sexta-feira, 1 de maio de 2026

Digitalização é batalha chave para o futuro do trabalho

Este 1º de maio de 2026 ocorre em um momento especial por dois motivos. Em primeiro lugar, por ser um ano eleitoral em um cenário de intensificação da ofensiva da extrema-direita e do imperialismo em todo o mundo, que pode ter consequências graves no Brasil caso seus representantes ocupem o Palácio do Planalto a partir de 2027. O segundo motivo é um raro momento dos últimos anos em que uma pauta de conquista no campo do trabalho ganha repercussão nacional e endosso do governo federal: o fim da escala 6×1.

Entretanto, enquanto esse importante tema marca um novo episódio da luta de classes no Brasil, outros pontos que avançam com menos destaque já estão moldando nossa realidade no trabalho hoje e poderão impactar ainda muito mais. Eles passam pela digitalização e datificação das atividades produtivas, que inclui a adoção de diversas tecnologias digitais, como platformas, algoritmos e sistemas de IA. Essas tecnologias são controladas, sobretudo, por grandes corporações digitais do Norte Global, como Google, Meta, Microsoft, Amazon, Uber e DeliveryHero, entre outras.

Esse fenômeno evidencia o que autores brasileiros diversos (como César Bolaño e Roseli Fígaro) já têm apontado: a relação entre comunicação e trabalho é intrínseca, não podendo falar do segundo sem pensar o primeiro. Em um mundo capitalista em que serviços são crescentemente transformados em dados digitalizados, as mudanças na internet se espraiam para os locais de trabalho, com cada vez mais atividades sendo performadas, registradas ou codificadas em informações que são processados e analisados por sistemas automatizados.

Enquanto empresas e defensores prometem ganhos com essas tecnologias (como aumento da produtividade e redução do tempo das tarefas), a realidade vivida por trabalhadores traz aspectos bem mais preocupantes. Entre eles está o aumento da vigilância pela coleta massiva de dados, o controle maior sobre o processo de trabalho, minando a agência dos trabalhadores, e a opacidade em sistemas cujo funcionamento não é transparente e a redução do poder dos trabalhadores para questionar tarefas, decisões disciplinares e a própria organização do trabalho.

O trabalho digitalizado e datificado contemporâneo se manifesta em duas frentes principais: o trabalho plataformizado e a introdução de sistemas de IA no ambiente produtivo.

<><> Trabalho plataformizado

O uso de plataformas digitais cresceu enormemente no dia-a-dia dos trabalhadores, especialmente após a pandemia. Sistemas de chamada de vídeo, de conversa (chats) ou de edição coletiva de documentos passaram a ser crescentemente adotados. Nesse caso, há riscos importantes, especialmente no âmbito do aumento da vigilância sobre trabalhadores (com ferramentas como rastreadores do movimento ocular, ou eye tracking, e de movimentos dos mouses), bem como de dependência tecnológica das grandes corporações digitais.

No entanto, a plataformização tem um caráter ainda mais desgregador no caso daquelas empresas cuja finalidade principal é coordenar a compra e venda da força de trabalho, também chamadas de “Plataformas Digitais de Trabalho” (PDTs). Estão neste grupo empresas como Uber, iFood, 99, inDrive, Loggi e outras não, somente de transporte e entrega como de serviços gerais (limpeza, cuidado, saúde, comunicação etc…).

No mundo, relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 2021 mostrou como entre 2010 e 2020 o número de PDTs creceu cinco vezes, chegando a pelo menos 383. Porém, o mesmo estudo mostrou que 60% das receitas ficam com o Norte Global, sendo 50% com corporações dos Estados Unidos e 11% com empresas da Europa.

Em todo o mundo, têm crescido pesquisas apontando como esses trabalhadores sofrem com arranjos precários, trabalham mais horas, recebem proporcionalmente menos, experienciam diversas formas de não pagamento (como um tempo de espera de um entregador), têm que arcar com custos e riscos, sofrem decisões disciplinares injutas e pouco transparentes e ficam fora das proteções trabalhistas legais por serem colocados pelas empresas como supostos “autônomos”.

No Brasil, a pesquisa Pnad Contínua, do IBGE, mostrou as condições mais precárias desses trabalhadores. Na versão de 2024, foram mapeados 1,654 milhão de trabalhadores nessas plataformas, sendo 228 mil em serviços de taxi, 878 mil em serviços de transporte particular de passageiros, 485 mil em serviços de entrega de mercadorias e 294 mil na prestação de serviços gerais ou profissionais (como limpeza, cuidado, manutenção, produção de conteúdos e outros).

Enquanto os trabalhadores plataformizados tinham rendimento médio mensal quase igual aos não plataformizados (R$ 2,996 × R$ 2,875), os primeiros trabalhavam quase 45 horas por semana, contra 39,3 horas no caso dos segundos. Ou seja, trabalhadores de plataforma recebem menos por hora. Além disso, a contribuição para a Previdência Social foi identificada em somente 35,9% da amostra, contra 61,9% dos não plataformizados.

