quarta-feira, 17 de junho de 2026

China adota o PIX para ampliar negócios enquanto EUA atacam soberania financeira do Brasil

A disputa comercial entre Brasil, China e Estados Unidos ganhou um novo capítulo nos sistemas de pagamentos digitais. Enquanto Washington passou a atacar o modelo público do PIX e sua atuação no mercado financeiro brasileiro, Pequim avança na direção oposta: quer ampliar a integração com a infraestrutura criada pelo Banco Central e transformá-la em uma ponte para os negócios entre duas das maiores economias do Sul Global. 

O movimento não acontece por acaso. Em maio de 2025, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, o Banco Central do Brasil e o Banco Popular da China assinaram um amplo memorando de cooperação financeira. 

O acordo prevê a integração de sistemas de pagamentos, a interoperabilidade de plataformas digitais, a conexão entre mecanismos de pagamentos instantâneos e até o desenvolvimento de soluções para pagamentos por QR Code entre os dois países. 

A iniciativa foi reforçada pela renovação do acordo bilateral de swap de moedas entre os bancos centrais, no valor de 190 bilhões de yuans — equivalentes a cerca de R$ 157 bilhões —, válido por cinco anos. O objetivo é ampliar o uso de moedas locais no comércio bilateral, reduzir custos financeiros e diminuir a dependência do dólar nas transações internacionais. 

Pouco mais de um ano depois, os resultados começam a aparecer. 

<><> Interesse de gigantes do comércio eletrônico 

No início de junho, o vice-presidente do Bank of China, Hsia Hua Sheng, afirmou que empresas chinesas demonstram interesse em incorporar o PIX às suas plataformas digitais. Segundo ele, companhias como AliExpress, 99 e Keeta já vêm adaptando seus serviços para operar dentro da lógica criada pelo sistema brasileiro. 

A declaração ocorreu em um momento simbólico. Enquanto empresas chinesas buscam formas de integrar o PIX aos seus ecossistemas digitais, os EUA intensificam as críticas ao modelo brasileiro. 

A diferença de postura revela uma disputa maior do que aparenta. 

Para Pequim, o PIX representa uma infraestrutura eficiente capaz de facilitar negócios, reduzir custos e acelerar pagamentos em um dos principais mercados da América Latina. Para setores financeiros estadunidenses, porém, o sistema brasileiro tornou-se um exemplo incômodo de plataforma pública capaz de competir com empresas privadas de pagamentos. 

<><> O incômodo de Washington 

No relatório da Seção 301, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) classificou políticas brasileiras ligadas a pagamentos eletrônicos como potenciais barreiras ao comércio estadunidense. 

O principal alvo do documento é a lógica pública do PIX. O USTR questiona justamente os elementos que contribuíram para a rápida disseminação do sistema brasileiro: a gratuidade para pessoas físicas, as tarifas limitadas para operações comerciais e o comando estatal sobre uma infraestrutura considerada estratégica. 

Em outras palavras, Washington trata como “barreira comercial” o fato de o Brasil ter construído um sistema barato, eficiente e fora do controle das grandes corporações financeiras dos Estados Unidos. 

O órgão estadunidense também argumenta que o Banco Central acumula simultaneamente as funções de regulador e operador do sistema, o que, na sua avaliação, geraria tratamento preferencial a um modelo estatal. 

Por trás da linguagem técnica, a disputa possui forte conteúdo político. 

Em poucos anos, o sistema tornou-se dominante no Brasil, reduzindo drasticamente a dependência de cartões, boletos e intermediários financeiros privados. Mais do que uma inovação tecnológica, o PIX passou a representar uma infraestrutura estratégica de soberania financeira. 

<><> PIX, QR Code e yuan na nova arquitetura financeira dos Brics 

A aproximação sino-brasileira vai além da integração entre aplicativos. 

Durante a cúpula dos Brics realizada no Rio de Janeiro, em julho de 2025, a UnionPay — gigante chinesa de pagamentos — e o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC Brasil) firmaram um memorando para conectar a rede brasileira aos sistemas chineses de pagamentos instantâneos. 

O projeto prevê que usuários de carteiras digitais vinculadas à UnionPay possam realizar pagamentos diretamente em estabelecimentos brasileiros por meio de QR Code, utilizando infraestrutura compatível com o PIX. Ao mesmo tempo, abre caminho para liquidações em yuan e real sem necessidade de conversão prévia para dólares. 

A medida se encaixa em uma estratégia mais ampla defendida por Brasil, China e outros países dos Brics: reduzir a dependência da moeda estadunidense nas transações internacionais e construir mecanismos financeiros menos vulneráveis às pressões geopolíticas de Washington. 

