Com
Flávio, ativistas temem fim do Ministério dos Povos Indígenas
“Com
uma única canetada, ele pode desfazer todas as conquistas que nós conseguimos
nesses quase quatro anos”, afirmou o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena,
sobre uma eventual vitória do candidato da extrema-direita, o senador Flávio
Bolsonaro (PL), à Presidência da República. “Nós estamos muito preocupados.”
Com
47,03% dos votos, Flávio ficou em primeiro lugar no primeiro turno das eleições
presidenciais em 4 de outubro, na contramão das pesquisas de intenção de voto,
que mostravam o atual presidente Lula como favorito à reeleição. “Sendo eleito,
um dos primeiros ministérios que serão extintos é o Ministério dos Povos
Indígenas”, disse Terena à Mongabay, por telefone. “Isso para nós é uma coisa
dada, porque é um governo que não tem compromisso nenhum com os povos
indígenas.”
O
inédito Ministério dos Povos Indígenas (MPI) foi criado pelo presidente Lula em
janeiro de 2023, cumprindo a promessa feita aos povos originários que apoiaram
sua candidatura. Sonia Guajajara foi nomeada ministra, a primeira vez que um
indígena comandou um ministério.
“A
criação do Ministério dos Povos Indígenas tem um poder simbólico, mas também
efetivo, muito grande, porque é um governo que vem, justamente, após um período
em que os povos indígenas foram extremamente atacados durante a gestão do
governo Bolsonaro”, disse Terena, que assumiu o cargo em março, quando Sonia
deixou o ministério para concorrer à reeleição como deputada federal por São
Paulo.
A
gestão do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro (2019-2022) foi marcada
por diversos atos contra o meio ambiente e os povos indígenas, como a não
demarcação de nenhuma terra indígena, cumprindo sua promessa de campanha
durante as eleições de 2018. Em seu governo também houve uma escalada do
desmatamento e da violência contra grupos indígenas, além de medidas para abrir
terras indígenas para mineração e agronegócio, em violação à Constituição
Federal.
Para o
ministro, os direitos dos povos indígenas sempre foram, de certa forma,
“violados”, desde a chegada dos portugueses em 1500, mas no governo Bolsonaro
isso foi institucionalizado. “Foi o primeiro governo pós-redemocratização,
pós-constituição de [19]88, que instituiu uma política oficial mesmo, pública,
flagrante de desrespeito aos direitos dos povos indígenas”, analisou Terena.
“Não à toa, durante a gestão do Bolsonaro, aportaram na Comissão Interamericana
de Direitos Humanos quatro denúncias contra o governo brasileiro. E chegou, de
forma também inédita, ao Tribunal de Haia, uma denúncia contra Bolsonaro pelo
crime de genocídio.”
A
condenação em um julgamento por tentativa de golpe de Estado impediu Jair
Bolsonaro de concorrer às eleições deste ano, mas seu filho Flávio prometeu dar
continuidade ao governo do pai, o que para defensores do meio ambiente e de
direitos humanos significa a volta de políticas anti-ambientais e
anti-indígenas.
Flávio
afirmou que não demarcará nenhuma terra indígena. “Se depender do nosso
governo, nenhuma dessas reservas será demarcada porque a vocação do Estado é a
produção”, disse o senador durante uma visita a uma feira do agronegócio no
estado de Mato Grosso, maior produtor de grãos do país. Flávio é um dos
coautores da Proposta de Emenda à Constituição nº 24/2025, que retira da
Presidência da República e do MPI a atribuição de demarcação de terras
indígenas (TIs) e a transfere ao Congresso Nacional.
Assim
como o pai, o candidato também fez declarações polêmicas em relação aos povos
indígenas. “Índio quer Wi-Fi. Por quê? Porque ele quer se conectar, ele quer
fazer parte da sociedade. Não quer mais ser um animal de zoológico que o
turista paga para ver ele dançando ali, fazendo fogo com madeira”, disse Flávio
em entrevista para o podcast Market Makers. O candidato também prometeu revisar
o papel dos órgãos ambientais federais, como Ibama, ICMBio e Funai.
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Demarcações de terra e reparações ‘históricas’
Em sua
posse em 2023, uma das primeiras medidas de Lula foi a revogação e alteração de
seis decretos da gestão Bolsonaro contra os povos indígenas e o meio ambiente,
como o que incentivava a mineração em terras indígenas e áreas protegidas.