Pesquisa do projeto Fairwork da Universidade de Oxford em parceria com universidades brasileiras (UFRGS, UnB, UFRJ e UFPR) avaliou dez plataformas no Brasil com base em cinco princípios de trabalho decente e deu apenas 1 de 10 para duas plataformas: inDrive e Superprof.

No caso dos trabalhadores em plataformas baseadas na internet (chamadas também em inglês de crowdwork ou cloudwork), esse trabalho é ainda menos visível, pois feito dentro das casas e não nas ruas. Estudo do projeto Fairwork da Universidade de Oxford em 2025 mostrou como esses trabalhadores gastavam pelo menos um dia por semana com tarefas não pagas e quase um terço experimentou situações em que conclui o trabalho e não foi remunerado.

No Brasil, estudo do laboratório DIPLab de 2023 coordenado por Matheus Viana Braz, Paola Tubaro e Antonio Casilli acerca desses trabalhadores identificou que estes ganham três vezes menos do que esperavam e tinham renda média 31,5% inferior ao da população geral. Outra conclusão foi que 32% da amostra trabalhava sete dias por semana.

<><> Inteligência Artificial

Outra frente de transformação no mundo do trabalho tem sido provocada pela ampliação do uso de sistemas de Inteligência Artificial. Relatório da Microsoft de 2024 apontou que 75% de trabalhadores denominados “de conhecimento” já estão utilizando essas tecnologias, mas metade delas começou a fazer isso pelo menos seis meses antes. Ou seja, o emprego dessas ferramentas está crescendo rapidamente.

Nos últimos anos, o avanço da IA mobilizou diversos estudos e previsões sobre qual seria o impacto da introdução desses sistemas nos locais de trabalho, dialogando com projeções sobre automação em sentido mais amplo. Um trabalho clássico dos pesquisadores Frey e Osbourne de 2013 apontava risco de perda de 47% das ocupações nos Estados Unidos por “computerização”. Outros estudos da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugeriram impactos muito mais modestos.

O FMI estimou impacto da tecnologia em 40% dos postos de trabalho globais. A organização indica que um diferencial da IA na automação digitalizada é sua capacidade de se estender também a tarefas que demandam habilidades complexas. Nas economias nomeadas como avançadas no estudo, 60% dos postos estariam expostos a efeitos com a introdução de IA.

Entretanto, a questão não é somente quantitativa, mas qualitativa. O uso de IA muitas vezes é imposto na euforia projetada de uma tecnologia “milagrosa” cuja adoção traga automaticamente melhoras. Enquanto empresas apontam que as consequências são somente no campo das “habilidades” para uso da IA, pesquisas críticas vêm indicando um conjunto de efeitos bastante preocupante. Enquanto a promessa é que sistemas de IA ajudam a economizar tempo com tarefas, um estudo da Universidade de Berkley, nos Estados Unidos, revelou que na verdade essas ferramentas intensificam o trabalho.

Sistemas de IA também trazem efeitos sobre a capacidade dos trabalhadores de decidirem e controlarem suas tarefas. Ao repassar responsabilidades para sistemas automatizados, estes passam a moldar os resultados. Os trabalhadores também perdem a capacidade de compreensão sobre como as decisões estão sendo tomadas, uma vez que se tratam de sistemas opacos e em que a lógica de aprendizagem de máquina dificulta a explicabilidade.

Outro efeito preocupante é a discriminação e os vieses. Estudos têm apontado esses efeitos desde a contratação (como na análise de currículos) até a avaliação da qualidade do trabalho (que alimenta possíveis decisões disciplinares) ou análise de evolução nas carreiras. Populações marginalizadas em geral são mais prejudicadas pelos sistemas automatizados, como diferentes estudos mostraram.

Tão ou mais importante que todas essas consequências, sistemas de IA só podem ser desenvolvidos com exploração de muito trabalho humano (o trabalho invisível de anotadores de dados e pessoas responsáveis por “treinar” esses sistemas), pela coleta de quantidades massivas de dados de trabalhadores e pela apropriação ampla do conhecimento dos trabalhadores. Não por acaso, uma das batahas de corporações digitais é tentar institucionalizar o uso (ou roubo) de obras e trabalho protegido por direitos autorais para o treinamento de seus produtos.

Neste 1º de maio, portanto, é preciso olhar como a conjuntura atual de ascenso da extrema-direita e de sua aliança com as corporações digitais (no fenômeno que alguns autores chamam de tecnofascismo) reúne pautas mais históricas (como a redução da jornada de trabalho) a novas demandas para evitar que a digitalização seja uma nova fronteira de exploração e precarização.

 

Fonte: Por Jonas Valente, no Le Monde

 

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