sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pochmann: Além da regressão e ressentimento

Há um equívoco na afirmação de que o Brasil vive hoje uma crise de engajamento sociopolítico. O que caracteriza o presente não é a apatia, mas uma nova forma de mobilização que se apresenta contínua, intensa e, ao mesmo tempo, incapaz de produzir transformação estrutural. Trata-se de uma mobilização politicamente estéril, marcada pelo ressentimento como afeto dominante e como base do novo sujeito coletivo que emerge da sociedade de serviços hiperconectada da era digital.

A tese é desconfortável, mas necessária, pois o sujeito coletivo não desapareceu. Ele se degradou e se reconfigurou negativamente, tornando-se expressão convergente de frustrações estruturais. Entre os anos de 1930 e 1980, o capitalismo industrial no Brasil organizou não apenas a produção, mas também as expectativas sociais. Mesmo de forma desigual, a promessa de mobilidade ascendente funcionava como eixo de integração. O conflito existia, mas era mediado por sindicatos, partidos e movimentos sociais. Havia antagonismo, mas também horizonte de transformação superior.

Neste início do século XXI, porém, não se assiste ao desaparecimento da coletividade, mas ao surgimento de sua forma negativa. Em vez de se estruturar em torno de projeto, organização e solidariedade, ela passa a se agregar pela convergência de frustrações produzidas pela realidade brasileira contemporânea. A mobilidade social, antes elemento estruturante, tornou-se exceção. Ainda assim, o desejo de ascensão contínua universalizado. É dessa contradição que nasce o ressentimento enquanto promessa operando subjetivamente sem que encontre a base material que a sustente. O ressentimento, assim, não é apenas reação, mas uma produção histórica.

Para compreender essa mutação, é útil contrastá-la com formulações clássicas do sujeito coletivo proveniente de países do Norte Global. Em Antonio Gramsci, por exemplo, o sujeito coletivo é uma construção política. Ele não surge espontaneamente, mas resulta de organização, direção e disputa de hegemonia. A classe só se torna sujeito quando é capaz de articular interesses particulares em um projeto universal. Sem mediação institucional e sem intelectuais orgânicos, há apenas dispersão social. Em Alain Touraine, o sujeito também é compreendido como ator consciente, embora o foco se desloque da classe para os movimentos sociais. O sujeito coletivo é aquele que intervém na historicidade, disputa o controle dos processos sociais e atua com identidade, conflito e orientação transformadora.

No Brasil, Éder Sader destacou a emergência concreta do sujeito nas práticas sociais, enfatizando sua constituição por meio da experiência compartilhada de luta entre trabalhadores, movimentos urbanos e comunidades em pleno auge da sociedade urbana e industrial na virada dos anos de 1970. Apesar de suas diferenças, essas três tradições compartilham um ponto comum, pois o sujeito coletivo é estruturado, reconhecível e orientado por um horizonte de transformação.

Sob o neoliberalismo, contudo, essa base se altera profundamente. Como mostram Pierre Dardot e Christian Laval, a presença dominante do neoliberalismo não seria apenas um regime econômico, mas uma racionalidade que reorganiza a vida social pela concorrência generalizada e transforma cada indivíduo em empresa de si mesmo, responsável por administrar sozinho seus fracassos.

Por isso, o conceito de novo sujeito coletivo neste início do século XXI aponta para outra direção. Ele não nasce da organização, mas da desorganização social produzida pela regressão capitalista consolidada por décadas de neoliberalismo. Não se trata da expansão de uma classe social integrada pelo trabalho industrial, mas da difusão de uma condição heterogênea e precária, marcada pela instabilidade no trabalho e pela dificuldade de reconhecimento comum. É exatamente esse núcleo de integração que se rompe na ruína da sociedade industrial.

O ciclo de mobilidade ascendente que marcou parte importante do século XX foi interrompido a partir dos anos 1990. A desindustrialização, a financeirização e a reprimarização corroeram os fundamentos da integração social em uma economia periférica como a brasileira. O trabalho assalariado com direitos deixou de ser eixo estruturador de identidades e expectativas. A promessa de ascensão, parcialmente sustentada por políticas públicas no ciclo da Nova República, pouco se realizou em uma economia de baixo dinamismo, marcada pela expansão de serviços hiperconectados na era digital.

Abriu-se, assim, um terreno fértil para a disseminação do ressentimento. A promessa continua viva no plano subjetivo, mas sem possibilidade concreta de realização. Em Byung-Chul Han, esse processo aparece na passagem para a sociedade do desempenho, em que o indivíduo se torna empreendedor de si e responsável exclusivo por seu sucesso ou fracasso. A exploração deixa de ser percebida como relação social e passa a ser vivida como insuficiência pessoal. O conflito não desaparece, uma vez que ele implode sob a forma do ressentimento.

Nesse contexto, o ressentimento assume a forma de uma consciência bloqueada. A injustiça é percebida, mas sua origem estrutural não é claramente identificada, nem convertida em ação coletiva organizada. A era digital não criou esse processo, mas o intensificou. As plataformas funcionam como infraestruturas de agregação afetiva, conectando indivíduos não por posição social ou projeto político, mas por emoções compartilhadas, sobretudo negativas.

