Startup
americana tenta trazer ao Brasil antibiótico para laranja proibido na União
Europeia
EM
DEZEMBRO DE 2023, três funcionários do Mapa (Ministério da Agricultura e da
Pecuária) fizeram uma viagem a Orlando, nos Estados Unidos, junto com
representantes do Fundecitrus, uma fundação privada mantida por citricultores
de São Paulo. Na ocasião, realizaram uma visita a pomares da região afetados
pela doença chamada “greening dos citros” – o principal vilão da produção de
laranja no Brasil e no mundo.
Durante
a missão, a comitiva foi apresentada a um novo tratamento para a praga: uma
injeção à base da substância cloridrato de oxitetraciclina, conhecida pela
sigla OTC. Aplicado diretamente no tronco da árvore, o antibiótico busca salvar
as plantas do corte definitivo, a solução mais eficaz para combater a doença.
Na
época da visita à Flórida, a Invaio Sciences — uma startup norte-americana de
biotecnologia — já se articulava para levar o produto ao Brasil, maior produtor
mundial da fruta. A companhia tem como chefe global de desenvolvimento um
executivo brasileiro com passagens por Bayer, Syngenta e Monsanto. Desde
2019, mantém um escritório em São Paulo,
por meio do qual tem realizado parcerias com instituições de pesquisa e
entidades do agronegócio.
Animada
com a viagem dos técnicos do Mapa e com a aparente receptividade dos
agricultores em feiras do setor, a Invaio protocolou um pedido de testes
experimentais do antibiótico na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária) no final de 2023, de acordo com o Diário Oficial. Um ano depois,
solicitou o registro da OTC no Mapa para uso em citros.
A
Invaio afirma ter realizado testes com 6 mil árvores no cinturão citrícola
entre São Paulo e Minas Gerais, segundo sua newsletter. Mesmo em fase
experimental, começou a divulgar o pacote tecnológico, sob o nome de Trecise,
aos participantes na ExpoCritros, em Cordeirópolis (SP).
“Estamos
trabalhando duro para disponibilizar nossa solução aos produtores brasileiros,
e as expectativas do setor estão aumentando rapidamente”, disseAvram Slovic,
diretor-geral da Invaio no Brasil, em release publicado no site da empresa.
Por
aqui, até o momento, o uso da OTC só é autorizado na medicina veterinária — no
tratamento de bovinos de corte, por exemplo. O país seria o segundo a autorizar
o medicamento no combate à citros, após os Estados Unidos. Na União Europeia, a
OTC está proibida para uso agrícola desde 2002, por preocupações com a saúde
pública.
Ainda
em 2024, menos de um ano após a viagem e o início dos testes, a companhia
solicitou o registro da OTC no Mapa contra o greening nos citros. O
bactericida, usado no método Trecise, receberia o nome comercial Stryva.
O
pedido, no entanto, foi negado pelo Mapa e pela Anvisa (Agência Nacional de
Vigilância Sanitária). A justificativa oficial foi a de que a empresa tentou
registrar o Stryva como equivalente a um produto já existente no mercado
nacional, estratégia que acelera o processo e reduz a necessidade de estudos
adicionais. Falando sob condição de anonimato, uma fonte especializada em
vigilância resumiu: a Invaio Sciences tentou um “atalho” – e se deu mal.
Atualmente,
a oxitetraciclina não é aprovada para uso em plantas, de acordo com a base
oficial de agrotóxicos do governo, a Agrofit. Segundo a legislação brasileira,
a equivalência só é possível quando a empresa comprova a mesma “finalidade e
condições de uso” do ingrediente ativo.
Questionada
pela Repórter Brasil, a empresa não respondeu se pretende apresentar um novo
pedido, seguindo o processo completo de registro de agrotóxicos no país. Mas,
na rede social Linkedin, segue apresentando o antibiótico como uma das soluções
para as lavouras de laranja e informa que o produto estaria em “processo de
registro” – informação que, segundo o Ministério da Agricultura, não
corresponde à realidade.
“Se
houver interesse do registrante, este deverá realizar novo protocolo em todos
os órgãos como um pedido de registro de produto técnico novo. Neste momento,
não há pedido de registro em andamento”, informou o Mapa à reportagem por
e-mail em 14 de abril.
A
despeito da negativa do Mapa e da Anvisa, as redes da empresa no Linkedin
seguem incensando os resultados de testes realizados no país. A Invaio sustenta
que os achados mostrariam reduções de até 99,9% na carga bacteriana dos
pomares, além de uma diminuição significativa no número de plantas doentes. A
companhia também afirma ter realizado 12 ensaios de campo em diferentes regiões
do cinturão citrícola brasileiro, nos quais o tratamento teria reduzido a queda
de frutos em até 31%.
