Dinheiro
de produtora contratada pelo PL vai parar em reduto eleitoral de Valdemar da
Costa Neto
Na
semana passada, Cartas Marcadas revelou que o sócio de Eduardo
Bolsonaro recebeu dinheiro público via fundo partidário (relembre abaixo).
Como vocês gostaram, decidi continuar cavando no mesmo buraco. Posso
garantir: o PL tem muito a esconder.
Só
neste ano, mais de R$ 1 bilhão passará pelas mãos da legenda comandada por
Valdemar da Costa Neto. Na prestação de contas do partido, encontrei um caso
que me chamou atenção.
Se na
edição anterior mostramos como o dinheiro público pode alimentar estratégias
ideológicas e internacionais, agora é hora de olhar para dentro: há verbas que
simplesmente voltam para onde tudo começou. Venha comigo até Mogi das Cruzes, a
terra de Valdemar.
O PL,
partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, desembolsou ao menos R$ 364 mil para a
produtora audiovisual Caqui Filmes Para Publicidade Ltda nos últimos dois anos.
Os pagamentos foram feitos com recursos do fundo partidário – ou seja, com
dinheiro público.
Os
desembolsos chamaram minha atenção porque a Caqui Filmes não tem site oficial
ou perfil em redes sociais – e porque, em maio deste ano, a empresa recebeu uma
transferência bancária de R$ 184 mil em um único pagamento do Diretório
Nacional do PL.
Fui
atrás e, segundo os dados da Receita Federal, a empresa tem sede no bairro da
Barra Funda, em São Paulo. Mas documentos obtidos por Cartas
Marcadas revelam ligações da firma com Mogi das Cruzes, reduto eleitoral
de Valdemar da Costa Neto.
Comprovantes
de pagamentos extraídos pela reportagem direto do DivulgaSPCA, plataforma de
transparência da Justiça Eleitoral, revelam que os valores desembolsados pelo
partido foram parar em uma agência bancária mogiana – ainda que a sede da
empresa seja na capital.
O
destino do dinheiro não é o único indício dos laços da Caqui Filmes com a terra
de Valdemar. Certidões registradas na Junta Comercial de São Paulo, a Jucesp,
são reveladoras sobre a trajetória da empresa até ser alçada a uma das
principais fornecedoras do PL.
De
acordo com os documentos, a Caqui Filmes foi fundada em 5 de julho de 2017,
quando foi registrada como empresa individual em nome da profissional de gestão
patrimonial Bruna Moreira Gomes, com sede no centro de… Mogi das Cruzes. O
capital inicial declarado era de R$ 35 mil.
Em
2019, no entanto, a produtora passou por uma reformulação: Bruna deixou a
sociedade, e o controle foi assumido pela comunicadora Marília Padija de
Oliveira, que transferiu a sede para São Paulo, onde a empresa está registrada
hoje, com capital social de R$ 100 mil.
Apesar
de ter deixado formalmente a Caqui Filmes, Bruna segue no quadro societário de
outras duas empresas sediadas em Mogi das Cruzes. Na primeira delas, a Azimute
Gestão Patrimonial, com capital social de mais de R$ 10 milhões, divide as
cotas com a advogada Lidiane Mancio, filha de um ex-vereador de Mogi das
Cruzes.
A segunda empresa trata-se do Grupo São Paulo de Comunicação, com capital de R$
100 mil, que tem como sócio justamente a Azimute Gestão Patrimonial.
Bruna alega que as empresas fazem parte da carteira de clientes que ela atende
na área administrativa.
Marília
Padija, hoje sócia única da Caqui Filmes, também acumula laços com a cidade de
Valdemar. Formada em Rádio e TV na Universidade de Mogi das Cruzes, a UMC, ela
já trabalhou na RP Propaganda, uma agência mogiana que funcionou no município
até 2019.
O
pagamento mais alto feito à Caqui Filmes – R$ 184 mil, em maio de 2025 – também
é o mais opaco. A transferência foi realizada pelo diretório nacional do PL,
que ainda não especificou, nos registros públicos, qual serviço foi prestado em
troca do valor.
Não há
nota fiscal associada à transação nas bases consultadas pela reportagem,
tampouco detalhamento da peça audiovisual eventualmente produzida. Em nota, a
produtora disse que “presta serviços esporádicos [ao PL] e todos aprovados pelo
Tribunal de Contas da União (TCU)”.
Os
documentos relativos aos pagamentos de 2023 registram que o objetivo da
prestação de serviços foi a produção de três mini-documentários com exemplos de
histórias reais de mulheres que “fazem acontecer” no PL, um vídeo para exibição
no evento Agrishow 2023 e outro voltado ao público jovem.
