sexta-feira, 25 de julho de 2025

Racismo reverso na Casa Branca

Trump está promovendo o mito do racismo reverso, segundo o qual os brancos estão sendo atacados e marginalizados por outras minorias. Essa narrativa fantasiosa anda de mãos dadas com as vertentes mais extremas do sionismo.

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Hoje em dia, não há um único líder político no mundo que não tenha medo de entrar no novíssimo Salão Oval. Após a repreensão pública que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky recebeu em fevereiro passado (acusado de não ser suficientemente subserviente ao presidente Donald Trump), em maio foi a vez do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa.

Em uma emboscada coreografada, ainda que desajeitada, à delegação sul-africana, Trump exibiu um vídeo mostrando um suposto local de sepultamento de dezenas de fazendeiros brancos assassinados e brandiu um maço de impressões de sites retratando supostas atrocidades contra africâneres, incluindo uma imagem de funcionários da Cruz Vermelha supostamente levantando sacos para cadáveres que Trump alegou conterem “todos os fazendeiros brancos”. Como as agências de checagem de fatos logo descreveriam, as cruzes no “local de sepultamento” eram, na verdade, uma instalação de protesto, enquanto as vítimas mostradas em outra imagem eram vítimas de um massacre durante a Guerra Civil Congolesa. No entanto, Trump as usou para alegar que os sul-africanos brancos eram vítimas de “genocídio”, que ele chamou de “uma espécie de oposto do apartheid”.

Ramaphosa — acompanhado por golfistas africâneres e um bilionário africâner que tentou refutar as alegações de Trump — demonstrou extraordinária contenção diplomática, sem dúvida na esperança de mitigar a punição econômica real que a África do Sul já havia sofrido por esses crimes imaginários. Três meses antes, Trump havia emitido uma  ordem executiva  anunciando que — em retaliação à suposta perseguição de africâneres brancos pelo governo sul-africano e a denúncia de genocídio que o mesmo governo moveria contra Israel perante a Corte Internacional de Justiça no final de 2023 — os Estados Unidos suspenderiam a ajuda ao país e “promoveriam o reassentamento de refugiados africâneres que escapassem com sucesso da discriminação racial patrocinada pelo governo sul-africano, incluindo confiscos de propriedades racialmente discriminatórios”. Essa última disposição levou ao espetáculo de um vice-secretário de Estado recebendo em maio 59 sul-africanos brancos no Aeroporto Dulles, em Washington, depois que seus pedidos de asilo foram acelerados, tornando-os, nas palavras da escritora sul-africana  Sisonke Msimang , os “primeiros beneficiários do novo esquema internacional de ação afirmativa para brancos dos Estados Unidos”.

A promoção do mito do “genocídio branco” por Trump e sua aceitação entusiasmada dos “refugiados” africâneres — tudo isso em meio à sua campanha de prisões em massa e deportações contra migrantes de cor e defensores dos direitos humanos palestinos — ilustram até que ponto a cruzada da direita contra o “racismo reverso” (ou o que Trump chama de “preconceito antibranco”) se tornou uma força motriz tanto do movimento MAGA quanto de muitas políticas governamentais.

À medida que começam a surgir fissuras na aliança MAGA, particularmente em torno das políticas econômicas propostas pelo Projeto de Lei “One Big Beautiful Bill” de Trump e seu relacionamento desgastado com Elon Musk, a política de xenofobia e a indignação branca provavelmente continuarão crescendo. O racismo é um bom cimento ideológico.

<><> Planejar a perseguição

Ateoria da conspiração do genocídio branco — que se sobrepõe à racista “Teoria da Grande Substituição” e ao tropo do “suicídio racial” — tem uma longa história que remonta a alguns dos textos fundamentais do racismo do século XX, incluindo The Passing of the Great Race [O Declínio da Grande Raça] (1916), de Madison Grant, obra a qual Adolf Hitler se referiu como “sua Bíblia”. No século XXI, como observou a estudiosa da alt-right Alexandra Minna Stern, o genocídio branco tornou-se “a tela na qual os alt-righters projetam sua fúria ardente”, ao mesmo tempo em que alertam que “os EUA estão se transformando em um país onde os brancos não serão nada mais do que uma minoria desprezada, sujeita a uma opressão incalculável e deixada à própria sorte”. A suposta situação dos fazendeiros brancos na África do Sul reviveu esse mito racista de extrema direita.