A comparação permanente, a exposição contínua e a visibilidade ampliada das desigualdades geram um ambiente de frustração crônica. Forma-se, assim, um novo sujeito coletivo ressentido, marcado pela máxima visibilidade da hierarquia social e pelo bloqueio estrutural da mobilidade ascendente em uma sociedade que individualiza responsabilidades. Esse é o ponto central da inflexão teórica: o ressentimento deixa de ser apenas efeito da crise e passa a funcionar como princípio organizador de uma nova forma de coletividade.

Diferentemente das concepções de Gramsci, Touraine e Sader, o novo sujeito coletivo não se constitui pela organização, mas pela conexão. Não se reconhece por identidade estável, mas por afetos compartilhados. Não age por projeto, mas por reação. Não constrói hegemonia duradoura, mas se expressa em ondas efêmeras de mobilização. Trata-se de um fluxo instável, intermitente, altamente mobilizável e profundamente desestruturado. Ainda assim, é capaz de redefinir agendas públicas, desestabilizar instituições e amplificar conflitos simbólicos.

Sua força, contudo, é inseparável de sua limitação. Sem mediações organizativas e sem horizonte estratégico, esse novo sujeito coletivo permanece preso a um circuito fechado de afetos, mobilizando-se sem se instituir, reage sem transformar. Por isso, torna-se particularmente vulnerável à captura por projetos populistas e autoritários, que oferecem aquilo que o ressentimento não consegue produzir por si só, com a nomeação de inimigos, simplificação da realidade e promessas ilusórias de recomposição simbólica.

A perda de expectativas para a ascensão social acompanhada da frustração de promessas nunca efetivamente realizadas produzem ressentimento que intensifica a formação de um novo sujeito coletivo profundamente instável, oscilando entre esperança e descrença, mobilização e paralisia. No início do século XXI, o novo sujeito coletivo já não é, predominantemente, aquele que se organiza para transformar o mundo, mas aquele que expressa, de forma difusa e contínua, as contradições de uma realidade incapaz de integrar socialmente seus próprios indivíduos.

O problema teórico e político torna-se, então, decisivo: como transformar um sujeito coletivo constituído pelo ressentimento em um sujeito capaz de ação histórica? Sem a reconstrução de mediações, sem a rearticulação de interesses materiais e sem a reabertura de horizontes de futuro, essa transformação tende a permanecer bloqueada. É nesse cerco que o ressentimento se consolida como principal vínculo social do nosso tempo. Não se trata do fim da política, mas de sua forma mais empobrecida e, talvez por isso mesmo, mais instável e perigosa.

¨      Como as tarifas de Trump mudaram o comércio exterior brasileiro. Por Luís Nassif

Quando o governo Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros em 2025, a intenção declarada era pressionar Brasília a se alinhar às prioridades comerciais de Washington. O resultado foi o oposto: o Brasil encerrou o ano com exportações recordes de US$ 348,7 bilhões, redirecionou seus fluxos comerciais para a Ásia, o Oriente Médio e a África — e aprofundou uma transformação estrutural que já estava em curso. As tarifas americanas, paradoxalmente, aceleraram a diversificação que o Brasil não havia conseguido concluir em décadas de retórica de política industrial.

<><> O choque tarifário e a resposta brasileira

O “Dia da Libertação” americano, em 2 de abril de 2025, impôs uma tarifa de 10% sobre exportações brasileiras como piso. Em julho do mesmo ano, Trump elevou as alíquotas para 50% (40% sob o IEEPA mais 10% de tarifa recíproca), entre as mais altas aplicadas a qualquer país no mundo. A reação do mercado foi imediata: entre agosto e dezembro de 2025, as exportações brasileiras aos EUA caíram US$ 3,7 bilhões em relação ao ano anterior, e em fevereiro de 2026, a queda acumulada chegou a 20,3%.

Mas a queda nas vendas americanas não se traduziu em crise — traduziu-se em reorientação. Em fevereiro de 2026, no mesmo mês em que as exportações ao mercado americano recuavam, as vendas à China cresciam 38,7%. O Brasil não perdeu mercado; trocou de cliente.

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A decisão da Suprema Corte americana, em fevereiro de 2026, de invalidar parte das tarifas impostas sob o IEEPA reduziu temporariamente a pressão, mas não reverteu os fluxos já estabelecidos. A diversificação tinha ganhado vida própria.

>>>> O mapa das exportações em transformação

<><> China: o grande absorvedor

A China consolidou sua posição como principal parceiro comercial do Brasil, cargo que ocupa desde 2009, mas agora com uma margem histórica. O comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões em 2025 — mais que o dobro da relação com os EUA (US$ 83 bilhões no mesmo período). As exportações brasileiras à China chegaram a US$ 100 bilhões, o segundo maior valor histórico.

