segunda-feira, 15 de junho de 2026

A “emenda Master” que colocou o PL no centro da crise

Quando o Banco Master começou a afundar, alguém no Congresso Nacional tratou de agir. O deputado federal Filipe Barros (PL-PR), aliado declarado do bolsonarismo, transformou seu mandato e a presidência de uma comissão da Câmara em instrumentos de pressão sobre reguladores financeiros. O alvo era proteger os interesses de Daniel Vorcaro, ex-CEO do banco — e, por tabela, seus próprios investidores.

Levantamento do Globo em dados públicos mostra que, entre novembro de 2024 e setembro de 2025, Barros apresentou sete requerimentos e um projeto de lei, além de promover uma audiência pública. Tudo isso enquanto o Master atravessava sua pior crise e Vorcaro atuava nos bastidores para conseguir mudanças regulatórias favoráveis ao banco e viabilizar a venda da instituição para o BRB.

O conjunto de ações levanta uma questão incômoda: um deputado federal usou sua cadeira para proteger um banqueiro investigado?

A primeira movimentação de Barros foi um projeto de lei. Ele propôs ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por aplicação financeira. A mudança beneficiaria diretamente o modelo de negócios do Master, que captava recursos oferecendo rendimentos bem acima da média do mercado — justamente porque os investidores sabiam que o FGC cobria eventuais perdas.

O texto guardava semelhança notável com a chamada “emenda Master”, proposta pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) em uma PEC no Senado. Aquela emenda, no entanto, foi rejeitada. Mais do que isso: a investigação revelou que a minuta da proposta de Ciro foi redigida por funcionários do próprio banco e entregue pessoalmente na residência do senador, a mando de Vorcaro.

Barros admitiu ao Globo que elaborou seu projeto depois de tomar conhecimento da iniciativa de Ciro, que considerou uma “boa ideia”. Segundo ele, o objetivo era proteger investidores de eventuais prejuízos. Ainda assim, o deputado negou ter conversado com Ciro sobre o assunto e afirmou que nem ele nem seus assessores mantiveram contato com Vorcaro.

O projeto durou pouco. Em fevereiro deste ano, após a liquidação do Master e a primeira prisão do banqueiro, Barros o retirou de tramitação.

A situação ficou ainda mais curiosa quando Barros assumiu a presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara. A sigla já entrega o propósito do colegiado: política externa e defesa do país. Mesmo assim, em junho de 2025, Barros convidou o presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Pedro Nascimento, para uma audiência sobre soberania econômica e mercado de capitais.

Além disso, convocou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sob o pretexto de discutir ataques hackers ao sistema Pix. Naquele momento, o BC já havia identificado fraudes em carteiras de crédito vendidas ao BRB e debatia internamente se liquidaria o Master ou tentaria uma saída negociada. Galípolo optou por não comparecer.

Nascimento, por sua vez, aceitou o convite. Ele é amigo de infância de Flávio Bolsonaro e ocupa o cargo por indicação do governo Jair Bolsonaro. A sessão foi descrita por participantes como tensa.

Às vésperas da audiência com Nascimento, Barros apresentou um requerimento sobre supostos conflitos envolvendo a Previc e o BTG Pactual — banco apontado como principal rival de Vorcaro na Faria Lima. O timing chamou atenção.

Dez dias depois de depor à CREDN, Nascimento pediu demissão do cargo, com um ano ainda pela frente em seu mandato. Segundo relatos, ele disse a aliados que vinha sofrendo ameaças e citou diretamente o tratamento recebido na audiência da comissão.

Nascimento teria afirmado, ainda, que Barros e outros deputados acionaram uma espécie de tropa de choque em defesa do Master. Parte das ofensivas viria de reportagens publicadas por veículos que, posteriormente, foram associados a empresas financiadas por sócios de Vorcaro.

A saída de Nascimento da CVM, portanto, aconteceu logo após sua convocação forçada por uma comissão que tecnicamente não tinha competência para tratar do tema.

A pressão não parou na CVM. Em setembro, no mesmo dia em que o Banco Central recusou formalmente a compra do Master pelo BRB, Barros apresentou novo requerimento. Dessa vez, as perguntas miravam a diretoria do BC — especificamente a área comandada por Renato Gomes, que defendia a liquidação do banco.

Gomes também virou alvo de influenciadores de direita. A campanha contra ele fazia parte do chamado “Projeto DV”, financiado pelo próprio Vorcaro. O objetivo era desacreditar o Banco Central e enaltecer o Tribunal de Contas da União (TCU), que na época analisava o processo de liquidação do Master.

Assim, o padrão se repetia: cada vez que o regulador avançava contra o banco, um deputado bolsonarista aparecia para questionar, convocar ou pressionar. A coincidência de datas tornava difícil tratar tudo como acaso.

Para entender como Barros chegou à presidência da CREDN, é preciso lembrar que o cargo pertencia a Eduardo Bolsonaro. O filho do ex-presidente ocupava a cadeira até partir para o autoexílio nos Estados Unidos. Ao deixar o Brasil, Eduardo não deixou a influência para trás — ao menos, não completamente.

Em uma transmissão ao vivo, ele foi direto ao afirmar que manteria poder sobre a comissão por meio de Barros. “Eu acho que o Filipe Barros vai fazer uma grande presidência da Comissão de Relações Exteriores, é uma pessoa próxima. Para quem acha que eu não estar sentado naquela cadeira, eu perdi o poder da CREDN, negativo, tá?”, declarou.

E foi além: “Tenho o telefone dele, tenho falado com ele, e Deus quiser ele vai colocar adiante as mesmas pautas que eu ia botar”, disse Eduardo.

A declaração revela, sem meias palavras, que a cadeira mudou de ocupante, mas as ordens seguem a mesma origem. A CREDN virou um instrumento político à disposição de um grupo que, mesmo fora do governo, ainda tenta influenciar decisões econômicas e regulatórias do país.

O caso Filipe Barros ilustra com clareza o que acontece quando mandatos parlamentares se confundem com interesses privados — e quando a linha entre representar eleitores e defender banqueiros desaparece por completo.

•        Master: ex-sócio de Eduardo Bolsonaro foi escalado para propagar narrativa de “perseguição” ao banco de Vorcaro

ex-secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, André Porciúncula, atuou diretamente para favorecer o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master em uma ofensiva de pressão contra o Banco Central (BC) e instituições financeiras concorrentes. A revelação, publicada originalmente pela coluna de Malu Gaspar no jornal O Globo, insere o braço empresarial de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos no centro da crise que colapsou o grupo financeiro.

De acordo com os novos detalhes do caso, Porciúncula foi escalado para capitanear e sustentar a narrativa de que o Banco Master seria alvo de uma “perseguição coordenada” de rivais de mercado e de decisões técnicas da autoridade monetária. A estratégia visava transferir o foco das suspeitas de fraudes que pesavam sobre a instituição para o próprio órgão regulador.

<><> O rastro da mansão no Texas e a contradição patrimonial

A atuação política de Porciúncula na crise bancária cruza com a teia imobiliária já investigada pelas autoridades. Ele é o mesmo aliado que assumiu a propriedade de uma mansão de R$ 3,8 milhões no Texas. O imóvel em Arlington, nos arredores de Dallas, foi adquirido por meio do Mercury Legacy Trust, fundo gerido por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

A transação gerou alerta devido ao abismo entre o padrão de vida nos EUA e a realidade financeira informada às autoridades brasileiras. Quando disputou uma vaga na Câmara Municipal de Salvador pelo PL, o ex-secretário apresentou um patrimônio de apenas R$ 164 mil declarado ao TSE, composto basicamente por um veículo, uma motocicleta e cotas societárias de valor reduzido.

A ligação societária com o clã é antiga. Porciúncula, Paulo Generoso e Raquel Brugnera dividiram com Eduardo Bolsonaro o controle da Braz Global Holding LLC, aberta no Texas. O avanço das investigações mostra que a estrutura corporativa norte-americana servia de base para o círculo político do ex-deputado federal, que teve a perda do mandato decretada pela Mesa Diretora da Câmara por faltas consecutivas.

<><> Do colapso do Master ao financiamento de ‘Dark Horse’

A ofensiva de bastidores liderada por Porciúncula ocorreu paralelamente ao desmoronamento do grupo financeiro. O Banco Central colocou o Banco Master sob Regime de Administração Especial Temporária (RAET) e determinou a liquidação extrajudicial de suas principais controladas. A medida foi convertida em liquidação definitiva da holding bancária, selando o destino de Daniel Vorcaro no mercado regulado.

A crise ganhou contornos de escândalo político quando vazamentos de áudios revelaram o envolvimento direto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com os controladores do banco. Planilhas e mensagens apreendidas indicam que Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro para irrigar o projeto de Dark Horse, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.

Desse montante negociado, o Coaf identificou movimentações atípicas que apontam para o envio de pelo menos R$ 61 milhões ao exterior. O destino foi o Havengate Development Fund LP, outra estrutura sediada no Texas e sob a tutela de Paulo Calixto. Diante das evidências de evasão e lavagem de transações internacionais, a Polícia Federal planeja acionar o governo dos EUA para quebrar o sigilo do Havengate.

A suspeita de parlamentares governistas na CPMI do Banco Master é que os recursos de Vorcaro tenham abastecido uma complexa engrenagem de ativos imobiliários e operacionais para a extrema direita na América do Norte. Diante da pressão, a defesa de Eduardo Bolsonaro tentou blindar o ex-parlamentar afirmando que Calixto atua estritamente na gestão de fundos privados independentes, negando qualquer irregularidade nas remessas de dólares de Vorcaro para os EUA.

