segunda-feira, 28 de julho de 2025

Perder uma pessoa amada pode acelerar envelhecimento, mostra estudo

Perder uma pessoa amada, como um membro da família, amigo ou companheiro amoroso, pode fazer você envelhecer mais rápido. É o que mostra um novo estudo feito por pesquisadores da Columbia University School of Public Health e do Butler Columbia Aging Center. A pesquisa foi publicada na revista científica JAMA Network Open na segunda-feira (29).

Os cientistas definem o envelhecimento biológico como o declínio gradual da saúde funcional das células, tecidos e órgãos, aumentando o risco de doenças crônicas. Esse tipo de envelhecimento é medido a partir de marcadores de DNA conhecidos como relógios epigenéticos.

"Poucos estudos analisaram como a perda de um ente querido em diferentes estágios da vida afeta esses marcadores de DNA, especialmente em amostras de estudo que representam a população dos EUA", explica Allison Aiello, professora de saúde da longevidade da James S. Jackson e autora principal do estudo, em comunicado à imprensa. "Nosso estudo mostra fortes ligações entre a perda de entes queridos ao longo do curso da vida, da infância à idade adulta, e o envelhecimento biológico mais rápido nos EUA".

O estudo sugere que o impacto do luto no envelhecimento pode ser visto antes da meia-idade e pode contribuir para disparidades relacionadas à saúde entre grupos raciais e étnicos.

Para chegar às conclusões, os pesquisadores usaram dados do National Longitudinal Study of Adolescent to Adult Health, iniciado em 1994 e 1995. O estudo acompanhou os participantes desde a adolescência até a idade adulta.

Os pesquisadores, então, acompanharam essas pessoas por vários períodos, chamados de "ondas". Na primeira onda, foram entrevistados 20.745 adolescentes entre 12 e 19 anos. Desde então, eles foram acompanhados ao longo da vida. A quinta onda aconteceu entre 2016 e 2018, com 12.300 entrevistas dos participantes originais.

Na última onda, os participantes foram convidados para um exame domiciliar adicional, em que foram recolhidas amostras de sangue de quase 4.500 participantes para a realização de teste de DNA.

O estudo analisou as perdas sofridas durante a infância e adolescência (até os 18 anos) e na vida adulta (entre 19 e 43 anos). Os pesquisadores também examinaram o número de perdas sofridas durante esse mesmo período. Em seguida, dados de envelhecimento biológico foram avaliados a partir da metilação do DNA do sangue usando relógios epigenéticos.

Segundo a pesquisa, quase 40% dos participantes experimentaram, pelo menos, uma perda de ente querido na vida adulta, entre as idades de 33 e 43 anos. A perda parental foi mais comum na vida adulta (27%) do que na infância e na adolescência (6%). A proporção de participantes que relataram uma perda de ente querido foi maior entre participantes negros (57%) e hispânicos (41%), em comparação com os brancos (34%).

Ainda de acordo com os pesquisadores, pessoas que viveram duas ou mais perdas tinham idades biológicas mais velhas segundo os relógios epigenéticos. Vivenciar duas ou mais perdas na vida adulta mostrou ter uma relação mais forte com o envelhecimento biológico do que uma única perda e do que nenhuma perda.

<><> A idade em que a perda ocorre parece influenciar no envelhecimento

Segundo Aiello, a conexão entre a perda de um ente querido e problemas de saúde ao longo da vida "é bem estabelecida". "Mas alguns estágios da vida podem ser mais vulneráveis aos riscos de saúde associados à perda e o acúmulo de perdas parece ser um fator significativo", afirma.

Por exemplo, perder um dos pais ou um irmão na infância pode ser traumático e, consequentemente, aumentar o risco para doenças relacionadas à saúde mental, como depressão e ansiedade, além de problemas cognitivos, maiores riscos de doenças cardíacas e uma maior chance de morte prematura, segundo os pesquisadores. Os riscos também podem ser maiores quando a perda ocorre no início da vida adulta.

Além disso, perdas repetidas podem aumentar o risco de doenças cardíacas, mortalidade e demência, e os impactos podem persistir ou se tornar aparentes muito tempo depois do evento.

"Ainda não entendemos completamente como a perda leva à saúde precária e à mortalidade mais alta, mas o envelhecimento biológico pode ser um mecanismo, conforme sugerido em nosso estudo. Pesquisas futuras devem se concentrar em encontrar maneiras de reduzir perdas desproporcionais entre grupos vulneráveis. Para aqueles que vivenciam a perda, fornecer recursos para lidar e abordar o trauma é essencial", concluiu Aiello.

•        Aborto espontâneo e óbito fetal: como é o luto de pais que perderam bebê?

Duas notícias sobre perdas gestacionais durante o terceiro trimestre de gravidez foram destaque nos últimos dias. A apresentadora Tati Machado declarou a perda de seu filho esta terça-feira (13), enquanto a apresentadora Micheli Machado teve episódio semelhante na segunda-feira (12).

O luto é sentido em qualquer abortos espontâneo. Porém, quando ocorre em uma gestação mais avançada, pode trazer sentimentos ainda mais difíceis, já que espera-se que a perda gestacional seja menos comum após o primeiro trimestre.

<><> O que é luto perinatal?

O luto perinatal -- como é chamado o sentimento após a perda de um bebê, seja por aborto espontâneo ou por ter nascido sem sinais vitais -- pode ser sentido de diferentes formas pelos pais.

