Tom
Altman: Massacre no Rio de Janeiro - a hipocrisia da direita medrosa
Terça
todos os brasileiros foram dormir estarrecidos com a notícia das dezenas de
mortes promovidas pelo Estado na zona norte do Rio de Janeiro. Acordaram
sabendo que na verdade a operação assassinou mais de uma centena de pessoas.
Não bastasse a carnificina em plena luz do dia, o Brasil teve de acompanhar a
barulhenta comemoração da extrema direita, que vibrou como se tivessem acabado
com o crime. Mas estrondoso mesmo é o silêncio dos cúmplices dessa chacina
sobre os grandes chefes do narcotráfico. Não teve coragem de procurar em
Ipanema, governador?
Não há
uma palavra sequer sobre as empresas sediadas na Faria Lima que lavam o
dinheiro do tráfico de drogas. Redes de postos de gasolina, distribuidoras,
usinas, bancos, fundos de investimento. É como se não existissem os chefes.
Para o governo fluminense e seus apoiadores do bolsonarismo, o crime organizado
é uma empresa apenas de funcionários; não tem dono, não tem executivos, não tem
investidores majoritários. Convenhamos: é uma postura bastante curiosa para
quem defende os patrões em todas as oportunidades.
Não se
pode deixar de mencionar as empresas que vendem as armas. Com 75 fuzis
apreendidos no complexo do alemão e 117 com o amigo – e vizinho de Bolsonaro –
é evidente que Taurus, Colt, SIG Sauer e suas semelhantes sabem muito bem de
onde vêm seus gigantescos lucros no Brasil. Mas claro que os covardes e
subservientes dos chefes do crime não deram uma palavra sobre essas
organizações.
A
postura hipócrita e medrosa dos governantes é um eterno enxugar gelo. Matando
funcionários do crime, sem a inteligência necessária para caçar os chefes, o
que veremos é a substituição dos mortos por novos empregados – cada vez mais
jovens e violentos.
O
discurso de que a esquerda “defende bandido” é a cortina de fumaça para os
bajuladores dos criminosos do alto escalão. O argumento de que a grande maioria
das pessoas que vivem em vulnerabilidade social não comete crime algum é
daquelas verdades usadas como ferramenta do extermínio dos mais pobres.
Para se
fazer uma discussão séria sobre o combate às facções que atuam em todo
território nacional, é preciso pensar como um estadista, se distanciar do
discurso propagandista. Aceitando o pressuposto de que todos nós – ou quase
todos – queremos combater a criminalidade, não podemos aceitar a comodidade da
individualização da responsabilidade. Claro que bandido tem que ser preso e
processado, mas como evitar que novos criminosos substituam os antigos
delinquentes?
Para
início de conversa, não pode ser atrativo entrar para o tráfico. Se o jovem de
17 anos, responsável por soltar fogos de artifício quando a polícia chega na
comunidade, ganha em três dias o que o pai e a mãe ganham em um mês, é claro
que perderemos alguns para o crime. Não basta prendê-lo, outros virão em seu
lugar.
Para o
crime não ser opção, há uma via de mão dupla: a vida fora da criminalidade tem
que ser boa. Saúde, educação, lazer e segurança alimentar, são fatores que
levam a pensar se vale a pena abrir mão de uma vida com direitos garantidos,
por uma aventura que pode ser lucrativa, mas muito perigosa. A segunda via é
justamente atacar onde está o dinheiro. Os agentes de segurança devem buscar o
lastro da imensa lucratividade da venda de drogas. Nenhum grande chefe do crime
foi morto ontem: provavelmente estavam em algum imóvel de luxo assistindo à
morte de uma pequena parcela dos seus funcionários, de policiais, inocentes e
até de animais de estimação.
Mais
uma vez voltamos à enorme covardia da extrema direita. No discurso, se colocam
como grandes guerreiros, corajosos, dispostos a entrar no território inimigo e
abater centenas de brasileiros, entre funcionários do crime e inocentes que
apenas têm o azar de viver no lugar errado. Usam dos palanques das coletivas de
imprensa para aumentar seu capital político. Essas famílias destruídas pelo
crime e pelas operações policiais desastradas só têm valor pela quantidade de
votos que o discurso hipócrita do extermínio de criminosos é capaz de
conquistar na população cansada de viver sitiada.
Para
deixar uma informação no ar: havia mais droga com o primo do deputado Nikolas
Ferreira do que a que foi apreendida ontem no Alemão e na Penha. Havia mais
armas na casa do Ronnie Lessa, melhor amigo e vizinho de Bolsonaro, do que o
que foi apreendido na operação de ontem. Isso não prova que, focando na elite
do crime, teremos melhores resultados, e sem mortes de inocentes e policiais?
• Guerra civil no Rio de Janeiro: entre o
massacre e a cumplicidade
O Rio
de Janeiro está em guerra. Não uma guerra oficial, com regras e convenções, mas
uma guerra civil não declarada, travada nas favelas, becos e vielas da cidade.
