sexta-feira, 1 de maio de 2026

José Álvaro de Lima Cardoso: A resistência do Irã muda o jogo no mundo

Se a guerra no Irã for retomada e escalar, a economia mundial corre o risco de uma depressão. Não haverá mais petróleo, nem gás, nem hélio, nem fertilizante, nem nada vindo da região do Golfo Pérsico por muitos anos. Por enquanto, a economia mundial foi impactada pelo aumento de preços dos derivados de petróleo e uma certa escassez de alguns produtos. Mas, se a guerra se intensificar, em poucas semanas a situação piorará consideravelmente. Os agressores acharam que iriam vencer o Irã com sua capacidade aérea, bombardeando violentamente o país. Essa estratégia fracassou solenemente, e os EUA ainda gastaram boa parte de suas reservas de armamentos. Como nenhum dos objetivos militares dos EUA foi atingido até o cessar-fogo, pode-se dizer que o Irã está ganhando a guerra.

Em determinados momentos, desde o início do conflito, os EUA, que improvisam o tempo todo, ensaiaram a invasão do Irã por terra. É consenso entre os especialistas militares independentes que isso seria um erro grosseiro. Fala-se que os americanos poderiam mobilizar 50 mil militares para a operação, dos quais apenas 10 mil seriam de combate; o restante seria pessoal de apoio e retaguarda. Já as forças armadas do Irã possuem uma das maiores estruturas militares do mundo, com um contingente ativo estimado em aproximadamente 610 mil militares. Essa força é dividida em dois braços principais:

1. Exército Regular (Artesh): focado na defesa das fronteiras nacionais e na soberania territorial;

2. Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC/Pasdaran): uma força de elite, ideológica e militar, que protege o sistema político e projeta influência regional.

Além dessa estrutura regular, o país dispõe da Força Paramilitar, uma milícia voluntária que pode mobilizar milhões de civis em caso de guerra total, com cerca de 220 mil membros prontos e milhões na reserva. Motivação para os soldados iranianos não falta, já que seu país foi atacado sem nenhuma razão, e as forças inimigas cometeram uma série de crimes de guerra, matando, inclusive, o líder religioso máximo do país, Ali Khamenei, uma espécie de "papa" dos xiitas (95% da população do Irã).

Mesmo que os 50 mil militares fossem tropas de combate, seria quase impossível o sucesso em uma invasão do Irã por terra. Para a invasão do Iraque em 2003, os EUA arregimentaram 185 mil soldados nos países vizinhos. O Iraque tem ¼ da extensão territorial do Irã. Nas condições atuais da guerra, se os EUA reunirem os soldados nos países próximos ao Irã, seriam bombardeados por drones, mísseis balísticos e continentais, talvez antes de entrar em combate.

É bom recordar que o Irã tem profundidade estratégica, ou seja, a distância entre as linhas de frente (ou fronteiras) e o coração industrial, político e demográfico do país é bastante longa. Fator que torna tudo mais difícil para o inimigo, a começar pela linha de suprimentos. Especialmente considerando a geografia do país, predominantemente marcada por terrenos acidentados e montanhosos, elemento que molda o clima, a ocupação humana e a própria defesa estratégica. Cerca de 55% do território é coberto por montanhas, enquanto o restante é composto por planaltos elevados e desertos áridos.

Além disso, quem disse que o povo americano estaria disposto a suportar o sacrifício decorrente de realizar uma invasão em larga escala no Irã? Conforme mostra a história, para os norte-americanos, é insuportável sofrer muitas baixas, ver jovens soldados retornando em sacos pretos, à medida em que transcorre o conflito. O apoio da população americana à guerra gira em torno de 30%, e está recuando desde o início das operações, refletindo o cansaço da opinião pública com conflitos no Oriente Médio. A base de apoio ao governo, a esta altura, está concentrada quase que exclusivamente no núcleo de apoiadores do Partido Republicano, que aceita qualquer argumento que venha do governo, por mais absurdo que seja.

