Empresa
ligada ao advogado amigode Flávio, Willer Tomaz, foi administrada por diretor
da Polícia Civil do DF
Uma
empresa ligada ao advogado Willer Tomaz – alvo da segunda fase da operação Sem
Descontos, que apura desvios indevidos em aposentadorias e pensões de
beneficiários do INSS – teve como administrador um diretor da Polícia Civil do
Distrito Federal (PCDF). Durante quatro meses de 2025, Delcimar de Oliveira
Silva, que havia assumido a diretoria de Tecnologia da Informação (TI) em
fevereiro de 2023, respondeu como administrador da Direção Táxi Aéreo LTDA
enquanto era remunerado pela instituição pública, o que é vedado por lei.
A
Direção Táxi Aéreo LTDA foi adquirida em maio de 2024 pela Jet Line Locações e
Serviços Aéreos S/A, naquele ano representada por Lídia Maria Figueiredo
Mazelli, apontada como administradora de empresas de Willer Tomaz. Sete meses
após a incorporação, a Direção Táxi Aéreo passou a ser administrada pelo então
diretor da PCDF, informação que consta no contrato social da empresa, conforme
documentos obtidos pela Agência Pública.
Procurado,
Delcimar de Oliveira Silva afirmou ser “policial civil aposentado” e declarou
que, “durante o curtíssimo período em que estive no [Direção] Táxi Aéreo,
encontrava-me afastado das minhas funções na PCDF”. O servidor saiu da ativa no
ano passado. Segundo o Portal da Transparência do Distrito Federal, no entanto,
o então servidor recebeu proventos pela função de “diretor/ delegado de
polícia” da corporação entre dezembro de 2024 e abril de 2025, como confirmado
por cópias dos comprovantes de pagamento, obtidas pela Pública.
A
reportagem apresentou os dados das guias de pagamento a Silva. Também
questionou o motivo de ter sido exonerado do cargo de diretor em período
similar à sua saída da Direção Táxi Aéreo. O ex-diretor, no entanto, limitou-se
a dizer que “não tem outras considerações a acrescentar”.
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Arranjo incomum
De
acordo com o inciso X do artigo 17 da Lei 8.112/1990, é vedado a servidores
públicos participação em gerência ou administração de sociedade privada,
personificada ou não personificada, e de exercerem o comércio, exceto na
qualidade de acionista, cotista ou comanditário.
Segundo
a Lei 15.047/2024, que institui o regime disciplinar da Polícia Federal e da
Polícia Civil do Distrito Federal e atualiza a legislação de 1965, “participar
da gerência ou da administração de empresa, de fato ou de direito, qualquer que
seja a sua natureza” é considerada uma das “infrações disciplinares praticadas
por servidor puníveis com demissão”. De acordo com Nascimento, a regra não é
diferente “quanto ao policial que exerce cargo de confiança”. A lei foi
sancionada pelo presidente Lula e entrou em vigor em 17 de dezembro, dois dias
antes de Delcimar de Oliveira Silva assumir a administração da empresa ligada a
Willer Tomaz.
Procurada
para explicar o arranjo incomum que permitiu que o então diretor de TI ocupasse
um cargo de administração em empresa privada, a PCDF informou que Delcimar de
Oliveira Silva não integra mais o quadro ativo na instituição. A instituição
admitiu não ter “conhecimento da situação” e que a questão foi “encaminhada
para a Corregedoria Geral de Polícia para conhecimento”.
Delcimar
assumiu a administração da empresa dois dias após a entrada em vigor da Lei
15.047/2024
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Sucessão recorrente dentro da família Tomaz
Conforme
certidão de inteiro teor da Direção Táxi Aéreo LTDA, o diretor da PCDF deixou a
administração da empresa em maio de 2025, quando o cargo passou para Flávia
Tomaz, esposa do advogado. No mesmo mês, Delcimar de Oliveira Silva foi
exonerado da direção da Polícia Civil e saiu em licença não remunerada. Um ano
depois, ao retornar à ativa, em maio de 2026, o então servidor solicitou
aposentadoria. Dias após consegui-la, porém, foi agraciado com abono de
permanência – benefício pago a servidores que cumpriram requisitos para se
aposentar voluntariamente, mas escolheram continuar trabalhando.
