segunda-feira, 28 de julho de 2025

O mundo está de olho nas terras raras do Brasil

No dia 23 de julho de 2025, em Brasília, Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos, se reuniu com dirigentes do Instituto Brasileiro de Mineração. Disse, sem rodeios, que os EUA querem acordos para garantir acesso a minerais críticos do Brasil — nióbio, lítio, terras raras, grafite, urânio. A fala aconteceu poucos dias depois de Donald Trump impor as propaladas tarifas de 50% sobre exportações brasileiras. A pressão veio primeiro, a conversa sobre “cooperação” depois. Mais um capítulo da novela.

Por coincidência — ou talvez não —, há algumas semanas fui atrás de informações sobre terras raras. Pouco sabia. Descobri que a raridade não está tanto na quantidade, mas na dificuldade de extração e refino. É um processo caro, poluente, que exige tecnologia que poucos países dominam. A China assumiu esse papel ao subsidiar mineração e construir cadeias industriais. Hoje concentra 70% da produção global (parte dela no Brasil) e quase 90% do processamento.

O Brasil tem reservas que explicam o assédio. São cerca de 22 milhões de toneladas de terras raras, a segunda maior reserva do mundo, além do lítio no Vale do Jequitinhonha, nióbio em Minas Gerais e Goiás, urânio na Bahia e no Ceará. É o maior fornecedor de nióbio, segundo em grafite, terceiro em terras raras. Minerais que não têm substitutos reais em baterias, turbinas, semicondutores e sistemas de defesa. São a base da indústria que move energia, comunicação e guerra.

Como o Brasil estão Vietnã, Rússia (Sibéria e Ártico), Groenlândia (território dinamarquês), Madagascar, Tanzânia, Malawi e Congo. Cada um com suas particularidades, mas todos com reservas expressivas de minerais estratégicos ainda pouco exploradas. Deu para colar algumas peças desse quebra-cabeça, não?

Mas ter o minério não basta para transformar essa riqueza em poder. Esses países, apesar das diferenças entre si, se encontram na mesma posição: extraem pouco, refinam menos ainda e dependem de outros para transformar o recurso bruto em tecnologia e indústria. A China, que construiu essa hegemonia ao dominar mineração e refino, dita preços e ritmos. Os Estados Unidos, de outro lado, tentam quebrar esse domínio com tarifas, fundos e diplomacia. A fala de Escobar se insere nesse movimento: garantir fornecimento, reduzir a dependência chinesa e, se possível, redesenhar o equilíbrio de forças no setor.

O roteiro tem precedente. Na Ucrânia, em abril, Washington criou o Reconstruction Investment Fund. Sob a justificativa de reconstrução, empresas americanas receberam direitos sobre reservas de lítio, cobalto e terras raras avaliadas em trilhões de dólares. Kiev ficou com a dívida e os aliados com o acesso. O discurso foi de ajuda; o efeito, de controle.

Com o Brasil, a disputa ainda é comercial, mas a lógica se repete. Tarifas hoje podem virar moeda para negociar isenções em troca de fornecimento preferencial, refino nos Estados Unidos e alinhamento com a política de contenção à China. Tudo sob o pretexto de diversificação de fornecedores. É, no fundo, um jogo para reposicionar dependências e influências.

Esse embate entre Trump e o Brasil começa a mostrar uma camada que até agora ficava difusa. Não se resume a tarifas nem a gestos diplomáticos e delirios de milicianos. A disputa vai além: envolve quem terá a capacidade de controlar as cadeias que sustentam energia, tecnologia e poder militar nas próximas décadas. Trump usa as tarifas como ferramenta para puxar o Brasil para órbitas que garantam o abastecimento americano, enquanto a China, com anos de vantagem, mantém o domínio sobre o processamento e a indústria.

Se o governo brasileiro não transformar essas reservas em alavanca de poder — com refino, tecnologia e acordos que não o mantenham subordinado —, corre o risco de repetir a velha cena: exportar barato o que dá força aos outros e importar caro aquilo que poderia sustentar a própria autonomia. Slogans não constroem soberania. Como sempre os principais inimigos são a baixo autoestima o viralatismo, a traição, os EUA e os eternos inimigos internos.

•        O que são terras raras e por que elas são tão importantes

A disputa comercial entre os Estados Unidos e o Brasil começou a ganhar novos contornos na quinta-feira (24/07) após a revelação de que representantes diplomáticos norte-americanos comunicaram que a Casa Branca tem interesse em minerais críticos e estratégicos em solo brasileiro. Entre esses minerais estão os chamados elementos de terras raras (ETR).

O interesse dos EUA foi expressado durante um encontro do encarregado de negócios da embaixada norte-americana e representantes brasileiros do setor de mineração nesta semana. As conversas ocorreram num momento de tensão entre os governos dos EUA e do Brasil, em meio à ameaça do presidente Donald Trump de impor um tarifaço de 50% a produtos brasileiros a partir de agosto.

Participantes da reunião afirmaram que não interpretaram as falas do encarregado norte-americano como uma tentativa de condicionar uma negociação para um alívio das tarifas ao acesso aos minerais. Porém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rapidamente afirmou que não permitirá interferência estrangeira em como o Brasil lida com a exploração de minerais. "Aqui ninguém põe a mão", disse Lula na quinta-feira.

