O
enigma tático da direita: por que ninguém ataca Flávio Bolsonaro enquanto ele
afunda?
A nova
pesquisa Genial/Quaest é um banho de água fria para Flávio Bolsonaro. O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva amplia sua vantagem no primeiro turno para
39% a 29%, e no segundo turno a diferença chega a 6 pontos percentuais. A
rejeição ao governo Lula caiu, a avaliação positiva subiu e o suposto verniz
moderado que o candidato tentava construir se desfaz. No entanto, o dado mais
revelador da pesquisa não está apenas nos números. Está na postura dos
adversários que lutam pelo mesmo espólio eleitoral.
Conforme
destaca análise de Ricardo Noblat no Metrópoles, com a solitária exceção de
Renan Santos, do Missão, os candidatos da direita se recusam a atacar
abertamente o líder nas pesquisas. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, o
ex-senador por Minas Gerais, Aécio Neves, e o governador de Minas Gerais, Romeu
Zema, são prisioneiros de uma covardia tática. Acreditam que não atacar Flávio
os posiciona como herdeiros naturais, como se o bolsonarismo raiz fosse um
testamento a ser lido após um naufrágio. É uma aposta contra a realidade.
Enquanto
Flávio sangra — com 58% dos eleitores desconfiando de seu envolvimento ilegal
no escândalo do Banco Master —, o silêncio cúmplice de Zema e Aécio não
conquista o eleitorado. Eles patinam com ínfimos 2% das intenções de voto. Em
vez de se apresentarem como alternativa viável de poder, preferem o papel de
aliados passivos, esperando que o imponderável aconteça. No Brasil da
jabuticaba, é fato que o acaso existe. Mas fazer do acaso uma estratégia de
campanha, enquanto se é conivente com a derrocada alheia, é uma confissão
involuntária de impotência política.
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A coragem solitária de Renan Santos
O
comportamento de Renan Santos se destaca justamente por ser a antítese dessa
miopia. Ao bater em Flávio sem piedade, chamando-o abertamente de ‘gângster’,
ele demonstra uma compreensão básica da disputa: só se cresce nesse campo
arrancando os votos do líder. Não há um imenso centro esperando para ser
ocupado por quem é educado. O eleitor bolsonarista não migrará para um
candidato que se comporta como um aliado leal. Ele migrará, se migrar, para
quem se mostrar mais forte e mais duro que o original.
Dentro
desse labirinto de contradições da direita, a posição do governador Ronaldo
Caiado talvez seja a mais emblemática. Tentando manter um pé no barco furado de
Flávio e outro na canoa da crítica ao Banco Master, ele pede que o candidato
‘dê explicações aos seus eleitores’. É uma crítica tão tímida que serve mais
para limpar a própria barra do que para ferir o adversário. A postura cautelosa
revela homens de pouco apetite para o risco real do poder.
Se a
direita não enfrenta suas próprias mazelas internas, o campo progressista se
beneficia diretamente. A pesquisa mostra Lula avançando onde importa. O
presidente disparou entre os eleitores independentes, um grupo decisivo que
agora o favorece com uma vantagem de 13 pontos no segundo turno (37% a 24%).
Além disso, a desaprovação do governo caiu de 52% para 49% em apenas um mês,
enquanto a aprovação subiu para 46%. O saldo negativo que assombrava a gestão
federal encolheu de 9 para apenas 3 pontos percentuais.
A
agenda de entregas do governo e a percepção de uma economia mais robusta
começam a furar a bolha da rejeição. Enquanto a oposição luta contra seus
próprios fantasmas, o lulismo volta a demonstrar sua resiliência gravitacional:
a capacidade de atrair setores para além da própria base partidária.
O
derretimento de Flávio Bolsonaro é um fato concreto. A descoberta política,
porém, é a covardia de seus concorrentes. Eles assistem, inertes, enquanto o
barco da extrema-direita faz água, sem coragem de lançar o arpão que poderia
afundá-lo de vez. Preferem rezar por um milagre a arriscar o dedo. Enquanto
isso, seguem sendo coadjuvantes nanicos em uma tragédia que não controlam,
deixando o caminho cada vez mais pavimentado para que o presidente Lula
consolide sua dianteira rumo a 2026.
