segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Qual é o objetivo final de Trump na Venezuela?

Há dois meses, o Exército americano vem reunindo uma força de navios de guerra, caças, bombardeiros, fuzileiros navais, drones e aviões espiões no Mar do Caribe. Trata-se do maior destacamento militar para a região em décadas.

Aviões bombardeiros de longo alcance, B-52, realizaram "demonstrações de ataques com bombardeiros" na costa da Venezuela. Donald Trump também autorizou operações da CIA na Venezuela, à medida que as tensões aumentam.

Na sexta-feira, o governo americano anunciou o envio do maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald Ford, à região - mais uma amostra da escalada de pressão e tensão.

Os EUA afirmam ter matado dezenas de pessoas em ataques a pequenas embarcações venezuelanas que, segundo eles, transportam "narcóticos" e "narcoterroristas", sem fornecer provas ou detalhes sobre as pessoas a bordo.

Os ataques foram condenados na região e especialistas questionaram sua legalidade. Os EUA os vendem como uma guerra contra o narcotráfico, mas todos os sinais sugerem que se trata, na verdade, de uma campanha de intimidação que busca remover o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, do poder.

"Trata-se de uma mudança de regime. Provavelmente não vão invadir, a esperança é que se trate de uma sinalização", afirma Christopher Sabatini, pesquisador sênior para a América Latina no think tank Chatham House.

Ele argumenta que o aumento de efetivo militar é uma demonstração de força com o objetivo de "incutir medo" nos militares venezuelanos e no círculo íntimo de Maduro, para que se voltem contra ele.

A BBC Verify vem monitorando informações de rastreamento publicamente disponíveis de navios e aviões americanos na região – juntamente com imagens de satélite e imagens em redes sociais – para tentar entender onde as forças de Trump estão localizadas.

A mobilização tem mudado, por isso monitoramos a região regularmente para atualizações.

Em 23 de outubro, identificamos 10 navios militares americanos na região, incluindo contratorpedeiros de mísseis guiados, navios de assalto anfíbio e petroleiros para reabastecimento de embarcações no mar.

<><> Uma recompensa de US$ 50 milhões testa a lealdade do círculo íntimo

Não é segredo que o governo dos EUA, em particular o Secretário de Estado Marco Rubio, gostaria de ver Maduro deposto.

No início deste ano, ele disse à Fox News que Maduro era um "ditador horrível" e, quando questionado se estava exigindo a saída de Maduro, acrescentou: "Vamos trabalhar nessa política".

Mas, mesmo para críticos declarados de Maduro como Rubio, é difícil pedir explicitamente uma mudança de regime apoiada pelos militares – algo que a oposição venezuelana há muito tempo reivindica.

Donald Trump fez campanha contra a mudança de regime em 2016, prometendo "parar de correr para derrubar regimes estrangeiros". Mais recentemente, condenou o envolvimento dos EUA em "guerras eternas" no exterior.

Os EUA não reconhecem Maduro como presidente da Venezuela, depois que a última eleição, em 2024, foi amplamente rejeitada internacionalmente por não ter sido nem livre nem justa. A embaixada dos EUA em Caracas foi fechada durante a primeira presidência de Trump, em 2019.

Os EUA aumentaram a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro para US$ 50 milhões, um incentivo para que aqueles dentro de seu círculo íntimo e leal o entreguem. Mas não houve deserções.

O professor de Direito e associado sênior do think tank de segurança nacional CSIS, José Ignacio Hernández, afirma que US$ 50 milhões "não são nada" para as elites venezuelanas.

Há muito dinheiro a ser ganho com corrupção em um Estado rico em petróleo como a Venezuela. O ex-chefe do Tesouro, Alejandro Andrade, recebeu US$ 1 bilhão em propinas antes de ser condenado.

Muitos analistas concordam que os militares venezuelanos seriam fundamentais para qualquer mudança de regime, mas para se voltarem contra Maduro e o expulsarem, provavelmente também exigiriam promessas de imunidade judicial.

"Eles pensarão que, de uma forma ou de outra, também estão envolvidos em atividades criminosas", acrescenta Hernández.

