quinta-feira, 1 de maio de 2025

Luis Mauro Filho: Brasil emerge como potencial mediador estratégico na guerra na Ucrânia

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, elogiou nesta segunda-feira (28) a política externa do Brasil, classificando-a como “livre e independente” e sugerindo a participação brasileira como mediadora na guerra da Ucrânia.

O reconhecimento russo não é novo. Durante visita a Brasília em abril de 2023, Lavrov já havia destacado a “clara compreensão” do Brasil sobre o conflito e o “desejo de contribuir” para sua resolução. Naquele momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciava seu terceiro mandato, colocando a defesa da paz como eixo central da política externa.

Lula condenou a invasão da Ucrânia, votou contra a Rússia na ONU e recusou o envio de armas a Kiev. Ainda nos primeiros meses de governo, propôs a formação de um “grupo de países amigos” para buscar uma solução diplomática, em parceria com nações como China e Índia.

A iniciativa, no entanto, enfrentou ceticismo inicial. Parte da imprensa ocidental e brasileira acusou Lula de subestimar o peso internacional do Brasil e criticou declarações que responsabilizavam Estados Unidos e União Europeia pela continuidade da guerra, ao incentivarem o envio de armamentos.

O governo brasileiro reiterou sua posição de condenar a violação da soberania ucraniana, mas manteve a linha de diálogo com todos os envolvidos, evitando adesão a sanções ou envolvimento militar. Com o prolongamento do conflito e a ausência de uma solução militar, essa postura passou a ser mais valorizada.

Em 2025, a mudança de conjuntura ficou evidente. O chefe de gabinete do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, Andriy Yermak, procurou oficialmente o Brasil para solicitar apoio em negociações. Yermak destacou o Brasil como uma das maiores democracias do mundo e defensor do direito internacional, apontando sua importância para pressionar Moscou.

A aproximação da Ucrânia reconheceu o diferencial da diplomacia brasileira: capacidade de manter canais abertos tanto com o Ocidente quanto com a Rússia. Membro fundador dos BRICS, o Brasil também preserva relações sólidas com Estados Unidos e Europa, participando de fóruns como o G7 e mantendo diálogo permanente com todas as partes. Mesmo a violenta e traumática chancelaria do governo de Jair Bolsonaro não implodiu este histórico de boas relações multilaterais.

Essa postura equidistante fortaleceu a imagem do Brasil como interlocutor respeitado, comprometido com princípios internacionais e distante de alinhamentos automáticos. O reconhecimento simultâneo de Rússia e Ucrânia reforça o potencial brasileiro para atuar como mediador.

Se conseguir avançar na facilitação do diálogo, o Brasil poderá consolidar sua posição como ator global em crises internacionais. Em um cenário geopolítico cada vez mais polarizado, a capacidade de transitar entre diferentes blocos e manter o diálogo torna-se um ativo estratégico.

O cenário atual aponta para uma reavaliação da proposta brasileira. De criticado inicialmente, o país passa a ser visto como peça relevante na busca por uma solução negociada para a guerra da Ucrânia, consolidando sua tradição de diplomacia ativa e independente.

¨      ‘Regime baseado no neonazismo não tem direito de existir’, diz ex-presidente russo sobre Ucrânia

O ex-presidente russo Dmitry Medvedev, atual vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, declarou nesta terça-feira (29/04) que as negociações de paz com a Ucrânia, sob um regime “neonazista”, ainda seguem distantes. A posição foi dada no âmbito de uma palestra educacional realizada na capital Moscou.

Segundo o político, a Rússia está aberta a negociações sem pré-condições, assim como enfatizada pelo Kremlin dias atrás, mas destacou que a nação segue mantendo sua posição oficial, já exposta por Putin em 2022, com medidas que incluem a aceitação das exigências russas por parte da Ucrânia, além do reconhecimento das anexações territoriais.

Medvedev também enfatizou que o futuro da Ucrânia é “muito problemático”. “O regime de Kiev deve ser deposto, caso contrário, esse conflito continuará por muitos anos. Um regime baseado na ideologia neonazista não tem o direito de existir”, observou Medvedev. “Se este estado permanecer, estamos pelo menos interessados em garantir que ele não represente nenhuma ameaça à Rússia a partir de seu território”, acrescentou, defendendo a necessidade da desmilitarização e da “desnazificação” da Ucrânia.

Sobre a trégua anunciada entre 8 e 11 de maio, no marco do 80º aniversário do Dia da Vitória, quando a União Soviética venceu a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, Medvedev afirmou que Moscou não tem esperanças de que Kiev interrompa seus ataques ao território russo, uma vez que o governo de Volodymyr Zelensky violou o cessar-fogo da Páscoa.