• Michelle sinaliza apoio a Flávio
Bolsonaro, mas manda recado a “escarnecedores e traidores”
A
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro indicou que pretende apoiar a
pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas apenas
“no momento certo”. A declaração, acompanhada de críticas a supostos
“escarnecedores” e “traidores”, evidenciou o clima de tensão que marca os
bastidores do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Presidente
nacional do PL Mulher, Michelle afirmou que continuará atuando para ampliar o
apoio entre o eleitorado feminino e evangélico, considerado estratégico para a
direita nas eleições de 2026. No entanto, a ausência de uma manifestação mais
enfática e imediata em favor de Flávio gerou desconforto entre aliados do
senador, que esperavam um gesto público de unidade familiar.
Nos
últimos dias, Michelle também utilizou as redes sociais e eventos partidários
para responder a críticas de apoiadores. Sem citar nomes, ela condenou o que
classificou como oportunismo e falta de respeito, em mensagens interpretadas
como direcionadas a antigos aliados e influenciadores ligados à ala mais
radical do bolsonarismo.
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Crise se agrava com desgaste de Flávio
O
distanciamento ocorre em um momento delicado para a pré-candidatura de Flávio
Bolsonaro. O senador enfrenta desgaste político após o vazamento de áudios e
informações relacionadas à sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro,
ex-controlador do Banco Master e alvo de investigações sobre supostas fraudes
financeiras.
O
episódio aprofundou disputas internas no entorno bolsonarista. Integrantes
ligados aos filhos do ex-presidente passaram a suspeitar que pessoas próximas a
Michelle teriam contribuído para o vazamento das informações, tese rejeitada
pelo grupo da ex-primeira-dama. Aliados dela atribuem a divulgação dos fatos ao
avanço das investigações conduzidas por órgãos federais.
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Divergências chegam aos estados
As
divergências também se refletem na montagem de palanques regionais para as
eleições de 2026. No Ceará, por exemplo, aliados de Michelle apoiam nomes que
enfrentam resistência entre os filhos de Jair Bolsonaro, ampliando os sinais de
fragmentação dentro do grupo político.
Apesar
das tensões, integrantes do Partido Liberal avaliam que Michelle continua sendo
uma das figuras mais influentes do campo conservador e que seu eventual
engajamento na campanha presidencial poderá ser decisivo para mobilizar
segmentos importantes do eleitorado. Até lá, porém, a ex-primeira-dama mantém a
estratégia de adiar um endosso explícito a Flávio Bolsonaro, alimentando
dúvidas sobre o grau de unidade da família às vésperas da disputa eleitoral.
• Malafaia descarta filhos de Bolsonaro e
aponta novo líder da direita
O
pastor Silas Malafaia afirmou, durante entrevista a um podcast, que o legado
político do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não será levado adiante por
nenhum de seus filhos, mas por outra pessoa.
Quando
questionado sobre quem seria, então, esse novo líder da direita brasileira,
Malafaia respondeu sem titubear: Nikolas Ferreira.
A
declaração de Silas Malafaia expõe um profundo racha no núcleo duro do
bolsonarismo, que se estabeleceu desde o anúncio da pré-candidatura de Flávio
Bolsonaro à Presidência da República. O pastor, o deputado Nikolas Ferreira e a
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro são acusados de não dar suporte ao nome do
filho 01 na disputa pelo Palácio do Planalto.
“Nikolas
é o futuro. Na minha visão, Nikolas é o futuro. Ele está amadurecendo, está
crescendo… já fiz críticas a ele, críticas pessoais […] estou falando da minha
concepção. Para mim, não vai ser um filho do Bolsonaro que vai ser herdeiro de
Bolsonaro […] o herdeiro [de Jair Bolsonaro] chama-se Nikolas.”
• Ciro Nogueira, irritado com traição de
Flávio Bolsonaro, deve dar o troco usando o PP
Na vida
real de Brasília, a política se move pela lógica do pragmatismo, mas é o
sentimento de traição que costuma ditar o tamanho das vinganças. A relação de
intensa proximidade que unia o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato
à Presidência da República, e o presidente nacional do Progressistas (PP),
senador Ciro Nogueira (PI), ruiu por completo. O motivo da fúria da cúpula do
PP foi a postura adotada pelo filho 01 de Jair Bolsonaro após a deflagração da
recente operação da Polícia Federal que mirou Nogueira no escândalo envolvendo
o Banco Master, semanas atrás. Dirigentes de diversas siglas aliadas notaram
que o clima entre os dois caciques políticos azedou de forma irreversível e que
Ciro, movido por uma indignação profunda, já prepara um troco amargo que pode
implodir os planos presidenciais do PL.
O
esfacelamento da aliança expõe uma faceta frequentemente apontada por críticos
e ex-aliados do clã extremista: o hábito de rifar seus próprios “soldados” na
primeira tempestade judicial. Quando a Polícia Federal bateu à porta de Ciro
Nogueira para investigar repasses mensais vinculados ao magnata criminoso
Daniel Vorcaro, o comitê de Flávio Bolsonaro abandonou o parceiro de primeira
hora e acionou o modo de autopreservação. Em vez de manifestar qualquer gesto
de solidariedade pública ao homem que comandou a Casa Civil no governo de seu
pai, Flávio optou por uma nota fria e contundente, afirmando que acompanhava
com atenção e considerava graves as informações divulgadas pela imprensa,
emendando que fatos dessa natureza deveriam ser apurados com rigor e transparência
pelas autoridades competentes.
Para
Ciro e seus correligionários, o tom da declaração de Flávio foi o pior
possível. A rasteira se tornou ainda mais dolorosa quando comparada ao
comportamento de outras lideranças de peso, como o presidente do próprio PL,
Valdemar Costa Neto, e o ex-presidente golpista Michel Temer (MDB), que
adotaram posturas muito mais cautelosas e ponderadas. O posicionamento de
Flávio foi avaliado pela bancada do PP como o mais hostil e desleal de todo o
arco político da direita, um verdadeiro ato de desprezo contra quem vinha se
mantendo na trincheira de oposição ferrenha ao governo do presidente Lula (PT).
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O tamanho do prejuízo e o recuo estratégico
A ira
de Ciro Nogueira tem o potencial de causar um estrago gigantesco na estrutura
de campanha construída pelo PL. Até o estouro do escândalo, o casamento
político entre as duas legendas estava praticamente selado. O PP articulava
formalmente a indicação do candidato a vice-presidente na chapa de Flávio, que
chegou a declarar publicamente que Ciro era o seu “vice dos sonhos”.
Mais do
que uma indicação protocolar, o apoio do Progressistas garantiria ao PL uma
robusta coalizão partidária e uma máquina eleitoral imbatível no rádio e na
televisão. Com o PP no barco, a coligação de Flávio abocanharia um tempo de
antena no horário eleitoral gratuito que representaria o dobro do espaço
destinado à campanha do presidente Lula. Agora, todo esse precioso latifúndio
eleitoral e o apoio capilarizado da máquina do PP estão escorrendo por entre os
dedos do clã Bolsonaro.
Como
reação direta ao que classificam como uma molecagem política, Ciro Nogueira
acionou os freios e iniciou uma manobra de isolamento. O plano de dar o troco
já está em curso: o Progressistas deve abandonar a aliança nacional com o PL e
decretar neutralidade absoluta na disputa pela Presidência da República. Embora
lideranças da sigla argumentem de bastidor que a opção pela neutralidade sempre
esteve no radar devido às complexas e divergentes realidades regionais nos
estados, onde o partido frequentemente divide palanques com o PT, as conversas
pela coligação com Flávio haviam avançado de forma decisiva nos últimos meses.
A mudança drástica de rota e o recuo estratégico atual são apontados de forma
unânime como um revide pessoal e deliberado de Ciro ao gelo que recebeu do 01.
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Convenção nacional e o isolamento do PL
O
entendimento compartilhado pelos aliados mais fiéis ao presidente do PP é de
que Flávio Bolsonaro foi incapaz de demonstrar o mesmo nível de lealdade e
comprometimento que Ciro entregou ao grupo nos últimos anos. A avaliação de
bastidor é que a família Bolsonaro busca submissão cega de seus parceiros, mas
oferece em troca o abandono público diante de qualquer contratempo com as
autoridades judiciais. O ódio visceral que Ciro Nogueira nutriu por Flávio após
o episódio transformou uma negociação que era puramente técnica em uma questão
de honra pessoal.
A
decisão final do Progressistas sobre o seu posicionamento na corrida
presidencial só será oficializada e tornada pública durante a convenção
partidária nacional da legenda. No entanto, os emissários de Ciro já espalham o
recado pelos salões de Brasília: o PP não servirá de escada para quem não sabe
honrar compromissos. Sem o tempo de TV do PP e sem a capilaridade dos prefeitos
e deputados da sigla pelo país, a candidatura de Flávio Bolsonaro corre o risco
de murchar em um isolamento precoce, que aliás já está acontecendo. O troco
arquitetado nos gabinetes do Progressistas promete mostrar ao clã que, no
tabuleiro do poder, o desprezo e a traição costumam custar extremamente caro.
Fonte:
O Cafezinho/Fórum

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