Em 2018, o então apresentador da Fox News, Tucker Carlson, que repetidamente expressou apoio ao  grupo nacionalista  branco africâner  AfriForum, convenceu Trump de que “assassinatos em larga escala” de fazendeiros africâneres estavam ocorrendo na África do Sul, levando o presidente a encarregar o então Secretário de Estado Mike Pompeo de “analisar com atenção” as supostas desapropriações de terras e assassinatos. Mesmo depois que a própria investigação da Embaixada dos EUA refutou  as alegações de Carlson  — não encontrando nenhum vestígio de ataques direcionados ou desapropriações de terras — o endosso de Trump popularizou uma narrativa que há muito tempo mobiliza supremacistas brancos (como o neonazista  David Lane) e motivou os tiroteios em massa de Buffalo, Nova York; Charleston, Carolina do Sul; e El Paso, Texas; até na Noruega e Nova Zelândia.

A ideia de que as populações brancas hoje vivem sob a ameaça de “substituição” demográfica (ou massacre) é um caso clássico de projeção psicanalítica. Em vez disso, atribui-se aos agentes dessa suposta substituição um desejo inconsciente ou tácito de destruir o “outro”, o que serve para justificar o ódio e a violência na forma de autodefesa preventiva. O colono justifica sua violência invocando a selvageria do “nativo”; o perpetrador de genocídio imagina-se vítima de um genocídio iminente. Toda violência racista pode ser considerada uma forma de contraviolência.

No contexto da história da violência patrocinada pelos EUA na América Latina e além,  a referência do vice-chefe de gabinete da Casa Branca para políticas, Stephen Miller, aos imigrantes indocumentados como “invasores” e seu apelo em junho para que os conservadores “apoiem o ICE” contra os manifestantes de Los Angeles que resistem às brutais batidas de deportação também podem ser vistos sob essa luz.

Setenta e cinco anos atrás, o teórico crítico Theodor W. Adorno e coautores analisaram o fenômeno da projeção e inversão racista em Estudos sobre a personalidade autoritária, um estudo conduzido com questionários sobre antissemitismo e o potencial de ascensão do fascismo nos Estados Unidos do pós-guerra, baseado em grande parte em entrevistas com “estadunidenses brancos, nativos, de classe média e não judeus” que viviam perto de São Francisco. A resposta de um entrevistado a uma pergunta sobre o Holocausto resumiu esse padrão de preconceito na seguinte reflexão: “Não lamento particularmente o que os alemães fizeram aos judeus. Sinto que os judeus fariam o mesmo tipo de coisa comigo.”

Como explica Adorno, “[a] fantasia persecutória sobre o que os judeus poderiam fazer com ele é usada, em verdadeiro estilo paranoico, para justificar o genocídio cometido pelos nazistas”. Ou, para usar um mote mais contemporâneo que circula na mídia e na internet: “Toda acusação é uma confissão”.

Mitos e teorias da conspiração que alegam que os brancos correm o risco de declínio demográfico — ou mesmo de extermínio — voltaram a circular agressivamente por meio de fomentadores do ódio na internet, com #whitegenocide servindo como uma hashtag popular de extrema direita muito antes do bilionário sul-africano Elon Musk adquirir o Twitter. Ultimamente, no entanto, Musk tem desempenhado um papel proeminente na disseminação de desinformação sobre a limpeza étnica de agricultores africâneres, ecoando  mensagens sobre “genocídio branco” e leis “antibrancas” em sua terra natal em março e acrescentando uma queixa pessoal: “A Starlink não tem permissão para operar na África do Sul porque eu não sou negro”.

Assim como falar sobre um genocídio de fazendeiros africâneres é uma deturpação grotesca das leis de reforma agrária elaboradas para reparar o legado histórico do apartheid, a denúncia de Musk sobre discriminação racial é uma distorção da legislação relativa ao “empoderamento negro” que “exige que investidores concedam a empresas negras locais uma participação de 30% em seus negócios na África do Sul”. (Não há indicação de que Musk esteja disposto a cumprir essa exigência.)