“As autoridades de Kiev violaram quase imediatamente a trégua de Páscoa declarada pelo presidente russo, Vladimir Putin”, disse o político. “A propósito, isso enfureceu mesmo entre aqueles que tinham algumas ilusões sobre Kiev. Veremos o que acontece em 9 de maio”.

Na segunda-feira (28/04), o Kremlin anunciou um novo cessar-fogo que começará à meia-noite entre 7 e 8 de maio até à meia-noite entre 10 e 11 de maio. O governo russo também pediu para que a gestão ucraniana “siga o exemplo”. 

Já a última vez que Putin havia anunciado uma trégua foi na véspera da Páscoa. A medida entrou em vigor em 19 de abril e durou até 21 de abril. Entretanto, o Ministério da Defesa da Rússia confirmou que os militares ucranianos violaram a trégua “4.900 vezes”, detalhando que o exército inimigo atacou posições russas, bem como instalações civis nas áreas fronteiriças das regiões de Belgorod, Bryansk, Kursk e Crimeia.

<><> ‘Desnazificação da Ucrânia’

Durante a palestra educacional, o ex-presidente russo também abordou a ameaça da ideologia nazista, delineando as prioridades da política externa de Moscou. O político indicou a destruição do “regime neonazista de Kiev” como sendo um resultado necessário do conflito na Ucrânia.

“Todas as medidas precisam ser tomadas para garantir que tais regimes nunca surjam em nenhuma outra nação. O preço é muito alto”, alertou Medvedev. “É necessária uma verdadeira desnazificação. O nazismo precisa ser erradicado não apenas na Ucrânia, mas em toda a Europa”, defendeu.

O alto funcionário também classificou as alegações ocidentais de que a Rússia tem planos de atacar os membros da OTAN (Tratado do Atlântico Norte) de “absurdas”, explicando que a narrativa foi promovida por alguns governos para justificar as exigências dos EUA de aumentar os gastos com defesa.

As autoridades em Kiev são “assassinos que estão enviando cidadãos pacíficos de sua própria nação para o massacre sem pensar duas vezes”, sendo assim desqualificados para governar a Ucrânia, sustentou Medvedev. “Um regime fundado na ideologia neonazista não tem o direito de existir”.

<><> EUA predominam sobre Europa

O político russo declarou que as lideranças da Europa Ocidental estão travando uma “guerra silenciosa” contra o atual mandatário norte-americano Donald Trump. Mas que, entretanto, os EUA “colocariam a Europa em seu devido lugar”.

“Não tenho dúvidas de que a Europa [Ocidental] será colocada em seu lugar [pelos EUA], mas ao mesmo tempo os europeus continuarão sua guerra silenciosa contra Trump. Eles tentarão travar uma guerra contra ele em todas as frentes possíveis, observando as regras de decência do lado de fora. O que virá disso – veremos”, afirmou.

De acordo com a autoridade russa, a guerra comercial promovida por Washington, assim como as divergências que têm havido entre os países ocidentais sobre os gastos da OTAN, não configuram apenas um conflito econômico, mas também ideológico. 

“A economia americana é muito mais forte do que a europeia, apesar de esta última também ser uma economia enorme. No entanto, ainda é um conglomerado segmentado de países, mesmo com a existência da UE. E nem estou falando sobre o fato de que a esmagadora maioria das forças militares e armamentos está concentrada nos EUA”, explicou Medvedev.

O ex-presidente sustentou que os governos russo e norte-americano, sendo as duas maiores potências nucleares do mundo, estão fadados a cooperar um com o outro pois “a estabilidade global depende disso”.

“É por isso que hoje é com os Estados Unidos que nosso país está se comunicando, junto com nossos outros principais parceiros. Embora a comunicação seja muito complicada – e eu sei disso em primeira mão – os EUA são os únicos com quem se comunicar porque seus satélites aterrorizados não decidem nada em escala global, mesmo com toda a sua arrogância e travessuras”, enfatizou o vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia.

¨      Zelensky já contempla a derrota. Por Rafael Poch

Na sexta-feira, 25 de abril, um atentado com carro-bomba matou, nos arredores de Moscou, outro general russo, Yaroslav Moskalik, vice-chefe da Diretoria Operacional Principal do Estado-Maior do exército. Os atentados ucranianos contra militares e civis na Rússia são frequentes. Em dezembro, caiu o general Igor Kirilov e, antes dele, dois jornalistas russos e um deputado ucraniano refugiado em Moscou, entre outros. Segundo o general Leonid Reshetnikov, aposentado do serviço de inteligência exterior, esses atentados são cometidos “sob assessoramento direto” dos serviços secretos britânicos. Seu objetivo atual é sabotar as negociações para um acordo de paz entre o Kremlin e Washington.

