Segurança
pública em disputa
A
disputa entre o governo federal brasileiro e os grupos criminosos organizados,
as chamadas “facções”, pelo controle de territórios em cidades e comunidades
não é nada nova. Pelo contrário, ela constitui a base fundamental das políticas
de segurança pública e de defesa nacional, impulsionadas pelos sucessivos
governos desde o fim da ditadura militar, na década de 1980.
Diante
desse contexto histórico, os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido
dos Trabalhadores (PT), e Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), trazem
essa discussão para suas campanhas presidenciais de 2026. Ambos colocam o
controle dos territórios e a luta contra as facções no centro de seus planos de
governo, mas cada um traz suas próprias implicações para o “cidadão comum” como
você, leitor/a/e deste artigo.
Em seu
plano de governo, Lula propõe um modelo híbrido que combina a “repressão
qualificada” por parte das forças de segurança contra os grupos criminosos com
a participação das comunidades locais. Isso ocorreria por meio de investimentos
em: (i) modernização de periferias e favelas; (ii) requalificação de espaços
públicos; (iii) ampliação do acesso a serviços públicos essenciais.
O
objetivo, segundo o plano de governo, é promover atividades econômicas lícitas
para limitar os mercados explorados pelo crime organizado. O plano do candidato
do PT prevê uma “retomada dos territórios” por meio da ocupação pelo Estado
social, sob o entendimento de que a segurança das comunidades resulta da
garantia de infraestrutura e de serviços de prevenção que combatam a presença
do crime nesses espaços.
Apesar
dessa abordagem social, não podemos ignorar que o plano de governo de Lula não
abandona as medidas punitivas. O texto menciona o fortalecimento e a expansão
do sistema penitenciário, área considerada “estratégica” para o combate ao
crime organizado e para a garantia de direitos, bem como a recriação de um
Ministério da Segurança Pública para coordenar o Sistema Único de Segurança
Pública (SUSP).
O
documento também propõe o isolamento de lideranças criminosas por meio de um
protocolo nacional para a classificação e transferência de presos de alta
periculosidade. Nesse aspecto, a proposta não difere muito da apresentada pelo
candidato do PL, já que ambos trazem ideias que exigem uma alteração
significativa no desenho institucional do país.
Por sua
vez, Flávio Bolsonaro tem uma abordagem muito mais focada no confronto direto
com os grupos criminosos, declarando uma guerra aberta contra o crime
organizado, que passaria a ser classificado como “narcoterrorismo”. A escolha
dessa nomenclatura é muito importante, pois cria as condições que validam a
luta contra o inimigo a qualquer custo. Podemos observar essa construção desde
o título da seção de Segurança Pública em seu plano de governo, intitulada
“Brasil Sem Medo”.
Isso
também repercute no entendimento sobre a juventude, pois o candidato do PL
propõe reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, além de prever a punição
de jovens de 14 anos ou mais que cometam crimes graves, como homicídio ou
estupro. No entanto, o texto não menciona, em momento algum, como prevenir que
tais crimes ocorram.
A
retórica é puramente reacionária, focada em combater o crime por meio da
construção de cinco presídios de máxima segurança, a serem administrados pelo
novo Complexo Federal de Segurança Máxima, denominado Treva e inspirado nas
ações autoritárias e repressivas de Nayib Bukele. Nesse sentido, a governança
do território foca-se no uso da força por parte do Estado, por meio do embate
urbano direto contra as “organizações narcoterroristas”, uma estratégia que,
como mostra o Estado do Rio de Janeiro, onde Flávio Bolsonaro é senador, não
tem funcionado.
Apesar
de Lula considerar a adoção de critérios “objetivos” e baseados em “evidências”
nas medidas contra as facções, seu plano não especifica quais seriam esses
critérios seletivos. Diante dessa ambiguidade e do uso de uma linguagem que
flerta com o punitivismo, é possível observar como a extremização da cultura e
a celebração do castigo por parte da extrema direita na América Latina,
especialmente a exportação e a aclamação do “Modelo Bukele” por diferentes
candidatos presidenciais no Brasil, incluindo Flávio Bolsonaro, têm levado a
esquerda a se tornar mais conservadora em matéria de segurança pública.
Até
certo ponto, ela passa a aceitar o uso de medidas repressivas para atrair mais
apoio popular às suas propostas. Um exemplo disso é o apoio que Camilo Santana,
líder do PT no Senado, e Lula têm dado à Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) sobre Segurança Pública, que prevê a redução da maioridade penal de 18
para 16 anos para crimes hediondos, como homicídio qualificado, latrocínio,
extorsão mediante sequestro e estupro. Isso evidencia um fenômeno transnacional
de radicalização da direita e de respostas limitadas por parte das esquerdas
latino-americanas, que muitas vezes parecem dispostas a flexibilizar valores
democráticos em busca de ganhos políticos maiores.
E,
nesse contexto, cabe perguntar: quem será mais afetado por essas medidas? Será
você, querido/a/e leitor/a/e? Ou alguém que você conhece? Com mais espaço nos
presídios, quem mais será classificado como criminoso e com base em quais
argumentos? O que acontece quando o Estado “captura” o território? Estamos de
acordo com a presença militar e carcerária constante em nossos bairros? E o
mais importante é isso tudo a que o Brasil pode aspirar?
Fonte:
Por Bandon Martinez Serrano, Amaral Arevalo & Marco Aurélio Máximo Prado,
em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário