quinta-feira, 26 de junho de 2025

Bruno Sidona: Brasil, um país que quase se amou

O símbolo mais poderoso da nossa virada não tremulava em mastros. Ele estava nas casas, nos bares, nos faróis, nos bancos. Era a moeda. 

Plano Real e a estabilização monetária fundaram, na prática, um novo país. Os impactos econômicos foram evidentes, mas há um outro impacto, silencioso e profundo, ainda pouco explorado: o da autoestima de um povo. 

Em 1994, após a comprovação do funcionamento do plano e embalados pela vitória na Copa do Mundo, o Brasil deu início — ainda que timidamente — a uma jornada em busca de sua autoestima. Um sentimento de confiança nacional que, aos poucos, foi crescendo e florescendo por quase duas décadas. 

Ao longo desses anos, muitos acontecimentos reforçaram essa narrativa: a eleição de um presidente vindo da classe trabalhadora, que trouxe autoestima e um senso de representação que não existia para parte da população; conquistas sociais como a saída do Brasil do mapa da fome e o pagamento da dívida com o FMI; a ampliação dos programas de transferência de renda; o boom do acesso à universidade; a ascensão de uma nova classe média; e até a popularização do mercado de capitais, um fenômeno que comprovou fé no futuro da população. 

Quando em 2008 o mundo mergulhou em crise, muitos temeram que o castelo ruísse. Mas o Brasil resistiu com relativa força, embalado por um ciclo virtuoso de commodities e um mercado interno robusto. Continuou crescendo. Continuou sonhando. Parecia, enfim, que o gigante havia acordado. A propaganda da Johnnie Walker não apenas sugeriu isso: ela o filmou, literalmente, nas areias do Rio de Janeiro, caminhando em direção ao futuro. E o Cristo Redentor, símbolo global da brasilidade, decolava — literalmente — na capa da The Economist. 

O Pan-Americano serviu como aquecimento. A Olimpíada colocaria o país no centro dos holofotes. A Copa do Mundo seria o momento da redenção: o hexa, no Maracanã, fecharia um ciclo com chave de ouro. O Brasil figurava entre as dez maiores economias do mundo. O mundo observava. Era, enfim, o momento brasileiro. 

Mas o fracasso antecedeu o fatídico jogo contra a Alemanha. O erro maior foi não reconhecer a grandeza do momento histórico vivido. Durante a abertura do maior espetáculo que o país já havia sediado — transmitido ao vivo para o planeta — confundiu-se crítica com escárnio ao se xingar, em coro e com fúria, a primeira mulher a ocupar a presidência da República. Para todo o mundo ver. E ouvir. Ali, diante do mundo, fragmentou-se uma narrativa que levamos décadas para construir. 

Contudo, nada no mundo é simples ou isolado. E esse colapso simbólico não ocorreu de forma gratuita. No mesmo período em que o país vivia sua ascensão, o mundo atravessava transformações profundas e silenciosas. A internet avançava de forma irreversível, e com ela, as redes sociais se infiltravam no cotidiano das pessoas e das instituições. O conteúdo, que antes passava por editores, redatores e múltiplos filtros de responsabilidade, tornou-se livre — e, muitas vezes, selvagem. 

Essa liberdade de expressão em estado bruto gerou impactos internacionais inimagináveis. A Primavera Árabe talvez tenha sido o maior símbolo desse fenômeno. No Brasil, o prenúncio foi claro: os protestos de junho de 2013. O que parecia algo pontual desencadeou uma onda de impactos que até hoje não se compreende plenamente — muito menos se superou. 

A derrocada da autoestima nacional pode ser localizada nesse ponto, embora a semente já estivesse plantada antes. Ela germinou nas redações dos grandes grupos de mídia, onde se consolidou a ideia de que a corrupção era o único e grande mal que impedia o país de alcançar seu Eldorado. 

A corrupção, de fato, possui caráter endêmico — especialmente em países em desenvolvimento. Mais ainda em um país como o Brasil: colônia recente, sem revoluções sangrentas e que, após a Proclamação da República, alternou entre golpes e instabilidades por mais de um século. Em 2013, haviam se passado apenas 25 anos desde a promulgação da atual Constituição. 

No momento em que as instituições deveriam ser cuidadas e fortalecidas por todos, o que ocorreu no Brasil não foi um processo de depredação institucional. Foi um escárnio midiático. A corrupção foi nomeada, identificada, colorida — e transformada em espetáculo. Um espetáculo inflamável, que encontrou nas redes sociais o combustível perfeito para incendiar a confiança da sociedade em si mesma. 

Fizemos exatamente o contrário do que se esperaria de um país em busca de amadurecimento democrático. Em vez de reforçar instituições e usar a força popular para reorganizar os poderes constituídos, preferimos vilipendiá-los nas redes sociais e descredibilizar os fundamentos da República. 

Esse processo culminou em um impeachment que, na prática, já havia se consumado antes mesmo da votação formal. O país encontrava-se ingovernável, conflagrado, judicializado — e, acima de tudo, espetacularizado. O próprio rito parlamentar foi um espetáculo constrangedor, transmitido ao vivo, em que um Congresso deslegitimado por seu próprio comportamento destituía um governo esvaziado. 