Poucas horas após o atentado contra Moskalik, aterrissava em Moscou o avião do enviado especial do presidente Trump, Steve Witkoff. Era a quarta visita cordial de Witkoff à capital russa. Desta vez, Putin concordou em manter negociações diretas com a Ucrânia e, no dia seguinte, anunciou que o exército russo havia terminado de expulsar as forças ucranianas da província russa de Kursk, onde haviam penetrado em agosto — em uma operação com mais sentido de imagem que militar, e que foi vítima de considerável fracasso e grande quantidade de morte nas melhores unidades militares ucranianas.

Essas duas notícias — o aparente avanço nas negociações e o desastre militar em Kursk — pintam um quadro angustiante para o governo de Kiev, cujas divisões, tensões e rivalidades internas aumentam manifestamente, como se depreende do simples acompanhamento da imprensa local.ação mais simbólica do que militar, que terminou em fracasso considerável e com alta mortalidade entre as melhores unidades ucranianas.

Essas duas notícias — o aparente avanço nas negociações e o desastre militar em Kursk — pintam um quadro angustiante para o governo de Kiev, cujas divisões, tensões e rivalidades internas aumentam manifestamente, como se depreende do simples acompanhamento da imprensa local.

O chefe da inteligência militar, Kiril Budanov, um homem da CIA, está em conflito com o chefe do gabinete presidencial e braço direito de Zelenski, Andri Yermak. Há rumores sobre a demissão de Budanov, que em janeiro declarou, numa reunião parlamentar fechada que, “se não houver negociações de paz em breve, o país irá para o abismo”. O líder da bancada presidencial no parlamento, David Arajamiya, também está em rota de colisão com a administração, que quer removê-lo do cargo. Foi Arajamiya quem confirmou que, nas negociações de março/abril de 2022 em Istambul, já havia um acordo de paz pronto, que não avançou devido à pressão ocidental. O ex-comandante do exército Valeri Zaluzhni, destituído por Zelenski e enviado como embaixador a Londres por ser mais popular que ele, nutre ambições políticas e mantém contato com o ex-presidente Petro Poroshenko, outro rival de Zelenski que sofreu represálias. A postura negativa de Trump em relação a Zelenski — e suas sugestões diretas de que o presidente ucraniano “não é capaz de negociar a paz” — só reavivam essas tensões e disputas pelo poder dentro do regime de Kiev. A situação piora quando a narrativa ocidental sobre a guerra — “uma agressão russa não provocada, liderada por uma espécie de novo Hitler, na qual a OTAN não tem qualquer envolvimento” — desmorona-se de forma evidente.

Por um lado, o chefe da OTAN (ou seja, o presidente dos EUA) reconhece grande parte do argumento russo; por outro, a imprensa norte-americana mais belicista (como os recentes relatos do New York Times) não pára de detalhar o envolvimento da aliança na Ucrânia desde 2014, muito antes da invasão. Ao fazê-lo desmente, com riqueza de detalhes, a afirmação canônica de 2022-2024 de que “a OTAN não está em guerra com a Rússia” (como já disseram o ex-secretário de Defesa Lloyd Austin e muitos outros).

Trump admite que a política externa norte-americana das últimas três décadas fracassou e está introduzindo mudanças significativas. Como observa o analista político russo Dmitri Trenin, os EUA passaram de “resistir à emergência de uma ordem multipolar” para “tentar dominá-la sob novas bases”.

Isso desorientou completamente os aliados europeus e o governo ucraniano, que sequer estão dispostos a admitir que a expansão da OTAN representa um problema para a Rússia. Em vez de aceitar que a única “garantia de segurança” para a Ucrânia seria restaurar sua neutralidade — com a qual a Rússia conviveu desde o colapso da URSS —, a União Europeia prefere ameaçar com um rearmamento e a mobilização de exércitos que não tem, contra uma ameaça fantasmagórica de invasão russa à Europa — sobre a qual não há o menor indício, vontade ou possibilidade militar em Moscou.