O deslocamento foi imediato e preciso. China absorveu 37% das exportações redirecionadas pelo Brasil entre agosto e dezembro de 2025. No segmento de soja — o principal produto de exportação brasileiro — 76,6% do total exportado já vai para o mercado chinês. O petróleo bruto, que assumiu o topo da pauta exportadora em 2024, também tem na China seu principal comprador.

A lógica econômica é clara: quando os EUA impuseram tarifas sobre a China em 2018 e 2025, os consumidores chineses precisaram substituir importações americanas. O Brasil estava disponível, com volume, qualidade e proximidade de preços. Soja, carne bovina, café e grãos brasileiros entraram pelo espaço deixado pelos exportadores americanos.

<><> Índia: o mercado do futuro

O crescimento mais expressivo por destino em 2025 não foi a China — foi a Índia, com alta de 52,9% nas importações de produtos brasileiros. O comércio bilateral alcançou US$ 15,2 bilhões no ano, e ambos os governos firmaram meta de US$ 20 bilhões para 2026. O Brasil inaugurou seu primeiro escritório da ApexBrasil em Nova Délhi e realizou o Fórum Empresarial Brasil-Índia para estruturar a expansão comercial.

Os produtos em crescimento incluem petróleo, minérios, produtos agrícolas processados e insumos industriais. A Índia representa para o Brasil o que a China foi nos anos 2000: um mercado em rápida expansão, com crescente classe média e demanda por proteínas, energia e matérias-primas — exatamente o portfólio brasileiro.

<><> Oriente Médio e África: fronteiras em abertura

As regiões do Oriente Médio e da África registraram crescimentos de 20,4% e 24,4%, respectivamente, nas importações de produtos brasileiros em 2025. A Arábia Saudita autorizou a entrada de nove frutas brasileiras, consolidando-se como um dos principais destinos do agronegócio na região, com importações de produtos agrícolas superiores a US$ 2,8 bilhões em 2025. O Egito recebeu autorização para importar carne de pato e coelho brasileiros, e novos mercados africanos absorveram proteínas animais que antes tinham os EUA e a Europa como destino preferencial.

A distribuição geográfica das exportações brasileiras em 2025 reflete essa transformação: 48,9% foram para a Ásia, 17,1% para a Europa, 15,2% para a América do Norte, 14% para América Latina e Caribe, 4,4% para a África — e crescendo.

>>>> A pauta exportadora: o que muda (e o que ainda resiste à mudança)

<><> Petróleo assume o topo

Pela primeira vez na história, em 2024, o petróleo bruto superou a soja como principal produto de exportação do Brasil, posição mantida em 2025. Os combustíveis minerais e óleos responderam por US$ 57,16 bilhões, ou 17% do total exportado. O pré-sal, que levou décadas para ser desenvolvido, tornou-se o principal gerador de divisas do país.

<><> Agronegócio se sofistica

O agronegócio mantém participação de 48 a 49% da pauta, mas a composição mudou. Além da soja e das carnes — líderes tradicionais —, crescem as exportações de produtos processados, frutas frescas para mercados premium e insumos agroindustriais. O Brasil obteve autorizações para exportar produtos de maior valor agregado a mercados como Japão, Cingapura, Coreia do Sul e vários países do Golfo Pérsico.

<><> Manufaturados: o calcanhar de Aquiles e os pontos de luz

A grande fragilidade estrutural da pauta exportadora brasileira permanece: a participação dos manufaturados de alto valor agregado ainda é relativamente baixa para uma economia do tamanho do Brasil. Mas há pontos de luz. Os manufaturados responderam por 23% das exportações à China no primeiro trimestre de 2025 — alta de 6 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

A Embraer é o caso exemplar de exportação brasileira de alto valor agregado. Em 2024, o BNDES financiou a exportação de 56 aeronaves para mercados nas Américas, Europa e Ásia. Para 2026, a empresa planeja iniciar a produção de veículos aéreos elétricos (eVTOL), aposta que pode abrir um nicho de exportação de ponta nos próximos anos.

<><> Perspectivas para 2026 e além

O Brasil entra em 2026 com a base mais diversificada de parceiros comerciais de sua história recente. O acordo Mercosul-UE, mesmo com implementação parcial e pendências jurídicas no bloco europeu, já começa a gerar efeitos: as importações europeias de produtos brasileiros cresceram 34,7% após a aprovação do texto pelo Senado.

A candidatura brasileira ao status de maior exportador agrícola do mundo — posição que já ocupa em vários segmentos — se consolida. E o crescimento da Índia como destino, somado à expansão no Oriente Médio e na África, reduz a dependência bilateral da China.

O que as tarifas de Trump deixarão como legado para o comércio exterior brasileiro não é um ciclo de restrição e retaliação, mas a evidência de que a diversificação, quando necessária, acontece — e que o Brasil tem musculatura exportadora suficiente para encontrar novos clientes quando os antigos fecham as portas.

A questão que o país ainda precisa responder é se aproveitará esse momento para dar o salto qualitativo — exportar mais produtos com maior valor agregado, mais tecnologia, mais serviços — ou se permanecerá confortavelmente dependente das vantagens comparativas naturais que, por ora, continuam abundantes.

 

Fonte: Outras Palavras/Jornal GGN

 

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