Durante os quase quatro anos de gestão Lula e do MPI, foram homologadas 20 TIs,
o equivalente a 3,28 milhões de hectares, além da assinatura da portaria
declaratória — ato que reconhece os limites, autorizando a demarcação física —
para outras 21 TIs, conforme o relatório de gestão do MPI ao qual a Mongabay
teve acesso.
O
documento destaca como “marco estratégico” a desintrusão de 12 TIs, incluindo a
queda de 98,77% do garimpo ilegal na TI Yanomami entre março de 2024 e janeiro
de 2026, desde os pontos de extração até as rotas de abastecimento e escoamento
do ouro, com prejuízos estimados em mais de R$ 642 milhões para os garimpeiros.
Houve
também “acordos históricos”, como o que visa à reparação dos impactos da
construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu ao povo Avá-Guarani, do oeste do
Paraná, depois de mais de meio século, com o aporte de R$ 240 milhões da usina
como etapa emergencial e o pedido de desculpas da União pelos danos e violações
de direitos humanos, segundo o documento. Outro destaque é a devolução da TI
Ñande Ru Marangatu ao povo Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul.
O MPI
também comemora a “conquista histórica” de destinação de pelo menos 20% dos
recursos do TFFF (Tropical Forest Forever Facility, ou Fundo Florestas
Tropicais para Sempre), diretamente para povos indígenas e comunidades locais.
Pela primeira vez, o Plano Plurianual (PPA), principal instrumento de
planejamento de médio prazo do governo federal, contemplou os povos indígenas
como agenda transversal para os demais ministérios, segundo o relatório.
O
documento também destaca a criação da primeira Universidade Federal Indígena
(Unind) do país e o estabelecimento de cotas para indígenas no serviço público.
A Constituição Federal, que havia sido traduzida pela primeira vez para uma
língua indígena — o nheengatu — em uma iniciativa do Supremo Tribunal Federal
(STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), também ganhou versões nas
línguas tikuna, kaingang e kaiowá por meio de ações do MPI.
“E nós
queremos avançar, mas esses programas, com certeza, serão extintos se o
[Flávio] Bolsonaro for eleito”, disse o ministro. “Basta a gente lembrar que na
gestão de seu pai, duas línguas indígenas foram extintas. Nós tivemos dois
etnocídios, porque dois indígenas que eram os últimos representantes de seu
povo se foram, morreram, e com eles nós perdemos também toda a cultura, a
língua, a tradição.”
Para o
filósofo e proeminente líder indígena Ailton Krenak, o MPI colocou a temática
indígena “na estrutura da gestão superior do Estado”, o que representou um
ganho sem precedentes para os povos indígenas. “Na hierarquia do Estado, quando
uma secretaria trata de um assunto, ela é subordinada, está no segundo,
terceiro escalão. Até um assunto desses chegar à administração superior, a
floresta já queimou, os Yanomami já morreram.”
Numa
eventual vitória de Flávio, Krenak acredita ser mais provável que ele mantenha
o MPI para ter mais um ministério para distribuir cargos aos aliados e
implementar “ações predatórias” contra os indígenas, como a atuação de
garimpos, mineradoras e madeireiros nas TIs. “A imagem mais viva que eu poderia
indicar é da Amazônia pegando fogo, o Pantanal queimando sem socorro, e os
Yanomami abandonados a uma condição de pandemia”, disse ele à Mongabay, em
chamada de vídeo. “A necropolítica não supõe extinguir as formas de gestão, ela
supõe corromper as formas de gestão.”
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Direitos constitucionais ameaçados?
“Não há
nada mais importante do ponto de vista da defesa dos direitos indígenas do que
a Constituição”, disse Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto
Socioambiental (ISA). Ele destacou o artigo 231, que garante os direitos
territoriais para os povos originários, e alertou que qualquer alteração desse
dispositivo deixa os indígenas muito “vulneráveis”.
“O
Flávio está falando direto em mudar a Constituição. Ele não falou
especificamente em alterar os direitos indígenas, mas já falou o suficiente
contra a Constituição para a gente ter isso como um temor real”, alertou
Santilli, por telefone. “Ele disse que não vai demarcar nada, quando a
Constituição determina que a União demarque as terras indígenas, e o pai dele
já descumpriu a Constituição nesse sentido.”
A
Constituição de 1988 estabeleceu, pela primeira vez, direitos fundamentais para
os povos indígenas do Brasil. Krenak foi o principal porta-voz do movimento
indígena durante a Assembleia Constituinte de 1987. “O povo indígena tem regado
com sangue cada hectare dos 8 milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Os
senhores são testemunhas disso”, discursou o líder indígena há 39 anos, no
palanque da Câmara dos Deputados, pintando seu rosto com a tintura negra do
jenipapo para denunciar a violência contra os povos indígenas.
Krenak
disse que essa imagem — e o mesmo sentimento da época — vieram claramente à sua
mente em diferentes momentos da história recente, como no impeachment da
ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, na eleição de Bolsonaro em 2018 e nos
discursos recentes de Flávio sobre mudanças na Constituição.
“Eu
sinto todo aquele contexto de luto, digamos assim, luto e luta, um luto-luta,
onde você chegou no seu limite”, disse o líder indígena. “É uma ofensa a todos
aqueles que conseguiram trazer o Brasil até esse lugar.”
OPIRJ
repudia ataques do senador Márcio Bittar (PL-AC) contra lideranças e
organizações indígenas do Vale do Juruá
“A
Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) manifesta seu repúdio às
declarações do senador Márcio Bittar (PL-AC), que, durante entrevista à
imprensa de Cruzeiro do Sul, atacou o coordenador-geral da organização,
Francisco Piyãko, levantou suspeitas sobre projetos indígenas e tentou
apresentar a defesa de nossos direitos como obstáculo ao desenvolvimento
regional.
É
inaceitável que um representante do Acre no Senado Federal utilize sua posição
política para desqualificar lideranças indígenas e alimentar divisões entre
comunidades que compartilham desafios históricos de acesso à saúde, educação,
transporte e infraestrutura.
A OPIRJ
é constituída e conduzida pelos próprios povos indígenas do Rio Juruá. Suas
decisões são coletivas, tomadas por meio de instâncias legítimas de
representação. Não somos instrumento de interesses individuais, familiares ou
partidários. Reduzir nossa organização à figura de uma única liderança é
desrespeitar a autonomia dos povos que representamos.
Também
repudiamos as insinuações sobre recursos do Fundo Amazônia. Administrado pelo
BNDES, o fundo possui critérios de aprovação, acompanhamento e prestação de
contas. Seus recursos financiam projetos de interesse coletivo e beneficiam
diferentes instituições, inclusive o Governo do Acre. Não se trata de favor
político, privilégio pessoal ou concessão de qualquer autoridade. Lançar
suspeitas sem apresentar provas é uma atitude irresponsável.
Defendemos
um desenvolvimento que mantenha a floresta em pé, preserve a biodiversidade,
proteja nossos rios e respeite os modos de vida dos povos da região. Não
aceitamos que o futuro do Juruá seja reduzido a um modelo de exploração
econômica que transforme nossas florestas em grandes áreas de monocultura, com
a expansão desordenada do agronegócio e de lavouras de soja sobre nossos
territórios.
Enfrentamos
dificuldades para proteger nossos territórios e garantir melhores condições de
vida às comunidades, mas isso não significa que sejamos povos miseráveis ou
atrasados. Temos nossas casas, nossos roçados, nossos alimentos, nossas
culturas e nossas próprias formas de viver, produzir e cuidar da natureza.
Esses modos de vida precisam ser conhecidos e respeitados, não tratados como
obstáculos ao progresso.
Estamos
abertos ao diálogo sobre políticas públicas, estradas, pontes e demais
investimentos que tragam benefícios reais à população. Entretanto, qualquer
proposta precisa ser debatida com as comunidades, respeitar nossos direitos e
considerar seus impactos sobre os territórios, a floresta, os rios e as formas
tradicionais de vida. É preciso avaliar se esses empreendimentos contribuirão
para o futuro da região ou provocarão sua destruição.
Defender
nossos direitos não significa impedir o desenvolvimento. Os povos indígenas
também não podem ser responsabilizados por décadas de abandono e ausência de
investimentos públicos no Vale do Juruá. O futuro da região exige soluções
construídas com participação, responsabilidade e respeito à Constituição
Federal, inclusive ao direito à consulta livre, prévia e informada.
A OPIRJ
não aceitará intimidações, acusações sem provas ou tentativas de deslegitimar
suas lideranças. Reafirmamos nossa autonomia e nosso compromisso com a defesa
dos territórios, das culturas e dos direitos indígenas.
Os
povos indígenas não são obstáculos ao desenvolvimento. Temos nossa própria
visão de futuro e o direito de participar das decisões sobre o destino do Vale
do Juruá. Desenvolvimento não pode significar a destruição daquilo que garante
a vida de nossos povos e das futuras gerações.
Cruzeiro
do Sul, Acre, 17 de outubro de 2026.
Francisco
Piyãko - Coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá – OPIRJ
Fonte:
Por Karla Mendes, para Mongabay/Combate Racismo Ambiental

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