terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que explica o sucesso das marcas chinesas de tecnologia

Não faz muito tempo, a GoPro era sinônimo de câmera de ação. Em seu auge, em 2015, a empresa americana reinava absoluta, com cerca de 6,6 milhões de unidades vendidas naquele ano e participação de mercado superior a 70%.

Hoje, a pioneira luta pela própria sobrevivência. O principal culpado? A concorrência chinesa.

As maiores rivais da GoPro, DJI e Insta360, entraram no mercado de câmeras de ação em 2019 e 2021, respectivamente. Hoje, elas respondem por mais de 90% das vendas globais de câmeras inteligentes portáteis.

Alexander Hannemann, que usa regularmente câmeras de ação para filmar seus passeios demotocicleta, diz que trocou a GoPro pela Insta360 há cerca de dois anos.

"A qualidade é muito melhor do que a da GoPro, mesmo quando estou acelerando e entrando em curvas a cerca de 80 quilômetros por hora", disse à DW.

<><> A crescente liderança tecnológica da China

O caso da GoPro não é exceção. Desde aproximadamente 2010, muitas marcas chinesas não apenas alcançaram, mas superaram rivais ocidentais que antes dominavam o setor de tecnologia de consumo, de TVs inteligentes a aspiradores robóticos.

Já ficou para trás a época em que Made in China era sinônimo de produtos baratos e produzidos em massa.

"A China ainda fabrica produtos acessíveis", afirma Chris Pereira, empreendedor canadense e autor com mais de 20 anos de experiência no país. "Mas os produtos também são de alta qualidade."

Essa combinação fez com que bem mais da metade dos novos produtos globais de tecnologia para o consumidor passassem a vir de fornecedores chineses, acrescenta Pereira.

BYD, Xpeng e outras montadoras chinesas venderam quase dois terços de todos os carros elétricos comercializados no ano passado, superando empresas já estabelecidas, como a Tesla.

No segmento de aspiradores robóticos, marcas chinesas dominam o mercado global, enquanto a americana iRobot, antiga pioneira do setor, tem dificuldades para competir.

Mas por que as empresas chinesas superam cada vez mais seus rivais ocidentais?

Pereira, cuja consultoria iMpact ajuda empresas chinesas a ganhar espaço no exterior, atribui esse sucesso à intensa concorrência doméstica em cidades como Shenzhen, Hangzhou e Xangai, a cadeias de suprimentos altamente integradas e a uma cultura empresarial orientada para a ação, que permite às companhias inovar e responder rapidamente aos problemas.

Outros fatores importantes para a vantagem competitiva chinesa incluem automação industrial incomparável, uso estratégico de inteligência artificial na manufatura, agilidade regulatória e mão de obra relativamente barata. Juntos, esses elementos resultam em custos de produção significativamente menores e ciclos de inovação muito mais rápidos do que os observados em outras economias.

Joey Cheng, que se mudou para os Estados Unidos para fazer doutorado há mais de 20 anos, conhece tanto o lado do consumidor americano quanto o do produtor chinês.

Embora sua startup esteja sediada nos EUA, quase toda a produção é realizada em Shenzhen, onde é fabricada uma grande parcela dos equipamentos eletrônicos e dispositivos de consumo do mundo.

"A cadeia de suprimentos de Shenzhen é praticamente inevitável para reduzir custos e desenvolver produtos rapidamente", diz Cheng. "Especialmente para uma startup, é preciso colocar o produto no mercado depressa ou você será atropelado pela concorrência."

<><> Persistem preocupações com privacidade e segurança

Embora os consumidores estejam aderindo em massa às empresas chinesas, algumas ressalvas permanecem.

Uma pesquisa recente mostrou que mais de 90% dos europeus não confiam seus dados a empresas chinesas de tecnologia, enquanto cerca de 80% desconfiam das americanas. Os alemães apresentaram o nível mais elevado de desconfiança.

Embora utilize câmeras da DJI e da Insta360 em suas viagens, a blogueira Nadine diz que prefere não ter dispositivos domésticos conectados de fabricantes asiáticos."

"Meu aspirador robô é de uma empresa alemã justamente por isso: para que os dados permaneçam em conformidade com as regulamentações alemãs. Afinal, os fabricantes podem se conectar diretamente à câmera", disse ela, referindo-se a casos de invasão de câmeras e sistemas de áudio envolvendo aspiradores robóticos.