Nos anos seguintes, os desdobramentos tornaram-se inevitáveis: a fragilidade do novo governo, a paralisia decisória e, por fim, a greve dos caminhoneiros. Esse episódio, talvez o mais emblemático da recente instabilidade, evidenciou a erosão da capacidade estatal de mediação. Uma greve iniciada sem motivação clara, encerrada sem resolução efetiva — mas que deixou um rastro de colapso e, sobretudo, um solo fértil para o surgimento de um mito político. 

Essa trajetória poderia ser interpretada como uma jabuticaba institucional — uma aberração tropical exclusivamente brasileira. Mas não é. O colapso da autoestima nacional, associado à fragmentação institucional e à radicalização online, repete-se com nuances similares em outras democracias ocidentais. 

Os países e seus povos passaram a duvidar de si mesmos. Até os Estados Unidos — berço do “sonho americano” e guia ideológico do Ocidente por tantas décadas — viram sua narrativa ruir. A maior potência da era moderna parece hoje desorientada, enquanto o Oriente marcha com propósito e efetividade. 

Pesquisas recentes demonstram um descolamento crescente entre a autoestima coletiva e a confiança institucional nas democracias ocidentais em comparação com as sociedades orientais. Mais do que diferenças históricas ou culturais, o que hoje marca esse abismo é o modo como o Ocidente lida com as redes sociais. A polêmica, as fakes news, o marketing do absurdo, a hipersexualização — tantos outros fenômenos que se manifestam pelas redes — vêm envenenando as democracias liberais. Esse processo culmina em governos cada vez mais superficiais, populistas e imediatistas — um ciclo vicioso perfeito que tem prendido o Ocidente ao passado com promessas de modernidade. 

A informação, quando pobre em qualidade ou contaminada por interesses nefastos, difundida na velocidade e volume atuais, gera um ruído mais ensurdecedor do que os xingamentos nos estádios. E, nessa balbúrdia, quem pode se ouvir? Que povo pode se reconhecer? E, sem se reconhecer, como pode se amar? Chegou a hora de decidir entre reconstruir a unidade e a autoestima nacional ou assistir, pelos smartphones, aos últimos atos do espetáculo do que poderíamos ter sido. 

¨      ‘Ultradireita parou de atacar democracia só pelo tanque de guerra’, diz ex-ministro e integrante da ONU

Ex-ministro dos Direitos Humanos e integrante eleito do Comitê sobre Desaparecimentos Forçados da Organização das Nações Unidas (ONU), Paulo Vannuchi alerta para o avanço da extrema direita dentro das instituições democráticas. “A ultradireita, o fascismo, parou de atacar a democracia só pelos canais do tanque de guerra. Entra dentro, forma um partido como o PL, cria um candidato como o [ex-presidente Jair] Bolsonaro e tenta destruir a democracia por dentro”, relata.

Vannuchi foi eleito na semana passada para integrar o Comitê sobre Desaparecimentos Forçados da ONU. O grupo é composto por dez membros com a função de receber denúncias e investigar casos de desaparecimentos, tanto em casos de regimes autoritários do passado, quanto de casos mais atuais.

Ao comentar o papel dos Estados Unidos nas violações de direitos de imigrantes, Vannuchi denuncia a prática de desaparecimentos dentro do sistema migratório, com pessoas sendo enviadas para prisões em outros estados ou até mesmo outros países. “Os Estados Unidos nasceram com uma declaração de direitos, e até hoje ostentam uma imagem de defensores dos direitos humanos, mas desacatam todas as decisões da ONU”, diz.

Segundo ele, o país se nega a ratificar convenções internacionais sobre desaparecimento forçado, mesmo sendo responsável por graves violações contra migrantes. “Os Estados Unidos, espertamente, estimulam, fazem os países da ONU criar as convenções, mas eles não se submetem”, critica. “Mas a pressão política, moral e ética vai ser feita”, completa.

O ex-ministro aponta ainda que a migração passou a ser um dos temas centrais do comitê da ONU que passa a integrar, e descreve como o endurecimento das fronteiras nos EUA alimenta o tráfico humano e chacinas no trajeto até o país. “Quando começava a chegar a 30 quilômetros da fronteira, no meio do deserto, parada pra lanche. E, na verdade, metralhavam todo mundo”, exemplifica.

Desaparecimentos na ditadura militar

Vannuchi também destaca a importância do julgamento de casos de desaparecidos durante a ditadura militar brasileira. Ele acredita que o Supremo Tribunal Federal (STF) deve rever, ainda este ano, a jurisprudência que blinda torturadores e responsáveis por desaparecimentos. “Os casos de Rubens PaivaHonestino Guimarães, dos guerrilheiros do Araguaia… eles sabem onde foram exterminados ou enterrados, e não contam até hoje com a conivência de altas autoridades militares”, denuncia.

Segundo ele, a responsabilização pelos crimes cometidos na ditadura e durante os atos golpistas de 8 de janeiro é essencial para garantir a sobrevivência da democracia no Brasil. “O 8 de janeiro também traz esse benefício. Ele mostra que o fato do Brasil não ter criado um muro de contenção pra conter essas bestas feras faria com que elas voltassem, e elas voltaram”, aponta.

Quando tinha 20 anos, militante contra a ditadura, Vannuchi ficou preso por cinco anos, mas antes passou três semanas desaparecido. “Ninguém sabia onde eu estava, minha família desesperada me procurando. Isso aconteceu com Dilma [Rousseff], aconteceu com José Genoino, com milhares de lutadores daquela época”, relembra.

¨      A inutilidade dos militares. Por Moisés Mendes

O cansaço com fatos e figuras do golpe transformou a acareação de Braga Netto com Mauro Cid em subenredo quase desinteressante. Poucos devem se lembrar, entre os mais distanciados da política, do que eles discordam.

Talvez a maioria dos brasileiros nem tenha ficado sabendo, em momento algum, quais são essas discordâncias. Até porque o foco agora não são mais os militares e a relevância que possam ter tido como golpistas.

Cid, o delator, diz que Braga Netto o recebeu em casa em 12 novembro de 2022 para tramar detalhes do golpe com dois oficiais kids pretos, coronéis de elite das forças especiais do Exército.

E que depois recebeu do general um pacote com R$ 100 mil, para financiar a execução dos planos, que incluíam a eliminação de Lula, Alexandre de Moraes e Alckmin. Braga Netto nega tudo.

Os kids pretos daquela visita, os coronéis Hélio Ferreira Lima e Rafael Martins de Oliveira, presos e réus, também vão negar quando forem interrogados. Só os mais atentos ao roteiro e aos personagens do golpe ainda se interessam por esses detalhes.

Poucos ainda se lembram que Moraes não foi assassinado porque os kids pretos amarelaram. Braga Netto amarelou. Bolsonaro já estava amarelado quando se recolheu ao Alvorada, por não conseguir entubar a derrota para Lula.

Augusto Heleno só não ficou amarelo porque foi expurgado dos planos finais pelas facções golpistas. Todos os generais e seus ajudantes estão desde já condenados a não serem mais nada por muito tempo.

Porque não é mais com eles que a democracia deve se ocupar para seguir em frente. Braga Netto, Cid, os kids pretos, o general Mario Fernandes, que teria planejado os atentados, e os outros dos quais quase ninguém sabe os nomes já estão fora do catálogo da extrema direita.

O que importa hoje é saber do poder real que sobrevive entre os civis. Começando pelo que resta da capacidade de interferência e inspiração de Bolsonaro. E de todos os ainda não alcançados pelo sistema de Justiça, principalmente os empresários grandes financiadores do golpe.

A capilaridade do fascismo será posta à prova na eleição do ano que vem. A velha direita, que se fortaleceu nas eleições municipais como se fosse a velha Arena em muitos Estados, tem hoje as feições da extrema direita. As feições, as atitudes e a índole.

Sem a ascensão de Bolsonaro em 2018, essa velha direita seria hoje apenas mais velha e mais parecida com a Arena. Conservadora nos costumes, reacionária em questões políticas amplas e paroquiais, mas não tão disseminadora de ódio e violência. Nem tão promíscua com delinquentes com bíblias e bois, preconceituosa, discriminadora e destruidora do meio ambiente.

Os militares não irão se livrar da caricatura de velhinhos de pijama de flanela, mas os civis da direita se reciclaram, rejuvenesceram e foram tomados pelo espírito do bolsonarismo. Estão bem vivos. São eles os condutores da expansão do extremismo, sem depender do suporte dos fardados, a menos de um ano e meio da eleição de 2026.

O bolsonarismo pode dizer, a partir do enquadramento dos generais pelo Ministério Público e pelo Judiciário, que não depende mais deles, mas da capacidade de atrair e fidelizar a velha direita. Para que o controle do Congresso seja alargado, independentemente da eleição do presidente da República.

Um Braga Netto e um Mauro Cid valem hoje menos do que um Chalaça. A turma que os manipulava como figuras incorporadas à política já não quer saber deles e das suas versões desencontradas para detalhes de reuniões e dinheiros que não irão alterar seus destinos.

É com os civis que Bolsonaro conta para ser anistiado, ampliar a participação da direita no Congresso e passar a planejar sua ressurreição, mesmo que ressuscite pela metade. É dos civis que eles dependem não só para manter a extrema direita viva, mas torná-la mais forte.

Os militares fracassaram, na hora do golpe, como suporte de força e imposição do bolsonarismo, e talvez nem tenham tanta presença nas estruturas que sustentarem um novo projeto de poder dessas mesmas facções. Não essa geração, não os que estão no entorno deles.

O bolsonarismo seguirá em frente à paisana, sem os generais e bem protegido pelo voto e pelas liberdades asseguradas pela democracia. O que seria do fascismo sem os democratas.

 

Fonte: Le Monde/Brasil de Fato/Brasil 247

 

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