terça-feira, 20 de outubro de 2026

Gustavo Tapioca: Bolsonaros, nunca mais

Da rebeldia da juventude que tomou as praças após o primeiro turno à indignação ensurdecedora das janelas, o Brasil trabalhador entra em vigília antifascista para barrar o projeto do atraso da extrema-direita aliada a ultradireita de Trump e Rubio. 

Há datas que marcam o compasso da história não apenas pelos votos depositados nas urnas, mas pelo som cru, vibrante e coletivo das ruas e das casas. Os dias seguintes ao dia 4 e a noite de ontem, 16 de outubro, entraram para o calendário das grandes reações populares do Brasil.

 Exatamente no momento em que a televisão exibia a face e o discurso do candidato Bolsonaro Filho à Presidência, as janelas de dezenas de cidades se abriram num estrondo. 

O que irrompeu dali — unindo o ronco persistente de quem ocupa as ruas e praças, desde 5 de outubro, à fúria metálica das panelas da noite do dia 16 — não foi apenas ruído. Foi a voz inegociável de uma população que se recusa a flertar novamente com o abismo do fascismo, do negacionismo e da barbárie.

Das metrópoles aos bairros populares, de São Paulo ao Rio de Janeiro, de Recife a Salvador, o metal bateu ritmado contra o metal, transformando sacadas em trincheiras urbanas contra a tentativa desesperada de normalizar um projeto político que destruiu lares e zombou da vida. De milhares de vidas.

<><> A centelha que veio do primeiro turno

Esse eco que ressoou nas janelas encontra sua raiz mais viva na energia que tomou o país logo após o resultado do primeiro turno, em 4 de outubro.

 Secundaristas, universitários e a nova geração do primeiro voto decidiram que não ficariam em silêncio. 

Com cartazes, bandeiras e a força de quem tem o futuro inteiro pela frente, esses jovens voltaram às ruas e puxaram os mais velhos para o centro da praça. 

A juventude brasileira mostrou que “ainda está aqui” e que recusa o projeto de desmonte da pátria, num movimento que não se via desde as Diretas Já, em 1983 e 1984. Uma campanha que ganhou as ruas e mobilizou milhões de brasileiros.

Um marco da luta pela redemocratização do país, transbordando das praças para as sacadas e unindo gerações no mesmo grito de resistência.

<><> A crueldade criminosa

Não podemos esquecer, e jamais esqueceremos, a crônica de uma tragédia anunciada. 

Mais de 700 mil vidas brasileiras foram tragadas pela Covid-19, sendo que cerca de 400 mil dessas mortes poderiam ter sido evitadas se houvesse ciência, empatia e vacina no tempo certo. 

E não a sabotagem sistemática, o deboche e a necropolítica praticadas por Jair Bolsonaro, o pai e padrinho político que agora tenta retornar ao poder com o nome do filho, Flávio. 

Os órfãos da pandemia, as famílias enlutadas e o povo brasileiro carregam essa ferida aberta que explode nas ruas, nas calçadas e nas redes, em memória das vítimas da irresponsabilidade criminosa dos Bolsonaro.

O bolsonarismo tem as mãos marcadas pelo sangue e pela desolação de centenas de milhares de lares destruídos. Os órfãos da tragédia voltam às urnas munidos da certeza de que estão aqui para dizer 

“não podemos e não vamos esquecer o que vocês fizeram no governo de Jair Bolsonaro.” 

<><> A herança do caos

O candidato Flávio, filho mais velho de Jair, repete com orgulho que tem “Bolsonaro no sangue” e que vai “honrar o legado do meu pai”, e arremata:

“ele vai subir a rampa comigo em janeiro de 2027″. 

Mas qual é, de fato, esse legado que Bolsonaro Filho afirma que vai honrar sobre todas as coisas?

A tragédia do governo de Jair, que Flávio Bolsonaro jura Deus que vai continuar, é responsável por medidas e desastres profundos contra a população que marcaram o período de 2019 a 2022. 

<><> A herança maldita

Os pontos nevrálgicos dessa herança catastrófica revelam-se em dez fatos inegáveis:

1.       A gestão criminosa da pandemia da Covid-19, que resultou em centenas de milhares de mortes evitáveis, zombando da ciência e sabotando vacinas.

2.       O desmonte histórico das políticas de proteção ambiental e o incentivo institucional à devastação da Amazônia e dos territórios originários.

3.       O retorno vergonhoso do Brasil ao Mapa da Fome, impulsionado pela disparada da inflação dos alimentos e pelo arrocho da renda.

4.       O desmantelamento de direitos sociais e trabalhistas, precarizando ainda mais a vida da classe trabalhadora e da juventude.

5.       O aprofundamento do isolamento internacional do país, submetendo a política externa a alinhamentos subalternos e vexatórios.

6.       A proliferação sistemática de escândalos de corrupção e a imposição de sigilos de 100 anos para blindar aliados e familiares.

7.       Os ataques diários e coordenados às instituições democráticas, à imprensa livre e ao sistema eleitoral brasileiro.

8.       A herança de um país endividado, desorganizado administrativamente e socialmente fraturado pelo discurso de ódio.

9.       A recusa frontal em aceitar o resultado das urnas quando perdeu as eleições de 2022 para Lula.

10.     A articulação criminosa de uma tentativa de golpe de Estado contra a Democracia, que previa o assassinato do presidente Lula e do vice-presidente Alckmin.

<><> As ruas contra o projeto do caos e da morte

Enquanto nos estúdios da mídia hegemônica a tentam conferir verniz de normalidade institucional a um herdeiro político do caos, o mundo real, a outra metade da população, já deu o seu veredito nas pesquisas. 

 O ronco das ruas e o barulho das panelas invadiu a sala de estar de milhões de brasileiros para lembrar que o fascismo não passará incólume pela nossa história.

Estamos a oito dias exatos do momento em que o Brasil vai às urnas. Em disputa está um candidato da extrema-direita, aliado de primeira hora aos Estados Unidos de Trump e Rubio, aos quais Bolsonaro Filho jurou entregar as riquezas brasileiras.

<><> Biografia 

Não podemos esquecer e não vamos esquecer a biografia manchada de crimes e mortes do filho de Jair, de prenome Flávio — o herdeiro que jurou “honrar o legado de meu pai” para repetir o desastroso e trágico governo Bolsonaro. 

Faltam apenas oito dias para o segundo turno. Dia 25 de outubro.  Pegue sua arma chamada título de eleitor. Procure seu lugar na fila da seção eleitoral. E vote em quem merece seu voto. 

Escolham o melhor. Votem consciente com duas perguntas na cabeça: 

quem é o candidato que está mais próximo do meu modelo de presidente da República? 

Qual dos dois tem biografia mais próximo da que eu considero o melhor?

É chegada a hora de o ronco ensurdecedor das ruas e o barulho metálico das panelas se transformarem em voto para o grito definito:  

Bolsonaros, nunca mais!

•        Rogério Correia: “Flávio Bolsonaro é um estelionatário eleitoral”

 O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) acusou o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) de adotar uma estratégia para conquistar o apoio dos trabalhadores ao anunciar seu voto favorável à proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1. Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, o parlamentar afirmou que o posicionamento do senador contrasta com propostas de alteração da legislação trabalhista defendidas por integrantes de seu campo político.

“Na verdade, o que ele está fazendo agora é um estelionato eleitoral”, declarou Correia. Segundo o deputado, Flávio pretende apoiar a redução da jornada de trabalho durante a campanha presidencial, mas poderá defender mudanças nas garantias trabalhistas caso vença o segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O parlamentar relacionou essa avaliação à PEC 12, que atribui a Flávio Bolsonaro e ao senador Rogério Marinho (PL-RN). De acordo com Correia, a proposta estabelece mecanismos de remuneração por hora trabalhada e amplia a possibilidade de acordos entre empregadores e empregados prevalecerem sobre disposições legais.

“Ele vota amanhã no fim da 6×1, porém, caso ganhe as eleições, isso não vai acontecer. Ele vai simplesmente colocar em pauta a PEC 12, que está lá, que é assinada por ele e pelo Rogério Marinho”, afirmou.

Na interpretação do deputado, o modelo defendido pelos parlamentares do PL alteraria a relação entre empregados e empregadores, especialmente no que diz respeito à definição da jornada, à remuneração e à proteção dos direitos previstos na legislação.

“Se na Constituição o negociado vale mais que o legislado, acabou tudo quanto é lei. Vale a negociação”, argumentou.

<><> Pagamento por hora e direitos trabalhistas

Um dos pontos destacados por Rogério Correia é a possibilidade de ampliação de contratos baseados no pagamento por hora trabalhada. Para o parlamentar, essa modalidade poderia transferir ao empregado parte dos riscos associados à organização da jornada, uma vez que a quantidade de horas oferecidas dependeria das decisões do empregador.

Correia contestou o argumento de que a flexibilização permitiria aos trabalhadores escolher livremente quanto tempo desejam trabalhar.

“O trabalhador poderá escolher quantas horas ele vai trabalhar. Mentira, né? O patrão vai dizer quantas horas ele vai trabalhar e quantas horas ele vai pagar”, afirmou, ao reproduzir e criticar o argumento utilizado por defensores desse modelo.