Portanto, o imperialismo parece não dispor de uma alternativa de invasão terrestre. Por outro lado, o bloqueio no Estreito de Ormuz pelos americanos, como previsto por muitos, já desmoronou. Se o bloqueio naval fosse uma arma capaz de vencer uma guerra, já teria sido utilizado antes na história dos conflitos. Mas, como estamos vendo, esta não é uma arma que vence uma guerra, ainda mais uma guerra de verdade, como esta que está sendo travada. A China, que tem uma das maiores marinhas do mundo, e que investe muito em navios modernos e tem a maior frota do mundo em número de embarcações, depende muito das importações de petróleo do Golfo Pérsico, cerca de 55% de suas necessidades, com origem, especialmente, na Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes. Em algum momento, se o bloqueio do Estreito estivesse em vigor, os chineses teriam que começar a escoltar petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o que poderia confrontar militarmente, diretamente, navios chineses e americanos.

A realidade é que os EUA não têm uma alternativa minimamente segura de vitória nesta guerra contra o Irã. Entrar no espaço aéreo de avião e bombardear tudo não vai resolver, até porque os iranianos começaram a derrubar aviões antes do cessar-fogo. Todas as alternativas levam à grande possibilidade de derrota. Se o governo americano tivesse juízo, começaria a trabalhar imediatamente por um cessar-fogo e por negociações imediatas.

Se os EUA voltarem a fazer uma campanha massiva de bombardeios no Irã, atacando infraestrutura de energia, pontes e matando civis, como fizeram em larga escala até o cessar-fogo, a tendência é o Irã fechar completamente o Golfo Pérsico. E podem também fechar completamente o Mar Vermelho através dos Houthis, que compõem também o Eixo da Resistência. O Irã pode ainda atacar a infraestrutura de energia e as usinas de dessalinização em todo o Golfo Pérsico. Se as usinas de dessalinização forem destruídas, os países árabes do Golfo entrarão em colapso. Em função do clima hiperárido e da quase inexistência de rios ou lagos permanentes, a dessalinização da água do mar não é apenas uma alternativa, mas a espinha dorsal da sobrevivência urbana e industrial desses países. Em quase todos os casos, a água dessalinizada responde pela vasta maioria do consumo potável doméstico nos países árabes do Golfo, em alguns casos em até 100%.

Os iranianos são um povo religioso e extremamente generoso. Prova disso é que são o país do mundo que mais apoia abertamente a luta do povo palestino, pagando um alto preço político e econômico por essa posição. Mas, imaginar que uma potência estrangeira arrogante irá destruir o país e sair tranquilamente, enquanto a população assiste placidamente, é uma grande ilusão. O Irã, se atacado em sua infraestrutura crítica, fará o mesmo nos países árabes do Golfo, que são cúmplices do imperialismo no ataque genocida ao país. Se o imperialismo subir na escada da escalada, os iranianos vão usar todas as cartas que ainda estão na manga.

Os iranianos estão travando uma guerra pela sua existência. O imperialismo já provocou um enorme dano ao Irã, porém causará um prejuízo ainda maior à economia mundial. Os EUA podem até obter certas concessões dos iranianos na mesa de negociação, mas o fato é que estes estão vencendo a guerra. Portanto, quando, em algum momento, forem para a negociação, os iranianos tendem a se sair muito bem. Uma regra fundamental da guerra é que o palco de operação dá a tônica da negociação.

O Irã tem utilizado uma espécie de “gradualismo tático” na guerra. Algumas de suas armas ainda não foram utilizadas, justamente porque não queriam a guerra, e depois, não desejavam escalar o conflito. Porém, em uma eventual retomada da guerra, o Irã irá utilizar sistemas de armas que ainda não colocou em campo. Por outro lado, há fortes indicações de que a maior parte das capacidades militares do Irã está preservada, na medida em que suas principais fábricas e centros de pesquisa e desenvolvimento estão bem no fundo da terra. Muitas das bases de mísseis do Irã nem sequer foram colocadas em operação ainda. Por exemplo, os especialistas militares dizem que o Irã não usou, até o momento, os seus mísseis de cruzeiro.

Na guerra iniciada em 28 de fevereiro, ficou claro que o Irã estava mais preparado do que na guerra dos 12 dias de junho de 2025. Uma prova disso é que, na guerra dos 30 dias, de 2026, os iranianos atacaram com força crescente. Como se sabe, o Irã não queria a guerra, especialmente contra o maior exército do mundo, teoricamente. No entanto, já que a guerra começou, os iranianos querem que seja uma guerra longa, pois querem resolver o problema de uma vez por todas. No fim da guerra, os iranianos querem ter certeza de que nenhum país volte a pensar em atacar o Irã.