Michael Albertus, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, com extensas publicações sobre a América Latina, não está convencido de que mesmo uma recompensa de US$ 500 milhões persuadiria o círculo íntimo de Maduro a entregá-lo.

"Líderes autoritários sempre desconfiam até mesmo de seu círculo íntimo e, por isso, criam mecanismos para monitorá-los e garantir lealdade", diz ele.

As sanções econômicas à Venezuela agravaram a já grave crise econômica, mas não conseguiram persuadir figuras importantes a se voltarem contra seu presidente.

<><> Por que provavelmente não se trata apenas da luta contra as drogas

Donald Trump declarou que esta é uma guerra contra os narcotraficantes e disse que um navio atingido pelos EUA, em 16 de outubro, estava "carregado principalmente com fentanil".

Mas o fentanil é produzido principalmente no México – não na América do Sul – e entra nos EUA pela fronteira sul.

"Não se trata de drogas", diz Sabatini. "Mas ele se apropriou da linguagem da oposição venezuelana de que esta não é apenas uma ditadura – é um regime criminoso."

Desde 2020, o Departamento de Justiça dos EUA acusa o presidente Maduro de liderar uma organização de tráfico de drogas e narcoterrorismo, o que ele nega.

Trump afirmou ter autorizado a CIA a realizar operações secretas na Venezuela, em parte devido à "entrada de drogas" vindas da Venezuela.

A Venezuela não produz grandes quantidades de cocaína – o foco da produção está na Colômbia, Peru e Bolívia. Parte da droga é transportada através do território venezuelano, mas o próprio governo afirma estar reprimindo esse tráfico.

Um relatório da Agência Antidrogas dos EUA de 2025 afirma que 84% da cocaína apreendida nos EUA vem da Colômbia. Outros países são mencionados na seção sobre cocaína do documento, mas não a Venezuela.

Os sete primeiros ataques foram realizados no Caribe, que não é uma rota marítima importante para o tráfico de drogas em comparação com o Oceano Pacífico, onde os ataques subsequentes foram realizados.

Os EUA não detalharam suas evidências de que Maduro lidera uma organização de tráfico de drogas. O líder venezuelano negou repetidamente as acusações e, por sua vez, acusou os EUA de imperialismo e de agravar a crise econômica do país por meio de sanções.

Há casos conhecidos de pessoas próximas a ele sendo indiciadas.

Em 2016, um tribunal federal de Nova York condenou dois sobrinhos da esposa de Maduro por conspirar para importar cocaína para os EUA. Segundo a acusação, eles planejavam usar parte do dinheiro obtido para financiar a campanha política da tia na Venezuela. Eles foram posteriormente libertados.

<><> Reforçando a força marítima e aérea dos EUA

Interceptar drogas no mar não exige uma força tão grande quanto a empregada atualmente pelos EUA, de acordo com analistas militares.

Além dos navios americanos que rastreamos em Porto Rico – onde os EUA têm uma base militar – imagens de satélite também mostraram duas embarcações a cerca de 123 km a leste de Trinidad e Tobago.

Um deles era um cruzador de mísseis guiados, o USS Lake Erie.

O outro parecia ser o MV Ocean Trader, de acordo com Bradley Martin, ex-capitão da Marinha dos EUA, agora pesquisador sênior de políticas na RAND Corp.

Este é um navio de carga convertido, projetado para apoiar missões de forças especiais, ao mesmo tempo em que se mistura ao tráfego comercial. Ele pode abrigar drones, helicópteros e pequenas embarcações.

Há uma ampla variedade de missões que o navio poderia apoiar, incluindo reconhecimento para preparação de ataques. Mas segundo Martin, sua presença "não significa necessariamente que esse tipo de atividade esteja sendo realizada ou planejada".

Os EUA também reforçaram sua presença aérea na região - a BBC Verify identificou várias aeronaves militares americanas em Porto Rico.

Stu Ray, analista sênior da McKenzie Intelligence Services, afirma que uma imagem de satélite tirada em 17 de outubro mostra caças F-35 na pista, possivelmente F-35Bs.

Trata-se de jatos stealth altamente avançados, valorizados por sua capacidade de decolagem curta e pouso vertical.

Nas redes sociais, um piloto de jato particular compartilhou um vídeo de um drone MQ-9 Reaper, filmado no Aeroporto Rafael Hernández, em Porto Rico.

