segunda-feira, 15 de junho de 2026


 

Marcos Antonio da Silva Filho: A disputa pelo significado

A cena política contemporânea parece presa a um paradoxo. Nunca tivemos tantos dados, gráficos, estudos, checagens e diagnósticos sofisticados circulando publicamente e, ainda assim, setores progressistas seguem acumulando derrotas estratégicas importantes.

A extrema direita avança em corações e mente, com vitórias eleitorais acachapantes, ocupa imaginários, reorganiza afetos e impõe sua agenda, pauta o debate enquanto parte significativa da esquerda permanece aprisionada a uma imagem liberal da política e da modernidade europeia, baseada no convencimento racional e na imagem segundo a qual o melhor argumento, sustentado por evidências empíricas, melhores razões e boa-fé racional, acabaria prevalecendo.

O problema é que a disputa política contemporânea não ocorre no plano dos argumentos, dos fatos e dos dados. Ela ocorre, sobretudo, no plano das normas que organizam o próprio significado dos fatos, ou seja, no plano da gramática que articula o significado e os critérios pelos quais avaliamos fatos.

Essa percepção torna-se particularmente visível quando observamos o crescimento do trumpismo, do bolsonarismo, da extrema direita na europa e em paíse vizinhos como na Argentina, Chile ou Paraguai e do colapso progressivo do direito internacional liberal, especialmente no papel da ONU frente a tantos massacres, especialmente na Palestina. Há uma tendência recorrente em setores progressistas de interpretar esses fenômenos como efeitos de ignorância, manipulação, mau-caratismo de alguns indivíduos ou desinformação.

Essa leitura é confortável, mas insuficiente. Existe uma parcela expressiva da base da extrema direita que se reconhece positivamente em discursos de força, autoridade, hierarquia, conflito e supremacia. Em muitos casos, trata-se de uma moral guerreira rudimentar, mas politicamente eficaz, que recupera elementos da crítica de Friedrich Nietzsche à moral dos fracos, agora traduzidos em linguagem reacionária. Isso não significa aderir a Nietzsche politicamente, mas reconhecer que reduzir o fenômeno ao erro epistêmico ou cognitivo impede compreender sua força afetiva e normativa, ou, em uma palavra, gramatical.

A extrema direita não disputa crenças empíricas ou dados científicos. Ela disputa critérios que organizam normativamente reconhecimento, autoridade, valores e pertencimento. Em outras palavras, disputa a gramática. Duvidar que a terra é redonda, não é duvidar de um fato, é desafiar a gramática da ciência, da evidência, do ocidente, da negociação, da simetria, do convencimento pelo melhor argumento.

Robert Fogelin, em seu clássico texto sobre desacordos profundos (1985), mostrou que certos conflitos não se organizam em torno de conclusões distintas sobre os mesmos dados, mas em torno de desacordos sobre o que conta como evidência, argumento legítimo, valor relevante, ou mesmo, o que conta como fato. Nesses casos, mais dados não resolvem o impasse, porque os próprios critérios de avaliação estão em disputa.

A divergência não é apenas factual. Ela é gramatical, entre imagens de mundo distintas que organizam os critérios e valores pelos quais avaliamos fatos básicos de nosso cotidiano. Depois que uma gramática está consolidada, os procedimentos estão acordados, os critérios estão claros, a determinação de verdade (ou falsidade) é algo sem importância filosófica maior. Mas se a própria gramática articula o significado de procedimentos e o seu valor estiver em dúvida, ou sob ataque, como determinar a verdade?

Essa intuição já estava presente em Ludwig Wittgenstein, especialmente em Sobre a certeza (1969). Ludwig Wittgenstein mostrou que nossas práticas cotidianas repousam sobre certezas fulcrais, isto é, crenças implícitas que não funcionam como hipóteses empíricas comuns, mas como dobradiças normativas, eixos conceituais que estruturam o sentido de nossas práticas mais básicas e cotidianas.

Essas certezas não são e não precisam ser continuamente verificadas. Elas são herdadas socialmente quando somos inseridos nos jogos de linguagem mais cotidianos e organizam o que conta como prova, autoridade, racionalidade, evidência, obviedade e absurdo. Certezas fulcrais são o ponto de apoio tácito de onde partimos para avaliar fatos e todo o resto (XAVIER e SILVA, 2023). É o eixo implícito herdado que articula tudo que é explícito (ou explicitável).

É precisamente aqui que a disputa política contemporânea precisa ser recolocada. A esquerda frequentemente insiste em disputar fatos quando o conflito político ocorre em torno das regras que organizam o significado dos fatos e os critérios pelos quais os avaliamos. A esquerda liberal insiste em apresentar evidências empíricas para sujeitos que operam a partir de gramáticas normativas distintas. Age como se estivéssemos em uma ágora iluminista simétrica, quando jamais houve simetria de poder, acesso, recursos ou reconhecimento.

