Doenças negligenciadas: como agir em
plena crise climática
Lançado há quase um ano, um silencioso
programa do governo federal começa a trazer resultados importantes para a saúde
pública na busca pela eliminação das chamadas doenças negligenciadas.
Consideradas doenças socialmente determinadas, afetam em geral as fatias mais
vulneráveis da população e também estão diretamente relacionadas a problemas
estruturais, a exemplo do saneamento.
Como
explica Draurio Barreira, médico sanitarista e infectologista que ocupa a
Diretoria do Departamento de HIV/AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e
Infecções Sexualmente Transmissíveis do ministério da Saúde, o Programa
Brasil Saudável já se aproxima de tais objetivos menos de um ano após seu
lançamento.
“A filariose
linfática já foi eliminada e recebemos o certificado de
eliminação da
OPAS e da OMS no ano passado. Conhecida popularmente como elefantíase, não
existe mais no Brasil. São sete doenças no caminho da eliminação. E há cinco
infecções que necessariamente não são doenças, são transmitidas de mãe para
filho, seja na gestação, seja no parto, seja na amamentação (chagas, hepatite
B, HIV, HTLV e sífilis), que queremos eliminar”, contou em entrevista
ao Outra Saúde.
De acordo com dados
oficiais, foram cerca de 600 mil infecções e 40 mil mortes para o conjunto das
Doenças Tropicais Negligenciadas entre 2016 e 2020. São enfermidades evitáveis
e cujo controle poderia liberar todo este contingente invisibilizado da
população para uma vida melhor, o que também causaria impactos econômicos
diretos e indiretos.
Neste sentido, o
governo deve lançar ainda hoje, 29/1, um novo programa de transferência de
renda para incentivar portadores de tais doenças a seguirem o tratamento
prescrito pelo SUS. Para isso, Draurio destaca que há estudos suficientes para
corroborar a validade de tal investimento do Estado.
“É uma ideia
simples. A malária, a sífilis, as geo-helmintíases, a esquistossomose são
algumas doenças que se tratam com injeções de uma, duas ou três doses. A ideia
é criar um cartão de adesão que dê um determinado valor para a pessoa quando
concluído o tratamento. Para as doenças de tratamento longo, tipo tuberculose
ou hanseníase, que leva seis meses, até mais, ou a aids, cujo tratamento é para
a vida toda, vamos discutir uma outra proposta”, explicou.
Em termos práticos,
atacar as doenças negligenciadas exige ações estrategicamente organizadas para
cada território, de acordo com suas características epidemiológicas. Além
disso, são ações que devem se coordenar com outras políticas – em especial
saneamento, em muitos casos ainda responsável pela sua disseminação. Agora,
chegou a hora de agir diretamente nas áreas vulnerabilizadas.
Em sua concepção, o
Brasil Saudável destaca a importância da questão ambiental na viabilização de
metas, de maneira que o governo deve apresentar nas próximas semanas dois
programas complementares, todos eles com vistas a coordenar ações entre mais de
uma dezena de pastas do poder executivo.
“O Ministério da
Saúde tem pelo menos três programas muito sinérgicos para a eliminação das
doenças, especialmente das doenças tropicais, negligenciadas e determinadas
socialmente: o Programa Brasil Saudável, O Mais Saúde Amazônia, programa em
fase final de elaboração, direcionado à região norte com uma pegada muito mais
ligada à questão ambiental e um terceiro, ainda não batizado, que aborda
justamente as questões de mudanças climáticas”, revelou.
<><> Confira
a entrevista completa:
·
O que pode contar sobre o andamento do
Programa Brasil Saudável, iniciativa lançada pelo governo para controlar
doenças negligenciadas, quase um ano após seu lançamento?
São cinco diretrizes. A primeira é o enfrentamento da
fome e da pobreza. A segunda é a redução das iniquidades, proteção social e
avaliação de direitos humanos, com foco em algumas populações mais
vulnerabilizadas. A terceira é a qualificação da comunicação que envolve
trabalhadores, movimentos sociais, organizações de sociedade civil,
profissionais de saúde, porque não podemos pensar em eliminar doenças se elas
não são conhecidas e se não há comunicação com a mensagem focada, precisa,
correta. O quarto é o incentivo à ciência, tecnologia e inovação. E o quinto
tem a ver com a infraestrutura, saneamento básico, meio ambiente e mudanças
climáticas.
Um esclarecimento importante é que não vamos erradicar
as doenças. Este era o conceito entre 2000 e 2015, dentro do plano Objetivos do
Milênio da ONU. Mas a Agenda 2030 trouxe uma mudança de paradigma: não falamos
mais em controle ou erradicação, mas em eliminação. Tem uma diferença
fundamental entre erradicação e eliminação, enquanto problema de saúde pública.
Na história da humanidade, só uma doença foi erradicada, a varíola. Dentro do
Programa Brasil Saudável, que visa atacar 11 doenças, não poderemos erradicar
nenhuma. Só uma vacina que tenha 100% de eficácia com cobertura vacinal de 100%
da população poderia fazer isso.
Portanto, falamos em eliminação de um problema de saúde
pública, uma tarefa que se divide em duas partes. De um lado, são doenças cuja
transmissão queremos eliminar. Porque se em qualquer lugar do mundo houver um
caso, não se pode falar em erradicação, menos ainda num mundo com as atuais
conexões de transporte, comércio, turismo etc. No momento, temos medo de uma
epidemia do mpox, que é prevalente na África, ainda que não tenhamos casos e
óbitos há dois anos no Brasil.
A meta é fazer com que doenças como chagas, a
esquistossomose, a oncocercose, a geo-helmintíases e o tracoma deixem de ser
problemas de saúde pública.
·
Quais os objetivos para este ano? Há
possibilidade de se conseguir eliminar algumas das doenças incluídas no plano
de ação a curto prazo?
A filariose linfática já foi eliminada e recebemos o
certificado de eliminação da OPAS e da OMS no ano passado. Conhecida
popularmente como “elefantíase”, não existe mais no Brasil. Queremos eliminar
doenças no Brasil até o ano de 2030, em termos de deixarem de ser um problema
de saúde pública.
São sete doenças no caminho da eliminação. Já as outras
quatro – tuberculose, hepatite, aids e hanseníase – não conesguiremos para
eliminar a transmissão. Em relação a tais doenças, que têm alta capilaridade,
inclusive no mundo rico, queremos atingir as metas pactuadas com a OMS.
Na tuberculose, a meta é ter menos de 10 casos por 100
mil (hoje são 38). Na aids, é atingir a meta “95, 95, 95”. Ou seja, detectar
95% das pessoas que se estima ter HIV, o que no Brasil é algo como 1 milhão de
pessoas (nós detectamos 960 mil); colocar 95% dessas pessoas em tratamento
antirretroviral, hoje em torno de 82%, infelizmente, porque há muita gente que
não sabe ter a doença e outros que por razões de estigma e preconceitos não se
tratam; e, por fim, fazer com que 95% tenham seu quadro viral indetectável.
Assim, no dia em que atingir o objetivo “95, 95, 95”, poderemos dizer que a
aids está eliminada do Brasil como um problema de saúde pública. Continuaria
existindo, mas controlada dentro dessas metas internacionais.
Além dessas 11 doenças, 7 para eliminar a transmissão e
4 para atingir as metas pactuadas, há 5 infecções que não necessariamente são
doenças, pois são transmitidas de mãe para filho, seja na gestação, seja no
parto, seja na amamentação. Essas infecções são chagas, hepatite B, HIV, HTLV e
sífilis. A meta é eliminar sua transmissão vertical, ou seja, de mãe para
filho.
·
E para tal objetivo ser atingido será
necessário um trabalho de território?
Sim. Nesse sentido passamos seis ou sete meses em
articulação com 14 ministérios, a sociedade civil e principalmente movimentos
sociais de pessoas afetadas por essas doenças. Há movimentos fortes formados
por pessoas afetadas por aids, tuberculose, hanseníase, chagas e as doenças
chamadas negligenciadas, a exemplo de oncocercose, tracoma, filariose… Também
trabalhamos em conjunto com a academia, a Fiocruz, organismos internacionais,
foi um período de muita articulação e planejamento, com dezenas de mãos, apoio
de Banco Mundial e BID.
Quando terminamos o processo, era final de setembro,
época pré-eleitoral, o que nos impediu de ir para os territórios orientar as
ações, até porque em muitos casos haveria troca de gestores. Agora, começa o
trabalho de campo e vamos fazer a primeira atividade em nível local em Roraima,
na capital Boa Vista, na semana de 3 a 7 de fevereiro, onde iremos iniciar
ações de combate ao tracoma, uma IST praticamente restrita à região norte e até
mais especificamente ao estado de Roraima.
Também iniciaremos um trabalho de campo focalizado em
algumas doenças sobre as quais talvez exista um sobredimensionamento a respeito
de sua incidência. Há dúvidas se não teríamos já eliminado hepatites B e C.
Baseamo-nos no modelo da OMS e dos Estados Unidos, mas é possível que os
números sejam superestimados. É o que iremos descobrir ao fazer o trabalho nos
territórios, através de estudos de prevalência, para saber qual é o número real
de pessoas vivendo com hepatites B e C. Eu não posso garantir que vamos
eliminá-la como problema de saúde pública. Mas, a partir de um estudo para
conhecer a real prevalência, talvez tenhamos surpresas agradáveis, de estar
perto ou já ter eliminado.
A filariose já foi eliminada. Tracoma deve ser neste
ano. A transmissão vertical do HIV também já está eliminada, resta o país
receber o certificado. A oncocercose deve ser eliminada até o ano que vem. E
tem a aids, para a qual nosso projeto é alcançar o “95, 95, 95”.
Além do trabalho no território, tem projetos estratégicos
que visam justamente eliminar ou contribuir para isso por meio de alguma coisa
específica. Usarei dois exemplos bem rápidos e simples: um é o tracoma.
Queremos financiar projetos que acabem com o tracoma nos poucos municípios em
que ele ainda existe. É muito provável que consigamos financiar projetos em 10
municípios e o eliminemos definitivamente, um exemplo de projeto estratégico.
O segundo exemplo é a aids. Já atingimos o primeiro e
terceiro indicador 95, falta o item de pessoas em tratamento. Estamos fazendo
um projeto estratégico de aumentar a adesão e a retenção das pessoas em
tratamento. Com isso, a aids seria eliminada como problema de saúde pública. O
cenário é bastante positivo.
·
Fala-se também na criação de um programa de
transferência de renda para quem fizer os tratamentos de tais doenças.
Sim, é uma ação entre os ministérios. Já tivemos uma
reunião com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e nesta
semana faremos uma reunião entre a ministra Nísia Trindade e o ministro Wellington
Dias, com as secretarias executivas da Saúde e do Desenvolvimento Social, para
criar este mecanismo.
É uma ideia simples. A malária, a sífilis, a
geo-helmintíases, a esquistossomose são algumas doenças que se tratam com
injeções de uma, duas ou três doses. A ideia é criar um cartão de adesão que
pague um determinado valor para a pessoa quando concluído o tratamento. Para as
doenças de tratamento longo, tipo tuberculose ou hanseníase, que leva seis
meses, até mais, ou a aids, cujo tratamento é para a vida toda, vamos discutir
uma outra proposta, com um cartão de prazo mais esticado, talvez um ano, que
vise só a adesão ao tratamento.
Com isso, talvez possamos atingir o segundo 95 da aids
e dizer que a eliminamos como problema de saúde pública.
·
Existem estudos e histórico de impactos
sociais e econômicos de programas de renda para tratamentos de doenças?
Nós aqui no Ministério, em 2016, publicamos em revistas
internacionais um estudo junto com parceiros da Universidade Federal da Bahia e
da Universidade de Londres mostrando que beneficiários de Bolsa Família tinham
uma taxa de cura 11% maior em relação às pessoas do mesmo nível socioeconômico,
raça, cor, idade, que não o recebiam. A cura é muito maior em quem tem
assistência social. No dia 5, foram publicados em periódico internacional dois
trabalhos mostrando que a incidência da tuberculose caiu 41% entre os
beneficiários do Bolsa Família e a mortalidade caiu 31%.
Existe muita evidência científica da importância do
suporte social para essas doenças negligenciadas ou de determinação social. E
por que eu digo isso? Além das evidências, tais doenças não existem no
Hemisfério Norte. Não existem essas doenças em nenhum país rico. São doenças
determinadas socialmente mesmo.
Foi publicado pelo Banco Mundial que para cada dólar
investido na cura da tuberculose há uma economia de 54 dólares pelo fato de a
pessoa não adoecer, não passar 6 meses em tratamento, não onerar o sistema de
saúde. A tuberculose é considerada uma doença de custos catastróficos, porque
além do tratamento — que no Brasil, felizmente, é de graça — a pessoa se afasta
do trabalho, infecta outras pessoas. Enfim, tem um impacto social e econômico
muito grande.
·
A eliminação de tais doenças não está
diretamente relacionada a avanços na gestão ambiental das cidades e preservação
dos ecossistemas?
Exatamente. Por isso políticas de manejo ambiental são
parte das diretrizes deste plano, além do enfrentamento da fome e da pobreza,
por isso uma necessidade de alinhar vários ministérios.
Por exemplo, eu acabei de falar do MDS e de um cartão
adesão. É um exemplo de transferência de renda e de assistência social. Com o
Ministério das Cidades, estamos pactuando que toda pessoa em situação de rua
portadora de uma dessas doenças abarcadas pelo Brasil Saudável, especialmente
tuberculose, hanseníase, HIV e hepatite, tenha um acesso acelerado ao Minha
Casa Minha Vida. Queremos garantir que as pessoas que têm essas doenças tenham
acesso à moradia. Não tem como passar meses tratando essas doenças morando na
rua. É necessária uma habitação decente.
Já o tracoma e a oncocercose são fruto de água
infectada, de falta de saneamento básico. Estamos falando com o Ministério dos
Povos Indígenas, a FUNASA e o Ministério de Desenvolvimento e Integração
Regional, para garantir água de qualidade e tratamento básico nos territórios
indígenas. Para eliminar a esquistossomose, a doença do caramujo, que só dá em
água suja. E isso vai ser priorizado pelo Ministério das Cidades em todas as
cidades que tenham esquistossomose como problema de saúde pública.
O Ministério da Ciência e Tecnologia, por exemplo, que
aparentemente não tem nada a ver com questões sociais, abriu um edital de quase
1 R$ bilhão para pesquisa em doenças negligenciadas. O Ministério da Educação
tem um papel fundamental na educação dos profissionais de saúde, com foco nas
questões sociais. Portanto, para cada um dos 14 ministérios, há ações
específicas que vão contribuir com a eliminação dessas doenças. E é exatamente
isso que fizemos ao longo do ano passado na articulação entre os ministérios e
agora começou a se consolidar.
·
Há projeções de doenças tidas como
evitáveis se ampliarem em razão da emergência climática?
Sim, daí a necessidade da integração de diferentes
programas. O ministério tem pelo menos três programas que são muito sinérgicos
na questão da eliminação das doenças, especialmente das doenças tropicais,
negligenciadas e determinadas socialmente: o Programa Brasil Saudável, O Mais
Saúde Amazônia, programa em fase final de elaboração, direcionado à região
norte com uma pegada muito mais ligada à questão ambiental e um terceiro, ainda
não batizado, que aborda justamente as questões de mudanças climáticas.
Por exemplo, a questão das inundações do Rio Grande do
Sul, que fazem crescer todas as doenças de transmissão hídrica, inclusive essas
priorizadas pelo Brasil Saudável. As mudanças climáticas determinam o
agravamento de algumas dessas doenças. Tratar uma doença crônica como aids ou
tuberculose é extremamente prejudicado quando se tem um alagamento, como foi no
Sul, que exige toda uma reconstrução de infraestrutura. Assim como na seca, na
região norte, os rios secos impedem as pessoas de chegar a uma unidade de
saúde.
São infinitos exemplos de doenças que são agravadas ou
ressurgem por questões climáticas. E isso é um foco, especialmente na questão
da infraestrutura e do saneamento básico. É um programa realmente muito
holístico, que abarca desde a questão da fome, da pobreza, da proteção social,
até a ciência e tecnologia e questões elementares como infraestrutura e saneamento
básico.
Fonte: Por Draurio
Barreira em entrevista a Gabriel Brito, em Outra Saúde

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