quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Por que ajuste fiscal do novo presidente do Chile leva a crise com desemprego recorde

Falando para um grupo de empresários cristãos reunidos em um pequeno auditório, o ministro da Fazenda do Chile, Jaime Quiroz, pediu que eles evitassem o pessimismo. Para isso, ele usou citações da Bíblia e também alguns números.

A mensagem era dirigida àqueles que o conhecem há muitos anos. Quiroz desenvolveu toda a sua carreira profissional como empresário no setor privado.

"Não percam a calma, nem se desesperem", declarou ele em Santiago no início de outubro, após a publicação de uma série de indicadores fracos sobre a economia chilena.

Os investimentos produtivos, privados e públicos, apresentaram crescimento nulo no segundo trimestre deste ano, principalmente devido à queda da construção civil.

O desemprego atingiu o nível recorde de 9,6%, o maior em mais de cinco anos. E a demanda interna apresentou crescimento praticamente nulo.

O custo de vida no país aumentou em julho para 4,1%, com base nos últimos 12 meses. A alta foi impulsionada, em grande parte, pelo forte aumento do preço dos combustíveis. O Chile importa quase todo o petróleo que consome.

Já a mineração sofreu redução drástica. O país é o maior exportador de cobre do mundo.

Tudo isso ocorre no contexto de um plano de austeridade fiscal implementado pelo governo do presidente José Antonio Kast, de direita radical.

Ele chegou ao poder em março, com a promessa de reativar os investimentos e o emprego. Agora, ele enfrenta um nível de desaprovação de mais de 60%, segundo pesquisas locais.

A paralisação econômica ficou em evidência devido à queda do PIB chileno em 0,5%, no primeiro trimestre do ano, e de 0,2% no segundo, em comparação com os mesmos períodos do ano passado.

Esta é a maior retração da economia do Chile desde a pandemia de covid-19.

<><> O impacto dos preços dos combustíveis

Poucos dias depois do início da guerra no Irã, Kast assumiu a Presidência no Chile com sua própria motosserra, a fim de reduzir os gastos fiscais e levar adiante um plano de austeridade econômica que deveria impulsionar o crescimento da economia do país.

Mas o conflito no Oriente Médio fez o preço do barril de petróleo disparar.

Enquanto a maioria dos países procurava uma forma de controlar a situação, o governo chileno tomou a decisão de não intervir, deixando o custo dos combustíveis subir de acordo com o mercado.

Este episódio ficou conhecido como bencinazo ("gasolinaço", em português), causando manifestações nas ruas e indignação entre muitos cidadãos chilenos.

Com a transferência do choque petrolífero para os consumidores, o preço dos combustíveis não afetou apenas o bolso das famílias mais vulneráveis e das pequenas empresas.

A alta também foi amplificada em efeito cascata e transmitida para o restante da economia, causando aumento da inflação.

O governo que havia acabado de tomar posse tomou esta decisão considerando que "o custo fiscal de compensar a alta dos preços era excessivo e ameaçava debilitar seus esforços para reduzir o déficit fiscal", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o principal economista para as Américas do centro de estudos Economist Intelligence Unit, Nicolás Saldías.

"O custo político para o governo foi muito elevado, pois a popularidade de Kast caiu rapidamente e não se recuperou", explica ele.

Esta decisão "afetou a confiança dos consumidores", segundo Joan Domene, economista-chefe para a América Latina da consultoria Oxford Economics.

O preço médio que os consumidores pagam pela gasolina na bomba, calculado com base na Região Metropolitana de Santiago (a mais povoada do país), aumentou em cerca de 30% desde os dias anteriores ao início da guerra no Irã até meados de outubro. Já o preço do diesel aumentou em mais de 40%.

Os especialistas concordam que, no próximo ano, poderá haver leve desaceleração dos preços globais da energia, embora marginal.

Esta projeção é atualizada constantemente. Mas, se este cenário se mantiver e não surgirem novos contratempos, é possível que surja "uma tendência para a recuperação da economia já no primeiro trimestre do ano que vem", segundo Domene.

<><> A queda da produção mineral

A mineração, especialmente de cobre, é o principal produto de exportação do Chile e um dos setores mais importantes para o crescimento econômico do país.

Por isso, a queda da mineração em agosto foi tão negativa. O índice de redução foi de cerca de 17,4%, em termos anuais.

Esta queda levou a atividade mineradora chilena ao seu nível mais baixo das últimas três décadas.