Ainda assim, Pereira afirma que empresas chinesas em expansão internacional precisam pagar um "prêmio de confiança".

"Esse déficit de confiança significa que elas precisam ser ainda mais competitivas em produto e preço para que o mercado as escolha", afirma.

Segundo ele, essa distância pode ser reduzida por meio de uma presença física nos mercados estrangeiros, como a primeira fábrica europeia de carros de passeio da BYD, cuja inauguração é esperada para o fim deste ano na Hungria.

Empresas chinesas afirmam cumprir as regras de proteção de dados da União Europeia. No entanto, leis de segurança nacional tanto nos EUA quanto na China podem obrigar companhias a entregar dados ao governo, e autoridades alemãs observam que há supervisão limitada sobre possíveis transferências de dados de servidores europeus para outros países.

Além das preocupações com privacidade, empresas chinesas de tecnologia de consumo também vêm sendo alvo de escrutínio por suspeitas de espionagem e outros riscos, mais recentemente em relação a dispositivos conectados, como veículos elétricos.

<><> Uma nova guerra comercial está a caminho?

Diante das preocupações de segurança, dos déficits comerciais e do domínio chinês em diversos setores, os Estados Unidos e vários outros países ocidentais impuseram tarifas, listas de restrições e exigências rigorosas a importações e empresas chinesas. No fim de julho, o governo Trump proibiu a importação de robôs humanoides fabricados fora dos EUA.

Um representante da fabricante chinesa de robôs Primebot disse à DW que todas as empresas chinesas de tecnologia de consumo estão sentindo os efeitos dessas medidas.

"Talvez busquemos cooperação com uma empresa americana local. Outra solução possível é construir uma fábrica lá", afirmou.

Países europeus e a própria União Europeia também avaliam a adoção de mais tarifas contra empresas chinesas.

Chris Pereira prevê que essas tarifas irão acelerar duas tendências entre as companhias chinesas: transferir mais produção para outros países e concentrar-se cada vez mais em desafiar marcas ocidentais de primeira linha com produtos premium.

"Autoridades e empresas chinesas reconhecem que a manufatura precisa ser localizada até certo ponto. Uma razão é amenizar as dificuldades de exportação; outra é gerar confiança local", resume Pereira.

"A outra tendência é que, uma vez que as tarifas eliminam a vantagem de preço na base do mercado, a margem que sobra está no topo. Por isso, marcas chinesas competem cada vez mais diretamente com nomes ocidentais já consolidados, justamente onde a confiança é mais importante."

<><> As empresas ocidentais conseguem competir?

À medida que o domínio chinês continua crescendo, empresas ocidentais buscam formas de permanecer competitivas.

Kaz Merchant, que trabalha em uma companhia britânica de importação e exportação de equipamentos de tecnologia da informação, afirma que empresas menores, em particular, precisam encontrar nichos geográficos específicos.

"Elas precisam ter um diferencial próprio para determinado produto, algo que a China talvez não ofereça naquela região. Ou então precisam se associar a uma empresa chinesa", diz.

Para Pereira, uma questão fundamental que a Europa precisa resolver é a velocidade de resposta dos órgãos reguladores.

"Os reguladores chineses dizem de forma muito clara e rápida o que é possível fazer. Essa velocidade ajuda as empresas a se aperfeiçoar e ter sucesso no exterior", afirma.

"Se você esperar semanas por uma resposta, vai perder negócios."

<><> Apostas em IA entram em xeque e pressionam mercado acionário dos EUA, diz mídia

Temores sobre a sustentabilidade do boom da IA levaram investidores a migrar para títulos do Tesouro dos EUA, interrompendo meses de vendas. O movimento derrubou ações de tecnologia, levou o Nasdaq 100 à maior queda semanal desde abril de 2025 e ampliou a aversão ao risco nos mercados.

As preocupações com o setor de inteligência artificial (AI) provocaram uma forte onda de aversão ao risco nos mercados, levando investidores a migrar para títulos do Tesouro dos EUA. Segundo a mídia britânica, o movimento interrompeu meses de vendas de títulos do Tesouro norte-americano e resultou em uma das melhores semanas do ano para a dívida pública norte-americana.

