Mariana Mazzucato: “Para a guerra, o
dinheiro surge do nada”
Mariana Mazzucato
(Roma, 1968), farol acadêmico do pensamento progressista, costuma dizer,
brincando, que entra em uma reunião “como economista” e sai “como coach de
vida”. Apesar de falar em dinheiro, no discurso da midiática diretora do
Instituto para a Inovação e Propósito Público, da University College London
(UCL), emergem imediatamente a coragem, a mentalidade, a liderança e o
resultado de cada escolha. Refere-se ao papel central que defende para “um
Estado empreendedor”, que inova, arrisca, investe, catalisa, condiciona,
coordena e colabora em torno de uma “missão”.
O exemplo feliz que
ilustra esta ideia é a promessa mobilizadora de viajar à Lua, formulada há 62
anos por John F. Kennedy. Em O Estado empreendedor’, O valor de tudo, Missão
economia e no último a chegar: A grande falácia, Mazzucato dá uma sacudida no discurso
tradicional da esquerda, bem como no capitalismo. Não basta falar de
desigualdade, de redistribuição ou de corrigir as falhas do mercado. “Tomas
Piketty e eu somos duas caras da mesma moeda”, destaca a ítalo-estadunidense,
em uma entrevista concedida durante o fórum internacional World in Progress
Barcelona, organizado esta semana por PRISA, SER e El PAÍS.
A entrevista é de
Ariadna Trillas, publicada por El País, 20-10-2024. A tradução é do Cepat.
<><> Eis a
entrevista.
• Diante da enorme concentração de poder
econômico, financeiro e tecnológico, que margem real os governos têm, para além
de fazer remendos?
Os estados são parte
do problema. Com as suas políticas, permitem que o setor financeiro tenha peso
maior, que as empresas tecnológicas sejam mais poderosas e que as farmacêuticas
operem de forma mais extrativa. Permitirmos a evasão e a elisão fiscais é uma
escolha. Fragilizar os sindicatos ou pagar adequadamente os profissionais de
saúde que aplaudíamos durante a pandemia, também.
• É necessário dinheiro para a transição
verde, a digitalização, a inovação, a desigualdade, a segurança... Teme a
austeridade das novas e velhas regras fiscais na União Europeia?
A austeridade é um
mito. Pensamos em austeridade quando vemos cortes na saúde e na educação
públicas. Na realidade, optamos por gastar mais em algumas coisas e menos em
outras. A Alemanha dizia que não tinha dinheiro, mas para a guerra na Ucrânia
fez um esforço de 190 bilhões de euros. Onde estava esse dinheiro antes? Para a
guerra, o dinheiro surge do nada. Para problemas sociais, não existe. É
necessária uma guinada. Por outro lado, acreditar que se poupa por não gastar
mais em educação, pesquisa e desenvolvimento e saúde é uma forma estúpida de
poupar dinheiro. Custará mais corrigir a bagunça.
• A polarização na Europa e nos Estados
Unidos não facilita as coisas.
Os governos devem ser
corajosos. Se se fala de polarização, também é preciso falar de desigualdade.
Os cidadãos desconfiam dos governos e das empresas porque são parte do
problema. O populismo surge da desconfiança. Na Itália, muitos trabalhadores
que não se beneficiaram com a globalização acabaram votando em Giorgia Meloni.
• A esquerda perdeu parte da sua base
eleitoral. No que ela deveria se concentrar?
A esquerda, e falo em
escala mundial, não pensou o suficiente sobre como criar riqueza de forma
diferente, para que seja inclusiva e orientada à inovação, às energias
renováveis, à saúde e ao futuro da Inteligência Artificial (IA). Se você não
gera riqueza, não há nada para distribuir.
Na Espanha, assim como
em outros países, não vejo um bom banco público de desenvolvimento do estilo do
alemão KfW, que ajude as empresas a avançar na direção correta, por exemplo,
para reduzir materiais de produção como o plástico. Os contratos públicos também
têm um papel importante. Uma alimentação saudável e sustentável nas escolas
pode ser reflexo de como um governo interage com a indústria da alimentação.