Busquei
no canal do YouTube e só encontrei dois dos cinco vídeos encomendados há dois
anos. As duas peças, que custaram R$ 38 mil cada uma, têm menos de 3 minutos de
duração. Por e-mail, representantes da produtora disseram que “os vídeos de
propaganda política partidária produzidos para o PL já foram veiculados em TV
aberta. Os filmes para promover as bandeiras partidárias também foram
veiculados nos estados e em canais internos do partido”.
Cartas
Marcadas solicitou ao PL o envio dos links onde estão hospedados os vídeos
contratados por meio de cada um dos pagamentos, mas não obteve respostas. Já a
produtora enviou uma pasta com nove arquivos de vídeos – sendo três deles do PL
Mulher, dois com Jair Bolsonaro, dois com Valdemar da Costa Neto, um gravado
durante o Agrishow e um sobre filiação de jovens ao PL. Contudo, não
especificou à qual contrato se refere cada entrega.
Em
relação à agência bancária permanecer na cidade de Mogi das Cruzes, a produtora
informou que “a conta foi aberta na cidade e lá permanece, devido ao bom
relacionamento da empresa com a agência bancária local”. Também disse que não
tem nenhuma ligação com o Grupo São Paulo Comunicação.
O
presidente do PL também foi procurado. Até a publicação deste texto, não houve
resposta.
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Quem é Valdemar?
Para
responder a essa pergunta, é essencial ler essa reportagem da revista Piauí
publicada em 2024. O perfil revela como Valdemar transformou o PL em uma das
máquinas mais eficientes da política nacional — gerindo um orçamento
oriundo do Fundo Partidário que é superior ao de 98% dos municípios
brasileiros.
O texto
mostra também como Bolsonaro virou um ativo do partido: tem salário,
assessores, advogados e até alimentação pagos pelo PL. Entre os deputados, o
grupo mais próximo de Valdemar já é chamado de “PL do V”, expressão que
sintetiza o poder pessoal que ele exerce sobre a legenda.
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O boy de Mogi das Cruzes
O
perfil assinado por Lauro Jardim em O Globo resgata a origem
do apelido “Boy de Mogi das Cruzes”, herdado ainda jovem, quando iniciou a
carreira política ao lado do pai, ex-prefeito da cidade. A reportagem relembra
que Valdemar passou por cargos municipais, virou deputado federal e se tornou
um dos principais articuladores do Centrão.
O
trabalho ainda mostrou como, apesar dos escândalos, ele nunca perdeu o controle
do PL — partido que usou para abrigar Lula em 2002 e Bolsonaro desde 2021.
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RELEMBRANDO
¨ PL usa fundo
partidário para pagar sócio de Eduardo Bolsonaro e organizador do CPAC no
Brasil
O
Partido Liberal, sigla de Jair Bolsonaro, utilizou R$ 160 mil de seu fundo
partidário para pagar um sócio de Eduardo Bolsonaro, deputado federal do PL de
São Paulo.
O
beneficiário do desembolso foi o advogado Sérgio Sant’Ana, diretor do Instituto
Conservador-Liberal, organização criada em sociedade com o filho do
ex-presidente — e que tem como principal missão a organização
das edições brasileiras da Conferência de Ação Política
Conservadora,
o CPAC.
De
acordo com a prestação de contas do PL ao Tribunal
Superior Eleitoral,
o TSE, o pagamento foi efetuado em 24 de janeiro de 2024, sob a justificativa
de serviços genéricos de “consultoria jurídica”. O documento fiscal que poderia
fornecer mais detalhes dos serviços prestados ainda não está disponível – o
prazo é só no final do ano. Por enquanto, o extrato financeiro do PL confirma
apenas a data e o valor do desembolso.
Sant’Ana
é advogado de vários integrantes do PL, como os deputados federais Adilson
Barros, de São Paulo, e Gustavo Gayer, de Goiás, e o ex-deputado André
Porciúncula, da Bahia, mas os processos não têm ligação com a vida partidária.
O TSE proíbe a utilização do fundo para pagamento de
honorários advocatícios. Não foram localizados casos em que Sant’Ana defende o
PL.
O
pagamento do PL ao sócio de Eduardo Bolsonaro na organização do CPAC chama a
atenção porque, no ano passado, o partido utilizou sua Fundação Álvaro Valle
para bancar todos os ingressos do evento. A Fundação é
mantida, em parte, com recursos do fundo.
Na
ocasião, foi o próprio Sant’Ana que explicou o apoio da fundação ao evento. “É
uma questão de sinergia. A missão da fundação do PL é trabalhar pela difusão
dos valores conservadores no Brasil, e o CPAC é o maior evento conservador do
país. Essa parceria, portanto, faz todo sentido”, disse.