O deputado também manifestou preocupação com os efeitos que as mudanças poderiam produzir sobre o 13º salário e a remuneração das férias. Segundo ele, a proposta defendida pelo grupo político de Flávio Bolsonaro prevê pagamentos proporcionais, o que, em sua avaliação, poderia reduzir os valores recebidos pelos trabalhadores.

“Nessa PEC deles ainda tem uma ressalva em relação ao 13º, um terço de férias, que eles dizem que aí o trabalhador receberá proporcionalmente”, declarou.

A remuneração proporcional, por si só, não significa necessariamente redução de direitos, pois depende das regras de cálculo, da jornada contratada e das garantias preservadas. Correia, entretanto, sustenta que o conjunto das alterações poderia diminuir a proteção assegurada aos empregados.

Para o parlamentar, o debate ultrapassa a discussão sobre o número de dias trabalhados por semana. Ele considera que estão em disputa dois modelos de organização das relações de trabalho: um baseado na redução da jornada com preservação dos direitos e outro centrado na ampliação da negociação individual e da remuneração vinculada às horas efetivamente trabalhadas.

O deputado associou a segunda orientação às propostas de flexibilização das relações de trabalho defendidas por setores empresariais.

<><> Apoio à PEC seria uma estratégia eleitoral

Na avaliação de Rogério Correia, o anúncio do voto favorável ao fim da escala 6×1 não representa uma mudança na orientação de Flávio Bolsonaro sobre os direitos trabalhistas.

O parlamentar sustenta que o candidato tenta responder à pressão popular pela redução da jornada sem abandonar compromissos com representantes do empresariado contrários à proposta.

“Isso é de mentirinha, essa votação deles amanhã, porque depois eles vão vir com algo muito pior do que já existe hoje”, declarou.

Correia afirmou que sua interpretação não se baseia apenas nas declarações recentes do candidato. Segundo ele, emendas apresentadas durante a discussão sobre o fim da escala 6×1 na Câmara já indicariam a intenção de modificar o alcance da proposta.

“As emendas deles no fim da 6×1 na Câmara dos Deputados já tinham essa emenda que eu falei agora, que é o que eles querem”, disse.

O deputado também destacou que, segundo seu relato, a PEC 12 permanece em tramitação e não foi retirada por seus autores. Para ele, a manutenção da proposta reforçaria a possibilidade de retomada da discussão após a eleição presidencial.

“Eles não retiraram ela de lá”, ressaltou.

A existência de uma proposta legislativa, entretanto, não comprova por si só um acordo para sua aprovação futura. A acusação de que Flávio Bolsonaro teria negociado previamente a revisão dos direitos trabalhistas corresponde à avaliação política apresentada por Correia durante a entrevista.

<><> Propostas diferentes para a jornada de trabalho

A discussão ocorre em meio à tramitação da PEC 221/2019, aprovada pela Câmara dos Deputados, que prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerado e preservação dos salários. A proposta conta com o apoio do governo Lula e está na pauta do Senado nesta quarta-feira (14).

Já a PEC 12/2026, apresentada por Rogério Marinho e subscrita por Flávio Bolsonaro, propõe a possibilidade de contratação por hora trabalhada, com remuneração proporcional e maior espaço para acordos individuais. A autoria e a participação de Flávio entre os signatários constam dos registros oficiais do Senado.

A diferença entre os textos está no alcance da proteção trabalhista. Enquanto a PEC apoiada pelo governo estabelece uma redução da jornada sem diminuição salarial, a proposta de Marinho cria uma alternativa contratual na qual a remuneração acompanha as horas efetivamente trabalhadas.

As declarações de Correia também encontram correspondência em informações publicadas pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo. Segundo a reportagem, Flávio Bolsonaro sinalizou a aliados e representantes empresariais que pretende rever pontos da PEC do fim da escala 6×1 caso seja eleito presidente. A intenção seria permitir negociações entre empresas e trabalhadores após a aprovação da mudança.

Para Rogério Correia, essa possibilidade demonstra a necessidade de examinar não apenas o voto anunciado pelo candidato, mas também as propostas que seu grupo político pretende defender depois das eleições.

O deputado sustenta que a redução da jornada precisa ser acompanhada da manutenção dos direitos trabalhistas para representar uma mudança efetiva nas condições de trabalho.

Ao relacionar o apoio de Flávio Bolsonaro à PEC com a possibilidade de alterações posteriores, Correia concluiu que a disputa em torno da escala 6×1 se tornou parte do confronto entre os projetos de Lula e do candidato do PL para o mercado de trabalho.

“Então, o que eles estão pretendendo fazer é um estelionato eleitoral. Temos que denunciar isso”, afirmou.

 

Fonte: Brasil 247

 

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