terça-feira, 3 de junho de 2025

João Filho: Descoberta de milícia para caçar ‘comunistas’ mostra fetiche da extrema direita pela ditadura

No ano anterior ao golpe de 1964, um grupo formado majoritariamente por militares, policiais e estudantes reacionários foi criado para promover ações violentas contra estudantes, artistas e representantes de movimentos sociais identificados com a esquerda. 

Chamado de Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, o grupo de extrema direita prestou serviços ao regime militar, apesar de não fazer parte institucionalmente dele. Era uma milícia apoiada pelas autoridades da ditadura, tanto que parte dos integrantes do grupos foram incorporados aos órgãos oficiais  de repressão, como o Doi-Codi e o Serviço Nacional de Informações, o SNI.

Entre as ações violentas atribuídas ao grupo, uma das mais emblemáticas é o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Juventude, que foi sequestrado e torturado antes de morrer, em 1969. 

Na última quarta-feira, 28, a Polícia Federal descobriu a existência de uma milícia de espionagem e extermínio formada por militares, policiais e civis bolsonaristas. O nome do grupo não poderia ser mais revelador: Comando C4, que significa Comando de Caça aos Comunistas, Corruptos e Criminosos. 

Trata-se de uma óbvia homenagem aos assassinos e torturadores do grupo que apoiou a ditadura militar. A atual extrema direita nunca deixou de pagar tributos à velha guarda, haja vista a veneração do bolsonarismo ao torturador coronel Ustra. 

Os investigadores descobriram a existência desse grupo durante a investigação do assassinato do advogado Roberto Zampieri, conhecido como “lobista dos tribunais”. Ele intermediava, segundo a investigação, a compra e venda de sentenças junto ao Tribunal de Justiça do Mato Grosso e no Superior Tribunal de Justiça, o STJ. 

A partir da identificação dos autores do assassinato do advogado, a PF descobriu que eles integravam uma organização criminosa especializada em espionagem e assassinatos sob encomenda. 

O Comando C4 possuía armamento pesado e uma tabela de preços a cobrar por espionagem contra autoridades brasileiras. Espionar um ministro do poder Judiciário, por exemplo, custava R$ 250 mil; um senador, R$ 150 mil; um deputado, R$ 100 mil; pessoas comuns, R$ 50 mil. 

No papel, o grupo se apresentava como uma empresa de segurança privada normal, com CNPJ e tudo. Mas, na realidade, tratava-se de uma milícia preparada para espionar e executar possíveis adversários do bolsonarismo sob encomenda.

Em uma agenda apreendida com membros da milícia, nomes como os dos ministros do STF Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes e do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, do PSD de Minas Gerais, apareciam como potenciais alvos. 

Atentemo-nos para a gravidade da coisa. Os milicianos estavam estruturados, possuíam um regimento interno, estavam preparados militarmente e tinham um vasto arsenal de armas à disposição: fuzis de precisão com silenciadores, pistolas, lança-foguetes, minas magnéticas, explosivos e outros. 

Os documentos encontrados pela polícia mostram que o grupo previa a utilização de drones para espionagem, infiltração de espiões no círculo social dos alvos e uso de garotas e garotos de programa como iscas para coletar informações. Trata-se de uma milícia especializada para investigar e matar gente grande.  

Apesar de estruturalmente ser uma milícia comum, o Comando C4 tem um diferencial: expressa no nome o viés ideológico. O nome Caça aos Comunistas, Criminosos e Corruptos aparece estampado em coletes utilizados pelo grupo. É uma milícia de extrema direita voltada não apenas para fazer justiça com as próprias mãos contra criminosos, mas também contra adversários políticos identificados como “comunistas”. 

E nós sabemos como é a régua de medição de adesão ao comunismo dessa gente doente: vai de Lula até João Doria e Rodrigo Pacheco. E, num futuro próximo, poderá atingir Tarcísio de Freitas ou qualquer um que saia debaixo do guarda-chuvas bolsonarista. Para ser chamado de “comunista” basta não comer na mão do bolsonarismo.

O Escritório do Crime — a milícia carioca cujos parentes do seu principal líder eram empregados no gabinete de Flávio Bolsonaro — mantinha ligações diretas com o núcleo duro do bolsonarismo e com a família Bolsonaro. Já o Comando C4, até onde se sabe, não tem ligação direta com a família Bolsonaro, mas está completamente alinhado à ideologia bolsonarista. 

Não há dúvidas de que o DNA ideológico é o mesmo e a proximidade com políticos bolsonaristas existe. Afinal de contas, estamos falando de um grupo de policiais, militares e ex-militares de extrema direita dispostos a agir à margem da lei para atingir determinados objetivos. Qualquer semelhança com os Kids Pretos e o plano Punhal Verde e Amarelo não pode ser tratada como mera coincidência. 

<><> ‘Quantas milícias com viés ideológico existem hoje no Brasil?’