Isso não significa abandonar a verdade ou aderir ao relativismo. A mentira corrói vínculos sociais e destrói condições mínimas de confiança coletiva. O problema é outro. O problema é imaginar que a política possa ser reduzida à pedagogia racional (e moral) de indivíduos isolados. Política é também estratégia, organização, correlação de forças, disputa institucional, ocupação de espaços e reorganização das condições normativas que estruturam os nossos jogos de linguagem, a nossa gramática. O que vamos fazer com as regras implícitas dos nossos jogos?

O jogo da racialização existe muito antes de mim, não depende do meu gosto ou de meus desejos, mesmo que eu não queira jogar, o jogo vai continuar operativo, sendo jogado através de mim, por mim, contra mim. Como tomar as regras do jogo? Se César for o senhor da gramática, como tomar do César a sua gramática?

É nesse contexto que proponho compreender a política contemporânea a partir do conceito de soberania gramatical (Silva, 2026). Por soberania gramatical entendo a capacidade coletiva de explicitar, disputar, sustentar e transformar as regras que organizam o significado de nossas práticas regradas: se um assenhoramento crítico das regras de nossos jogos de linguagem.

Não se trata de decidir arbitrariamente o significado de palavras, mas de disputar as inferências materiais que organizam os conceitos de nossos jogos de linguagem, e os critérios que articulam reconhecimento, autoridade, legitimidade e pertencimento em nossas práticas cotidianas. Em outras palavras, soberania gramatical designa autodeterminação normativa de nossos jogos de linguagem, ou seja, uma política de disputa pela gramática.

Inspirada em ferramentas conceituais de Wittgenstein (1969) e Robert Brandom (1994, 2000), essa perspectiva neopragmatista parte da ideia de que linguagem não é apenas representação do mundo, mas prática normativa. O significado de nossos conceitos mais básicos não é uma essência escondida nas coisas nem uma entidade mental privada. Significado é uso socialmente organizado por inferências materiais, autorizações e proibições (Silva, 2026).

Quando dizemos “democracia”, “violência”, “terrorismo”, “família”, “liberdade” ou “civilização”, não estamos designando coisas no mundo para descrever fatos. Estamos ativando redes inferenciais historicamente sedimentadas que organizam modos de agir, sentir, justificar, incluir, excluir e punir.

Isso se torna particularmente evidente em certos conflitos contemporâneos, como no debate recente sobre a privatização dos rios do Pará. O que estava em disputa ali não era apenas uma decisão técnica sobre economia e gestão hídrica, mas um choque normativo entre formas de vida: se disputava a própria gramática através da qual o rio deve ser compreendido. Para uma gramática colonial e extrativista, o rio aparece como recurso, infraestrutura, uma mercadoria ou ativo econômico. Para populações ribeirinhas, indígenas e comunidades tradicionais, o rio é território vivido, memória, ancestralidade, sustento e forma de existência. Temos aqui um conflito entre gramáticas, e não apenas econômico ou social.

Não se trata de relativismo. Trata-se de reconhecer que jogos de linguagem emergem de formas de vida situadas, organizadas por necessidades materiais, valores, afetos e práticas específicas (Silva, Xavier, Andrade, 2026). A extrema direita compreendeu algo decisivo que parte da esquerda ainda resiste em admitir: jogos de linguagem possuem fulcros. Jogos de linguagem não são rizomas. Nossas práticas cotidianas possuem eixos normativos que organizam grande quantidade de inferências matérias, critérios, normas e estabilizam historicamente práticas coletivas inteiras.

Esses fulcros possuem alta densidade inferencial e enorme inércia normativa. Uma vez estabilizados, tornam-se normativa e psicologicamente protegidos. Questioná-los produz desconforto, ressentimento e reações violentas. Não porque sejam logicamente irrefutáveis, ou necessidades metafísicas, mas porque articulam e fixam o significado de coisas muito básicas, como identidades, pertencimentos e formas de vida inteiras. A cisgeneridade, por exemplo, opera muitas vezes como certeza fulcral de muitos jogos de linguagem. A branquitude também. O individualismo liberal igualmente. O mesmo vale para certas concepções de racionalidade, propriedade, progresso e civilização herdadas do colonialismo europeu.