Não se trata de substituir o dólar da noite para o dia. Trata-se de criar alternativas. 

<><> Uma disputa sobre tecnologia e poder 

A controvérsia em torno do PIX expõe uma transformação silenciosa da economia global. 

Durante décadas, os sistemas financeiros internacionais foram organizados sob a predominância de bancos, operadoras de cartões e instituições sediadas nos Estados Unidos e na Europa. O avanço de plataformas públicas de pagamentos instantâneos, especialmente em países emergentes, desafia essa arquitetura. 

O Brasil tornou-se um dos principais laboratórios dessa mudança. 

Se a integração entre PIX, sistemas chineses de pagamento e acordos em moedas locais avançar, o impacto poderá ir muito além do comércio eletrônico. A tendência aponta para a formação de corredores financeiros paralelos, capazes de reduzir custos, acelerar transações e ampliar a autonomia econômica dos países envolvidos. 

Nesse cenário, a disputa em torno do PIX deixa de ser apenas uma questão tecnológica e se transforma em mais um capítulo da disputa entre uma ordem financeira centrada no dólar e um mundo cada vez mais multipolar. 

¨      China ou EUA?: Quem é o verdadeiro “Lobo Mau” da América Latina?

Determinar quem é o “Lobo Mau” que ameaça a soberania dos países latino-americanos é o mais recente ponto de discórdia entre a China e os EUA, após uma série de declarações de seus embaixadores no Peru e na Colômbia. Um editorial do jornal chinês Global Times analisa ambas as posições e questiona como a Casa Branca está tentando manter o controle estratégico sobre todo o continente.

O artigo inclui declarações feitas em 27 de abril pelo embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro, que traçou um paralelo entre a China e o “Lobo Mau” da história Chapeuzinho Vermelho para ilustrar o tipo de relacionamento e cooperação que existe entre Pequim e Lima.

A resposta de seu homólogo chinês na Colômbia, Zhu Jingyang, foi imediata e tomou a forma de uma pergunta: estabelecer essa relação não seria uma maneira de “olhar no espelho”? “Vocês gritam ‘livre escolha’, mas brandem o porrete das sanções; se fazem de ‘país maduro’, mas recorrem a zombarias baratas. Com isso, vocês só deixam abundantemente claro quem é o verdadeiro ‘Lobo Mau’”, respondeu ele.

Anteriormente, Navarro já havia alertado o Peru sobre possíveis represálias de Washington caso o país não comprasse caças F-16, insinuando interferência no processo decisório do país sul-americano. “Isso não é linguagem diplomática, é coerção direta, crua e pura”, respondeu Zhu.

No início deste ano, os EUA já definiram o Peru como um “importante aliado não pertencente à OTAN”, com planos de venda de equipamentos militares e uma base naval que, segundo a mídia chinesa, ameaçam a soberania peruana e levantam preocupações sobre o controle externo.

<><> Hegemonia regional

Segundo o Global Times, as declarações “arrogantes” de Navarro também revelam claramente a “natureza sinistra da hegemonia dos EUA” e refletem o empenho da Casa Branca em reafirmar seu domínio estratégico em todo o Hemisfério Ocidental, reduzindo a influência chinesa.

Os EUA alertam um país latino-americano de que “não deve permitir” que a China administre seus ativos críticos.

Portanto, o editorial acredita que o embaixador dos EUA representa uma ameaça real à soberania peruana, e não as empresas chinesas que criam empregos e constroem portos, como o porto de Chancay, no qual a estatal chinesa COSCO Shipping investiu aproximadamente US$ 1,3 bilhão. Este porto de águas profundas, localizado a cerca de 95 quilômetros ao norte de Lima, tornou-se um centro logístico para todo o continente.

Além disso, o veículo de comunicação observou que a China é o maior parceiro comercial do Peru, o que interpreta como um sinal de força e da profundidade dos laços entre os dois países, baseados em seus “próprios cálculos estratégicos e interesses nacionais, independentemente de pressões ou influências externas”.

O editorial também destaca que as áreas das quais o capital americano se retirou receberam investimentos e comércio chineses em infraestrutura, concluindo, portanto, que não se trata de uma “infiltração”, mas de uma relação “mutuamente benéfica”. O embaixador Zhu resumiu a situação da seguinte forma: “A amizade entre China e Peru é inabalável. Nenhum conto de fadas a deterá.”

Em conclusão, o editorial afirma que, se os EUA querem saber quem é o “Lobo Mau” da América Latina, devem “olhar no espelho”.