As ações das grandes empresas de tecnologia sofreram sua maior queda semanal desde o anúncio das tarifas do chamado "dia da libertação", feito por Donald Trump em 2025. O Nasdaq 100 recuou 5,5% na semana e acumula perda de 6,9% em relação à máxima histórica registrada no início do mês.

A fraqueza não ficou restrita às gigantes de tecnologia. O Russell 2000, índice de pequenas empresas mais sensíveis à economia dos EUA, caiu 3% e registrou sua sexta semana consecutiva de perdas, a pior sequência desde 2018.

De acordo com a apuração, analistas avaliam que o mercado pode estar entrando em uma correção liderada pelo setor de tecnologia. Segundo Jim Caron, da Morgan Stanley Investment Management, as fortes valorizações de ações ligadas à IA tornaram inevitáveis ajustes mais acentuados nos preços.

Fabricantes de chips e empresas de computação em nuvem voltadas para IA lideraram as perdas. A CoreWeave despencou quase 12%, enquanto Intel e Sandisk caíram 5,8% e 6,8%, respectivamente, para além disso, o S&P 500 também recuou 1,1% no dia.

Ao mesmo tempo, os títulos do Tesouro dos EUA registraram forte recuperação. O rendimento dos títulos de dez anos caiu para 5,08%, seu maior recuo semanal desde fevereiro, revertendo parcialmente a disparada recente dos custos de financiamento, impulsionada pela guerra com o Irã e pela resiliência da economia norte-americana.

Investidores atribuíram a recuperação dos títulos a uma busca por segurança e ao desmonte de apostas contra a dívida pública. A queda dos preços de títulos ligados a centros de dados também levantou dúvidas sobre a sustentabilidade do atual boom da IA, aumentando a cautela do mercado.

Apesar da aceleração da inflação dos EUA para 3,7% em setembro, a demanda por títulos permaneceu forte. Gestoras como a Pimco consideram os rendimentos dos títulos públicos mais atraentes diante das elevadas avaliações das ações, enquanto investidores apostam que a Reserva Federal (Fed) poderá manter os juros inalterados nos próximos meses.

¨      Cooperação naval entre Rússia e China abre oportunidade para o Sul Global, diz especialista

A recente visita do assessor presidencial russo, Nikolai Patrushev, a estaleiros e instalações portuárias de Xangai abriu novas perspectivas para a parceria entre Rússia e China na construção naval, no intercâmbio tecnológico e na modernização de rotas comerciais. Os dois países já cooperam ativamente no desenvolvimento da Rota Marítima do Norte.

Para Renato Peneluppi Jr., analista político e doutor em administração pública pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em entrevista à Sputnik Brasil, a cooperação entre os gigantes euroasiáticos se desdobra também em mais uma alternativa para países do Sul Global.

"Quando vemos a Rússia se aproximando da China e tentando construir, temos que entender que não é a disputa bélica, é a disputa de mercado, é fundamental controlar os mercados. Então, acho que o Sul Global pode aproveitar esse benefício também, explorar caminhos e rotas e está buscando novas empresas, novos setores para expandir seus mercados", disse.

Além disso, o pesquisador pontua que esse tipo de parceria, para além do comércio exterior e da navegação, estimula a cooperação em áreas científicas a fim de fomentar tecnologias que dinamizem as operações em alto mar.

"Esse diálogo justamente constrói a possibilidade de relações entre setores econômicos. As universidades, os pesquisadores... Então existe uma série de trocas. A própria questão espacial: o transporte dessas cargas marítimas é feito com acompanhamento de satélites. Então tudo isso envolve uma conexão entre essas nações [Rússia e China] de uma forma tão profunda, delicada e diversa", comenta.

<><> Portos russos e chineses potencializam toda Eurásia

Peneluppi também aponta que, por possuírem os principais portos do eixo euroasiático, uma maior sinergia entre Rússia e China no setor naval mercante tende a se tornar um novo e poderoso impulso econômico para a região.

"Há tantas redes de comércio e de diálogo entre essas nações justamente para estimular esse mercado. Cidades muito industrializadas no leste e no centro da Rússia encontram sua saída em direção ao Pacífico. Então é onde o contato com o porto de Vladivostok e o de Xangai, com o Japão e com o porto de Busan, na Coreia, pode viabilizar a construção de um mercado fantástico", destaca.