Eles foram usados ​​pelos EUA para realizar ataques e vigilância no Afeganistão, Síria, Líbia e Mali.

No início de outubro, a BBC Verify rastreou três bombardeiros B-52 que sobrevoaram o Caribe e se aproximaram da costa da Venezuela.

A Força Aérea dos EUA confirmou posteriormente que os aviões participaram de uma "demonstração de ataque de bombardeiro".

Voos de bombardeiros B1 e aviões espiões P-8 Poseidon também foram vistos em plataformas de rastreamento de aeronaves.

Imagens nas redes sociais também mostraram helicópteros militares operando na costa de Trinidad e Tobago.

Alguns deles são Boeing MH-6M Little Birds - apelidados de "Ovos Assassinos" - usados ​​pelas forças especiais dos EUA.

<><> O que a CIA poderia fazer na Venezuela

Quando questionado se a CIA havia sido autorizada pelo governo a derrubar Maduro, Donald Trump se esquivou da pergunta e disse que seria "ridículo" responder.

Ele também afirmou que os EUA estão "de olho em território agora", referindo-se a possíveis operações militares em solo venezuelano.

A CIA é vista com muita desconfiança por muitos na América Latina devido a um longo histórico de intervenções secretas, tentativas de mudança de regime e apoio a ditaduras militares de direita do passado, principalmente no Chile e no Brasil.

Ned Price, vice-representante dos EUA nas Nações Unidas e ex-analista sênior da CIA e conselheiro sênior do Departamento de Estado, disse que as ações secretas da CIA podem assumir "várias formas".

"Podem ser operações de informação. Podem ser operações de sabotagem. Pode ser o financiamento de partidos de oposição. Pode ir até a derrubada de um regime. Há muitas opções, entre as mais simples e as mais sofisticadas."

Isso pode incluir o uso de agentes para perseguir suspeitos de tráfico dentro da Venezuela. Pela própria definição dos EUA, isso poderia incluir o próprio Maduro.

Sabatini afirma que, como a Venezuela não é um importante ponto de produção de drogas, não há laboratórios de cocaína ou fentanil para "eliminar", mas há pistas de pouso ou portos que os EUA poderiam atacar.

"Se ele quiser ser agressivo, poderia enviar um míssil para um quartel militar. Há informações bastante precisas de que certos setores das Forças Armadas estão envolvidos no tráfico de cocaína."

Ou poderia ser uma "situação de invasão e apreensão", observa ele, em que tentam capturar Maduro ou alguns de seus tenentes e levá-los à justiça nos EUA.

A grande questão, argumenta ele, é por quanto tempo Trump está disposto a manter tantos ativos americanos estacionados no Caribe.

Se o objetivo principal desse aumento militar é ameaçar Maduro, não está claro se será suficiente para provocar deserções.

Mas é difícil saber se isso chega a ser uma tentativa real de derrubar o regime de Maduro pela força, pondera Albertus.

¨      CIA desempenha o "papel mais importante" nos ataques dos EUA no Caribe, dizem fontes

Agência Central de Inteligência (CIA) está fornecendo a maior parte da inteligência usada para realizar os controversos ataques aéreos letais do governo Trump contra pequenas embarcações velozes no Mar do Caribe, suspeitas de transportar drogas da Venezuela , de acordo com três fontes familiarizadas com as operações. Especialistas afirmam que o papel central da agência significa que muitas das evidências usadas para selecionar quais supostos contrabandistas matar em mar aberto quase certamente permanecerão em segredo.

O papel central da agência nos ataques com barcos não foi divulgado anteriormente. Donald Trump confirmou na quarta-feira passada que havia autorizado ações secretas da CIA na Venezuela, mas não informou o que a agência faria.

As fontes dizem que a CIA está fornecendo informações em tempo real coletadas por satélites e interceptações de sinais para detectar quais barcos ela acredita estarem carregados com drogas, rastreando suas rotas e fazendo recomendações sobre quais embarcações devem ser atingidas por mísseis.

"Eles são a parte mais importante", disse uma das fontes. Duas fontes disseram que os drones ou outras aeronaves que lançaram os mísseis usados ​​para afundar os barcos pertenciam ao exército americano , não à CIA.