¨      'Reconhecimento às avessas': como críticas dos EUA e interesse chinês pelo Pix destacam o Brasil

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil comentam como o interesse da China pelo Pix e os ataques dos Estados Unidos ao sistema demonstram a relevância estratégica da tecnologia brasileira no cenário financeiro global.

Durante uma entrevista ao Brazil Economy, Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China, disse que os chineses têm interesse em implementar o Pix em seu sistema econômico. Na conversa, Hsia citou companhias chinesas, como AliExpress, 99 e Keeta, que já estão se adaptando à realidade da internacionalização, tal qual o Pix. Sua fala, sobretudo, acontece em meio a pressões dos Estados Unidos sobre o sistema de pagamentos brasileiro.

No início de junho, uma investigação comercial do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) acusou o Banco Central do Brasil de cometer "práticas abusivas" ao atuar simultaneamente como regulador e operador do Pix, o que daria uma vantagem indevida sobre os concorrentes – no caso, bandeiras de cartão de crédito estadunidenses.

A investigação propôs uma taxação de 25% sobre produtos brasileiros ao julgar que essas medidas prejudicam o comércio entre os países.

No entanto, especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil comentaram que a tarifa contra o Pix é "sem fundamento", já que se trata de uma inovação tecnológica que altera a dinâmica do mercado, não de um tratamento preferencial. Além disso, apontaram que as pressões têm mais a ver com soberania tecnológica e regulação digital do que com disputas comerciais.

Para Evandro Menezes de Carvalho, professor da Universidade Politécnica de Macau, o interesse chinês no Pix é natural, especialmente por parte de empresas que atuam no Brasil e precisam se adaptar aos hábitos de pagamento dos consumidores locais. A afirmação de Hsia sobre o Pix também mostra uma diferença de abordagem no relacionamento em comparação com os Estados Unidos.

"No caso da China, nota-se claramente uma abordagem respeitosa, do princípio da soberania e de cada país adotar seu próprio sistema econômico, seu próprio sistema político."

"A China procura, de certo modo, se adaptar e dialogar com o Brasil na medida em que sinaliza essa possibilidade de incorporar o Pix."

Por outro lado, a atitude dos Estados Unidos de criticar o sistema de pagamentos seria "claramente uma manifestação protecionista", avalia Menezes, pontuando que o Pix reduziu a dependência dos consumidores e comerciantes brasileiros das grandes bandeiras de cartões de crédito americanas, como Visa e Mastercard, que cobram taxas sobre as transações realizadas.

Segundo ele, ao oferecer pagamentos instantâneos e sem custos, o sistema brasileiro passou a disputar espaço com os modelos de negócios consolidados dessas empresas. Menezes acrescenta que o Pix também tem potencial para se tornar um instrumento de projeção tecnológica do Brasil, especialmente se vier a ser adotado ou servir de inspiração para países vizinhos na América do Sul.

Na avaliação do especialista, as vantagens oferecidas pelo sistema — como rapidez, praticidade e ausência de tarifas — ajudam a explicar seu sucesso. Ele observa ainda que as críticas americanas acabaram fortalecendo a identificação da população brasileira com o Pix, transformando uma ferramenta de pagamentos digitais em um tema de debate político.

"Quando, na verdade, trata-se de uma tecnologia muito útil para a população e para pequenos empreendedores."

No entanto, ele ressalta que ainda não está claro o que significaria, na prática, uma integração operacional entre o sistema brasileiro e os meios de pagamento digitais chineses.

Segundo o especialista, a viabilidade dessa integração dependeria tanto de conhecimentos técnicos quanto da adoção de padrões comuns que permitam a comunicação entre os sistemas. Carvalho lembra que a China já possui plataformas amplamente difundidas, como WeChat Pay e Alipay, que vêm ampliando sua interoperabilidade com cartões de crédito e outros meios de pagamento internacionais.

Para ele, "existe, de certo modo, essa abertura gradual, ou pelo menos um diálogo operacional dos modelos de pagamento digital chineses com os meios de pagamento que são mais comuns fora da China", o que pode facilitar futuras iniciativas de cooperação com modelos como o Pix.

Sobretudo, o professor vê a iniciativa chinesa mais como parte de uma estratégia para reduzir a dependência de infraestruturas financeiras controladas pelo Ocidente do que como uma tentativa de reproduzir o modelo brasileiro. Essa busca ganhou relevância, justifica, diante do uso crescente de instrumentos financeiros, como ferramentas de sanção e pressão geopolítica.

Nesse contexto, tanto o Pix quanto os sistemas chineses de pagamento digital seriam expressões de soberania econômica, capazes de ampliar a autonomia dos países sobre suas próprias transações financeiras.