Não tem como voltar ao passado no Golfo Pérsico. Não tem mais como voltar ao passado no mundo. O povo iraniano tem consciência de que está travando uma luta pela sua sobrevivência e está disposto a pagar um preço muito alto por isso, se for necessário. É o que expressou outro dia, em entrevista, o professor Mohammad Morandi, da Universidade de Teerã: “A gente está preparado para a guerra. Estamos preparados para morrer. Não vamos nos curvar diante do império, preferimos morrer de pé do que viver de joelhos”. É muito difícil subjugar um povo com essa resiliência e determinação.

¨      Entre a guerra e a saída: o que realmente está em jogo. Por Reynaldo José Aragon

Por trás da retórica de guerra e das mesas de negociação, o conflito já se move em outra direção, uma disputa menos visível em que o poder se mede pela capacidade de controlar o funcionamento do mundo.

<><> O conflito se reorganiza em silêncio

A guerra chegou a um ponto em que seus próprios termos já não explicam o que está em curso. O que aparece como escalada militar, negociação nuclear e troca de ameaças funciona hoje mais como superfície do que como centro. O eixo real se deslocou. A disputa deixou de ser definida apenas pela capacidade de destruição e passou a se organizar em torno de algo mais profundo: a capacidade de condicionar o funcionamento do sistema que sustenta o mundo.

Esse deslocamento não é retórico, é material. Ele aparece nas rotas marítimas, no preço da energia, no tempo das cadeias logísticas e na capacidade de impor custos sem cruzar imediatamente o limiar de uma guerra total. É nesse terreno que a relação entre Estados Unidos, Irã e Israel se torna inteligível. Não se trata apenas de quem pode vencer no sentido clássico, mas de quem consegue impedir que a força do outro se converta em vitória política.

É a partir desse deslocamento que as negociações em curso passam a fazer sentido. O que se apresenta como impasse entre exigências nucleares e garantias de segurança encobre uma disputa mais concreta. De um lado, os Estados Unidos buscam restabelecer a previsibilidade do sistema, reabrir plenamente as rotas e conter os efeitos econômicos de uma crise que já pressiona energia, inflação e cadeias globais. Para isso, precisam de um acordo que produza estabilidade sem carregar o custo político de um recuo.

Do outro lado, o Irã reorganiza a negociação a partir de uma vantagem específica: sua capacidade de interferir na circulação. Ao deslocar o centro da crise para esse ponto, não apenas resiste, mas redefine a própria ordem da negociação. Em vez de iniciar pelas limitações nucleares, procura condicionar qualquer avanço ao alívio material do cerco, à recomposição de sua capacidade econômica e ao reconhecimento implícito de que não foi derrotado.

É nesse descompasso que o impasse se consolida. Washington precisa estabilizar o sistema sem parecer que cedeu. Teerã precisa aliviar o bloqueio sem parecer que capitulou. O conflito entre as propostas não está apenas no conteúdo, mas na forma como cada lado pode sustentar publicamente o desfecho.

Nesse ponto, Israel se torna o fator que mais condiciona o limite das negociações, ainda que não as conduza diretamente. Sua posição não se orienta pela construção do acordo, mas pela definição do que não pode ser aceito. Qualquer desfecho que preserve no Irã capacidade de projeção regional, margem nuclear ou legitimidade política é, na prática, um resultado adverso.

Por isso, a lógica israelense opera por restrição. Ao manter pressão constante em outras frentes, especialmente no Líbano e na Faixa de Gaza, impede que o conflito seja reorganizado exclusivamente em torno da mesa diplomática. A guerra permanece ativa mesmo quando a negociação avança, não como desvio, mas como parte do próprio mecanismo de contenção.

O efeito é direto. Enquanto Estados Unidos e Irã buscam um ponto de acomodação, o espaço possível desse ajuste é continuamente estreitado. Um acordo amplo o suficiente para estabilizar o sistema tende, ao mesmo tempo, a preservar elementos da capacidade iraniana que Israel considera inaceitáveis. É nesse limite que a negociação encontra sua tensão mais dura.

A partir daí, a posição iraniana ganha coerência. Ao deslocar o centro da disputa para a circulação, o Irã transforma uma limitação estrutural em instrumento de pressão. Sem disputar superioridade militar direta, passa a operar sobre o ponto mais sensível do sistema: a capacidade de manter fluxos estáveis de energia, comércio e logística.

Essa estratégia não exige controle absoluto, mas interferência suficiente para produzir incerteza, elevar custos e alongar o tempo da crise. Com isso, altera a relação entre força e resultado. A questão deixa de ser a destruição do adversário e passa a ser a capacidade de tornar o funcionamento do sistema mais caro, mais lento e mais imprevisível.

Nesse movimento, a negociação também é reordenada. Ao priorizar o alívio material do cerco antes de qualquer compromisso estrutural, o Irã busca não apenas ganhos imediatos, mas consolidar o fato de que sua capacidade de pressão já produziu efeitos concretos. Mais do que resistir, procura converter essa pressão em reconhecimento político.

É dessa vantagem que deriva sua posição. Não uma vitória no sentido clássico, mas a capacidade de impedir que a superioridade do adversário se traduza em um desfecho que possa ser apresentado como derrota iraniana.

Esse reposicionamento se apoia em um ambiente internacional que deixou de ser unipolar. China e Rússia não entram no conflito como atores militares diretos, mas funcionam como estabilizadores externos de uma negociação que interessa a ambos manter fora do controle exclusivo de Washington.

Para Pequim, o ponto central é a previsibilidade das rotas e o fluxo contínuo de energia. Para Moscou, a crise contribui para dispersar a pressão ocidental e ampliar seu espaço de atuação. Nenhum dos dois precisa transformar o Irã em aliado pleno. Basta impedir que ele seja isolado a ponto de aceitar um acordo sob coerção unilateral.

Ao ampliar interlocuções com países como Omã, Catar e Paquistão, o Irã dilui o eixo da negociação e evita a armadilha de um acordo bilateral assimétrico. A multiplicação de canais não é apenas diplomacia, mas estratégia de poder. Quanto mais distribuída a negociação, menor a capacidade de um único polo impor o desfecho.

O resultado é um conflito administrado por equilíbrio, não resolvido por decisão. A crise deixa de ser encerrada por um ato final e passa a ser sustentada por um arranjo instável de forças.

Nesse arranjo, o desfecho mais provável não é uma solução definitiva, mas uma acomodação funcional. Um acordo limitado, centrado na reabertura parcial das rotas, na redução do nível de pressão econômica e na retomada de algum grau de previsibilidade, surge como saída viável. O tema nuclear não desaparece, mas é deslocado, permitindo que todos os envolvidos apresentem o resultado como suficiente para evitar o agravamento da crise.

Um segundo caminho é a manutenção do impasse em forma prolongada. A circulação permanece tensionada, os custos seguem elevados e a negociação avança de maneira intermitente, sem ruptura nem resolução. Trata-se de uma guerra administrada no limite entre pressão e contenção.

Há ainda o risco de ruptura. Um movimento destinado a quebrar o impasse, por cálculo ou erro, pode reintroduzir a lógica da escalada direta. Nesse cenário, a prioridade deixa de ser o controle do sistema e passa a ser a restauração da dissuasão por meio da força.

Um acordo amplo permanece como possibilidade remota. Exigiria concessões simultâneas que, no contexto atual, implicariam custos políticos difíceis de sustentar para todos os envolvidos.

O que se desenha não é uma guerra sem saída, mas uma guerra cujo desfecho não pode ser apresentado como vitória clara por nenhum dos lados. É essa condição que organiza o conflito neste momento. A disputa já não gira em torno de destruir o adversário, mas de impedir que ele converta poder em resultado político.

Nesse cenário, negociar não significa encerrar a guerra, mas definir as condições sob as quais ela pode ser suspensa. O acordo possível não resolve o conflito. Apenas estabelece um ponto de equilíbrio entre forças que não podem se derrotar abertamente.

Entre a guerra e a saída, o que realmente está em jogo é quem consegue determinar esse ponto de equilíbrio sem assumir o custo da derrota. É nessa medida que o desfecho será definido.

 

Fonte: Brasil 247

 

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