Lembremos, também, que a defesa de grupos de extermínio sempre foi uma das bandeiras da carreira de Jair Bolsonaro. Em 2003, por exemplo, ele subiu à tribuna da Câmara para dizer que “o crime de extermínio será muito bem-vindo” enquanto não houver pena de morte. Alguém poderá dizer: “mas ele defendeu o extermínio apenas de criminosos, não de políticos”. Bom, estamos falando do mesmo Bolsonaro que já defendeu abertamente o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso. 

A proximidade com o bolsonarismo fica ainda mais evidente quando se olha para o histórico de um dos líderes do grupo. Entre os cinco presos pela PF por integrar o Comando C4, está o coronel reformado Etevaldo Caçadini de Vargas. Ele foi colega de turma de Jair Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras em 1977 e é investigado por incitar militares no 8 de Janeiro. 

Nas horas vagas, Caçadini era um militante bolsonarista que comandava grupos de “patriotas” no WhatsApp e possuía um canal no YouTube chamado “Frente Ampla Patriótica” — usado principalmente para disseminar ideias golpistas. 

Em um dos 101 vídeos do canal, Caçadini chama a eleição de Lula de “golpe de estado dado sem nenhum pudor pelos juízes do crime organizado”. Após o fracasso do golpe em 8 de janeiro de 2023, o canal voltou seus canhões para os chefes das Forças Armadas, que passaram a ser tratados como traidores por não terem concluído o golpe de estado. 

Em outro vídeo, o chefe do Comando C4 aparece amistosamente ao lado do deputado General Girão, do PL do Rio Grande Norte, em um evento organizado por militantes “patriotas”. Haja cara de pau para aqueles que tentarem ignorar as ligações do bolsonarismo com o novo grupo de extermínio…

Ficam as perguntas: além do Comando C4, quantas milícias com viés ideológico existem hoje no Brasil? Caso o golpe de estado fosse bem sucedido, qual seria o papel do grupo no novo regime? Seus integrantes seriam absorvidos pelo estado como aconteceu com o CCC durante o regime militar? 

Bom, o que sabemos é que o Comando C4 não existiria se os integrantes do CCC tivessem sido julgados e condenados pelos crimes cometidos durante o regime militar. São filhos da impunidade da Lei da Anistia de 1979. Que não repitamos o mesmo erro desta vez.

¨      Formado por militares, grupo de extermínio 'Caça a comunistas' tinha capacidade imensurável de matar, avaliam investigadores

Formado por militares da ativa e da reserva, o grupo de extermínio que se autointitulava Comando de Caça aos Comunistas, Criminosos e Corruptos (C4) alvo de operação da Polícia Federal na quarta-feira (28) tinha uma capacidade de matar que surpreendeu pessoas a par da investigação.

Cinco pessoas foram presas na operação. Entre os presos na operação desta quarta estão dois militares: um coronel e um ex-sargento. Um deles seria o suposto financiador do assassinato do advogado em Cuiabá, enquanto o outro não teve atuação detalhada pela PF.

Um documento apreendido com o grupo dá ideia do tamanho da capacidade bélica dele. Estão listados:

  • 5 fuzis de sniper com silenciador;
  • 15 pistolas com silenciadores;
  • Quantidade não determinada de munição;
  • Um lança rojão tipo AT-4 (lança granada capaz de destruir carros blindados);
  • Quantidade não determinada de minas magnéticas (um tipo de mina submarina) e explosivos para detonação à distância.

Investigadores ligados ao caso avaliam que o arsenal indica que o grupo tem capacidade imensurável de matar.

<><> A TV Globo apurou que foram presos:

  • Aníbal Manoel Laurindo (produtor rural, suposto mandante da morte do advogado);
  • Coronel Luiz Cacadini (suposto financiador);
  • Antônio Gomes da Silva (suposto atirador);
  • Hedilerson Barbosa (suposto intermediador, auxiliar do atirador e dono da pistola 9mm usada no assassinato)
  • Gilberto Louzada da Silva (sem função detalhada).

O documento da investigação cita, ainda, que o grupo possuía cinco veículos que permitiam a ação de sniper móveis, e outros cinco carros pequenos e médios. Todos usavam placas frias -- para dificultar a localização.

Havia, ainda, telefones via satélite para a comunicação entre os envolvidos, o uso de rastreadores veiculares para perseguição de seus alvos e dois drones.

As equipes usavam casas ou apartamentos temporários para praticarem as ações, disfarces (como perucas e bigodes), e usavam garotas e garotos de programa como iscas das vítimas.

<><> Morte de advogado iniciou investigação

A investigação, autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), teve como ponto de partida o assassinato de um advogado em Mato Grosso.

Ao investigar o assassinato, a polícia civil se deparou com um mega esquema de venda de sentenças em diversos tribunais do país, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Por isso, o caso passou às mãos do Supremo.

¨      O que foi o Comando de Caça aos Comunistas, grupo de extermínio que existiu durante a ditadura militar

A operação da Polícia Federal que prendeu, nesta quarta-feira (28), cinco suspeitos de envolvimento no assassinato do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá (MT), revelou que o grupo investigado se autodenominava “Comando de Caça aos Comunistas, Criminosos e Corruptos” — ou simplesmente C4.

Além do advogado, o grupo de extermínio teria como alvo o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e cobrava para espionar autoridades, como os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) (leia mais).

🔎 O nome do grupo se assemelha ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo de extrema-direita que atuou durante a ditadura militar brasileira.

O CCC surgiu no início dos anos 1960, pouco antes do golpe de 1964, e se consolidou como uma organização formada por estudantes conservadores, policiais, militares e civis.

O grupo promovia ações violentas contra militantes de esquerda, artistas e representantes de movimentos sociais. Suas ações iam desde ameaças e perseguições até agressões físicas e depredações de espaços públicos e culturais.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em julho de 1968, quando integrantes do CCC invadiram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, durante a apresentação da peça Roda Viva, de Chico Buarque.

“Entraram quebrando os espelhos, arrancaram minha roupa, deram socos. Saí correndo, me desviando de socos. No corredor havia mais rapazes, e enquanto fugia eu sentia cassetetes nas costas”, descreveu a atriz Marília Pêra, no livro “Vissi D’Arte” (1999), biografia escrita pelo dramaturgo Flavio de Souza e pela própria atriz.

Atuando fora das estruturas oficiais do Estado, o CCC compartilhava ações com o regime militar e, em muitos casos, operava com tolerância — ou até apoio — de autoridades. Com o endurecimento do regime após o Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, parte dos integrantes do grupo passou a compor os órgãos oficiais de repressão, como o DOI-CODI e o Serviço Nacional de Informações (SNI).

Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, publicado em 2014, o grupo praticou “agressões físicas e ameaças”. O documento aponta que vários de seus membros migraram para a repressão estatal nos anos seguintes.

Entre os principais integrantes do CCC estavam João Marcos Monteiro Flaquer, advogado e líder do grupo, responsável por coordenar diversas ações violentas, incluindo a invasão do Teatro Ruth Escobar. Raul Nogueira de Lima ("Raul Careca"), policial civil e integrante do CCC, esteve envolvido em casos de tortura e assassinato durante a ditadura e Cássio Scatena, que também participou de ações do CCC e foi condenado por homicídio em 1978.

<><> Assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto

O assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto, em 27 de maio de 1969, em Recife (PE), também é um dos casos de violência política no início da ditadura militar atribuídos ao CCC. Padre Antônio era assessor direto de Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, e atuava na coordenação da Pastoral da Juventude, com ações voltadas à inclusão social e formação política de jovens católicos.

Na noite de 26 de maio, após participar de uma reunião no bairro do Parnamirim, o padre foi sequestrado ao entrar em uma Rural Willys verde e branca. Seu corpo foi encontrado na manhã seguinte em um matagal da Cidade Universitária, com sinais de tortura: queimaduras, cortes profundos, castração, estrangulamento e ferimentos por arma de fogo.

Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, padre Henrique não tinha filiação partidária, mas passou a ser vigiado por órgãos de segurança após celebrar uma missa em memória do estudante Edson Luís, morto em 1968 pela polícia no Rio. A partir de então, começou a receber ameaças atribuídas a integrantes do CCC.

A primeira versão oficial atribuía o crime a “toxicômanos” — usuários de drogas —, mas documentos do próprio Serviço Nacional de Informações (SNI), datados de 1970, apontavam outra direção: o assassinato teria sido cometido por jovens de direita com apoio de agentes da Polícia Civil, usando um veículo oficial. Entre os acusados estavam policiais e promotores com ligações com grupos de repressão local.

A mãe do padre, dona Isairas Pereira da Silva, afirmou em depoimento que o filho vinha sendo ameaçado por militantes do CCC. Nos anos seguintes, o inquérito do caso do assassinato de Padre Henrique foi arquivado e reaberto várias vezes, mas sem conclusão.

O término da investigação aconteceu mais de quatro décadas depois do crime, quando o crime foi esclarecido pela Comissão Nacional da Verdade, que atribuiu a morte do padre a um crime político.

Os detalhes foram apresentados no relatório do Volume 2 do Caderno da Memória e Verdade da Comissão, em cerimônia realizada na Capela São José dos Manguinhos, na Zona Norte do Recife, em maio de 2014.

Newton Jerônimo Gibson Duarte Rodrigues, vinculado ao CCC em Pernambuco ainda como estudante, foi apontado como um dos torturadores e executores do padre, ao lado do também estudante Rogério Matos do Nascimento e do então delegado Raul Nogueira de Lima.

Em 2025, o nome e a retórica se assemelham ao grupo investigado por atuar como milícia privada. A Polícia Federal afirma que o C4 foi contratado para o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá, ocorrido em dezembro de 2023. Os investigadores encontraram documentos com uma tabela de preços para execuções, que variavam conforme o perfil da vítima, além de menções a autoridades do Judiciário.

 

Fonte: The Intercept/g1

 

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