O mês de agosto marcou o nível mínimo, mas a baixa produção de cobre vinha apresentando tendência negativa ao longo do ano. Acrescente-se a isso as interrupções operacionais nas minas e condições climáticas muito adversas, em julho e agosto.

No momento, as projeções indicam que a produção mineradora deverá aumentar no próximo ano, colaborando para a reativação econômica do país.

Mas uma das preocupações do setor é que a concentração de cobre nas rochas diminuiu, elevando os custos de produção e gerando incertezas.

A drástica queda da mineração em agosto levou o Banco Central chileno a reduzir as projeções de crescimento econômico deste ano, para o nível de 0,25% a 0,75%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também reduziu sua estimativa para 0,6%.

Se as estimativas se concretizarem, o Chile será um dos países com menor crescimento da América Latina em 2026. O único país com prognóstico inferior na região é a Bolívia.

<><> Austeridade fiscal

Parte do debate no Chile se concentra em saber se a paralisação econômica é transitória ou se irá se prolongar ao longo do tempo.

Desde que Kast assumiu o poder, um dos seus principais focos no setor econômico tem sido a austeridade fiscal.

Suas medidas incluíram o corte de 3% do orçamento de todos os ministérios, uma controversa redução ou fechamento de programas considerados "ineficientes" pelo governo e a redução dos investimentos públicos diretos.

Neste sentido, Nicolás Saldías destaca que as políticas fiscais do governo chileno "também estão reduzindo o crescimento econômico".

O governo conseguiu reduzir o déficit, em parte, graças à redução dos gastos públicos, o que diminui a demanda da economia, segundo o economista.

Com a bandeira do ajuste fiscal nas mãos, o governo chileno apresentou a chamada "megarreforma", um pacote de medidas propostas para o Congresso. Elas foram apresentadas como estímulo ao crescimento econômico e aos investimentos.

Basicamente, o pacote inclui uma reforma tributária que, entre outros pontos, reduz progressivamente os impostos para as empresas, de 27% para cerca de 23%, e garante invariabilidade tributária a longo prazo para os grandes investimentos.

O Congresso aprovou a megarreforma, que foi sancionada pelo presidente Kast no início de outubro, após árduos debates. A questão é se a redução de impostos corporativos e os outros incentivos para investimentos produzirão crescimento e empregos em níveis suficientes para compensar a queda da arrecadação fiscal.

Enquanto as medidas começam a ser implementadas e à luz dos indicadores existentes no momento, Joan Domene defende que o próximo ano deve trazer "uma reversão de muitos dos fatores causadores de incertezas".

O economista para a América Latina da Bloomberg Intelligence, Felipe Hernández, é da mesma opinião.

Para ele, se as reformas forem implementadas e cumprirem efetivamente as previsões do governo, como esperam as empresas, "poderemos começar a observar efeitos positivos na economia no próximo ano".

<><> Dificuldades para a população

Atualmente, o Congresso chileno está discutindo a Lei Orçamentária para 2027. Ela contempla um crescimento real dos gastos públicos de apenas 1,5%, um objetivo considerado austero em comparação com os governos anteriores.

A oposição vem questionando duramente este projeto. Ela denuncia que a proposta afeta dezenas de programas sociais que beneficiam pessoas vulneráveis, mas que o governo considera que não atingem os seus objetivos.

Em meio a esta situação, grande parte da população está frustrada com o desempenho econômico do país, segundo as pesquisas.

Com a alta da inflação e o desemprego em máximos históricos, muitos cidadãos enfrentam dificuldades na sua vida diária.

O consumo geral das famílias chilenas cresce lentamente e o Índice de Vendas de Supermercados fechou agosto em queda de 1,2% nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.

Algumas semanas atrás, o governo anunciou um plano de emprego de cerca de US$ 1,3 trilhão (cerca de R$ 6,5 trilhões). O objetivo é criar mais de 100 mil postos de trabalho entre 2026 e 2027, acelerando obras públicas e oferecendo subsídios às empresas, para incentivar contratações.

Este tipo de plano não fazia parte da política de austeridade adotada pelo governo chileno, quando assumiu o poder em março. Mas, frente às circunstâncias, se o anúncio for cumprido, poderá dar oxigênio à economia do país.

¨      'Isso é besteira', diz Milei ao debochar da dificuldade financeira dos argentinos

O presidente da Argentina, Javier Milei, negou que uma parcela dos argentinos tenha dificuldades para sobreviver e zombou de quem vivencia essa realidade, declarando que “é um monte de besteira”.

Em seu discurso durante uma participação na Argentina Oil & Gas Expo 2026, em Neuquén, nesta segunda-feira (19/10), ele ainda criticou a mídia, que, segundo ele, “só espalha mentiras”.

No entanto, um relatório recente do Monitor de Opinião Pública (MOP) da Zentrix Consultora revelou que dois terços dos argentinos enfrentam dificuldades para fechar as contas apenas com a renda de seus salários.

Os resultados revelam uma situação particularmente complexa entre os setores de baixa renda. De acordo com a pesquisa, 83,3% das pessoas da classe baixa ficam sem dinheiro antes do fim do mês, um problema que também afeta 72% dos menores de 40 anos.

Por sua vez, Milei seguiu defendendo o “progresso” do seu programa econômico, reafirmou o superávit fiscal e criticou duramente “a mídia corrupta” que expõe a realidade da queda do poder de compra de milhões de argentinos.

“A ideia de que as pessoas não conseguem pagar as contas é um monte de bobagens promovidas pelo kirchnerismo. A frase soa bem, mas é um completo absurdo. Se elas realmente ficarem sem dinheiro no dia 20, como vão sobreviver 10 dias sem comida ou água?”, disse.

Diante de empresários no evento, o presidente acrescentou: “não vamos nos deixar influenciar pela psicopatia dos filhos da p… que arruinaram o país”, convidando os argentinos a “refletir”.

O estudo da MOP também mostra que 56,2% dos entrevistados contraíram empréstimos nos últimos seis meses, uma tendência mais comum entre os jovens e aqueles de baixa renda.

¨      Cuba condena ‘manobra repreensível’ dos EUA após emitirem mandado de prisão contra Raúl Castro

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, condenou o que descreveu como um “circo patético de Miami” com contexto eleitoral o mandado de prisão emitido nesta segunda-feira (19/10) na Flórida contra o ex-presidente e general do Exército, Raúl Castro Ruz. Pela plataforma X, o mandatário apontou que a medida norte-americana carece de sentido jurídico e prático.

“Raúl é Raúl, e ante cada afronta à sua figura sempre encontrarão a determinação de um povo em defender a Revolução”, escreveu. “Essa manobra de vestidura legal montada por políticos anti-cubanos contra Raúl e contra Cuba merece nossa firme condenação. Faz parte da ânsia agressiva e responde aos obstáculos tentando justificar o bloqueio e a punição coletiva contra nosso povo”.

Na sequência, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez, condenou a “manobra estéril” com “acusações infundadas” promovida por políticos anti-cubanos “do sul da Flórida”. De acordo com o chanceler, trata-se de um “reflexo da podridão política e do colapso moral com que um grupo de parasitas engana seus seguidores para que continuem contribuindo com arrecadações e financiamento”. 

A medida contra Raúl Castro foi anunciada pelo procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, que baseou o mandado de prisão em acusações de conspiração para cometer assassinato qualificado.

“Raúl Castro ordenou o assassinato de quatro moradores da Flórida a sangue-frio, e a Flórida nunca deixará de buscar justiça”, alegou Uthmeier, em coletiva. As acusações estão ligadas à queda de duas aeronaves em 1996, um evento no qual o lado cubano afirma ter agido em legítima defesa após repetidas violações do espaço aéreo pela organização Irmãos do Resgate.

Em maio, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou Raúl Castro e outros cinco oficiais militares pelo mesmo incidente. Na ocasião, segundo documentos divulgados pelo governo norte-americano, o ex-presidente enfrentava quatro acusações de homicídio e duas de destruição de aeronave. Diante disso, as autoridades cubanas denunciaram que a acusação carece de fundamento legal e moral, alertando que tais ações buscam criar pretextos para justificar agressões militares contra a nação caribenha.

Na ocasião, a chancelaria cubana alertou Washington em 25 ocasiões sobre o perigo dessas operações e solicitou a revogação das licenças de voo dos pilotos, sem receber resposta da administração norte-americana. Foi exposto também que o fundador dos Irmãos para o Resgate, José Basulto, foi treinado pela Agência Central de Inteligência (CIA) para ações de sabotagem em 1961.