"Eu acho que, como há uma evolução na direção de meios de pagamento digital, isso abre possibilidades de comunicação digital para essas transações financeiras", afirma. Ainda assim, o especialista avalia que o reconhecimento do Pix por autoridades e instituições chinesas demonstra que o sistema brasileiro já é visto internacionalmente como uma inovação relevante no campo financeiro.

Para o professor, a credibilidade do Pix decorre de sua ampla adoção e do histórico de funcionamento no Brasil. Ele destaca que o sistema foi amplamente testado em um país de dimensões continentais e grande população, sem registros de problemas que comprometessem sua segurança. "O fato de a China perceber o Pix como um meio de pagamento extremamente eficiente criado pelo Brasil, e que de fato já é bastante usado no Brasil, é um reconhecimento da capacidade brasileira de inovação financeira."

Na visão do especialista, até mesmo as críticas feitas pelos Estados Unidos podem ser interpretadas como uma demonstração indireta do sucesso alcançado pelo sistema brasileiro. De certa maneira, o Pix passou a incomodar interesses estabelecidos justamente por oferecer um modelo mais eficiente e sem custos.

"É um reconhecimento às avessas [...]. Estão atacando porque está incomodando, estão atacando porque o Pix está sendo mais eficiente, porque o Pix é melhor para o cidadão brasileiro."

Uma leitura semelhante é feita por Bruno de Conti, economista e professor livre-docente de economia internacional da Unicamp. Para ele, o interesse chinês em mecanismos como o Pix deve ser compreendido dentro de uma disputa mais ampla em torno do controle das infraestruturas financeiras globais.

Segundo o pesquisador, diversos países vêm buscando alternativas à predominância do dólar e dos sistemas de pagamento controlados por empresas e instituições sediadas nos Estados Unidos.

"Não tem dúvida nenhuma que a gente vive um momento de disputa geopolítica intensa, não só em relação à moeda global, com esforços de desdolarização pelo mundo afora, inclusive dos BRICS, mas também em relação aos sistemas de pagamentos", afirma. Na avaliação de De Conti, o avanço de soluções nacionais de pagamento instantâneo está ligado não apenas à busca por eficiência econômica, mas também à redução da vulnerabilidade dos países diante de eventuais sanções e pressões externas.

O economista destaca que essa preocupação não se limita a países como Brasil e China. Segundo ele, até mesmo governos europeus têm demonstrado receio em relação à dependência de empresas norte-americanas como Visa e Mastercard. "Tem sim uma corrida pela criação de infraestruturas alternativas que evitem o dólar e evitem as companhias estadunidenses", observa.

O especialista acrescenta que a disputa também envolve o controle de dados financeiros. Na sua avaliação, os sistemas de pagamento se transformaram em ativos estratégicos porque concentram informações valiosas sobre hábitos de consumo e transações econômicas.

"Quando a gente faz esses pagamentos, isso tudo vai alimentando uma base de dados que pode ficar na mão de empresas privadas ou não", explica. Nesse sentido, argumenta, o Pix reduz a dependência de plataformas privadas estrangeiras e fortalece a capacidade de gestão dos dados financeiros dentro do próprio país.

Sobre uma eventual integração entre o Pix e plataformas chinesas como Alipay e WeChat Pay, De Conti avalia que os benefícios potenciais são significativos, especialmente para as relações econômicas entre os dois maiores parceiros comerciais do Hemisfério Sul.

O professor ressalta que, atualmente, grande parte das operações financeiras internacionais ainda depende de bancos correspondentes e de mecanismos de liquidação vinculados ao sistema financeiro dos Estados Unidos. Como consequência, transações entre empresas brasileiras e chinesas frequentemente passam por instituições norte-americanas e são liquidadas em dólares.

Uma maior interoperabilidade entre os sistemas poderia, segundo ele, simplificar esse processo, reduzindo custos, prazos e riscos cambiais. Hoje, lembra o economista, transferências internacionais costumam levar de dois a três dias úteis para serem concluídas, período em que as oscilações cambiais podem gerar custos adicionais para importadores e exportadores. Uma infraestrutura mais integrada poderia reduzir essas incertezas e tornar as operações comerciais mais eficientes.

"O intuito tem que ser o de pagamento instantâneo, ou quase instantâneo."

Apesar das oportunidades, o especialista pondera que a aproximação entre os sistemas exige cautela regulatória. Para ele, a cooperação não deve significar a abertura irrestrita do mercado brasileiro para grandes plataformas estrangeiras. Na sua avaliação, cabe ao Banco Central garantir que eventuais acordos preservem o controle nacional sobre o Pix e evitem a concentração do mercado doméstico nas mãos de empresas estrangeiras.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

 

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