• Considera que a insistência na falta de
competitividade europeia frente aos Estados Unidos e a China, nos relatórios de
Draghi e Letta, é compatível com o modelo social europeu?
Em 2013, escrevi O
Estado empreendedor justamente contra a mentalidade que diz: “Ah, os Estados
Unidos têm todos os amazons e os googles. Por que a Europa não? Precisamos de
mais capital de risco, de outro sistema fiscal…”. Foram os grandes
investimentos públicos que permitiram o surgimento da indústria tecnológica. O
Vale do Silício nasceu fruto de uma incrível rede de empreendimento ao longo de
toda a cadeia de inovação. É algo que não existe na Europa, uma questão na qual
Draghi não incide.
Meu trabalho não é
apenas atuar com uma missão, mas também com a governança, com uma política
pública inteligente que permita ao estado receber a sua parte, não apenas via
impostos, mas como recompensa pelos seus investimentos. Fracassamos porque os
lucros gerados pela tecnologia que é paga pelo Estado não são compartilhados. E
ainda por cima, essas empresas atuam para não pagar impostos. Precisamos que se
compreenda que inovação e competitividade andam de mãos dadas. Também falta
vincular ciência e indústria. E uma aprendizagem adequada para os
trabalhadores. É o que leva à competitividade.
• Cortaria o Google?
O problema não pode
ser abordado como uma questão de tamanho, mas, sim, de governança que vele pelo
interesse público.
• Como garantir que a IA seja desenvolvida
para o bem comum?
Com a IA corremos o
risco de repetir os erros do passado. Se as oportunidades relacionadas à
inovação e tecnologia não forem estruturadas de forma adequada, acabarão
prejudicando as pessoas. Pode agravar a desigualdade e também há riscos em
matéria de privacidade. Para onde vão os dados todas as vezes que usamos um
aplicativo? Como uma cidade pode utilizá-los para o interesse público, em vez
de servirem para que algumas empresas saibam mais sobre nós? O setor público
deve garantir que os lucros sejam distribuídos o mais amplamente possível,
também no setor da saúde e no farmacêutico, para que não haja abusos com as
patentes e os direitos de propriedade intelectual. Por isso, sou a favor de
bons acordos.
• Quais seriam esses bons acordos?
No Reino Unido, o
trabalhista Keer Starmer vence as eleições e já diz que não há dinheiro. Com o
Brexit, você precisa de investimento, para as empresas. Mas qual é o seu valor,
como governo? Faça com que as empresas invistam. Conceda auxílios, mas em troca
introduza condições. Certifique-se de que, em troca, sejam orientadas para o
crescimento sustentável, coisa que não se alcança só diminuindo impostos, mas
com dinheiro e uma relação público-privada adequada.
• Os fundos europeus estão transformando a
economia europeia?
Não transformam a
economia. Muitas vezes, chovem milhões em países com uma fraca capacidade. Os
lucros aumentam, não o investimento. Como garantir que os lucros não sejam
apenas para os acionistas, para os dividendos e as recompras de ações? Esta
ideia de ser business friendly, de facilitar a vida das empresas, consegue
políticas ruins. Não se deve conceder empréstimos públicos para uma empresa
porque está com problemas ou porque é pequena ou média, mas, sim,
condicioná-los a uma transição.
• Como avalia as empresas que pressionam
por uma interrupção da transição energética na União Europeia?
É preciso eletrificar
e investir na mobilidade sustentável, mas, sobretudo, precisamos de menos
carros, elétricos ou não, e de implementar um transporte público em condições.
Extrair o lítio para baterias também não é muito sustentável. No México e nos Estados
Unidos, o trem é um meio destruído, em favor do automóvel. Os governos foram
capturados pela indústria.
• E segundo você, também por grandes
consultorias.
Em muitos países,
deixou-se de investir nas próprias estruturas estatais. Se a capacidade
governamental é externalizada, torna-se difícil para que o setor público
aplique boas políticas. Também são necessários bons advogados. Sem eles, você
não vence. As grandes empresas petroleiras, os bancos e as farmacêuticas têm os
melhores.
• A transição energética agravará as
desigualdades?
A transição deve,
acima de tudo, ser justa. Todos esses trabalhadores nas fábricas que produzem
carros poluentes precisam de investimento, capacitação, formação, reciclagem.
Não podem simplesmente perder os seus empregos. Caso contrário, surgem pobreza,
desconfiança e populismo. A transição não pode levar à dessindicalização nas
fábricas de baterias. A greve do motor nos Estados Unidos, há alguns meses, foi
importantíssima. Sem sindicatos, não teríamos fins de semana, nem férias. E as
crianças trabalhariam nas fábricas.
• Qual é o papel do PIB como termômetro
para saber se uma economia vai como um foguete?
Se você estivesse
dirigindo e tivesse apenas um número, bateria. Por que ter apenas um número? No
painel, você vê a que velocidade está indo, quanto combustível resta, se o
motor precisa de água ou óleo. Não descarto o PIB. É útil para ver se uma
economia cresce apenas pelo consumo ou se é pelo investimento. É útil consultar
o PIB per capita, pela distribuição. Mas o coeficiente de Gini (sobre a
desigualdade) e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) também
importam.
• Israel contra as Nações Unidas. Por Luis
Felipe Miguel
Desde o início da mais
recente ofensiva, após o 7 de outubro de 2023, Israel tenta destruir a agência
das Nações Unidas que acolhe os refugiados palestinos. Não apenas atacou suas
instalações como lançou uma série de falsas acusações, para dar pretexto a que
seus aliados interrompessem o financiamento da agência.
Foi o tipo de coisa
que demonstrou, uma vez mais, que o objetivo dos sionistas é simplesmente o
extermínio do povo palestino.
Agora, quando Israel
ataca o Líbano, com bombardeios diários, indiscriminados e mortíferos, é
atingida a missão de paz da ONU.
Praticamente todo dia
há notícia de um novo ataque – violação da “linha azul”, fixada pela ONU;
bombardeio de vários prédios da missão, incluindo seu quartel general;
demolição de torres de observação. Já há casos de capacetes azuis (como são
chamados os soldados das missões de paz) feridos em incursões israelenses.
De forma simbólica, o
governo de Israel declarou que o secretário geral da ONU é persona non grata em
seu território. Suas participações nos fóruns da entidade, por meio de
diplomatas ou mesmo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, são um misto de
agressividade e deboche, digno de um Nikolas Ferreira.
Do ponto de vista
interno, Netanyahu deseja a guerra, cada vez mais alastrada (embora de
preferência contida contra o Irã, um adversário há mais poderoso), como forma
de prolongar seu governo desgastado por inúmeros escândalos de corrupção. Ele
percebeu que o racismo contra os palestinos e o projeto colonial de limpeza
étnica formam o coração daquilo que une os israelenses.
Do ponto de vista
externo, conta com o apoio incondicional dos Estados Unidos (e de alguns de
seus satélites, como a Alemanha e outros países da Europa), que continuam
fornecendo os armamentos e usando seu peso internacional para garantir a
continuidade do genocídio.
A proximidade das
eleições presidenciais não preocupa. A força do lobby sionista na política
estadunidense é tão grande que os dois candidatos competitivos, Donald Trump e
Kamala Harris, rivalizam entre si e com o presidente Joe Biden para saber quem
demonstra de forma mais acintosa seu desprezo pelas vidas palestinas.
O genocídio em curso
mostra, em primeiro lugar, a falência da nossa humanidade comum. Mas mostra
também a falência do sistema internacional e das Nações Unidas.
Israel é um Estado
terrorista, que se orgulha de sê-lo e despreza solenemente as regras do direito
internacional. Por muito menos, outros países, que não contam com o suporte de
Washington, são rebaixados ao estatuto de “párias”.
O Brasil
tradicionalmente busca ser uma voz em favor da paz, dos direitos e da solução
pacífica para os conflitos. Mas, no caso, cada dia em que se mantém a
ambiguidade em relação ao sionismo, em que as declarações do presidente Lula
contra o genocídio são desmentidas por ações de setores do governo que querem
continuar parceiros de Telavive, em que as relações diplomáticas não são
cortadas – cada dia desses é um dia de cumplicidade com os crimes de Israel.
Fonte: Entrevista com
Mariana Mazzucato, em IHU/Jornal GGN

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