O pesquisador também afirma que o crescimento do mercado é tão grande na economia global que uma interação maior sino-russa poderia se tornar uma potência, mesmo com uma eventual não participação da Europa.

"Além disso, esse é o século asiático. Se a Europa não quer fazer negócio, vamos fazer negócio para o leste. É a vantagem da Eurásia que a Rússia media e que sua história já permeia. Então, acho que é muito acertado esse desenvolvimento, a construção de linhas férreas [como] aquela fabulosa que se estende por Vladivostok até Moscou. Já há rotas desde 2017 saindo da China, por trem, que vão até Londres", observa.

<><> Cooperações navais são cruciais na atual geopolítica

Outro ponto levantado por Renato Peneluppi Jr. é que a Rota Marítima do Norte, onde Moscou e Pequim cooperam ativamente, vem crescendo no mercado exterior por ser uma alternativa para conectar os oceanos Pacífico e Atlântico, reduzindo drasticamente o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa.

"Acho que é importante destacar que essa Rota do Norte, ela tem servido até para romper uma escola de domínio global, ela abre também um fluxo de mercado por uma região controlada por uma costa russa, também que garante uma segurança. Então esse mercado facilita e protege toda uma construção naval muito específica que demanda uma tecnologia muito especial. E é uma forma até de escapar do estreito de Ormuz", conclui.

A vulnerabilidade de gargalos marítimos estratégicos, como o estreito de Ormuz, ameaça a economia global e a soberania das nações diante de ações hostis. Nesse cenário de instabilidade, a criação de novas rotas e a ressignificação do comércio tornam-se indispensáveis para garantir a segurança e a resiliência das cadeias de suprimento mundiais.

¨      China poderia perder influência na América Latina com as mudanças de governo na região?

A chegada ao poder de vários presidentes aliados a Washington poderia erodir a influência política de Pequim, mas dificilmente provocará uma ruptura comercial, afirma a imprensa ocidental.

Segundo relatos, a alta dependência das economias latino-americanas em relação às compras chinesas de matérias-primas e aos investimentos da China em infraestrutura atua como uma âncora que limita o alcance geopolítico das afinidades com Washington.

Essa reflexão surge a partir da vitória, em boa parte da região, de governantes alinhados aos Estados Unidos — e, mais especificamente, à administração republicana. Nesse contexto, são citados exemplos concretos, como o da Colômbia — onde o recém-empossado presidente Abelardo de la Espriella avalia sair da iniciativa Cinturão e Rota — e o de Keiko Fujimori, no Peru. Contudo, ressalta-se que, em ambos os casos, o peso da China como principal compradora de recursos, a exemplo do cobre, limita um distanciamento radical.

No caso do Brasil, destaca-se que o segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) representa uma das maiores incógnitas para o equilíbrio regional. Apesar do cenário político, a imprensa ressalta que a China permanece como o principal destino das exportações brasileiras, concentrando cerca de 28,7% dos embarques em 2025 — o que evidencia como as complementaridades econômicas costumam se sobrepor à orientação ideológica dos governos.

Segundo especialistas, a relação bilateral migrou, gradualmente, de um modelo meramente complementar — baseado em insumos primários — para uma dinâmica mais competitiva em setores industriais e cadeias de suprimentos estratégicas.

Além disso, aponta-se uma distinção substancial entre a dependência do comércio e a dependência do capital chinês como um todo: enquanto Pequim absorve aproximadamente um terço das exportações minerais e agrícolas da região, seus fluxos de Investimento Estrangeiro Direto (IED) representam menos de 10% do total regional. Portanto, conclui-se que a presença do gigante asiático é de caráter predominantemente setorial e concentrada em ativos-chave.

Por outro lado, esses argumentos contrapõem tal conjuntura a dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), que mostram um crescimento notável nas exportações regionais para a China (24% no primeiro semestre de 2026), ao mesmo tempo em que destacam os esforços da região para diversificar seus mercados em direção à Índia e ao Sudeste Asiático. Por sua vez, as trocas comerciais com os Estados Unidos mantiveram-se dinâmicas, apesar das tarifas impostas pela administração de Donald Trump.

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

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