quinta-feira, 26 de junho de 2025

Irã reafirma cessar-fogo e suspende colaboração com Agência Internacional de Energia Atômica

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, declarou que Teerã manterá seu compromisso com o cessar-fogo firmado com Israel, desde que Tel Aviv respeite os termos do acordo. “Se o regime sionista não violar o cessar-fogo, o Irã não o fará”, disse Pezeshkian.

A trégua encerrou 12 dias de hostilidades, que incluíram ataques israelenses a alvos militares iranianos e mísseis lançados pelo Irã contra instalações e bases dos EUA e de Israel na região. Pezeshkian acusou os Estados Unidos de se juntarem diretamente aos ataques, violando normas internacionais, ao bombardear três das principais instalações nucleares do país: Fordow, Natanz e Isfahan.

Como resposta aos bombardeios americanos, o Irã lançou um ataque contra uma base aérea dos EUA no Catar. “Isso não significa que o Irã esteja em conflito com o governo e o povo do Catar”, afirmou o líder iraniano, ao garantir o compromisso do país com a paz na região.

<><> AIEA

O Parlamento do Irã aprovou por unanimidade, nesta quarta-feira (25/06), uma moção que recomenda a suspensão da cooperação do governo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A agência é acusada de omissão diante dos ataques às instalações nucleares.

Dos 223 legisladores presentes, 221 votaram a favor, com uma abstenção e nenhum voto contrário. “O programa nuclear pacífico do Irã avançará mais rapidamente”, declarou o presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, criticando a AIEA por não condenar, “mesmo verbalmente”, a ofensiva contra centros nucleares iranianos.

O projeto de lei não representa uma retirada do Tratado de Não Proliferação (TNP), mas sim uma suspensão das atividades de vigilância e relatórios da AIEA dentro do Irã. Com a nova lei, nenhuma câmera ou inspetor da AIEA – incluindo seu diretor-geral Rafael Grossi – terá acesso às instalações iranianas.

americanos contra suas centrais nucleares nos últimos doze dias.

“A AIEA, que se recusou a condenar, nem que fosse minimamente, o ataque às instalações nucleares iranianas, comprometeu sua credibilidade internacional. (...) A Organização Iraniana de Energia Atômica suspenderá sua cooperação com a AIEA enquanto a segurança das instalações nucleares não for garantida”, declarou o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, após a votação dos deputados a favor da suspensão da cooperação com a agência.

A suspensão da cooperação com a AIEA, que inspeciona programas nucleares ao redor do mundo, foi aprovada com ampla maioria no Parlamento iraniano, com 221 votos a favor de um total de 290 cadeiras. Um legislador se absteve, e não houve nenhum voto contra, segundo a TV estatal iraniana. Até a última atualização desta reportagem, o governo iraniano ainda não havia divulgado quando a suspensão entraria em vigor.

Ao mesmo tempo, o chefe da AIEA, Rafael Grossi, afirmou nesta quarta-feira que a "prioridade número 1" da agência é garantir o retorno de seus inspetores às instalações nucleares do Irã para avaliar o impacto dos ataques militares americanos e israelenses, além de verificar os estoques de urânio enriquecido do país.

O Irã acusa a AIEA e Grossi de serem politicamente enviesados para Israel em meio aos ataques às instalações nucleares do país ocorridos nos 12 dias de conflito direto. Os locais mais atingidos foram Natanz, Isfahan e Fordow.

Segundo a TV estatal iraniana, a resolução do Parlamento diz que os inspetores da AIEA não terão permissão para entrar no Irã a menos que a segurança das instalações nucleares e das atividades nucleares do país esteja garantida, e estará sujeita à aprovação do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano. Um dos legisladores também pediu ao Conselho o banimento de Grossi do país, mas não teve seu pedido acolhido até o momento.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a suspensão da cooperação iraniana é uma consequência direta do que classificou como "ataque não provocado" ao Irã, e criticou a AIEA por não fazer mais contra os ataques a instalações nucleares. Segundo Peskov, a agência da ONU sofreu sérios danos à sua reputação.