As informações que a agência reúne contra qualquer um dos supostos contrabandistas – vivos ou mortos – provavelmente permanecerão confidenciais e fora do alcance do público. Isso apesar do interesse público e do debate mundial sobre o assassinato de civis.

A inteligência da agência, diferentemente das informações coletadas pela DEA ou pela Guarda Costeira dos EUA, que costumavam conduzir operações de interdição marítima contra contrabandistas, não foi concebida como evidência legal.

“Não produzimos provas”, disse Mark Lowenthal, ex-diretor assistente de análise da CIA. “Temos informações de inteligência. Não é a mesma coisa que evidências. É um ambiente diferente. Às vezes, são fatos concretos e crus, às vezes muito menos.” Ele enfatizou que está falando de forma geral, com base em sua experiência passada, e não possui informações independentes sobre os atuais ataques a barcos ou informações de inteligência.

A inteligência da CIA não foi projetada para divulgação, em tribunais ou em audiências públicas. Ela foi projetada para "nunca ver o interior de um tribunal", disse uma fonte, porque a CIA faz de tudo para proteger suas fontes e métodos.

Lowenthal disse acreditar ser improvável que as informações da CIA sobre os alvos do tráfico de drogas sejam divulgadas. "Eles vão alegar que são confidenciais e não vão divulgá-las publicamente. E podem estar certos. Eles têm todo tipo de exceção na lei."

Até agora, as únicas informações divulgadas foram trechos de vídeos granulados de barcos explodindo, postados online por Trump ou pelo Pentágono.

Um porta-voz da CIA se recusou a comentar esta história e encaminhou quaisquer outras questões ao Pentágono.

Um porta-voz do Comando Sul dos EUA, que supervisiona as operações militares no Caribe, encaminhou as perguntas à Casa Branca. O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, publicou no X na quinta-feira que o comandante do Comando Sul estava se demitindo.

Um porta-voz do Pentágono disse: “Devido à segurança operacional, não falamos sobre questões de inteligência”.

Em resposta a perguntas do Guardian, Anna Kelly, vice-secretária de imprensa da Casa Branca, disse: “Todos esses ataques decisivos foram contra narcoterroristas designados que trazem veneno mortal para nossas costas, e o presidente continuará a usar todos os elementos do poder americano para impedir que as drogas inundem nosso país e para levar os responsáveis ​​à justiça.

No sábado, Trump fez alusão à inteligência, em vez das Forças Armadas dos EUA, em uma publicação na plataforma de mídia social que ele possui sobre a destruição de um semissubmersível que ele chamou de "SUBMARINO DE TRANSPORTE DE DROGAS". "A Inteligência dos EUA", escreveu ele, "confirmou que esta embarcação estava carregada principalmente com Fentanil e outros narcóticos ilegais".

Trump anunciou o que parece ter sido o primeiro ataque a um barco em 3 de setembro, divulgando um breve vídeo do ataque. Desde então, o governo anunciou publicamente mais seis ataques, sem nunca divulgar detalhes sobre os alvos, exceto o número de mortos e a alegação de que os barcos transportavam narcóticos.

Várias fontes afirmam que agentes da CIA têm buscado desempenhar um papel mais central nos objetivos de política externa do governo Trump no hemisfério. Embora a agência já tenha um longo esforço de combate ao narcotráfico, as fontes afirmam que ela está reforçando essa capacidade para manter sua relevância.

A Casa Branca também não divulgou detalhes sobre qualquer base legal para ataques contra alvos civis. Especialistas em direito internacional humanitário afirmam que é uma violação usar força letal contra civis que não estejam envolvidos em uma guerra, sejam eles suspeitos ou não de tráfico de drogas.

Harold Koh, professor de direito internacional em Yale que trabalhou no Departamento de Estado durante a era Obama e defendeu o ataque letal de 2010 no Iêmen contra o americano Anwar Al Awlaki, afirmou no mês passado que os ataques no Caribe eram ilegais. "Não há autoridade para o presidente cometer execução sumária em alto mar", disse ele, "especialmente quando existe a opção de captura, que eles vêm usando até agora".

 

Fonte: BBC News/The Guardian

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário