Nina
Lemos: Mounjaro e a volta do emagrecimento a todo custo
Quando
era criança, lembro de ouvir tias conversando sobre "remédios
milagrosos" de emagrecimento. Depois de adulta, entendi que as tais
"fórmulas" continham anfetaminas, uma droga perigosa, que vicia. Por
um tempo, achamos que tudo isso tinha melhorado e que as mulheres tinham
começado a ficar mais tranquilas com os seus corpos. Mas, de um tempo para cá,
esse avanço foi por água abaixo. Ou será que essa percepção positiva foi uma
ilusão?
No
noticiário de celebridades, há algum tempo, passamos a ler sobre vários famosos
que emagreceram "milagrosamente" com o Ozempic. E, mais recentemente,
com o Mounjaro, o novo remédio queridinho, que chegou às farmácias brasileiras
em maio, inicialmente com indicação só para tratamento da diabetes. Desde o dia
9 de junho, ele passou a ser indicado pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) também para tratamento de obesidade se a doença estiver
relacionada a pelo menos uma comorbidade.
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Febre no TikTok
O
remédio já era vendido no mercado paralelo e importado e é uma febre nas redes
sociais, principalmente no TikTok, onde há milhares de vídeos de mulheres
contando suas experiências com a "canetinha" e se injetando.
O
Mounjaro e o Ozempic são remédios similares. Os dois são apresentados em forma
de uma "caneta" para aplicar a dose no corpo. Inicialmente, as drogas
foram lançadas como remédios para tratamento da diabetes. Como efeito, elas
também reduzem o apetite.
Em
2023, a Anvisa aprovou o uso da semaglutida, princípio ativo do Wegovy e
Ozempic, para o tratamento da obesidade no Brasil. Os medicamentos eram então
vendidos sem receita. A partir dessa semana, depois de inúmeros apelos de
médicos e entidades, as "canetas emagrecedoras" passam a ser vendidas
somente com a receita, que fica retida na farmácia. Ainda bem. Ao mesmo tempo,
duvido que as drogas vão parar de ser vendidas em "mercados
paralelos".
É
óbvio, mas vale repetir: nenhum remédio deveria virar moda. Medicamentos
precisam ser indicados por médicos para pessoas que realmente precisam deles. E
com responsabilidade.
Mas
parece que já é tarde demais. O Mounjaro é o novo "hype", uma
"moda" que parece mais forte do que a das anfetaminas nos anos 1990 e
2000. Nas redes sociais, principalmente no TikTok, há milhares de mulheres de
todas as idades se picando com a caneta e falando sobre os seus benefícios.
Famosos de todas as gerações anunciam usar a droga.
A
loucura é tão grande que reportagens de jornais americanos afirmam que
restaurantes de cidades como Nova York estão diminuindo o tamanho das porções
de comida por causa das drogas que reduzem o apetite. Surreal.
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Perigo no TikTok
Na
época em que as pessoas tomavam cápsulas milagrosas para emagrecer, pelo menos
não existia rede social com pessoas espalhando "dicas" de como tomar
a droga. Em tempos de TikTok, tudo pode piorar.
Uma das
tendências mais preocupantes sobre o uso do Mounjaro é a "golden
dose" (dose de ouro). Trata-se de, com malabarismo extrair uma dose extra
da canetinha, que tem doses para uma semana, e aplicar a "dose extra"
para, supostamente, emagrecer mais rápido. Segundo médicos, fazer isso pode até
matar. Mas, nas redes sociais, o "truque" é exibido como se se
tratasse de uma dica de rotina de beleza.
A
loucura não para por aí. Sites internacionais começaram a falar recentemente
sobre o "Brazilian Natural Mounjaro". Sim, o país campeão em pressão
estética, que já é conhecido pela "Brazilian Butt Lift" (lift da
bunda brasileira) agora exporta o "mounjaro natural". A receita da
" bebida milagrosa", que mistura vinagre de maçã e outros
ingredientes, viralizou no TikTok.
No meio
desse surto, uma coisa muito importante parece estar sendo esquecida: os
remédios de "canetinha" são indicados apenas para pessoas com
obesidade e sobrepeso que prejudicam a saúde, mas, na verdade, estão sendo
usados por pessoas que querem apenas perder uns quilinhos.
Outro
dia, conversando com uma amiga que mora no Brasil, ela me disse que vários
amigos nossos estão usando o Mounjaro. Nenhum deles é obeso ou tem problemas
sérios de saúde causados pela obesidade.
Quando
falamos de uma tendência dessas, o mais preocupante é, claro, a parte da saúde.
Esse é um remédio novo. Quais são os riscos do abuso e do uso a longo prazo?
Mas outra coisa também me preocupa: voltamos a contar calorias, a nos achar
piores porque não cabemos mais em um jeans de quando tínhamos 20 anos? Estamos
dispostas a tomar drogas injetáveis caríssimas como o Mounjaro (os tratamentos
custam mais de R$ 1,5 mil por mês) só para perder uns quilinhos rapidamente?
Maldita pressão estética.
A
crítica não vale, claro, para quem tem comorbidades causadas pela obesidade e
tem indicação médica para o uso do medicamento...
• Bactérias transformam plástico em
paracetamol
Uma
equipe de cientistas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, desenvolveu uma
técnica pioneira para transformar resíduos plásticos em paracetamol usando
bactérias geneticamente modificadas. A descoberta, publicada nesta
segunda-feira (23/06) na revista científica Nature Chemistry, pode revolucionar
tanto a gestão de resíduos quanto a produção sustentável de medicamentos.
A
pesquisa mostra que a bactéria Escherichia coli (E. coli), comumente usada em
biotecnologia, pode transformar o ácido tereftálico – uma molécula presente em
garrafas e recipientes plásticos de politereftatalato de etileno (pet) – no
ingrediente ativo do popular analgésico e antitérmico.
"Utilizando
micróbios vivos, realizamos transformações químicas sofisticadas que podem
abrir novas formas mais ecológicos e sustentáveis para produzir materiais
valiosos, como medicamentos, a partir de resíduos", afirmou Stephen
Wallace, autor do estudo, citado pelo jornal espanhol El País.
Através
de um processo de fermentação semelhante ao da cerveja, os pesquisadores
conseguiram concluir o processo de transformação do plástico em paracetamol em
menos de 24 horas, com eficiência de 90%, ou de até 92% em condições
otimizadas.
O
procedimento é realizado em temperatura ambiente e gera emissões mínimas de
carbono, ao contrário do método industrial comum, que depende do petróleo e
contribui significativamente para as mudanças climáticas.
"Este
trabalho demonstra que o plástico pet não é apenas um resíduo ou um material
destinado a se tornar mais plástico. Microrganismos podem transformá-lo em
produtos valiosos, incluindo medicamentos", explicou Wallace, que também é
professor de biotecnologia química na Universidade de Edimburgo.
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"Supraciclagem" química
Mais de
350 milhões de toneladas de resíduos plásticos são geradas a cada ano, grande
parte proveniente de pet, como garrafas de água e recipientes de alimentos. De
fato, embora existam métodos de reciclagem mecânica e química, muitos produzem
novos plásticos ou materiais de baixo valor, com altos custos energéticos e
ambientais.
Essa
nova abordagem, porém, representa um salto em direção à chamada
"supraciclagem" química, ou seja, a conversão de resíduos em
compostos farmacêuticos, com menor pegada de carbono e maior valor agregado.
Embora
a técnica ainda não esteja pronta para aplicação industrial, os pesquisadores
acreditam que ela marca o início de uma nova era na produção sustentável de
medicamentos. Eles acreditam que o método pode ser adaptado a outros resíduos
plásticos e à síntese de diversos medicamentos.
A
equipe utilizou uma reação química conhecida como reordenamento de Lossen, que
até então não havia sido induzida em células vivas. A enzima foi ativada por
compostos naturalmente presentes no interior das bactérias.
"A
engenharia biológica tem enorme potencial para reduzir nossa dependência de
combustíveis fósseis, promover uma economia circular e gerar produtos
sustentáveis", disse Ian Hatch, diretor de consultoria da Edinburgh
Innovations, que apoiou a pesquisa, juntamente com a agência britânica EPSRC e
a farmacêutica AstraZeneca.
Fonte:
DW Brasil

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