terça-feira, 3 de junho de 2025

Desobediência civil às ordens imorais do governo israelense

Anna Foa, estudiosa da história judaica e da memória do Holocausto, responde às nossas perguntas sobre o tema da desobediência às ordens imorais do governo israelense.A entrevista é de Giordano Cavallari.

<><> Eis a entrevista.

·        Querida Anna, o que você lembrou recentemente sobre a guerra de 1956 em Israel?

Após o início da guerra, um dia, o toque de recolher para a população civil palestina foi antecipado em duas horas. Um grupo de agricultores, ocupados nos campos e totalmente alheios à situação, foram abatidos pelo exército israelense quando voltavam para casa, na vila de Kefar Kassem: 49 pessoas morreram, incluindo mulheres e crianças.Isso provocou uma forte reação civil em Israel. O general Gurion, chefe do governo, foi ao Parlamento, impôs um minuto de silêncio e pediu desculpas aos palestinos. Houve então um julgamento regular, no fim do qual os responsáveis, que tinham dado a ordem de atirar, foram condenados. Eles não permaneceram presos por muito tempo, mas a sentença clara e definitiva foi dada. O juiz Benjamin Halevy certa vez proferiu uma frase que continua sendo um ponto alto da lei, bem como da moral: "Sabe-se que se está diante de uma ilegalidade manifesta quando uma espécie de sinal acena como uma bandeira preta sobre a ordem em questão e avisa: 'proibido'."

·        Por que lembrar desse fato?

Porque hoje – dado o que está acontecendo em Gaza – eventos políticos e institucionais desse tipo, infelizmente, não podem se repetir em Israel.

·        Quer trazer à tona o caso recente do soldado Yair Golan?

Yair Golan era um oficial de alta patente do exército israelense que, em 07-10-2023, às primeiras notícias da agressão, vestiu novamente seu uniforme, pegou seu carro e foi salvar, quem e como podia, civis dos terroristas do Hamas. Ele é agora o líder da "esquerda" em Israel, que deriva da fusão de dois partidos de oposição a Netanyahu. Golan disse que há soldados israelenses que atiram em crianças palestinas “como um hobby”. Bem, ele foi destituído da capacidade de vestir o uniforme israelense novamente.

·        O gesto de Yair Golan é isolado?

Em Israel, um movimento de desobediência civil contra o governo de Netanyahu está ganhando força: do meu ponto de vista, isso é muito interessante. Nas páginas do Haaretz, o conhecido jornalista Gideon Levi escreveu claramente que alguém pode se recusar a obedecer a ordens injustas e imorais. Espero que este debate – sério e civilizado – em Israel continue e, assim, levante toda a sociedade israelense contra o massacre indiscriminado que o exército israelense está realizando em Gaza.O tema da obediência – e portanto da desobediência – às ordens é um tema “histórico” para Israel. Lembro-me de que até mesmo o líder nazista Eichmann, um dos principais responsáveis ​​pelo extermínio dos judeus na Europa, julgado em Israel e condenado à morte, sempre sustentou que simplesmente havia obedecido ordens.

·        A conexão entre os militares nazistas e israelenses é muito forte…

Pode ser uma justaposição muito forte, mas vem da história. Basta ler ou reler os documentos do julgamento de Eichmann ou dos julgamentos de Nüremberg: todos os réus, apoiados por seus advogados, sempre alegaram ter obedecido às ordens. Aqueles que estão atacando a população civil e as crianças de Gaza também estão seguindo ordens.

·        Esta é uma crítica forte para o bem de Israel?

Certamente. Acredito que apoiar firmemente a oposição a Netanyahu significa correr em auxílio de Israel e salvá-lo de seu suicídio, como escrevi em meu livro.

¨      A sociedade civil israelense protesta: há quem o esconde. Por Davide Assael