No
mesmo período em que o então servidor se retirou da Direção Táxi Aéreo, Lídia
Mazelli deixou a sociedade da Jet Line, passando o controle total da empresa a
Flávia Tomaz. Diferentemente da vida luxuosa do casal, Mazelli mora em um
prédio de três andares, sobre uma loja de móveis, no Riacho Fundo, região
administrativa do Distrito Federal.
Segundo
os documentos aos quais a Pública teve acesso, todas as modificações e
alterações no contrato social da Direção Táxi Aéreo foram feitas pela Voga
Serviços Contábeis – companhia de Alexandre Caetano dos Reis, sócio do lobista
Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e irmão de Letícia Caetano
dos Reis, administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (PL).
Alexandre Reis também faz a contabilidade de empresas do filho 01 de Jair
Bolsonaro.
Questionado
sobre o período da administração de Delcimar de Oliveira Silva, Willer Tomaz
informou que o gestor “encontrava-se afastado de suas funções na Polícia Civil
do Distrito Federal durante o período em que participou da administração da
empresa de táxi aéreo”. “As empresas às quais Willer Tomaz está vinculado
exercem suas atividades em conformidade com a legislação e as normas da Anac,
sem pendências perante os órgãos de fiscalização”, declarou o advogado em nota
à Pública.
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Empresa “familiar”
Segundo
dados públicos, a Jet Line foi constituída em setembro de 2008, com capital
social de R$ 1 milhão. Na Receita Federal, apenas os nomes de Flávia Oliveira
Correa Tomaz e Christine Tomaz de Souza, irmã de Willer Tomaz, constam no
quadro societário da Jet Line.
A Jet
Line funciona no mesmo endereço da empresa que adquiriu em 2024 – a Direção
Táxi Aéreo LTDA, aberta em 2021, com capital social de R$ 200 mil, por um
servidor público e uma médica.
Apesar
de estar oficialmente em nome de Flávia Tomaz, o site oficial da Direção Táxi
Aéreo aponta como responsável pelo domínio o advogado Willer Tomaz.
Além do
diretor da PCDF, a Direção Táxi Aéreo também teve, a partir de janeiro de 2026,
um coronel da reserva da Aeronáutica como administrador. O militar Virgínio
Augusto Corrieri de Castro permaneceu no cargo por cinco meses até devolver o
cargo para a esposa de Willer Tomaz, em maio deste ano.
A
Pública tentou contatar Castro por meio do telefone de uma das empresas
pertencentes a ele, mas não obteve retorno. O espaço será atualizado no caso de
manifestação.
De
acordo com a Receita Federal, a Direção Táxi Aéreo funciona no Hangar 36 do
Aeroporto Internacional de Brasília e tem como principais funções o transporte
aéreo de passageiros não-regular, manutenção e reparação de aeronaves, comércio
atacadista de outras máquinas, além do transporte aéreo de carga e serviços de
reservas.
A Jet
Line conta com ao menos quatro aeronaves. Uma delas era do DJ Alok e foi
vendida à empresa ligada a Willer em setembro de 2024. Em 2018, esse mesmo
jatinho transportava Alok e convidados quando saiu da pista durante decolagem
no Aeroporto da Serrinha, em Juiz de Fora (MG). Ninguém ficou ferido.
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Relação com a Anac
Em 20
de julho de 2026, Willer Tomaz pediu permissão à Agência Nacional de Aviação
Civil (Anac) para a construção de um aeródromo de uso privado, denominado
WT-01, no interior de uma casa localizada no Conjunto 4 da QI 1 do Lago Sul,
onde funciona seu escritório de advocacia e outras empresas vinculadas a ele.
A
solicitação foi feita pela WT Administração de Imóveis e Bens S/A, também
ligada a Tomaz. De acordo com investigações da Polícia Federal, o CNPJ da WT
foi utilizado na compra da residência de R$ 6 milhões do senador Weverton Rocha
(PDT-MA), no Lago Sul, e de um apartamento de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel
Vorcaro, em São Paulo. O imóvel de Zettel foi utilizado por Flávio Bolsonaro
durante a campanha presidencial, segundo a revista piauí. Foi também a WT
Administração que teria recebido R$ 136,5 mil do Senado, pagos como complemento
de auxílio-moradia desde 2023 em benefício do senador Ciro Nogueira (PP-PI),
ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro.