A ofensiva armada dos últimos dias já deixou ao menos 132 mortos, segundo
fontes locais — entre eles, moradores inocentes, agentes de segurança e membros
do narcotráfico. Uma tragédia que se repete, mas desta vez em escala ampliada,
com uso de drones explosivos, barricadas e fogo cruzado em plena luz do dia.
Nos
complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde quatro
agentes da repressão — dois do Bope e dois da Polícia Civil — foram mortos, a
resposta do Estado foi avassaladora: ocupação em larga escala, confrontos
violentos e dezenas de cadáveres. Os traficantes, por sua vez, resistem com
táticas de guerrilha urbana, incendiando veículos, bloqueando as principais
artérias da cidade e, pela primeira vez, utilizando drones portando bombas, que
provocaram incêndios.
O
terror se espalhou: mais de 45 escolas suspenderam as aulas, linhas de ônibus
foram desviadas e a população, especialmente a mais pobre, vive em estado de
choque. Em meio à tragédia, o governador Cláudio Castro, bolsonarista, declarou
que as únicas vítimas da chamada mega Operação Contenção foram os quatro
policiais mortos — como se as dezenas de pessoas executadas não fossem dignas
de serem contabilizadas como vítimas.
Mas o
que essa “guerra” escancara é mais do que a brutalidade da repressão ou a
ousadia do crime. Ela revela a cumplicidade estrutural entre setores das forças
de segurança e o próprio narcotráfico. Como explicar que esses grupos
criminosos operem há décadas, bem armados, financiados e informados, sem que se
toque no coração do sistema — o dinheiro? É a lavagem de capital que sustenta a
guerra, e essa, o Estado ainda se recusa a combater.
O
exemplo de São Paulo nos anos recentes mostra que é possível enfraquecer o
crime organizado com inteligência, monitoramento financeiro e ruptura das
cadeias de abastecimento. Mas o Rio insiste na lógica da bala: mata-se o
soldado, poupa-se o general. Reprime-se a periferia, preserva-se a elite que
lucra com o caos.
A
política do confronto, que já se provou ineficaz, segue como espetáculo
midiático e justificativa para a militarização da vida cotidiana. É o mesmo
filme repetido com novos cadáveres. Não se trata de omitir a violência do
tráfico, mas de recusar a farsa da solução fácil: metralhar a favela.
Enquanto
isso, o Estado, que deveria garantir segurança, educação e saúde, se omite. O
que se vê é a barbárie disfarçada de política pública, o abandono institucional
e a perpetuação de uma lógica racista e classista que criminaliza a pobreza.
Essa
guerra não é contra o tráfico. É contra o povo.
• Do CV ao PCC, como opera o crime
organizado no Brasil?
Primeiras
facções surgiram na década de 1970, e hoje 88 grupos atuam em todas as regiões
do país. Comando Vermelho, alvo de megaoperação no Rio de Janeiro, é um de dois
com influência também no exterior.
Ao
redor do Brasil e para além das fronteiras nacionais, 88 organizações
criminosas realizam atividades ilícitas contínuas a fim de obter lucros,
segundo relatório de Inteligência do Ministério de Justiça e Segurança Pública
(MJSP). Quase todas elas têm presença tanto nas ruas quanto em presídios, poder
financeiro e estruturas hierárquicas.
Alvo da
megaoperação que deixou dezenas de mortos na segunda-feira (28/10) no Rio de
Janeiro — a mais letal já realizada no estado —, o Comando Vermelho (CV) é,
junto com o Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das duas maiores
organizações criminosas do Brasil.
O grupo
vem expandindo a sua atuação nos territórios fluminense, de onde é originário,
e nacional, afirmam especialistas. De acordo com a imprensa carioca, o CV põe
em prática nos últimos quatro anos um plano para expandir seu domínio, tomando,
inclusive, áreas controladas por milicianos.
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Facções espalhadas
Já não
há estado brasileiro livre da influência do CV, do PCC ou de múltiplas outras
organizações criminosas. Ao longo das últimas cinco décadas, elas se
multiplicaram, ganharam capilaridade e forjaram alianças ou inimizades na
disputa por território.
Hoje, o
Nordeste é a região com o maior número de organizações criminosas conhecidas
pelo MJSP — 46 foram mapeadas entre 2022 e 2024. Em seguida, aparecem as
regiões Sul (24), Sudeste (18), Norte (14) e Centro-Oeste (10).
O crime
organizado sobrevive sobretudo do tráfico de drogas, além do roubo de carga,
latrocínio, fraude, extorsão, lavagem de dinheiro e controle de territórios e
serviços. Na Amazônia, PCC e CV estariam também ampliando seu envolvimento com
o garimpo ilegal, incluindo em acampamentos dentro de terras indígenas.
Estruturadas
em redes de facções, as organizações criminosas compartilham símbolos de
pertencimento e, não raro, mantêm ideologias ou estatutos próprios. Também
antagonizam diretamente contra o poder público — com a não obediência das leis
e ações violentas contra agentes do Estado —, organizam resgates ou fugas de
presos e promovem rebeliões em prisões.