<><> Pinça política: Flávio no Senado, Eduardo no front externo

A nova camada trazida pela atuação de Porciúncula consolida a divisão de tarefas no clã bolsonarista para tentar salvar o esquema financeiro do grupo Master. Enquanto Flávio Bolsonaro operava a articulação política no Congresso, chegando a defender publicamente o banco e a pedir a instalação da CPI para tentar controlar os danos, o núcleo de Eduardo Bolsonaro garantia o suporte de narrativas de ataque às instituições de controle a partir do exterior.

O avanço da investigação sobre a rota internacional do dinheiro mira agora os registros de comunicações e agendas de Porciúncula. Os investigadores querem mapear se a blindagem digital e os ataques desferidos contra a diretoria do Banco Central contaram com o uso de estruturas pagas ou se faziam parte do acordo de financiamento do documentário da família.

•        Dark Horse: produtora declara custo de R$ 75 milhões em filme sobre Bolsonaro

A produtora Go Up Entertainment declarou que Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), teve custo de US$ 13,3 milhões, pouco mais de R$ 75 milhões, segundo perícia privada anexada ao processo que apura suspeitas de desvio de recursos de um contrato de R$ 108 milhões firmado pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) com a Prefeitura de São Paulo, segundo o Metrópoles.

O documento foi contratado pela própria Go Up e juntado à investigação sobre a suspeita de que recursos do contrato público teriam sido usados para financiar o filme. A representante do ICB, Karina Ferreira da Gama, também é dona da produtora e foi alvo de operação da Polícia Civil em 1º de junho.

A perícia aponta que os gastos declarados pela Go Up somam R$ 54,2 milhões nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil. A produção, prevista para ser lançada neste ano, tem elenco estadunidense, incluindo Jim Caviezel no papel de Bolsonaro, mas também contou com gravações em cidades brasileiras, entre elas São Paulo.

Segundo a produtora, o orçamento inicial aprovado para o longa era de US$ 16 milhões, o equivalente a R$ 89,7 milhões. O valor é R$ 44,8 milhões inferior ao montante que, segundo reportagem do The Intercept Brasil, teria sido negociado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em 2025.

O Intercept revelou diálogos de Vorcaro com o cunhado, Fabiano Zettel, e com o empresário Thiago Miranda sobre possíveis formas de pagamento para a produção. Uma das propostas previa 12 parcelas de US$ 1,6 milhão e outras duas de US$ 2 milhões, totalizando US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.

Em áudio enviado posteriormente a Vorcaro, Flávio Bolsonaro demonstrou preocupação com atrasos no patrocínio do Banco Master ao filme. A conversa ocorreu em 16 de novembro, um dia antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga uma fraude bilionária atribuída ao banco no mercado financeiro.

“Eu fico sem graça de ficar te cobrando, está em um momento muito decisivo aqui do filme. Tem muita parcela para trás, está todo mundo tenso, e eu fico preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou para o filme, né?”, disse o senador no áudio.

Na mesma mensagem, Flávio citou integrantes do elenco e da produção norte-americana. “Imagina a gente dando calote no Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos do cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou.

Após a divulgação, Flávio Bolsonaro reconheceu a autenticidade do áudio, mas declarou que os pagamentos feitos por Vorcaro foram legais, sem contrapartida. O valor efetivamente repassado ao filme pelo ex-banqueiro, por meio da empresa Entrepay, foi de US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões.

O relatório apresentado pela Go Up detalha os gastos em diferentes etapas da produção. Nos Estados Unidos, foram declarados US$ 383 mil para desenvolvimento do projeto, US$ 2,6 milhões em “soft-production”, US$ 2,6 milhões em pré-produção, US$ 1,9 milhão em produção e filmagem e US$ 1,9 milhão em pós-produção. No Brasil, a produtora declarou US$ 3,7 milhões em produção e filmagem.

A perícia afirma que, até terça-feira (10), o fundo Heavengate Development Fund LP, utilizado para captação de recursos, havia enviado US$ 13,3 milhões para o filme. No Brasil, os valores destinados à obra foram recebidos por meio de uma conta no Banco do Brasil, sendo a maior parte, R$ 18,4 milhões, via Pix.

“Quanto à origem dos recursos financeiros, a perícia constatou que os ingressos vinculados ao projeto possuem origem privada, comprovada por contratos de investimento, extratos bancários, documentos de remessa e demais registros financeiros disponibilizados para análise”, diz o documento elaborado pelo Instituto de Perícia Investigativa (IPI).

A Polícia Federal (PF) passou a investigar se recursos enviados por Daniel Vorcaro à produção de Dark Horse, por meio do fundo Heavengate Development, foram usados para financiar a permanência do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. O fundo tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, pertencente ao advogado Paulo Calixto, que representa o ex-parlamentar.

Eduardo vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Ele é acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de ter articulado sanções contra autoridades brasileiras junto a autoridades do hoverno Donald Trump

 

Fonte: O Cafezinho/Fórum/Brasil 247

 

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