Racismo
reverso na Casa Branca
Trump
está promovendo o mito do racismo reverso, segundo o qual os brancos estão
sendo atacados e marginalizados por outras minorias. Essa narrativa fantasiosa
anda de mãos dadas com as vertentes mais extremas do sionismo.
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Hoje em
dia, não há um único líder político no mundo que não tenha medo de entrar no
novíssimo Salão Oval. Após a repreensão pública que o presidente ucraniano
Volodymyr Zelensky recebeu em fevereiro passado (acusado de não ser
suficientemente subserviente ao presidente Donald Trump), em maio foi a vez do
presidente sul-africano Cyril Ramaphosa.
Em uma
emboscada coreografada, ainda que desajeitada, à delegação sul-africana, Trump
exibiu um vídeo mostrando um suposto local de sepultamento de dezenas de
fazendeiros brancos assassinados e brandiu um maço de impressões de sites
retratando supostas atrocidades contra africâneres, incluindo uma imagem de
funcionários da Cruz Vermelha supostamente levantando sacos para cadáveres que
Trump alegou conterem “todos os fazendeiros brancos”. Como as agências de
checagem de fatos logo descreveriam, as cruzes no
“local de sepultamento” eram, na verdade, uma instalação de protesto, enquanto
as vítimas mostradas em outra imagem eram vítimas de um massacre durante a
Guerra Civil Congolesa. No entanto, Trump as usou para alegar que os
sul-africanos brancos eram vítimas de “genocídio”, que ele chamou de
“uma espécie de
oposto do apartheid”.
Ramaphosa — acompanhado
por golfistas africâneres e um bilionário africâner que tentou refutar
as alegações de Trump —
demonstrou extraordinária contenção diplomática, sem dúvida na esperança de
mitigar a punição econômica real que a África do Sul já havia sofrido por esses
crimes imaginários. Três meses antes, Trump havia emitido uma ordem
executiva anunciando
que — em retaliação à suposta perseguição de africâneres brancos pelo governo
sul-africano e a denúncia de genocídio que o mesmo governo moveria contra
Israel perante a Corte Internacional de Justiça no final de 2023 — os Estados
Unidos suspenderiam a ajuda ao país e “promoveriam o reassentamento de
refugiados africâneres que escapassem com sucesso da discriminação racial
patrocinada pelo governo sul-africano, incluindo confiscos de propriedades
racialmente discriminatórios”. Essa última disposição levou ao espetáculo de um
vice-secretário de Estado recebendo em maio 59 sul-africanos brancos no Aeroporto
Dulles, em Washington, depois que seus pedidos de asilo foram acelerados,
tornando-os, nas palavras da escritora sul-africana Sisonke Msimang , os “primeiros beneficiários do novo
esquema internacional de ação afirmativa para brancos dos Estados Unidos”.
A
promoção do mito do “genocídio branco” por Trump e sua aceitação entusiasmada
dos “refugiados” africâneres — tudo isso em meio à sua campanha de prisões em
massa e deportações contra migrantes de cor e defensores dos direitos humanos
palestinos — ilustram até que ponto a cruzada da direita contra o “racismo
reverso” (ou o que Trump chama de “preconceito antibranco”) se tornou uma força
motriz tanto do movimento MAGA quanto de muitas políticas governamentais.
À
medida que começam a surgir fissuras na aliança MAGA, particularmente em torno
das políticas econômicas propostas pelo Projeto de Lei “One Big Beautiful
Bill” de Trump e seu relacionamento desgastado com Elon Musk, a política de
xenofobia e a indignação branca provavelmente continuarão crescendo. O
racismo é um bom cimento ideológico.
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Planejar a perseguição
Ateoria
da conspiração do genocídio branco — que se sobrepõe à racista “Teoria da
Grande Substituição” e ao tropo do “suicídio racial” — tem uma longa história
que remonta a alguns dos textos fundamentais do racismo do século XX,
incluindo The Passing of the Great Race [O Declínio da Grande
Raça] (1916), de Madison Grant, obra a qual Adolf Hitler se referiu como “sua
Bíblia”. No século XXI, como observou a estudiosa da
alt-right Alexandra Minna Stern, o genocídio branco tornou-se “a tela na
qual os alt-righters projetam sua fúria ardente”, ao mesmo tempo em
que alertam que “os EUA estão se transformando em um país onde os brancos não
serão nada mais do que uma minoria desprezada, sujeita a uma opressão
incalculável e deixada à própria sorte”. A suposta situação dos fazendeiros
brancos na África do Sul reviveu esse mito racista de extrema direita.