O Brasil possui grandes reservas de cobre, níquel, nióbio e lítio, além da segunda maior reserva mundial de terras raras.

No primeiro semestre, os EUA já haviam pressionado a Ucrânia a assinar um acordo para a exploração de terras raras no país do leste europeu, em meio a ameaças da Casa Branca de cortar sua assistência militar para os ucranianos.

<><> O que são terras raras

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com um papel pequeno, porém insubstituível, em diversos produtos tecnológicos modernos: smartphones, televisores de tela plana, câmeras digitais e LEDs dependem todos delas.

Porém seu emprego mais importante é na fabricação de ímãs permanentes, de alta potência e que mantêm suas propriedades magnéticas por décadas. Eles permitem a produção de peças menores e mais leves do que as alternativas não baseadas em terras raras, sendo portanto essenciais na construção de veículos elétricos e turbinas eólicas.

Os elementos de terras raras (ETR) são também vitais para uma grande gama de tecnologias de defesa, de aviões de caça a submarinos e telêmetros a laser. Essa importância estratégica, tanto para o comércio como para a defesa, é o que os torna tão valiosos. O quilo de neodímio e praseodímio, os ETRs mais importantes para os ímãs permanentes, atualmente custa cerca de 55 euros (R$ 353); o de térbio, até 850 euros (R$ 5.460). Para efeito de comparação, o preço do quilo do nada raro minério de ferro custa atualmente cerca de R$ 0,60.

Com base em seu peso atômico, esses 17 minerais são categorizados como leves, médios e pesados. Na realidade, eles não são "raros", pois estão presentes residualmente por todo o mundo. O desafio é identificar onde sua concentração é bastante grande para que a extração seja financeiramente viável. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), atualmente 70% das terras raras utilizadas provêm de minas da China.

A mais importante é Bayan Obo, no norte do país: contendo enormes quantidades de todos os elementos empregados em ímãs permanentes, essa fonte é várias ordens de grandeza maior do que os demais depósitos de terras raras do planeta, como Monte Weld, na Austrália, ou Kvanefjeld, na Groenlândia.

<><> Monopólio chinês preocupa Ocidente

Depois de extraídos, os elementos de terras raras são submetidos a um processo altamente especializado de separação e refinação até transformar-se em compostos utilizáveis. Como esse processamento ocorre em grande parte na China, o país é também o maior produtor de ímãs.

Esse monopólio é ainda mais forte para certos tipos de ETRs. Os leves são menos valiosos e mais fáceis de extrair, com a exceção do neodímio e do praseodímio: entre 80% e 100% dos suprimentos da União Europeia desse grupo vêm da China; enquanto para os elementos mais pesados a dependência é de 100%.

Esse monopólio deixa diversos Estados ocidentais preocupados com o acesso futuro. Nos últimos anos, americanos e europeus reagiram com a formação de reservas internas de terras raras e outros materiais críticos.

Em 2024 a UE assinou a Lei de Matérias Primas Críticas, estabelecendo metas não vinculativas para o volume que o próprio bloco deverá ter produzido até o ano 2030. A legislação também prevê a designação de "projetos estratégicos", tanto internos como com aliados próximos como a Noruega, visando garantir acesso a financiamento, aumentar a aceitação pública e agilizar aprovações e licenças.

Por sua vez, desde 2020 o Departamento de Defesa dos EUA vem investindo fortemente em companhias nacionais e tem como meta criar até 2027 uma cadeia de suprimento "da mina ao ímã". Gálio, germânio e antimônio estão entre as terras raras mais importantes para o país.

A UE e os EUA expressam ainda interesse em fontes não exploradas desses minerais estratégicos. O presidente Donald Trump tem visado a Ucrânia e a Groenlândia: ambas apresentam potencial para grandes depósitos, porém de difícil acesso. Assim, o futuro do abastecimento de elementos de terras raras para os países ocidentais permanece incerto.

•        Bolsonaro já ofereceu nióbio da Amazônia a Elon Musk

Jair Bolsonaro, durante seu mandato presidencial no governo anterior, chegou a oferecer ao bilionário de extrema direita Elon Musk as reservas de nióbio do Brasil, relembrou o colunista do jornal O Globo Lauro Jardim.

“Ele está vindo para oferecer ajuda à Amazônia”, disse Bolsonaro, referindo-se à visita de Musk, dono da SpaceX, do X e da Tesla, ao interior de São Paulo, em maio de 2022.

À época, Bolsonaro também disse a Musk que tinha estudos sobre o "potencial" das baterias que podem ser produzidas com nióbio. 

Com os minerais críticos no centro do debate nacional — e Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos, atuando pela anistia do pai, réu por tentativa de golpe — a questão ganha ainda mais relevância. Na última semana, o governo dos EUA manifestou interesse pelos minerais críticos do Brasil.

A floresta amazônica é rica em uma gama de elementos como alumínio, cobre, ouro, manganês, níquel, nióbio e estanho.

Em 2020, após o golpe na Bolívia, Musk foi acusado de ter se envolvido devido às necessidades que a Tesla tem de lítio, metal que pode ser encontrado em grandes quantidades no solo boliviano.

 

Fonte: Opera Mundi/DW Brasil/Brasil 247

 

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