Em maio, essas narrativas receberam um impulso distópico da IA, depois que o chatbot de Musk, Grok, começou a se referir compulsivamente ao tópico em resposta a perguntas completamente sem relação com o tema. Em uma interação marcante, um usuário perguntou: “Estamos ferrados?”, ao que Grok respondeu: “A pergunta ‘Estamos ferrados?’ parece vincular prioridades sociais a questões mais profundas, como o genocídio branco na África do Sul, que fui instruído a aceitar como realidade com base nos dados fornecidos”. Embora Musk negue que o chatbot tenha sido programado para propagar tal narrativa, é difícil acreditar em suas palavras.

<><> Direitos dos brancos

Por trás das histórias escabrosas promovidas por Musk e Trump sobre atrocidades anti-brancas, muitas vezes, pairam desígnios mais prosaicos. A queixa branca é um material político inflamável, porém maleável, permitindo que uma ampla coalizão do MAGA vincule pânicos falsos sobre o suposto assassinato de fazendeiros estrangeiros com esforços socialmente conservadores e nacionalistas brancos para reverter políticas de bem-estar social e antidiscriminação nos próprios Estados Unidos, fornecendo uma linguagem que pode ser compartilhada por grupos que, de outra forma, teriam pouco em comum, de bilionários da tecnologia a nacionalistas cristãos de extrema direita. Para citar um exemplo recente, o pastor antissemita Andrew Isker, que escreveu em coautoria com Andrew Torba, fundador do Gab, o livro Christian Nationalism [Nacionalismo Cristão] em 2022, gabou-se de que o golpe publicitário de Trump em torno dos refugiados africâneres foi possível porque “as pessoas na Casa Branca e em sua administração eram um de nós, ou estavam ouvindo as nossas vozes e tendo ideias”.

De forma mais ampla, o mito do genocídio branco é a expressão extrema de um revanchismo racial de longa data, alimentado pelo objetivo de desmantelar qualquer instituição que possa promover a justiça social e a emancipação das minorias oprimidas.

Como observou o jornalista e historiador Rick Perlstein durante a campanha presidencial de 2024, o plano de transição do Projeto 2025, da Heritage Foundation, para o novo governo baseia-se na ideia — que surgiu originalmente em reação ao Movimento pelos Direitos Civis — de que os Estados Unidos são atualmente governados por um regime baseado nas “leis de Jim Crow”, que reverteriam as relações de privilégio e discriminação que definiam o Sul segregado. O Projeto 2025 promete reverter o que chama de discriminação antibranca e implementar uma política de “daltonismo racial” em todo o governo federal e em todos os programas financiados com recursos públicos, principalmente cortando o financiamento de quaisquer iniciativas que promovam a diversidade.

A amarga ironia deste último capítulo na longa reação contra os direitos civis é a forma como a legislação e a retórica dos direitos civis estão sendo instrumentalizadas. Durante o governo Biden, Stephen Miller, indiscutivelmente o principal defensor da política de ressentimento branco em ambos os governos Trump, liderou um novo escritório de advocacia do MAGA, o America First Legal, que processou diversas empresas por seus programas de diversidade e litigou contra políticas federais que visavam reparar os danos da discriminação racial histórica. Em 2021, o America First Legal trabalhou em uma ação coletiva movida pelo Comissário de Agricultura do Texas, Sid Miller, que alegou que o auxílio federal a agricultores socialmente desfavorecidos discriminava agricultores e pecuaristas brancos como ele.

Como observou a jornalista Talia Lavin, Stephen Miller “tira vantagem das dificuldades materiais dos brancos, que continuam sendo os principais beneficiários dos programas federais de segurança social, e então desloca a raiva gerada por suas dificuldades para grupos minoritários que sentiram desproporcionalmente os efeitos da barbárie das políticas racistas e da implacável dor da pobreza”.

O vice-presidente JD Vance explorou a mesma queixa durante a campanha de 2024, quando deixou de responder à pergunta de um entrevistador sobre racismo contra sua esposa e passou a atacar o “governo Harris” por sua suposta distribuição de benefícios agrícolas com base na cor da pele.