Os protestos contra a guerra da sociedade civil israelense continuam ininterruptos. Após as marchas à fronteira Sul do país ao grito de “Dai HaMilchamà!” (Chega de guerra!), é deste fim de semana a carta assinada por mais de mil docentes universitários que, em tons bastante graves, pede o fim do massacre em Gaza, prolongado pela vontade desses líderes políticos, de ambos os lados, que o mantêm vivo como sua única razão de ser. Entrementes, as manifestações diárias se intensificam e se tornam mais numerosas. Elas acompanham as enormes manifestações de sexta-feira à noite, cujo epicentro foi Rechov Kaplan, em Tel Aviv, mas que se espalham por todo o país. Mas não basta: recentemente, em Jerusalém, se realizou uma convenção organizada por sessenta associações israelenses, árabes e judaicas, com a participação de milhares de pessoas, algo nada marginal. O objetivo: exigir o fim da guerra, a libertação dos reféns ou de seus corpos, o início de um percurso de reconhecimento mútuo. Não foram poucos os políticos envolvidos. Na liderança estão Ehud Olmert e Nasser al Qudwa, que repropuseram seu plano de paz, desenvolvido com base no plano que o próprio Olmert, como presidente do Conselho em exercício, havia proposto em 2008. Um plano indispensável, que previa até mesmo uma forma de Jerusalém federal. Abu Mazen não pôde aprová-lo devido às divisões internas da frente palestina. Gaza já havia caído nas mãos dos assassinos do Hamas, que tinham imediatamente abolido as eleições, assassinado e expulso a ANP da Faixa de Gaza e ameaçavam sua autoridade na Cisjordânia. E ainda: o trabalho diário do Círculo de Pais, que também esteve na Itália nos últimos meses, de Omdim beyachad, em inglês “standing together”.

Em resumo, o Israel democrático se levantou definitivamente contra o tirano criminoso Benjamin Netanyahu e seus acólitos supremacistas do sionismo religioso (e entristece pensar no que era esse movimento há um século), que deliram com anexações aqui e ali, indiferentes a qualquer dado demográfico que documenta como os israelenses não têm nenhuma intenção de se associar a seus delírios pseudomessiânicos. Porque o messianismo é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos desses kahanistas, fascistas, cujo lugar natural são as pátrias prisões. Lugares, afinal de contas, bastante frequentados por muitos deles antes de Netanyahu fazer sua obra de rastreamento para garantir uma maioria para si depois de perder todos os aliados possíveis. Um despertar que, para mim, parece a contradição mais explícita da definição do sionismo como uma ideologia etnonacionalista, que acolhe acriticamente as especulações originadas por círculos ideológicos radicais.

Mas vamos ver essa ideologia etnonacionalista que Netanyahu é acusado em seu país de estar traindo: princípio da igualdade entre todos os cidadãos sancionado pela Carta de Independência de 1948 e reafirmado por duas leis fundamentais do Estado, 21% da população árabe, sendo 18% muçulmanos e o restante cristãos. Depois, drusos, baha'i, circassianos e beduínos. Todos com direitos iguais. O árabe, embora com um leve rebaixamento devido à odiosa Lei da Nação de 2018, é um idioma oficial do Estado, assim como o hebraico. O Estado financia quatro sistemas educacionais, um dos quais é árabe. Partidos árabes no parlamento, ministros árabes, juízes árabes da Suprema Corte, batalhões inteiros do exército de beduínos e drusos.

Parâmetros nem sequer imagináveis na ultrademocrática Europa, onde as pessoas esbravejam sobre a substituição étnica em países onde os muçulmanos representam 2%. A lei do retorno? Nada mais é do que a versão israelense das nossas leis que privilegiam a imigração se alguém teve um distante parente italiano. Em suma, a imprópria definição só funciona quando se nega aos judeus o atributo de povo. A velha história que associa os judeus aos ciganos (ainda se ouve falar de etnia cigana mesmo em círculos cultos), ou aos curdos. Ou até mesmo aos palestinos, que alguns gostariam que fossem incluídos na genérica definição de árabes. Mas é o discurso de sempre: aproveitar a guerra para exumar o antissionismo militante. Que é o que Netanyahu quer, alimentar a polarização: ou você está comigo ou está com os inimigos antissionistas/antissemitas da pátria. Enquanto isso, continuam os protestos contra o Hamas em Gaza.

¨      Judeus contra o genocídio que Israel conduz em Gaza

A manifestação, convocada, entre outras, pelas associações Judeus pela Paz e pela Justiça (JPJ) e Israelenses pela Pressão Internacional (IPI), decorreu em simultâneo com iguais manifestações realizadas em outras em 12 cidades de países da União Europeia (UE) sob o lema “No Business as Usual with Israel” [fim à normalidade das relações com Israel], e visou denunciar a “cumplicidade europeia com os crimes de guerra de Israel” e pressionar os governos da União Europeia a tudo fazer para “acabar com o genocídio do povo palestino”. Em declarações à agência Lusa, Liad Hollender, da IPI, frisou que a manifestação foi organizada “por israelenses muito preocupados, horrorizados, pelo que está se passando em Gaza e contra o atual governo de Benjamim Netanyahu”. Hollender é natural de Haifa, onde nasceu há 43 anos, e mora em Portugal há 14.

Outro manifestante, Alan Stoleroff, responsável da JPJ, equiparou o que Israel faz nos territórios palestinos ao que a Rússia faz na Ucrânia, sustentando que Tel Aviv tem em curso “uma operação especial militar” que já se constituiu “como um genocídio”. Do seu ponto de vista, está claro aos olhos de todos que “Netanyahu não pretende acabar com essa operação até, como dizem explicitamente os seus ministros dos dois ou três grupos de partidos da extrema, extrema-direita, conseguirem a expulsão definitiva dos palestinos da Faixa de Gaza”. Stoleroff, de 71 anos, é natural de Brooklyn, Estados Unidos, e vive em Portugal há cerca de 45. “Estão a utilizar a arma da fome para pressionar a população civil da Palestina, sejam simpatizantes do Hamas, ou não. É absolutamente ilegal, imoral, algo sem precedentes”, afirmou Stoleroff, defendendo que o movimento mundial de judeus contra o governo de Netanyahu “mina a legitimidade do Estado de Israel ao pretender falar e atuar em nome de todos os judeus e israelenses do mundo”. A manifestação contou também com cartazes a denunciar a atuação do governo israelense e com palavras de ordem como “parem o genocídio”, “judeus pela paz e pela justiça”, “igualdade para todos” ou “suspender o acordo de associação Israel-UE”. A organização entregou uma carta aberta aos partidos representados no Parlamento a denunciar a postura israelense nos territórios ocupados.

¨      Israel ativa a destruição total de Gaza sem que ninguém a impeça

O governo de Benjamin Netanyahu há muito não esconde suas verdadeiras intenções em Gaza: expulsar ou matar a população palestina – seja com bombas ou fome – e ocupar todo o território, depois de tê-lo destruído quase completamente desde o início de sua guerra punitiva em outubro de 2023. Na segundafeira, no entanto, o governo ultranacionalista israelense iniciou uma nova fase da guerra na qual anunciou que ocupará e destruirá tudo o que resta de Gaza, permitindo uma entrada mínima de ajuda humanitária cujo único objetivo é evitar imagens horríveis de fome e aplacar os EUA, seu protetor na esfera internacional. Na terçafeira, o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher, alertou em entrevista à BBC que 14 mil bebês morrerão no enclave palestino nas próximas 48 horas se a ajuda humanitária não chegar a tempo.

Somente nas primeiras horas de segunda a terçafeira, os ataques israelenses mataram pelo menos 53 pessoas no norte e no centro da faixa. No campo de refugiados de Jabalia, no norte, agora transformado em ruínas, pelo menos nove pessoas foram mortas após um bombardeio israelense de uma casa de família, detalharam as mesmas fontes. As tropas de Benjamin Netanyahu também atacaram uma escola na Cidade de Gaza que servia de refúgio para os palestinos. O bombardeio matou pelo menos 13 pessoas. Em Deir Al Balah, o centro da Faixa, houve um bombardeio de um posto de gasolina perto do campo de refugiados de Nuseirat, que no momento do ataque abrigava civis deslocados, dos quais pelo menos quinze morreram. "Uma estratégia totalmente nova. Chega de invasões ou operações de entrada e saída – agora conquistamos, limpamos e ficamos. Até que o Hamas seja destruído. Ao longo do caminho, o que resta da Faixa também está sendo arrasado, simplesmente porque tudo lá se tornou uma grande cidade de terror", disse Bezalel Smotrich, um dos ministros mais radicais do Executivo, na segundafeira.

O primeiroministro declarou mais uma vez que Israel assumirá o controle de toda a Faixa de Gaza, um plano no qual as tropas israelenses vêm avançando rapidamente nos últimos dois meses, desde que Tel Aviv decidiu quebrar o cessarfogo com o grupo palestino Hamas e retomou sua ofensiva brutal em 18 de março. Desde aquele dia, mais de 3.200 moradores de Gaza foram mortos, centenas deles no último fim de semana, quando as Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram o início da Operação 'Carruagens de Gideão', um nome bíblico que sugere os desejos de um final apocalíptico que entrará para a história. Com poucos edifícios de pé de norte a sul do enclave palestino (mais de 90% foram danificados) e sua infraestrutura destruída, as FDI continuam a atacar por terra, mais e pelo ar, destruindo o que resta de bairros dizimados e visando até mesmo as tendas de lona em que vivem os deslocados. A população está encurralada em uma área cada vez mais limitada da pequena faixa de 360 quilômetros quadrados, com cada vez menos rotas de fuga e nenhum lugar seguro. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA), mais de 70% do território de Gaza foi ocupado e incluído nas chamadas zonas de "segurança" ou "tampão", ao longo da divisão israelense, ou foi evacuado por ordens militares forçando civis a deixar essas "áreas de combate perigosas".

Na segundafeira, o portavoz do exército israelense em língua árabe, Avichay Adraee, ordenou a evacuação da cidade de Khan Younis (a maior do sul da Faixa) e das cidades do sul de Beni Suhaila e Abasan. O OCHA lamenta que "as pessoas tenham sido confinadas em espaços cada vez menores", mesmo antes do início da atual operação militar, com a qual líderes políticos e militares dizem querer pressionar mais o Hamas para libertar os 58 reféns (dos quais menos da metade se acredita estarem vivos) que estão detidos por militantes palestinos desde 7 de outubro de 2023.

<><> Ataque e negocie

No entanto, os parentes dos reféns, vivos e mortos, denunciaram repetidamente que a via militar não funciona e que a única maneira de trazer de volta seus entes queridos é por meio de um acordo. Após o anúncio da Operação 'Carruagens de Gideão', o Fórum das Famílias de Reféns e Pessoas Desaparecidas emitiu um comunicado dizendo que "a expansão dos combates em Gaza aumenta drasticamente o risco de danos tanto aos reféns vivos quanto aos corpos daqueles que morreram em cativeiro". Há uma semana, o Hamas libertou o refém israelenseamericano Edan Alexander graças a um acordo com o governo dos EUA, com a mediação do Catar. Sua libertação foi um gesto de boa vontade por parte dos islâmicos que estavam tentando pressionar por novas negociações indiretas com Israel para acabar com a guerra em Gaza. Um dia depois que Alexander foi libertado, uma delegação israelense viajou para Doha para retomar os contatos com mediadores do Catar, mas observadores dizem que as ações de Israel mostram que não tem vontade de concordar com uma cessação permanente das hostilidades, que é o que o Hamas exige.

Netanyahu concordou em enviar seus negociadores a Doha – sob pressão do enviado de Trump ao Oriente Médio, Steve Witkoff, segundo o Haaretz – enquanto o presidente dos EUA estava em visita oficial a este emirado do Golfo Pérsico; mas quando ainda não havia deixado a região, intensificou os ataques a Gaza, enviando uma mensagem clara ao seu aliado. Até agora, Trump não criticou a nova operação israelense, na qual centenas de pessoas morreram em poucos dias, nem pediu a Israel que a interrompesse. "As perspectivas de parar os combates agora dependem principalmente de Trump e da esperança de que ele continue a mostrar interesse nos eventos em Gaza", escreveu o analista Amos Harel no jornal israelense Haaretz no domingo.

Se o governo anterior dos EUA havia alertado que não apoiaria uma nova ocupação de Gaza – território do qual Israel retirou suas tropas e desmantelou os assentamentos em 2005 – o retorno de Trump à Casa Branca em janeiro passado abriu as portas para essa possibilidade e até mesmo para a expulsão da população palestina. O governo ultranacionalista israelense tomou o plano do republicano de esvaziar a Faixa, reconstruí-la e transformá-la na "Riviera do Oriente Médio" literalmente. De Washington, houve apenas sinais de desconforto e desaprovação nos últimos dias por causa das imagens de fome em Gaza, dois meses e meio depois que Israel fechou as passagens de fronteira do enclave e proibiu a entrega de ajuda humanitária e qualquer produto básico, de água a remédios ou combustível.

<><> Ajuda humanitária para evitar críticas

Depois de ignorar as advertências e apelos da ONU e de uma infinidade de organizações humanitárias, Netanyahu cedeu aos sinais dos Estados Unidos e decidiu permitir a entrada de uma quantidade "mínima" de ajuda humanitária para aliviar o sofrimento da população civil em Gaza, que sofre com a fome há meses, além da violência. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o primeiroministro argumentou sua decisão mais em termos políticos do que humanitários. De acordo com Netanyahu, seus "melhores amigos ao redor do mundo" (ou seja, os americanos) transmitiram a ele que há uma coisa que eles não podem aceitar: "imagens de fome, fome em massa". Portanto, antes de chegar a um "ponto perigoso" para Israel e chegar a uma "linha vermelha", nas palavras de Netanyahu, é necessário "resolver o problema".

O governo e o exército hebreus garantiram que permitirão a entrada de ajuda humanitária e na segundafeira cinco caminhões foram autorizados a passar, uma quantidade totalmente insuficiente para as necessidades. O OCHA confirmou que as autoridades israelenses entraram em contato com a agência para "retomar a entrega limitada de ajuda" e estão estudando como fazê-lo com base nas condições no terreno, que não são fáceis em meio a ataques e operações militares e ao deslocamento da população. "O que vai chegar nos próximos dias é um pouco para as padarias que distribuem pitas para as pessoas e para as cozinhas públicas que dão uma ração diária de comida cozida. Os civis em Gaza receberão um pão sírio e um prato de comida, e é isso", disse Smotrich. O ministro das Finanças também deixou claro que a decisão é puramente estratégica: "Eu gostaria de evitar ter que introduzir um único grão de sal na Faixa de Gaza, mesmo para civis? É possível." Mas ele admitiu que, se Israel o fizesse, "o mundo" o forçaria a acabar com a guerra, que é a que se opõe a todo custo. "Isso permitirá que os civis comam e nossos amigos no mundo continuem a nos dar o guardachuva internacional de proteção contra o Conselho de Segurança, o tribunal de Haia e nós continuaremos a lutar até a vitória", disse o ministro.

¨      Eu, soldado do Estado judeu, sinto vergonha por Netanyahu. Por Ariel Bernstein

Meu nome é Ariel Bernstein. Sou cidadão judeu israelense e ex-soldado das Forças de Defesa de Israel (IDF). Este é um apelo aos líderes italianos e europeus para que ajam com urgência.

Em 2014, servi como soldado na guerra em Gaza. Eu estava na área de Al-Burrah, em Beit Hanoun, apoiando as unidades de engenharia envolvidas no desmantelamento dos túneis do Hamas. A imensa destruição que deixamos para trás e o que vi me mudaram para sempre, mas o que estamos assistindo hoje na Faixa de Gaza ultrapassa qualquer limite imaginável. Atualmente moro em Bolonha e amo a Itália. Mas todas as manhãs acordo com um peso insuportável: a dor pela minha pátria, pelos prisioneiros, pelo povo de Gaza. E uma vergonha que me consome pelos crimes cometidos em meu nome. Para o historiador Carlo Ginzburg, o lugar que você ama é aquele do qual você sente vergonha. A vergonha, diz ele, pode ser um laço mais forte que o amor. Só agora entendo o que significa. Sinto-me profundamente envergonhado pelo que meu país se tornou. Em Gaza não há uma guerra, mas a destruição metódica de um povo inteiro. A Itália e a Europa têm o poder e o dever moral de impedir que continue.

Em sua última coletiva de imprensa, o primeiro-ministro Netanyahu disse o que muitos em Israel temiam: o objetivo não é apenas a "vitória total" sobre o Hamas, mas a deportação dos palestinos de Gaza. "O plano Trump" é apenas o eufemismo que ele usa para esconder uma limpeza étnica. Estamos assistindo, em tempo real, à violação das normas mais básicas da decência humana, em uma escala que eu jamais poderia ter imaginado. Nossos militares mataram 50 mil pessoas, a maioria civis, incluindo mais de 15 mil crianças, três mil desde que o cessar-fogo foi violado. A fome tem sido usada como arma. Essa é uma política de destruição e agora os ministros nem têm medo de dizê-lo.

Após o 7 de outubro e o sequestro de centenas de civis, a única resposta que conseguiram dar ao seu próprio povo foi infligir sofrimento a outro. Esse governo não me representa, nem fala em nome do povo judeu, que em grande parte, tanto em Israel quanto na diáspora, pede o fim dessa loucura.

Netanyahu afirma agir em nosso nome, mas essas políticas perversas estão apenas colocando em perigo os judeus em todo o mundo. Na Itália e na Europa, as comunidades judaicas estão pagando o preço de uma campanha irracional realizada em seu nome, mas sem o seu consentimento. Israel afirma ser seu escudo, mas suas ações os estão tornando alvos. E a comunidade internacional não compreende a urgência da questão. No Conselho UE-Israel, em fevereiro, os 27 Estados-membros expressaram preocupação, solicitaram acesso humanitário e reafirmaram a natureza vinculativa dos mandatos do TPI. No campo, nada mudou. Pelo contrário, poucos dias depois, Israel interrompeu completamente a entrada de ajudas.

Peço à Itália e à Europa que se posicionem. Vocês têm o poder de pôr fim a essa loucura, a oportunidade de desempenhar um papel crucial e as alavancas de pressão em suas mãos. Usem-nas. Suspendam os acordos comerciais e bilaterais, façam tudo o que for necessário para obter um cessar-fogo e a libertação dos reféns. Cada momento de atraso equivale a mais vidas perdidas, mais famílias e futuros destruídos. Como israelense e judeu que se preocupa com o futuro do nosso povo, peço que ajam antes que seja tarde demais. A história se lembrará daqueles que falaram e daqueles que permaneceram em silêncio.

 

Fonte: Settimana News/Domani/7 Margens/La Repubblica/El Diário

 

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