Na
edição de 2023, o investimento do PL no CPAC superou os R$ 150 mil, de acordo
com levantamento publicado no ICL
Notícias.
O valor considera R$ 122 mil aplicados pela Fundação Álvaro Valle e a verba
somada de R$34,6 mil gasta por deputados bolsonaristas com diárias e passagens
da Câmara dos Deputados para irem ao evento.
Procurados,
Sant’Ana e o PL não responderam aos questionamentos feitos pelo Intercept sobre
a natureza dos serviços prestados pela advogado. Eduardo Bolsonaro e o
Instituto Conservador-Liberal também foram procurados. Não houve resposta. O
espaço segue aberto para manifestações.
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Do governo Bolsonaro para o CPAC
O CPAC
é um evento criado originalmente nos EUA que reúne líderes e simpatizantes do
movimento conservador. No Brasil, a conferência ocorre desde 2019, quando foi
realizada em São Paulo. Já passou por Brasília e Minas Gerais e, desde 2021, é
organizada pelo Instituto Conservador-Liberal.
A
sociedade individual de advocacia de Sérgio Sant’Ana, beneficiária do
pagamento, foi criada em janeiro de 2022. Os dados da empresa são praticamente
os mesmos do Instituto Conservador-Liberal.
A
começar pelo número de telefone registrado, que é quase idêntico ao número
cadastrado na Receita Federal pelo ICL, dirigido por Eduardo Bolsonaro e
Sant’Ana desde sua fundação, em dezembro de 2019.
Além
disso, os domínios CPAC Br e iclbr.com.br listam Sant’Ana como proprietário.
Antes, a URL do ICL estava em nome do irmão de Sant’Ana, Hélio Cabral
Sant’Ana, ex-diretor de tecnologia da informação na Secretaria-Geral da
Presidência da República do governo Jair Bolsonaro.
Sérgio
Sant’Ana, assim como o irmão, também passou por cargo comissionado no governo
Bolsonaro. Ele foi assessor especial do Ministério da Educação na gestão de
Abraham Weintraub e chegou até a ser cogitado para o cargo de ministro de
estado.
Depois
do governo, os irmãos Sant’Ana têm se dedicado a articulações internacionais.
Enquanto Sérgio se debruça na produção do CPAC, Hélio trabalha para uma empresa
israelense de cibersegurança que tem conexões com o Exército
Brasileiro.
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CPAC 2024: oito confirmados, sete do PL
Nas redes sociais, a ONG de Sérgio Sant’Ana e Eduardo
Bolsonaro se dedica quase que exclusivamente a publicações promocionais da
próxima edição do CPAC, que vai acontecer em julho, em Balneário Camboriú, em
Santa Catarina.
Até o
momento, segundo o site do evento, foram confirmados oito palestrantes. Entre
eles, sete são deputados federais do PL. Em boa parte das publicações
anunciando os nomes dos convidados, quem aparece como garoto-propaganda é
Sant’Ana.
Na
primeira delas, em 26 de abril deste ano, o sócio de Eduardo Bolsonaro gravou
um vídeo ao lado de Guilherme Derrite, secretário de Segurança Pública do
governo Tarcísio de Freitas, atualmente do Republicanos – mas em negociação
para ingressar no PL. Derrite escreve artigos para o site do ICL.
Derrite,
deputado federal licenciado para ocupar o cargo de secretário, foi o primeiro
convidado confirmado para o CPAC 2024 a ter uma peça de divulgação nas redes
sociais. Em 1° de maio, Sant’Ana gravou vídeo confirmando a presença de outra
figura proeminente no PL paulista: o ex-ministro Ricardo Salles.
Além de
Salles, Derrite e, claro, Eduardo Bolsonaro, estão confirmadas as presenças de
outros integrantes da bancada do PL no Congresso Nacional no CPAC 2024: Nikolas
Ferreira, de Minas Gerais; e Júlia Zanatta, Caroline de Toni e Ana Campagnolo,
de Santa Catarina.
O único
palestrante confirmado que não integra as fileiras do partido é um estrangeiro,
o ator e diretor mexicano Eduardo Verástegui, autor do filme “Sound of
Freedom”. A obra caiu nas graças da extrema direita ao retratar a
história de um ex-agente do Departamento de Segurança Interna do governo dos
EUA que larga o posto para “fazer justiça com as próprias mãos” e tentar acabar
com o tráfico sexual de pessoas.
Fonte:
Por Paulo Motoryn, em The Intercept

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