial”, desvinculada de qualquer órgão da Administração
Pública, acima de qualquer controle institucional efetivo, ou seja, não terá
que dar satisfações e não poderá ser alvo de punição ou controle por qualquer
poder constituído, ainda que adquira as dezenas de trilhões de papéis podres de
bancos existente em suas respectivas carteiras há anos!
É
evidente que a assunção desses papeis podres gerará um prejuízo astronômico
ao Banco Central. Sempre que o BC apura prejuízos, ele pode transferí-los
para o Tesouro Nacional, como já ocorreu em vários anos. Na prática, essa
é uma forma escandalosa de transferir prejuízos gerados por fraudes do setor
financeiro privado para o setor público, ou seja, para o povo pagar tanto
devido ao aumento da dívida pública como mediante cortes cada vez mais
drásticos em investimentos sociais e políticas públicas de interesse da
sociedade.
Não
podemos aceitar que o órgão responsável pela política monetária, cambial,
emissão de moeda, gestão de reservas internacionais e supervisão do sistema
financeiro se transforme nessa “coisa” vergonhosa, afundando ainda mais a
economia brasileira em falsas “dívidas” criadas para salvar bancos privados de
suas falcatruas.
Por
isso, pedimos a todas as pessoas que pressionem senadores e senadoras para que
votem contra a PEC 65/2023, e enviem a carta preparada pela Auditoria
Cidadã da Dívida em formulário eletrônico pré-elaborado para envio.
Fonte:
Outras Palavras/Extra Classe

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