Olavo
Bianchi, engenheiro agrônomo do Fundecitrus, afirma que os citricultores
precisam de uma solução para a bactéria, mas devem ter cautela com o uso de
antibióticos, já que as pesquisas ainda são incipientes. A entidade tem uma
parceria estratégica com a Invaio para desenvolver soluções contra o greening,
e chegou a testar o produto, mas preferiu não dar detalhes.
“Os
estudos com antibióticos ainda se encontram em fase inicial, não havendo, até o
momento, resultados práticos consistentes de sua aplicação em campo. Portanto,
o manejo do greening deve continuar baseado na erradicação de plantas doentes e
no controle eficiente do psilídeo, inseto vetor da doença”, diz Bianchi.
Eduardo
Augusto Girardi, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa (Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária), afirma não haver cura ou tratamento
eficaz para a greening dos citros.
“Não
existe nenhuma molécula, nenhum remédio, nenhuma droga, nenhum produto químico
ou natural até hoje que tenha capaz de curar a planta de citros que tem a
bactéria. Não existe, infelizmente”, disse. “A ciência investiu milhões de
dólares no mundo todo, mas não encontrou nenhuma cura. Isso não existe, não é
uma verdade. As plantas continuam doentes”, resume.
<><>
Sem cura, por enquanto
Erradicar
o greening é o principal desafio da citricultura. Segundo dados do Fundecitrus,
que presta assessoria técnica a produtores rurais paulistas, a bactéria que se
aloja na planta foi a principal causa das 49,6 milhões de caixas perdidas da
fruta em todo o Brasil durante a safra 2025-2026, superando a quebra causada
pela falta de chuvas.
“Hoje,
aproximadamente 47,6% das 200 milhões de laranjeiras do cinturão citrícola de
São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro estão infectadas pela doença, e o
cenário está se agravando ano após ano”, afirma Olavo Bianchi, engenheiro
agrônomo do Fundecitrus. A maior parte da produção se concentra em São Paulo e
no Triângulo Mineiro, as duas regiões mais afetadas pela bactéria.
Segundo
dados da Embrapa, a doença alcança até 30% dos pomares em algumas regiões de
São Paulo e é quase impossível erradicá-la. A solução tem sido exterminar as
plantações e migrar o cultivo para áreas livres da doença, como o Norte e
Nordeste do país.
A
transmissão ocorre por meio de um pequeno inseto conhecido como psilídio, que
espalha o patógeno ao se alimentar dos brotos de árvores doentes. “Atualmente,
o manejo da doença baseia-se no controle do inseto vetor por meio do uso de
inseticidas, aliado à eliminação das fontes de inóculo da bactéria”, afirma
Bianchi.
Mas,
nos últimos anos, até mesmo esse método vem se mostrando ineficaz, já que os
insetos vetores estariam ficando resilientes aos principais inseticidas
utilizados no campo. “A resistência a determinados grupos químicos já está
presente em grande parte do cinturão citrícola. Dessa forma, os citricultores
devem realizar a rotação dos grupos químicos utilizados nas aplicações”,
explica Bianchi. As pulverizações são feitas rotineiramente.
Outra
estratégia é investir em prevenção, que começa com a produção de mudas
saudáveis. “Começar um plantio com uma muda doente é igual a começar um jogo de
futebol perdendo de 5 a 0. É quase impossível conseguir reverter. Quanto menos
plantas doentes, menos chance do psilídio se infectar”, descreve Girardi,
responsável pela Unidade Mista de Pesquisa e Transferência de Tecnologia do
Cinturão Citrícola da Embrapa.
<><>
Risco de gerar ‘superbactérias’
Conhecido
na medicina humana desde os anos 1950, o antibiótico oxitetraciclina também
ganhou espaço na pecuária. É utilizado há décadas para tratar infecções
respiratórias e feridas em bovinos, suínos, aves e peixes.
Especialistas,
contudo, veem com preocupação o uso expandido para plantas porque algumas
bactérias têm desenvolvido resistência ao grupo de substâncias ao qual pertence
a oxitetraciclina.
“O uso
de antibióticos na agricultura, apesar de representar uma fração relativamente
pequena do seu consumo global, pode contribuir para a seleção de bactérias
resistentes no ambiente, que podem se disseminar pelo solo, água e até cadeia
alimentar”, afirma a professora Adriana Pavesi Arisseto Bragotto, da Faculdade
de Engenharia de Alimentos da Unicamp.