A suspensão da cooperação com a AIEA ocorre dias após um assessor do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, ameaçar o chefe da agência da ONU dizendo que "acertaria as contas" com ele quando o conflito direto contra Israel acabasse.

Seyed Mahmoud Nabavian, vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa iraniana acusou a agência de vazar informações confidenciais para Israel e declarou que, a partir de então, nenhum dado seria fornecido à agência.

<><> Projeto de lei

O projeto de lei vincula a suspensão à violação da soberania nacional e integridade territorial do Irã pelas forças dos EUA e de Israel. De acordo com o Artigo 60 da Convenção de Viena de 1969 sobre o Direito dos Tratados, o governo iraniano agora é obrigado a suspender toda a cooperação com a AIEA até que duas condições sejam atendidas:

A garantia total da soberania iraniana e proteção de seus cientistas e instalações nucleares, conforme determinado pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional. E o reconhecimento dos plenos direitos do Irã, nos termos do Artigo 4 do TNP, de conduzir o enriquecimento de urânio e o desenvolvimento nuclear dentro de suas fronteiras.

A medida é vista pelos parlamentares iranianos como uma resposta proporcional ao diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, cujo relatório foi considerado por eles tendencioso e motivador dos ataques contra as instalações nucleares do país.

<><> Relatório do Pentágono

A decisão vem à tona no mesmo dia em que a Agência de Inteligência de Defesa, o braço de inteligência do Pentágono, vazou um relatório afirmando que componentes-chave do programa nuclear, incluindo centrífugas, poderiam ser reiniciados em poucos meses.

O documento afirma que os bombardeios — realizados com bombas “destruidoras de bunkers” GBU-57 e mísseis Tomahawk — não destruíram completamente as instalações em Natanz, Fordow e Isfahan, como garantiu Trump.

Segundo a avaliação preliminar, os ataques “provavelmente só atrasaram o programa nuclear do Irã em alguns meses”, na medida em que grande parte do estoque iraniano de urânio enriquecido teria sido movido antes da operação. A instalação de Fordow — considerada a mais protegida do país e localizada sob as montanhas Zagros — resistiu melhor aos ataques do que o esperado.

Na sua rede Truth Social, Trump publicou em maiúsculas: “AS INSTALAÇÕES NUCLEARES NO IRÃ ESTÃO COMPLETAMENTE DESTRUÍDAS!”. A Casa Branca também rejeitou o relatório da Agência de Inteligência, classificando os vazamentos sobre a avaliação como uma tentativa de “rebaixar o presidente Trump e desacreditar os bravos pilotos de caça” envolvidos na operação.

Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA, declarou em Viena que o país perdeu a capacidade de contabilizar 400 kg de urânio enriquecido iraniano a 60% e que a prioridade da agência agora é retornar às instalações nucleares iranianas para uma inspeção técnica urgente.

<><> Cortejos

Tanto Israel quanto o Irã reivindicaram vitória na guerra de 12 dias, com os iranianos realizando celebrações em Teerã e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reivindicando um triunfo que permanecerá por gerações. O Irã afirma que pelo menos 610 pessoas, incluindo 13 crianças, foram mortas e 3.056 ficaram feridas desde que Israel lançou seu ataque em 13 de junho. Em Israel, pelo menos 28 pessoas foram mortas em ataques iranianos.

Um grande cortejo fúnebre foi realizado para os seis soldados mortos em um ataque israelense em Yazd, no domingo, conforme relatos relatou a agência estatal Tasnim. Milhares de pessoas, entre elas autoridades militares e civis, participaram da cerimônia na Grande Mesquita da cidade. No próximo sábado é esperada uma grande marcha nacional em homenagem às vítimas do confronto.

<><> Trump insiste com fake News de que instalações nucleares do Irã foram destruídas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insistiu nesta quarta-feira que os ataques americanos "destruíram totalmente" as capacidades nucleares do Irã, mesmo após a divulgação de um documento do serviço de Inteligência americano que questionou a eficácia dos ataques.

Segundo o relatório confidencial da Defense Intelligence Agency (Agência de Inteligência de Defesa, em português) do Exército americano, que vazou para a imprensa nesta terça-feira (24), “o programa nuclear iraniano teria sido, na melhor das hipóteses, atrasado por alguns meses” após os ataques de domingo passado a três principais locais nucleares. Segundo o documento, os danos seriam bem menores do que os anunciados pelo governo americano.

O relatório revelou que apenas as partes superiores das centrais nucleares de Fordow e Natanz teriam sido destruídas pelas bombas americanas e mísseis israelenses.

Os ataques teriam obstruído as entradas de algumas instalações sem afetar os edifícios subterrâneos. De acordo com o documento, as principais centrífugas também continuam intactas, e os 400 quilos de urânio altamente enriquecido, que supostamente estavam nos locais visados, continuam desaparecidos. Eles teriam sido deslocados antes dos ataques.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou a autenticidade do relatório, mas declarou que ele era “totalmente equivocado”. O vazamento da informação, disse, “é uma tentativa evidente de diminuir o presidente Trump e os pilotos corajosos que executaram perfeitamente sua missão de destruir o programa nuclear iraniano”, escreveu no X. 

No entanto, essas informações, se forem confirmadas, contradizem completamente as declarações do presidente americano. Dois dias antes da publicação do relatório, ele anunciou que as instalações nucleares haviam sido completamente destruídas, informação que ele reiterou nesta quarta-feira.

<><> Falta de transparência

Nesta terça-feira, membros da CIA e generais deveriam apresentar elementos confidenciais sobre os ataques ao Senado e à Câmara. As reuniões acabaram sendo canceladas, oficialmente por indisponibilidade de alguns responsáveis. 

A situação provocou indignação entre os parlamentares. Hakeem Jeffries, líder dos democratas na Câmara dos Representantes, disse que nenhum elemento foi apresentado ao povo americano ou ao Congresso para confirmar que o programa nuclear do Irã foi “completamente e totalmente destruído”. 

A falta de transparência sobre a operação "Midnight Hammer" ("Martelo da meia-noite", em português) levou Trump a reagir em sua rede social, Truth Social. “Todos que dizem que as bombas não destruíram tudo, querem apenas minar o sucesso do presidente.”

Nesta terça-feira, o governo iraniano anunciou que "tomou as medidas necessárias" para garantir a continuidade de seu programa nuclear. Um conselheiro do aiatolá Khamenei afirmou que o país ainda possui estoques de urânio enriquecido e que “a partida não terminou”. 

Já o Exército israelense estimou na terça-feira ser "cedo demais" para avaliar os danos causados ao programa nuclear iraniano.

“Ainda é cedo para avaliar os resultados da operação. Acredito que demos um golpe duro ao programa nuclear, e também posso dizer que o atrasamos por vários anos”, declarou o porta-voz do Exército israelense, Effie Defrin, em coletiva de imprensa.

<><> Cessar-fogo

O cessar-fogo negociado por Trump entre Irã e Israel continua em vigor nesta quarta-feira. O emissário de Donald Trump, Steve Witkoff, declarou nesta terça-feira à noite que as discussões entre os Estados Unidos e o Irã eram “promissoras” e que Washington esperava um acordo de paz de longo prazo. 

“Já estamos conversando, não apenas diretamente, mas também por meio de intermediários. Acho que essas conversas são promissoras. Esperamos poder concluir um acordo de paz de longo prazo”, disse ele em entrevista à Fox News. “Cabe agora a nós sentarmos com os iranianos e chegarmos a um acordo de paz abrangente, e estou convencido de que conseguiremos”, acrescentou Steve Witkoff. 

O conflito entre Israel e Irã começou na sexta-feira, 13 de junho, após uma série de bombardeios israelenses que tinham por objetivo destruir o programa nuclear iraniano. Os ataques israelenses causaram centenas de mortes no Irã, e os mísseis disparados pelo Irã em retaliação causaram 28 mortes em Israel. 

¨      Ataque dos EUA atrasou programa nuclear do Irã por apenas alguns meses, diz jornal

O ataque dos Estados Unidos contra instalações do Irã no sábado (21) atrasou o programa nuclear do país "em apenas alguns meses', segundo reportagem do "The New York Times". O jornal cita um relatório preliminar americano obtido por fontes da inteligência sob condição de anonimato.

De acordo com o documento da Agência de Inteligência de Defesa (DIA, na sigla em inglês), uma agência do Pentágono, obtido pelo jornal, os ataques selaram as entradas de dois dos três locais atingidos — Fordow, Natanz e Isfahan — mas não chegaram a colapsar suas estruturas subterrâneas, onde estão parte dos principais laboratórios do programa nuclear iraniano.

A eletricidade e parte do maquinário foram danificados, mas a estrutura física das instalações continua de pé, segundo fontes de defesa dos EUA e de Israel. Para que os danos fossem mais duradouros, seriam necessárias múltiplas rodadas de ataques, disseram militares americanos.

Logo após o bombardeio, o secretário de Defesa dos EUA, Peter Hegseth, disse que o ataque "foi concluído com sucesso" e que foi o "último golpe no programa nuclear iraniano". "Ficou claro que devastamos o programa nuclear iraniano", disse ele.

Segundo o relatório, diz a reportagem, antes dos bombardeios, as agências de inteligência estimavam que, caso decidisse produzir uma arma nuclear, o Irã levaria cerca de três meses para conseguir um "artefato básico". Após os ataques americanos e israelenses às instalações, essa previsão foi estendida para "um prazo inferior a seis meses".

A estimativa considera que o Irã ainda possui controle sobre quase todo o seu estoque de urânio enriquecido, que foi deslocado antes da ofensiva, aponta o "The New York Times". Fontes da inteligência americana afirmam que parte desse material pode ter sido transferida para instalações secretas de enriquecimento, fora do alcance das bombas.

<><> Relatório contradiz governo americano

A reportagem afirma que o relatório indica que o impacto da operação foi menor do que o anunciado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse ao "The New York Times" que a avaliação “está completamente errada”.

“Todo mundo sabe o que acontece quando você joga 14 bombas de 30 mil libras perfeitamente nos alvos: destruição total”, disse Leavitt em comunicado.

Apesar do discurso oficial, autoridades americanas admitem, nos bastidores, que os danos foram significativos, mas insuficientes para impedir o Irã de retomar seu programa nuclear em curto prazo.

<><> Ataques com avião mais caro do mundo

Na operação chamada de "Martelo da Meia-Noite, dois EUA usaram aviões B-2 Spirit, um dos veículos militares mais avançados do país, com custo estimado de US$ 2,1 bilhões por unidade.

Com tecnologia de ponta, ele é capaz de atravessar sistemas sofisticados de defesa aérea, além de conseguir atingir com precisão alvos fortificados, como as instalações nucleares subterrâneas do Irã.

As aeronaves usaram bombas "bunker buster", feitas para destruir bunkers, que pesam 13 toneladas, que penetram a uma profundidade de 60 metros de concreto armado.

<><> Cessar-fogo sob tensão

cessar-fogo entrou em vigor nas primeiras horas desta terça-feira (1h da manhã no horário de Brasília), segundo anúncio feito pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

No entanto, relatos de novos ataques em Teerã e declarações cruzadas entre os envolvidos colocaram o acordo sob incerteza logo nas primeiras horas.

Trump afirmou que tanto Israel quanto Irã violaram os termos da trégua, negociada com participação ativa do Catar, e que estava "insatisfeito com os dois lados".

 

Fonte: Opera Mundi/RFI/g1

 

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