Em
2018, o então apresentador da Fox News, Tucker Carlson, que repetidamente
expressou apoio ao grupo nacionalista branco
africâner AfriForum, convenceu Trump de que
“assassinatos em larga escala” de fazendeiros africâneres estavam ocorrendo na
África do Sul, levando o presidente a encarregar o então Secretário de Estado
Mike Pompeo de “analisar com atenção” as supostas
desapropriações de terras e assassinatos. Mesmo depois que a própria
investigação da Embaixada dos EUA refutou as alegações de Carlson — não
encontrando nenhum vestígio de ataques direcionados ou desapropriações de
terras — o endosso de Trump popularizou uma narrativa que há muito tempo
mobiliza supremacistas brancos (como o neonazista David Lane) e motivou os
tiroteios em massa de Buffalo, Nova York; Charleston, Carolina do Sul; e El
Paso, Texas; até na Noruega e Nova Zelândia.
A ideia
de que as populações brancas hoje vivem sob a ameaça de “substituição”
demográfica (ou massacre) é um caso clássico de projeção psicanalítica. Em vez
disso, atribui-se aos agentes dessa suposta substituição um desejo inconsciente
ou tácito de destruir o “outro”, o que serve para justificar o ódio e a
violência na forma de autodefesa preventiva. O colono justifica sua violência
invocando a selvageria do “nativo”; o perpetrador de genocídio imagina-se
vítima de um genocídio iminente. Toda violência racista pode ser considerada
uma forma de contraviolência.
No
contexto da história da violência patrocinada pelos EUA na América Latina e
além, a referência do vice-chefe de
gabinete da Casa Branca para políticas, Stephen Miller, aos imigrantes
indocumentados como “invasores” e seu apelo em
junho para que os conservadores “apoiem o ICE” contra os manifestantes de Los
Angeles que resistem às brutais batidas de deportação também podem ser vistos
sob essa luz.
Setenta
e cinco anos atrás, o teórico crítico Theodor W. Adorno e coautores analisaram
o fenômeno da projeção e inversão racista em Estudos sobre a
personalidade autoritária, um estudo conduzido com questionários sobre
antissemitismo e o potencial de ascensão do fascismo nos Estados Unidos do
pós-guerra, baseado em grande parte em entrevistas com “estadunidenses brancos,
nativos, de classe média e não judeus” que viviam perto de São Francisco. A
resposta de um entrevistado a uma pergunta sobre o Holocausto resumiu esse
padrão de preconceito na seguinte reflexão: “Não lamento particularmente o que
os alemães fizeram aos judeus. Sinto que os judeus fariam o mesmo tipo de coisa
comigo.”
Como
explica Adorno, “[a] fantasia persecutória sobre o que os judeus poderiam fazer
com ele é usada, em verdadeiro estilo paranoico, para justificar o genocídio
cometido pelos nazistas”. Ou, para usar um mote mais contemporâneo que circula
na mídia e na internet: “Toda acusação é uma confissão”.
Mitos e
teorias da conspiração que alegam que os brancos correm o risco de declínio
demográfico — ou mesmo de extermínio — voltaram a circular agressivamente
por meio de fomentadores do ódio
na internet,
com #whitegenocide servindo como uma hashtag popular de extrema direita muito
antes do bilionário sul-africano Elon Musk adquirir o Twitter. Ultimamente, no
entanto, Musk tem desempenhado um papel proeminente na disseminação de
desinformação sobre a limpeza étnica de agricultores africâneres,
ecoando mensagens sobre
“genocídio branco” e leis “antibrancas” em sua terra natal em março e
acrescentando uma queixa pessoal: “A Starlink não tem permissão para operar na
África do Sul porque eu não sou negro”.
Assim
como falar sobre um genocídio de fazendeiros africâneres é uma deturpação
grotesca das leis de reforma agrária elaboradas para
reparar o legado histórico do apartheid, a denúncia de Musk sobre discriminação
racial é uma distorção da legislação relativa ao
“empoderamento negro” que “exige que investidores concedam a empresas negras
locais uma participação de 30% em seus negócios na África do Sul”. (Não há
indicação de que Musk esteja disposto a cumprir essa exigência.)
Em
maio, essas narrativas receberam um impulso distópico da IA, depois que o
chatbot de Musk, Grok, começou a se referir compulsivamente ao tópico em
resposta a perguntas completamente sem relação com o tema. Em uma interação marcante, um
usuário perguntou: “Estamos ferrados?”, ao que Grok respondeu: “A pergunta
‘Estamos ferrados?’ parece vincular prioridades sociais a questões mais
profundas, como o genocídio branco na África do Sul, que fui instruído a
aceitar como realidade com base nos dados fornecidos”. Embora Musk negue que o
chatbot tenha sido programado para propagar tal narrativa, é difícil acreditar
em suas palavras.
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Direitos dos brancos
Por
trás das histórias escabrosas promovidas por Musk e Trump sobre atrocidades
anti-brancas, muitas vezes, pairam desígnios mais prosaicos. A queixa branca é
um material político inflamável, porém maleável, permitindo que uma ampla
coalizão do MAGA vincule pânicos falsos sobre o suposto assassinato de
fazendeiros estrangeiros com esforços socialmente conservadores e nacionalistas
brancos para reverter políticas de bem-estar social e antidiscriminação nos
próprios Estados Unidos, fornecendo uma linguagem que pode ser compartilhada
por grupos que, de outra forma, teriam pouco em comum, de bilionários da
tecnologia a nacionalistas cristãos de extrema direita. Para citar um exemplo
recente, o pastor antissemita Andrew Isker, que escreveu em coautoria com Andrew
Torba, fundador do Gab, o livro Christian Nationalism [Nacionalismo
Cristão] em 2022, gabou-se de que o golpe
publicitário de Trump em torno dos refugiados africâneres foi possível porque “as pessoas na Casa
Branca e em sua administração eram um de nós, ou estavam ouvindo as nossas
vozes e tendo ideias”.
De
forma mais ampla, o mito do genocídio branco é a expressão extrema de um
revanchismo racial de longa data, alimentado pelo objetivo de desmantelar
qualquer instituição que possa promover a justiça social e a emancipação das
minorias oprimidas.
Como
observou o jornalista e historiador Rick Perlstein durante a campanha
presidencial de 2024, o plano de transição do Projeto 2025, da Heritage
Foundation, para o novo governo baseia-se na ideia — que surgiu originalmente
em reação ao Movimento pelos Direitos Civis — de que os Estados Unidos são
atualmente governados por um regime baseado nas “leis de Jim Crow”, que reverteriam as
relações de privilégio e discriminação que definiam o Sul segregado. O Projeto
2025 promete reverter o que chama de discriminação antibranca e implementar uma
política de “daltonismo racial” em todo o governo federal e em todos os programas
financiados com recursos públicos, principalmente cortando o
financiamento de quaisquer iniciativas que promovam a diversidade.
A
amarga ironia deste último capítulo na longa reação contra os direitos civis é
a forma como a legislação e a retórica dos direitos civis estão sendo
instrumentalizadas. Durante o governo Biden, Stephen Miller, indiscutivelmente
o principal defensor da política de ressentimento branco em ambos os governos
Trump, liderou um novo escritório de advocacia do MAGA, o America First
Legal, que processou diversas
empresas por seus programas de diversidade e litigou contra políticas federais
que visavam reparar os danos da discriminação racial histórica. Em 2021,
o America First Legal trabalhou em uma ação coletiva movida
pelo Comissário de Agricultura do Texas, Sid Miller, que alegou que o auxílio
federal a agricultores socialmente desfavorecidos discriminava agricultores e
pecuaristas brancos como ele.
Como
observou a jornalista Talia Lavin, Stephen Miller “tira vantagem das
dificuldades materiais dos brancos, que continuam sendo os principais
beneficiários dos programas federais de segurança social, e então desloca a
raiva gerada por suas dificuldades para grupos minoritários que sentiram
desproporcionalmente os efeitos da barbárie das políticas racistas e da
implacável dor da pobreza”.
O
vice-presidente JD Vance explorou a mesma queixa durante a campanha de 2024,
quando deixou de responder à pergunta de um entrevistador sobre racismo contra
sua esposa e passou a atacar o “governo Harris” por sua suposta distribuição de
benefícios agrícolas com base na cor da pele.
Desde
que Trump e Vance assumiram o poder, muitas das iniciativas legislativas do
novo governo têm sido regidas pelo mesmo pânico fabricado. Os esforços para
suprimir a pedagogia antirracista e derrubar as políticas de acesso ao ensino
superior baseadas em raça, culminando na decisão da Suprema Corte de 2023 que
proibiu a ação afirmativa, têm sido centrais para a direita estadunidense há
muito tempo. Atualmente, sob a liderança da ex-empresária de luta livre
profissional Linda McMahon, o Departamento de Educação está deixando de lado e
redirecionando o Escritório de Direitos Civis, descartando esforços para
combater a discriminação racial e, em vez disso, canalizando os recursos cada vez
menores para perseguir estudantes-atletas transgêneros e as instituições que os
permitem competir. Em Dakota do Sul, onde o Escritório de Direitos Civis
trabalhou durante o governo Biden para estabelecer uma política de tratamento
igualitário para estudantes nativos estadunidenses, esses esforços foram
revertidos sob a desculpa de que fornecer tal apoio equivale a discriminação
contra brancos.
A
manobra é sempre a mesma: manter a linguagem do racismo, dos direitos e da
discriminação — mesmo continuando a fazer referência à legislação dos direitos
civis — mas alegando que as vítimas são outras.
Nos
atuais ataques ao ensino superior, a política do protesto branco tem sido
acompanhada pela alegação
questionável de
que as ações afirmativas prejudicam os asiático-estadunidenses e que as
universidades dos EUA são criadouros de antissemitismo. Em uma mensagem
publicada em sua conta no X em apoio às inúmeras medidas punitivas tomadas pelo
governo contra Harvard, Vance acusou “muitas universidades de praticarem
explicitamente discriminação racial (particularmente contra brancos e
asiáticos), violando as leis de direitos civis deste país”. Dois dias depois,
Trump declarou no Truth
Social: “Estou considerando negar US$ 3 bilhões em bolsas para uma Harvard
muito antissemita e doá-las para ESCOLAS TÉCNICAS em todo o país”.
No
mundo de Trump, “antissemitismo” significa essencialmente qualquer crítica à
ideologia sionista, ao Estado israelense ou ao genocídio em curso na Palestina.
(Assim como a Universidade de Columbia, Harvard se envolveu em flagrante obediência
preventiva nesse
sentido, infringindo a liberdade acadêmica ao demitir os coordenadores de seu
Centro de Estudos do Oriente Médio. No entanto, o governo Trump não recuou em
revogar o status de isenção fiscal de Harvard e a capacidade de matricular
estudantes estrangeiros, ao mesmo tempo em que questionava o credenciamento da
Universidade de Columbia.) Enquanto isso, o temor do genocídio branco da
“Grande Substituição” — promovido por Musk e companhia dentro do
universo MAGA — está repleto de antissemitismo real, culpando as elites
judaicas pela migração em massa e pelo colapso do privilégio branco.
Como
demonstram tanto o decreto presidencial de Trump contra a África do Sul quanto
sua repressão ao ensino superior, o mito do racismo reverso e o compromisso com
as vertentes mais extremas do sionismo andam de mãos dadas. Segundo essa
narrativa, brancos merecedores estão perdendo vagas universitárias para minorias que não as
merecem, enquanto os campus universitários estão se tornando “inseguros” para
apoiadores do Estado israelense (ou mesmo ex-soldados
israelenses).
Segundo essa lógica, defensores dos direitos humanos na Palestina que denunciam
um genocídio cometido com o apoio dos EUA devem ser presos e deportados,
enquanto africâneres que fogem de um imaginário “genocídio branco” devem ser
recebidos de braços abertos.
Contra
os democratas que podem simultaneamente se opor à agenda autoritária de Trump e
conspirar com suas políticas de repressão à solidariedade palestina e
criminalização racista de migrantes, é essencial reconhecer que a obsessão do
MAGA com o racismo reverso é a cola que mantém unido o ataque às universidades,
uma ideologia que beira o fascismo, a cumplicidade no genocídio de Israel e o
esforço para extirpar as instituições federais e estaduais de qualquer vestígio
do New Deal ou do Movimento pelos Direitos Civis.Neste mundo de pernas para o
ar, onde a tragédia inimaginável da Palestina é obscurecida pelas farsas
sinistras de Washington, ainda podemos nos inspirar no que o historiador David
Roediger disse há mais de 30 anos: que precisamos “transformar ‘reverter o
racismo’ de uma maldição em um preceito” e fazer da frase um
mandamento: reverter o racismo. O
movimento de solidariedade à Palestina e a inspiradora onda de resistência
contra a máquina de deportação de Trump estão nos mostrando o que esse mandamento
pode significar na prática.
Fonte: Por Alberto
Toscano – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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