Esses fulcros ou eixos normativos de nossas práticas regradas cotidianas não são derrotados simplesmente por demonstrações empíricas, ou pela apresentação de mais dados e mais gráficos. Eles precisam ser desafiados e deslocados por pressão coletiva, reorganização institucional, transformação material e disputa de gramáticas. É aqui que entra aquilo que tenho chamado de alavancagem gramatical (SILVA, 2026b; SILVA, 2026c).

Inspirado em um modelo expressivista, inferencialista e neopragmatista periférico, propomos pensar a política como intervenção estratégica sobre fulcros normativos (SILVA, XAVIER, ANDRADE, 2026). Uma alavanca só produz deslocamento porque encontra um ponto de apoio adequado. O mesmo ocorre na política. Uma estrutura muito maior que nós pode ser deslocada com a força coletiva correta, no ponto fulcral correto, com a alavanca correta. Existem conceitos, imagens e práticas capazes de produzir fissuras em gramáticas aparentemente estáveis. Chamo esse processo de epifania gramatical (Silva, 2026).

Uma epifania gramatical pode ser provocada. Ativistas encontram fulcros em nossas formas de vida e os desafiam. A epifania de encontrar novos caminhos numa gramática antiga, ocorre quando um jogo de linguagem que parecia natural, necessário e inevitável passa a ser percebido como histórico, contingente e, por tanto, transformável. A epifania, como a percepção de novas possibilidades, pode surgir de múltiplas formas.

Quando alguém percebe um novo caminho dentro do caminho cotidiano que sempre percorreu. Quando sujeitos historicamente isolados passam a se reconhecer como parte de um grupo ou de uma classe. Quando o velho caminho de vergonha se transforma em orgulho (orgulho gay, orgulho trans, orgulho negro etc.). Quando o impossível começa a parecer possível. Quando aquilo que se apresentava como universal revela-se apenas uma perspectiva entre outras, como a branquitude.

Ativistas, artistas, filósofos e movimentos populares frequentemente operam exatamente nesse nível. Produzem epifanias gramaticais, rachaduras no campo do possível. Expandem o espaço lógico de uma comunidade. Desafiam gramáticas naturalizadas. Mostram que podemos tomar a gramática do César. É isso que explica o profundo desconforto gerado por movimentos antirracistas, transfeministas, indígenas ou quilombolas. Eles não ameaçam apenas opiniões individuais. Eles pressionam os fulcros normativos que organizam gramáticas inteiras.

Nesse ponto, torna-se fundamental distinguir perspectivas.

Jogos de linguagem assim como nichos ecológicos possuem perspectivas, afinal o meio em que estamos proporciona oportunidades de ação diferentes de acordo com nossas histórias, e nossas perspectivas. O predador e a presa não habitam o mesmo mundo normativo, ainda que ocupem o mesmo espaço físico. Assim como o opressor e o oprimido. Uma pedra no caminho oferece um bom exemplo para compreender essa dinâmica. Ela é um fenômeno objetivo. Mas ela não possui um único significado universal inscrito nela mesma. Dependendo do nicho ecológico e da perspectiva situada no jogo de linguagem, uma pedra pode funcionar como abrigo, como obstáculo, como arma, como ferramenta, como ameaça ou como refúgio.

Malcolm X compreendeu isso de maneira radical. Seu rompimento com o integracionismo liberal não era simples radicalização retórica. Era percepção de assimetria estrutural de perspectivas antagonicas em jogos de linguagem e práticas injustas. Malcolm recusava a ideia de que negros deveriam implorar reconhecimento ao opressor. Sua crítica ao “Uncle Tom” apontava precisamente para o sujeito que internaliza a gramática dominante e passa a protegê-la mesmo quando ela organiza sua própria subordinação.

Uncle Tom é um vassalo gramatical trabalhando para que a gramática de opressão seja aceita e reproduzida. A questão para Malcolm X não era apenas direitos civis. Era autodeterminação. Era disputa de poder. Era recusa do assimilacionismo. Era soberania gramatical (Silva, 2026c).

Essa discussão se aproxima profundamente da leitura de Clóvis Moura sobre o Quilombo dos Palmares (2022). Na interpretação de Moura, Palmares não foi mero refúgio defensivo nem tentativa de integração gradual à ordem colonial. Palmares constituiu uma ruptura política organizada contra a gramática colonial e moderna da escravidão. Ali se instituíram formas próprias de autoridade, pertencimento, economia, proteção e reconhecimento.

Tratava-se de uma contra-gramática. Palmares desafiava elementos centrais da gramática colonial e moderna, como o individualismo, a submissão racial, a separação rígida entre corpo e razão, entre teoria e prática, a inferiorização da ancestralidade africana e a destruição dos vínculos comunitários. No lugar disso, afirmava território, corpo vivido, coletividade, memória, interdependência, integração com a natureza, ancestralidade, autodefesa e auto determinação.