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Origem nas prisões
Após
anos de expansão pelo território brasileiro, tanto CV quanto PCC têm membros
espalhados em presídios de todos os estados, afirma o levantamento do governo
federal, com exceção do Rio Grande do Sul. Na terra gaúcha, predominam as
organizações Bala na Cara, formada em 2005, e Os Manos, cujos primeiros sinais
datam dos anos 1980.
As
primeiras facções surgiram dentro dos presídios nos anos 1970. Divididos em
grupos, os presos então reivindicavam melhores condições das autoridades —
incluindo o fim da tortura e dos maus-tratos —, garantiam proteção aos seus
aliados, criavam regras de convivência e profissionalizavam o que, até então,
era a atividade criminosa de grupos de menor porte.
Em
1979, emergiu a Falange Vermelha, que daria origem ao Comando Vermelho, no
antigo presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande. O grupo se formou quando presos
comuns e políticos, militantes de grupos armados contra a ditadura militar,
passaram a conviver. Os anos seguintes seriam marcados pela ampliação do poder
da então recém-nascida organização, movida pelo tráfico de cocaína.
Mais
tarde, em 1993, nasceria o PCC na Casa de Custódia de Taubaté, em São Paulo —
entre outros motivos, para evitar violências do Estado, tal como ocorrera no
massacre do Carandiru, que deixara 111 mortos em 1992. Hoje, a maior
organização criminosa do país conta com estimados 40 mil membros.
"Existia
um discurso de organização e de proteção aos presos. Depois, esse discurso de
proteção se estendeu até as periferias. E a proteção era contra a própria
polícia", explicou o cientista social Eduardo Armando Medina Dyna ao
Jornal da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sobre os primórdios do PCC.
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Influência no exterior
Hoje
inimigos — embora tenham sido aliados nos anos 2000 —, CV e PCC são as únicas
organizações criminosas brasileiras que, no mapeamento do governo federal, têm
influência no exterior, com destaque para a América do Sul. Dos outros 86
grupos, 72 atuam unicamente nos seus estados de origem, e 14 alcançam mais de
um estado ou região dentro do Brasil.
De
acordo com dados do Ministério Público de São Paulo obtidos em junho pelo
portal g1, o PCC tem estimadamente mais de 2 mil membros em outros 28 países. A
maioria deles atuaria dentro de prisões com recrutamento de novos membros,
lavagem de dinheiro e tráfico de drogas e armas.
Já O
Globo afirmou neste ano que autoridades do governo estadual do Rio de Janeiro e
dos Estados Unidos (EUA) costuravam um acordo para combater juntas o CV. A
organização manteria laços com cartéis sul-americanos e mexicanos com
penetração no território americano, reportou o jornal.
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Redes fortes, tréguas frágeis
As duas
maiores organizações criminosas do país chegaram a acordar um cessar-fogo em
fevereiro deste ano, a fim de fortalecer suas atividades e armamentos. A trégua
alarmou autoridades e colocou uma pausa a quase uma década de confrontos
violentos, disputas por rotas de contrabando e tomadas de território, sobretudo
no Norte e Nordeste, conforme explicam pesquisadores do Observatório de
Segurança Pública.
Mas a
paz durou apenas dois meses, fazendo retornar a guerra inicialmente deflagrada
em 2016. À época, fora assassinado o narcotraficante Jorge Rafaat, conhecido
como "rei do tráfico", na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Provocada
por uma emboscada cinematográfica, a sua morte foi considerada um marco da
disputa, incluindo por PCC e CV, pelo controle de um importante corredor para o
tráfico de drogas na América do Sul.
O
Brasil registraria em 2017 um recorde anual de homicídios — mais de 65 mil, de
acordo com o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) —, associado por especialistas aos confrontos entre
PCC e CV. A marca nunca foi superada, com o registro mais recente sendo de 45
mil homicídios em 2023.
"Naquele
momento, o PCC alcançava predomínio nas rotas utilizadas no Centro-Oeste
brasileiro, empurrando a atuação do CV em direção ao Norte, onde intensificou o
processo de alianças, conflitos e acomodações com facções e outros grupos de
origem regional", explica um relatório de 2023publicado pelo Fórum
Brasileiro de Segurança Pública.
Desde
então, ambas as organizações estariam investindo na internacionalização e
fortalecendo novas rotas do tráfico de drogas, como a do rio Solimões, na
tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil. Atuam ainda na área outros
grupos de países vizinhos, incluindo dissidentes das Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Um
estudorealizado por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos (EUA)
estimou neste ano que o Brasil tenha entre 50 e 61 milhões de pessoas vivendo
sob a governança de organizações criminosas. O número corresponde a
aproximadamente um quarto da população do país e é o maior da América Latina,
de acordo com os dados levantados pela pesquisa.
Fonte:
Opera Mundi/DW Brasil/Diálogos do Sul Global

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