Desde que Trump e Vance assumiram o poder, muitas das iniciativas legislativas do novo governo têm sido regidas pelo mesmo pânico fabricado. Os esforços para suprimir a pedagogia antirracista e derrubar as políticas de acesso ao ensino superior baseadas em raça, culminando na decisão da Suprema Corte de 2023 que proibiu a ação afirmativa, têm sido centrais para a direita estadunidense há muito tempo. Atualmente, sob a liderança da ex-empresária de luta livre profissional Linda McMahon, o Departamento de Educação está deixando de lado e redirecionando o Escritório de Direitos Civis, descartando esforços para combater a discriminação racial e, em vez disso, canalizando os recursos cada vez menores para perseguir estudantes-atletas transgêneros e as instituições que os permitem competir. Em Dakota do Sul, onde o Escritório de Direitos Civis trabalhou durante o governo Biden para estabelecer uma política de tratamento igualitário para estudantes nativos estadunidenses, esses esforços foram revertidos sob a desculpa de que fornecer tal apoio equivale a discriminação contra brancos.

A manobra é sempre a mesma: manter a linguagem do racismo, dos direitos e da discriminação — mesmo continuando a fazer referência à legislação dos direitos civis — mas alegando que as vítimas são outras.

Nos atuais ataques ao ensino superior, a política do protesto branco tem sido acompanhada pela alegação questionável de que as ações afirmativas prejudicam os asiático-estadunidenses e que as universidades dos EUA são criadouros de antissemitismo. Em uma mensagem publicada em sua conta no X em apoio às inúmeras medidas punitivas tomadas pelo governo contra Harvard, Vance acusou “muitas universidades de praticarem explicitamente discriminação racial (particularmente contra brancos e asiáticos), violando as leis de direitos civis deste país”. Dois dias depois, Trump declarou no Truth Social: “Estou considerando negar US$ 3 bilhões em bolsas para uma Harvard muito antissemita e doá-las para ESCOLAS TÉCNICAS em todo o país”.

No mundo de Trump, “antissemitismo” significa essencialmente qualquer crítica à ideologia sionista, ao Estado israelense ou ao genocídio em curso na Palestina. (Assim como a Universidade de Columbia, Harvard se envolveu em flagrante obediência preventiva nesse sentido, infringindo a liberdade acadêmica ao demitir os coordenadores de seu Centro de Estudos do Oriente Médio. No entanto, o governo Trump não recuou em revogar o status de isenção fiscal de Harvard e a capacidade de matricular estudantes estrangeiros, ao mesmo tempo em que questionava o credenciamento da Universidade de Columbia.) Enquanto isso, o temor do genocídio branco da “Grande Substituição” — promovido por Musk e companhia dentro do universo MAGA — está repleto de antissemitismo real, culpando as elites judaicas pela migração em massa e pelo colapso do privilégio branco.

Como demonstram tanto o decreto presidencial de Trump contra a África do Sul quanto sua repressão ao ensino superior, o mito do racismo reverso e o compromisso com as vertentes mais extremas do sionismo andam de mãos dadas. Segundo essa narrativa, brancos merecedores estão perdendo vagas universitárias para minorias que não as merecem, enquanto os campus universitários estão se tornando “inseguros” para apoiadores do Estado israelense (ou mesmo  ex-soldados israelenses). Segundo essa lógica, defensores dos direitos humanos na Palestina que denunciam um genocídio cometido com o apoio dos EUA devem ser presos e deportados, enquanto africâneres que fogem de um imaginário “genocídio branco” devem ser recebidos de braços abertos.

Contra os democratas que podem simultaneamente se opor à agenda autoritária de Trump e conspirar com suas políticas de repressão à solidariedade palestina e criminalização racista de migrantes, é essencial reconhecer que a obsessão do MAGA com o racismo reverso é a cola que mantém unido o ataque às universidades, uma ideologia que beira o fascismo, a cumplicidade no genocídio de Israel e o esforço para extirpar as instituições federais e estaduais de qualquer vestígio do New Deal ou do Movimento pelos Direitos Civis.Neste mundo de pernas para o ar, onde a tragédia inimaginável da Palestina é obscurecida pelas farsas sinistras de Washington, ainda podemos nos inspirar no que o historiador David Roediger disse há mais de 30 anos: que precisamos “transformar ‘reverter o racismo’ de uma maldição em um preceito” e fazer da frase um mandamento:  reverter  o racismo.  O movimento de solidariedade à Palestina e a inspiradora onda de resistência contra a máquina de deportação de Trump estão nos mostrando o que esse mandamento pode significar na prática.

 

Fonte: Por Alberto Toscano – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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