Por isso, proponho compreender Palmares como paradigma de aquilombamento normativo, em diálogo também com Beatriz Nascimento (2021). Aquilombar-se não significa isolamento romântico nem pureza identitária de um grupo minorizado. Significa construção coletiva de espaços soberanos capazes de sustentar normativa e materialmente formas de vida próprias diante da violência gramatical colonial. (Santana e Silva, 2025; Praxedes Silva, 2025). Toda colonização é também a captura e predação de uma gramática, de uma forma de vida.

O colonialismo não impôs apenas ocupação territorial e exploração econômica. Impôs critérios alheios de ação, de sentido e de inteligibilidade. Determinou quem era racional, humano, civilizado ou digno. A soberania gramatical emerge justamente como recusa sistematica e coletiva dessa predação da gramática (Silva, 2026b; 2026c). A soberania gramatical ou a autodeterminação normativa de um grupo minorizado exige autoproteção, autodefesa, autogoverno, disciplina coletiva e organização estratégica.

Não se trata de essencialismo. Nem de separatismo absoluto. Trata-se de reconhecer assimetrias reais de poder, de acesso, de recursos. Uma comunidade constantemente submetida à violência gramatical não pode depender exclusivamente da benevolência do opressor para existir.

Não vai implorar pela sua liberdade, vai ter que conquistá-la também através da autodeterminaçao de sua própria gramatica, ou seja, pela soberania coletiva de determinar os critérios e normas pelos quais vão jogar os seus próprios jogos. Isso exige abandonar certas ilusões liberais profundamente arraigadas. A principal delas é a fantasia da neutralidade e simetria. Não existe espaço público neutro. Toda gramática estabiliza perspectivas específicas. O chamado universal frequentemente funciona apenas como perspectiva dominante invisibilizada.

Esse colonialismo gramatical não opera por coerção explícita. Opera por desejo. Faz a vítima desejar reconhecimento do próprio sistema que a inferioriza. Esse é talvez um dos aspectos mais sofisticados da dominação contemporânea. Extrair valor não apenas explorando corpos, mas capturando desejos, dominando a gramática do desejo. Fazer a vítima desejar os produtos do opressor. Desejar integrar-se à gramática que a subordina.

Nesse sentido, a esquerda frequentemente se desmobiliza ao imaginar que inclusão simbólica em instituições existentes já constitui vitória suficiente. Mas integração não é soberania. Representação sem reorganização normativa dos jogos de linguagem frequentemente apenas administra a subordinação.

A disputa política contemporânea exige algo mais profundo. Exige capacidade de construir instituições, vínculos, formas de proteção e contra-gramáticas capazes de sustentar formas de vida no desafio da gramática dominante. Isso não significa abandonar alianças amplas nem recusar toda negociação. Significa reconhecer que não existe negociação simétrica quando uma das partes organiza sua prática a partir da negação da humanidade da outra.

A extrema direita compreende perfeitamente a dimensão estratégica da política. Ela disputa corações, mentes, afetos, símbolos, imaginários e pertencimentos. Ou seja, ela disputa a gramática há muito tempo. Constrói redes e eixos. Ocupa espaços. Protege e alavanca suas certezas fulcrais. E parte importante da esquerda continua reagindo apenas no plano moral e epistêmico, denunciando a ignorância de alguns grupos ou da imoralidade de alguns indivíduos.

Continua apostando que mais dados e mais fatos bastarão para iluminar a alma de alguns. Não bastarão. É necessário compreender que política envolve a organização normativa de formas de vida. Envolve sustentação coletiva. Envolve disputa sobre o que conta como razão, valor e humanidade. A linguagem, nesse contexto, não é espelho. Também não é apenas lâmpada. Ela é alavanca. Com o fulcro adequado, pequenas forças organizadas podem mover estruturas muito maiores.

Essa talvez seja a principal lição política do presente. Quem não disputa gramáticas continuará apenas reagindo às gramáticas do adversário. E quem não constrói soberania gramatical permanecerá vulnerável à captura e predação normativa organizada por poderes externos. Não há transformação política profunda sem disputa pela gramática e reorganização normativa e material das certezas fulcrais de nossos jogos de linguagem, como o jogo da racialização ou da generificação, ou da subordinação de uma classe por outra, por exemplo.

A luta contemporânea é também uma luta pelo significado. Mas, mais profundamente, é uma luta pelas regras e normas que articulam o significado de tudo aquilo que somos capazes de imaginar, reconhecer e viver, ou seja, é uma luta gramatical também. Não reconhecer isto significa continuar perdendo.

 

Fonte: A Terra é Redonda

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