"O luto perinatal é um luto relacionado à perda de um bebê. Quando falamos de perdas, isso pode acontecer durante a gravidez ou durante o parto", explica Raquel Baldo, psicanalista especialista em luto, à CNN. "O luto é sempre uma experiência de vida muito difícil. Eu estudo luto há 20 anos, acompanhei diversos casos e histórias de perdas em diferentes situações e condições familiares, e todas elas vão sempre contar algo muito único e muito peculiar", acrescenta.

Diante disso, os sintomas do luto perinatal variam de uma mãe para a outra e, também, de um pai para o outro. "A tristeza, o choro, a vontade de ficar isolado e de não conversar com as pessoas, não achar graça nas situações, não conseguir desejo de sorrir ou, até mesmo, de viver. Esses são alguns dos sintomas do luto que podem ser confundidos com sintomas de depressão, mas o luto não é depressão. A depressão é um transtorno mental e o luto, um estado emocional", explica Rafaela Schiavo, psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline, à CNN.

<><> Perda de bebê rompe, de forma repentina, ligação entre mãe e filho

Do ponto de vista de Baldo, uma das particularidades mais delicadas do luto perinatal é o rompimento de uma relação simbiótica entre mãe e bebê. "O bebê é uma parte celular daquela mulher, ele está ligado por um cordão umbilical, ou seja, tem uma experiência corpórea muito direta. Então, a mãe é, realmente, a pessoa que mais sente essa perda, apesar de isso não minimizar o sentimento do pai ou dos outros familiares", afirma a psicanalista.

Outro ponto delicado do luto perinatal é o rompimento de expectativas e planos trazidos pela perda do bebê.

"Estamos falando de uma relação que estava construída em um lugar da fantasia, do sonhar. Na psicanálise, chamamos isso de 'pulsão de vida'. O bebê estava vivo dentro da fantasia e do sonho, então havia expectativas, desejos, planos futuros e toda uma história para se concretizar. E isso é interrompido com essa perda. O lugar da dor não é nem de perder o que se tinha, mas de perder aquilo que estava por chegar", completa.

<><> Quais estratégias podem ajudar no processo de luto?

Pais que passaram pela perda de um bebê necessitam de espaço para falar sobre o assunto, de acordo com Schiavo. Além disso, o acolhimento emocional e a validação do sofrimento por parte de amigos e familiares é fundamental.

"Pelo fato de que, às vezes, pode existir um aborto espontâneo no primeiro trimestre de gestação, por exemplo, as pessoas minimizam a dor dessa perda, como se eles não tivessem ainda se vinculado a esse bebê", observa a psicóloga. "Então, esse é um tipo de comparação que não se deve fazer de forma alguma, porque não importa o tempo que a pessoa tinha de gestação. Aquele bebê que foi perdido era o filho deles", ressalta.

A especialista explica que é necessário garantir espaço temporal e físico para os pais lidarem com o luto perinatal. "As pessoas não compreendem muito e não dão esse espaço. Isso é ruim, porque quando as pessoas não têm esse espaço para vivenciar o luto, para poder expressar sua tristeza, esse processo pode até se tornar um problema de saúde mental, que seria a depressão", afirma Schiavo.

"É a sociedade que precisa se adaptar, respeitar esse período de luto e deixar ele mais visível, no sentido de: 'vamos falar sobre isso'", orienta.

Nas palavras de Baldo, é preciso permitir que o luto seja sentido e reconhecido. Para isso, é importante ter por perto uma rede de apoio, que pode ser formada por familiares, amigos ou profissionais de saúde de confiança. "Geralmente, é interessante buscar um profissional da área psíquica para ter um espaço onde você possa falar e, também, não falar, porque o mundo te cobra a recuperação de algo que você ainda não tem dimensão", afirma a psicanalista.

Outra dica importante é racionalizar o autocuidado. "É preciso cuidar de si. Cuidar da sua saúde, do seu trabalho, da sua vida, da sua casa, entender que, aos poucos, você pode retomar atividade de vida sem grande pressão", orienta Baldo.

<><> Rede de apoio deve estar preparada

Buscar apoio externo faz parte do processo para lidar com o luto perinatal, conforme elencado pelas especialistas. No entanto, essa rede deve estar preparada para acolher pais que estão passando pela perda. Isso inclui evitar expressões que possam minimizar o sofrimento do casal.

"Muitas pessoas desejam oferecer apoio ao casal que perdeu o seu bebê durante este período perinatal. No entanto, acabam falando coisas que não deveriam falar, como: 'Foi melhor assim', 'Deus quis assim', 'Poderia ter acontecido algo pior'. Essas são frases que não deveriam ser ditas, mas que, infelizmente, vêm na cabeça de muitas pessoas. São frases que minimizam e inviabilizam esse luto", afirma Schiavo.

Como oferecer apoio, então? "Abrace, olhe no olho, segure na mão. Não precisa falar nada. Só de fazer isso já está ajudando muito. Se quiser falar algo, diga: 'Sinto muito, você não deveria estar passando por isso. Nenhuma mulher e nenhum homem deveriam perder um filho. Não sei o tamanho da dor que vocês estão sentindo neste momento, mas se precisar de um apoio, estou aqui'", sugere a psicóloga.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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