O
imóvel de Willer que recebe o aeródromo é uma velha conhecida da política
brasileira. Em 2004, a residência ficou conhecida como “República de Ribeirão”,
quando servia de ponto de encontro para políticos, empresários e lobistas
ligados ao então ministro da Fazenda Antonio Palocci e ocorriam negociações
investigadas no episódio do Mensalão.
O
pedido à Anac foi feito apesar do histórico da Jet Line junto à agência
reguladora. Em 2022, a empresa foi punida por “recusa de exibição de livros,
documentos contábeis, informações ou estatísticas aos agentes da fiscalização”.
Naquele ano, a fiscalização solicitou cópia autenticada das páginas do diário
de bordo que contém o termo de abertura, páginas e os dados dos voos realizados
entre 1º de setembro de 2019 e 31 de dezembro de 2019; além da lista de
passageiros de todos os voos realizados nesse período, e os motivos de cada
viagem. As informações não foram apresentadas e, apesar de Tomaz recorrer como
advogado da Jet Line, alegando não obrigatoriedade de manutenção desses
registros, teve de pagar R$ 8 mil em multa.
A Anac
também instaurou procedimento investigatório após o piloto de uma aeronave da
Jet Line impedir a inspeção de servidores da agência, também em 2022. Após o
início do processo, a empresa apresentou os documentos solicitados pelos
agentes. O procedimento foi arquivado.
A
Pública procurou a Agência Nacional de Aviação Civil, mas não obteve retorno
até a última atualização do texto. No caso de manifestação, o espaço será
atualizado.
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A origem do advogado famoso em Brasília
A
trajetória de Willer Tomaz começou no setor de informática. Em 1999, ele abriu
uma empresa em Taguatinga (DF), que faliu. Tomaz migrou de área, formou-se em
direito e passou a atuar como advogado e empresário. Ele acumulou patrimônio
com imóveis, propriedades rurais, veículos de luxo e participações em empresas.
Em
2017, Tomaz foi preso na Operação Patmos, que também atingiu o então presidente
Michel Temer e o senador Aécio Neves. O advogado foi investigado por suspeita
de atuar junto ao procurador da República Ângelo Goulart Villela em favor dos
interesses de Joesley Batista e sua empresa, a JBS. O advogado negou as
acusações. Dois meses depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou sua
soltura.
Tomaz
mantém uma relação próxima com o senador Flávio Bolsonaro. Os amigos, como se
declaram, são vistos com frequência juntos. Recentemente, além de ter utilizado
o apartamento de São Paulo do advogado durante a campanha presidencial, Flávio
também usufruiu de propriedade de Tomaz em Angra dos Reis (RJ).
Algumas
das propriedades e negócios de Tomaz aparecem associados a empresários
investigados em outros casos, entre eles Daniel Vorcaro, ex-controlador do
Banco Master. Em agosto de 2026, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e
apreensão na casa do advogado durante a Operação Sem Desconto, que investiga um
esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS. Tomaz nega participação
nas fraudes.
O amigo
de Flávio Bolsonaro voltou para a mira da Polícia Federal (PF) depois que foi
tornado público um processo que ele moveu contra a empresa de apostas online
Blaze. Tomaz alega sofrer de ludopatia e pede ressarcimento por perdas em bets
na ordem de R$ 163,2 milhões. O Ministério da Fazenda e a PF se voltaram ao
caso para apurar irregularidades da plataforma e verificar a possibilidade de
lavagem e dinheiro em operações no episódio.
A
defesa de Willer Tomaz afirma em nota que as empresas às quais o empresário
está vinculado “suas atividades em conformidade com a legislação e as normas da
Anac, sem pendências perante os órgãos de fiscalização. Quanto às locações
imobiliárias, os contratos são regulares, celebrados a valores de mercado e
sujeitos aos deveres legais de confidencialidade e proteção de dados pessoais.
Os pagamentos são realizados diretamente pelos locatários, não cabendo à
locadora prestar esclarecimentos sobre a origem de seus rendimentos.”
Além
disso, o advogado diz não ter “qualquer envolvimento com as fraudes
investigadas na Operação Sem Desconto e ressalta que a denúncia oferecida
contra ele no âmbito da Operação Patmos, em 2017, foi definitivamente
rejeitada”, além de que “repudia a tentativa de associá-lo a supostas
irregularidades por meio da reunião de episódios distintos, sem demonstração de
qualquer conduta ilícita de sua parte.”
Fonte:
Por Jéssica Ribeiro, da Agência Pública

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