Um
levantamento nacional da cadeia de frango no Brasil, publicado em 2021 no
periódico Epidemiology & Infection, mostrou como bactérias resistentes se
multiplicam. Em 2014, os pesquisadores constataram que 60,3% das amostras de
Salmonella coletadas em carne de frango eram resistentes às tetraciclinas. Em
2017, esse percentual já havia aumentado para 82,8%.
Esse
processo pode favorecer o surgimento de “superbactérias” em humanos, cujos
organismos já não respondem a nenhum tratamento. É o caso da MRSA
(Staphylococcus aureus resistente à meticilina), famosa por se alastrar em
hospitais e por ser resistente a diversos tipos de antibióticos.
Em um
caso ocorrido em 2009, um único bebê contaminado deu origem a um surto que
atingiu outros 11 recém-nascidos em uma UTI neonatal no Reino Unido. Outro
estudo, que acompanhou o comportamento da infecção ao longo de uma década na
região metropolitana de São Paulo, mostra que cresce a disseminação da MRSA de
forma comunitária, fora do ambiente hospitalar.
Em
resposta ao avanço da “resistência antimicrobiana”, como é conhecido o processo
de criação das superbactérias, a Assembleia Geral da ONU lançou em 2024 uma
declaração política que incentiva os países a seguir a abordagem de “Saúde
Única” (“One Health”).
Ao
assinar o documento, os países participantes, incluindo o Brasil, reconhecem
que o problema de saúde pública não se limita à medicina humana, mas também
está vinculado ao uso de antibióticos na agricultura e à contaminação
ambiental.
“Embora
o risco direto para o consumidor por meio da ingestão de frutas ainda não
esteja totalmente caracterizado, há um consenso crescente de que o uso de
antibióticos deve ser cuidadosamente avaliado dentro do conceito de Saúde Única
(One Health), justamente para evitar a amplificação da resistência
antimicrobiana”, afirma a professora.
No
combate à resistência microbiana, já na década de 1990, o Brasil proibiu o uso
de tetraciclinas em animais para promover o crescimento. Hoje, existem regras
específicas para o uso no tratamento de doenças animais, incluindo a
obrigatoriedade de acompanhamento veterinário.
Em
2021, o Mapa também implementou o programa de vigilância da resistência
antimicrobiana (AMR), que monitora a presença de bactérias resistentes em
animais e na produção de alimentos no Brasil.
A
especialista da Unicamp afirma que seria difícil avaliar o impacto da ampliação
do uso de oxitetraciclina em árvores cítricas. “Não há dados de monitoramento
no Brasil sobre oxitetraciclina em produtos de origem vegetal. Não existe um
limite máximo de resíduo definido para produtos agrícolas, pois a Anvisa não
possui monografia vigente para oxitetraciclina em alimentos vegetais”, explica.
Ou seja, a depender do que a ciência sabe hoje, a aprovação da OTC para
cítricos precisa percorrer um longo caminho de testes até se provar viável.
<><>
Alertas sobre riscos à saúde pública
Nos
Estados Unidos, a aprovação da OTC para citros em 2018 pela agência ambiental
dos Estados Unidos (EPA) enfrentou resistência de médicos, ambientalistas e até
de membros do Congresso.
Na
época, a Flórida havia sido devastada pela bactéria, perdendo mais de 70% da
produção de laranja e o lugar de liderança na indústria, e o desespero levou a
EPA autorizar, inicialmente, o uso emergencial do antibiótico em forma de spray
para aplicação nas folhas. Mais tarde, como injeção, como é o caso do
Trecise-Stryvia.
Em
2019, três senadores e quatro deputados americanos enviaram uma carta à
agência, expressando apreensão com as decisões da agência de aprovar o uso de
OTC em citros.
Apesar
do prejuízo econômico na região, os legisladores pediram que a agência
reavaliasse a sua decisão devido aos riscos à saúde pública. Questionaram a
falta de uma avaliação mais cuidadosa e exigiram provas de que os produtos
agrícolas à base de OTC eram seguros para consumo.
Na
mesma época, o CBD (Centro para a Diversidade Biológica), uma organização
ambiental nos Estados Unidos, coletou 45 mil assinaturas em um abaixo-assinado
contra o uso do antibiótico no campo.