¨      Honduras: ex-conselheiro denuncia perseguição a deputados que exigem apuração de votos eleitorais

O ex -membro do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de Honduras, Marlon Ochoa, alertou a comunidade internacional nesta terça-feira (20/10) sobre mandados de prisão emitidos pelo governo Nasry Asfura contra 13 parlamentares do mandato de 2022-2026, que enfrentam processos judiciais por exigirem a conclusão da contagem de votos nas eleições gerais, ocorrida em novembro de 2025, após denúncias de fraudes no processo eleitoral marcado pela interferência do governo norte-americano.

“O regime imposto por Donald Trump em Honduras emitiu mandados de prisão contra 13 membros do Congresso anterior por ordenarem o fim da contagem eleitoral, diante da fraude perpetrada pelas conselheiras Ana Paola Hall e Cossette López-Osorio”, afirmou o ex-conselheiro em uma publicação nas redes sociais, referindo-se às duas ex-integrantes do (CNE) que representavam partidos conservadores e teriam permitido o golpe eleitoral.

Ochoa explicou que a contagem de votos permanecia incompleta nos três níveis de governo: 306 cédulas ainda estavam pendentes para a eleição presidencial, 2.620 para as eleições para o Congresso e 1.848 para as eleições municipais. Diante do impasse, o ex-funcionário argumentou que a nova legislatura, controlada pela direita hondurenha, agiu dentro de seus direitos legais para garantir a conclusão do processo, apesar das alegações de fraude.

O ex-conselheiro lembrou que, conforme o Artigo 205, parágrafo 7, da Constituição de Honduras, o Congresso Nacional “tinha plenos poderes para ordenar a conclusão da recontagem”. A disposição constitucional estabelece expressamente a obrigação do órgão legislativo de declarar a eleição do Presidente da República, dos indicados presidenciais, dos membros do Congresso e das corporações municipais, caso o órgão eleitoral não a realize em tempo hábil.

<><> Libre denuncia ‘jurisprudência política’

Em apoio ao alerta emitido pelo ex-conselheiro eleitoral, o Partido Liberdade e Refundação (LIBRE) divulgou um comunicado oficial na terça-feira (20/10), denunciando a intensificação da perseguição política contra seu bloco legislativo.

A organização política de esquerda afirmou que as ações punitivas contra os parlamentares constituem uma resposta autoritária por terem exigido transparência nas urnas diante das omissões do CNE nas eleições de 30 de novembro de 2025, data em que — segundo eles — se consumou a alteração da vontade popular orquestrada pelo Partido Nacional, ao qual Asfura pertence.

“Denunciamos esta ação vil perante a comunidade internacional e exigimos que a contagem eleitoral seja concluída diante da fraude que, como denunciamos, foi orquestrada pelo presidente Donald Trump, (Fernando) Cerimedo e seus acólitos, juntamente com os lacaios da liderança bipartidária, para nos impor um presidente que não venceu as eleições: Nasry Asfura Zablah”, declara o partido.

A legenda rejeitou o uso do sistema judicial como instrumento de guerra jurídica e acusou as vereadoras Ana Paola Hall e Cossette López-Osorio de cumplicidade e desrespeito da vontade popular. O grupo enfatizou que o Ministério Público e o Judiciário têm processado aqueles que denunciaram irregularidades nos resultados eleitorais, enquanto, simultaneamente, emitem decisões favoráveis ​​a figuras ligadas à estrutura de poder tradicional.

Ao expressar sua solidariedade aos parlamentares criminalizados, o partido reafirmou que “exigir que os votos sejam contados não é crime” e ratificou sua posição contra a interferência estrangeira e a perseguição política em Honduras.

<>< Instrumentalização da justiça e intimidação estatal

A ofensiva legal coincide com a abertura de um processo movido pelo Ministério Público contra o ex-presidente do Congresso Nacional, Luis Rolando Redondo Guifarro, e outros membros da extinta Comissão Permanente.

Nesta terça-feira (20/10), o painel completo de magistrados do Supremo Tribunal de Justiça (CSJ) agendou a nomeação do juiz que assumirá o caso dos alegados crimes de abuso de autoridade e violação dos deveres dos funcionários.

O ataque contra os parlamentares reforça um padrão sistemático de assédio e perseguição política na nação centro-americana. Essa mesma espiral de intimidação e ameaças à sua segurança física forçou o próprio Marlon Ochoa a deixar o país e exilar-se após tornar públicas as irregularidades do processo.

 

Fonte: BBC News Mundo/Opera Mundi/Telesur

 

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