A elite europeia está dividida quanto ao grau de adesão a essa narrativa. Os “austro-húngaros” (Hungria, Eslováquia e, em breve, talvez a República Checa) rejeitam a retórica belicista. A Europa mediterrânea não acredita nela, mas aceita o rearmamento por pura impotência e disciplina. A França, onde não se sabe se o próximo presidente será uma Le Pen ou um Villepin, navega numa posição intermediária. Já os bálticos, poloneses e escandinavos parecem decididos a enfrentar a Rússia militarmente numa “guerra do Norte” que abra uma segunda frente contra Moscou — com a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, diretamente ameaçada por Trump na Groenlândia, declarando que “a paz na Ucrânia é mais perigosa que a guerra atual”…

À Europa custa entender que já não é dona do mundo, que perdeu sua antiga preponderância. Por razões industriais e políticas, o rearmamento europeu não passa de um blefe. A ideia de criar uma economia de guerra na Europa — esse “continente da paz” que gerou as maiores tragédias dos últimos séculos, do holocausto colonial às duas guerras mundiais — é uma quimera sem remédio. O economista Michael Hudson tem razão ao dizer que “os economistas e cientistas políticos europeus deveriam ser substituídos por psicoterapeutas“. E em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que na Alemanha.

Por mais que o esquecimento tenha camuflado a irracionalidade europeia, uma questão em breve irá se impor. Como países como França, Holanda, Dinamarca ou Itália reagirão quando as Forças Armadas da Alemanha (o Bundeswehr) se tornarem, em alguns anos, o maior exército da Europa (talvez sob um futuro governo de coalizão entre a ultradireita da Alternativa para a Alemanha (AfD) e a CDU, de direita)?

A classe política alemã soltou os freios e bate recordes de irracionalidade. Não tem mais complexos. A nova geração transferiu a culpa histórica para Putin, transformado em novo Hitler, enquanto o país gira à direita, reabilita o militarismo e restringe liberdades — criminalizando a solidariedade com Gaza ou o pacifismo. Com uma economia em recessão, a Alemanha mergulha numa nova patologia macartista que apaga qualquer confronto crítico com o passado (Vergangenheitsbewältigung) e a substitui pela russofobia, canalizando para esta sua energia agressiva. Essa quinta Alemanha, aborto da reunificação, caminha direto para o colapso.

As confusas tentativas de Trump para influir nos rumos da globalização, têm foco na contenção da China e incluem certa aproximação com a Rússia. Claro, a relação Moscou-Pequim não será rompida (esta tentativa chega com 10 ou 20 anos de atraso…). Mas o desequilíbrio econômico e comercial entre Rússia e China abre algum espaço de manobra. O mercado chinês representa 36% das importações russas e 30% das exportações, mas a Rússia corresponde a apenas 4% do comércio exterior chinês (dados de 2023). A Rússia tem interesse em diversificar, e os EUA são um grande mercado alternativo. Para Washington, a Rússia também é relevante no Oriente Médio. Trump importa-se mais com o Irã — com quem negocia um acordo de desnuclearização — do que com a Ucrânia…

Quando as delegações russa e americana se reúnem, não falam apenas (ou talvez nem principalmente) da Ucrânia. Moscou não vai descartar seus acordos com Irã e China, mas, em troca do reconhecimento norte-americano de que a Rússia tem interesses na Europa — principalmente o de que a Ucrânia não se torne uma ameaça à sua segurança após a guerra —, pode flexibilizar sua postura em questões que interessam aos Estados Unidos.

Tudo está contra Zelenski. Quanto antes ele o admitir, menores serão os danos e o banho de sangue. Mas o presidente ucraniano enfrenta um dilema: qualquer decisão realista será vista como “traição” por sua poderosa extrema-direita militar. Se, ao contrário, mantiver-se inflexível, incentivado por seus aliados europeus iludidos, arrisca-se a um abandono militar americano. E sem os satélites, informações e comunicações fornecidos pelos EUA — que os europeus não podem substituir —, a frente ucraniana provavelmente entraria em colapso em pouco quase de imediato.

Em março, numa reunião fechada com a principal organização de empresários e industriais russos, Putin afirmou que a Rússia não pretende tomar “Odessa e outros territórios ucranianos”, desde que as negociações de paz reconheçam a Crimeia, o Donetsk, Lugansk e outras regiões (Kherson e Zaporíjia) como parte da Rússia. Claro, em um ou dois anos, a guinada de Trump pode fracassar e causar um caos econômico interno nos EUA com sua política de tarifas contra todos. Mas, até lá, o exército russo pode já ter chegado a Odessa, transformando o que restar da Ucrânia num país irrelevante e sem saída para o mar.

A guerra na Ucrânia pode terminar se se chegar a um acordo, mas também pode se transformar num conflito mais europeu e menos euroatlântico. Vivemos tempos incertos para todos, mas alguns estão em situação pior que outros.

 

Fonte: Brasil 247/CTXT – tradução de Antonio Martins, em Outras Palavras

 

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