À
Repórter Brasil, Nathan Donley, diretor de Ciências da Saúde Ambiental da CBD,
afirmou que a principal preocupação da organização era a disseminação de
bactérias resistentes. “O uso excessivo desses medicamentos nas plantas pode
levar ao desenvolvimento de resistência em patógenos. E as pessoas podem entrar
em contato com esses patógenos nos alimentos que compram no supermercado”,
explica.
Para
Donley, os trabalhadores rurais que atuam nos pomares seriam os mais atingidos.
“Se você sofre um corte no trabalho ou desenvolve uma infecção enquanto
trabalha, pode entrar em contato com bactérias mais difíceis de tratar. Isso é
um problema enorme para uma população que, em muitos casos aqui, nem tem seguro
de saúde”, alerta.
Através
da Lei de Acesso à Informação nos Estados Unidos (FOIA), a organização
descobriu que até mesmo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças),
agência de saúde pública dos Estados Unidos, já havia alertado sobre essa
ameaça. Em 2017, a agência enviou um documento para a EPA afirmando que o uso
extensivo de oxitetraciclina poderia levar à resistência microbiana.
Em
2021, o CBD e outras organizações ambientais conseguiram, na Justiça, anular a
aprovação do uso da estreptomicina, outro antibiótico usado no tratamento para
o greening. Os tribunais entenderam que a agência reguladora não teria avaliado
adequadamente os riscos do antibiótico para a saúde humana, nem os seus
impactos ambientais.
A ONG,
no entanto, não chegou a contestar o registro da OTC no prazo previsto pela
legislação americana. “Esse processo foi mais confuso porque passou por várias
etapas de aprovação emergencial. Mas os argumentos seriam os mesmos e acredito
que venceríamos no tribunal”, disse.
Hoje,
ele acompanha de perto uma revisão de rotina da EPA sobre o uso de
oxitetraciclina em culturas agrícolas. Em 2019, uma decisão inicial indicou que
a oxitetraciclina poderia continuar sendo usada, mas com ajustes na bula para
mitigar riscos, incluindo a obrigatoriedade de medidas de proteção ao
trabalhador e limites na frequência e na dose de aplicação. Uma decisão final
está prevista para os próximos dois anos.
<><>
Risco a exportações
Na
Flórida, os produtores de laranja que têm utilizado injeções de outros produtos
registrados têm visto resultados positivos. Um estudo publicado no ano passado
encontrou que, em dois anos, a produção de frutos das árvores mais do que
dobrou com o medicamento.
A
autora principal da pesquisa, Ute Albrecht, afirma que a injeção também é mais
segura do que o spray. “Como não há
pulverização, o produto não se dispersa pelo ar nem afeta outros organismos ao
redor. Não há escoamento para o solo, o que é importante na Flórida, porque
existe um sistema de aquíferos que liga todos os cursos d’água”, explica.
Mesmo
assim, a pesquisadora da IFAS (Universidade da Flórida) alerta que, caso a
injeção seja mal administrada, há risco do antibiótico deixar resíduos na
fruta, o que também contribui para a resistência microbiana. Em um estudo
recente, ela constatou que a simples aplicação fora da época indicada pode
resultar em níveis acima do permitido pela agência ambiental dos Estados Unidos
(EPA).
“Por
isso, esse produto é rigorosamente regulamentado na Flórida. Os produtores
precisam esperar pelo menos seis meses entre a injeção e a colheita. Quando os
frutos já estão grandes, qualquer material que você injete pode acabar indo
para eles, o que precisa ser evitado”, exemplifica.
Não
está claro quais seriam as diretrizes de uso no Brasil, caso o produto fosse
aprovado. Resíduos do antibiótico na fruta ou no suco de laranja podem
prejudicar as exportações para a União Europeia (UE), devido às restrições do
bloco econômico aos antibióticos em culturas agrícolas.
Questionada
pela Repórter Brasil, a CitrusBR, que representa o setor exportador de suco de
laranja, afirmou que “a eventual autorização regulatória [do produto] no país
não implica a adoção automática na cadeia exportadora.” Também disse que “o
setor exportador de suco de laranja adota protocolos públicos e próprios de
governança e conformidade, com critérios restritivos para o uso de produtos no
campo, em função das exigências dos mercados de destino, especialmente a Europa
e os Estados Unidos.”
Outra
preocupação é a possibilidade de a própria bactéria que causa o greening
desenvolver resistência aos antibióticos. “Todos os produtores aqui na Flórida
reconhecem que isso é apenas uma solução temporária e estão aguardando uma
solução genética, como uma variedade de laranjeira resistente ao greening. Acho
que o consenso é que essa não é uma solução para todo o sempre”, afirma
Albrecht.
Fonte:
Reporter Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário