Ciência
explica por que corpo acorda antes do despertador
Poucos minutos antes do despertador tocar, o
corpo já está de olhos abertos. Para quem vive essa cena com frequência, a
sensação é a de que o organismo "sabe" a hora certa de acordar, quase
como se dispensasse o alarme.
O fenômeno não tem nada de sobrenatural: ele
está diretamente ligado ao funcionamento do ritmo circadiano, o relógio
biológico que regula sono, temperatura corporal, apetite e a liberação de
hormônios ao longo de um ciclo de aproximadamente 24 horas.
<><> Como o relógio biológico
organiza o despertar?
O mecanismo central desse processo é o núcleo
supraquiasmático, uma estrutura localizada no hipotálamo que recebe informações
da retina sobre a quantidade de luz no ambiente.
Quando escurece, o cérebro aumenta a produção
de melatonina, hormônio que induz o sono; quando amanhece, essa produção é
interrompida e o corpo passa a ativar funções ligadas à vigília, como o aumento
da temperatura corporal, da pressão
arterial e da frequência cardíaca.
Rotinas consistentes de sono reforçam esse
ciclo: ao dormir e acordar sempre nos mesmos horários, o organismo passa a
antecipar o momento do despertar, mesmo sem qualquer estímulo externo.
<><> O papel do cortisol na hora
de acordar
Um dos protagonistas desse processo é o cortisol, hormônio associado ao estado de alerta. Nas horas
finais do sono, geralmente entre 3h e 5h da manhã, os níveis desse hormônio
começam a subir de forma gradual, preparando o corpo para a transição entre o
sono e a vigília antes mesmo de qualquer som de alarme.
Um estudo conduzido por pesquisadores da
Universidade Friedrich-Alexander Erlangen-Nürnberg, na Alemanha, demonstrou que
essa antecipação hormonal ocorre de maneira consistente em pessoas com rotinas
de sono regulares, reforçando a ideia de que o despertar precoce é um mecanismo
aprendido pelo próprio organismo.
Uma revisão da Endocrine Society aponta ainda
que a maior parte da liberação de cortisol acontece nas horas mais próximas ao
horário habitual de acordar, com um novo pico entre 30 e 45 minutos após o
despertar.
<><> Por que o corpo aprende a
antecipar o alarme?
Além dos fatores hormonais, existe um
componente comportamental nesse processo. O hábito de acordar antes do
despertador está relacionado a mecanismos internos de regulação
do sono que respondem à repetição de horários, às
condições do ambiente de descanso e a fatores como o estresse cotidiano.
Quando uma pessoa mantém um padrão estável de
sono por semanas ou meses, o cérebro registra esse compromisso e passa a
preparar o organismo para o despertar de forma cada vez mais precisa,
dispensando gradualmente a necessidade do estímulo externo do alarme.
<><> O que a ciência considera um
bom sinal
Para especialistas em medicina do sono,
acordar poucos minutos antes do despertador tocar costuma ser interpretado como
sinal positivo. Alan Luiz Eckeli, professor de Neurologia e Medicina do Sono da
Universidade de São Paulo (USP), defende que, em condições ideais de sono, o
próprio corpo deveria funcionar como o principal instrumento de despertar,
dispensando o uso do alarme.
Segundo o especialista, quando alguém só
consegue se levantar com dificuldade e depende do som do despertador para sair
da cama, isso costuma indicar que o tempo de descanso da noite anterior não foi
suficiente.
<><> Quando o despertar precoce
pode ser sinal de alerta
Nem sempre acordar antes da hora programada
reflete um sono bem regulado. Em períodos de maior ansiedade ou estresse, os
níveis de cortisol podem subir de forma antecipada e abrupta, interrompendo o
sono muito antes do horário habitual e provocando um despertar acompanhado de
cansaço, e não de disposição.
A diferença, segundo pesquisas na área, está
na sensação que acompanha o despertar: se a pessoa acorda alerta e descansada
minutos antes do alarme, o quadro tende a indicar bom ajuste do ritmo
circadiano; se o despertar vem acompanhado de fadiga ou agitação, o sinal
costuma apontar para uma noite de sono de qualidade inferior.
<><> Por que ainda dependemos do
despertador?
Apesar do funcionamento preciso desse relógio
interno, o despertador continua sendo indispensável para boa parte da
população. Isso porque a vida em centros urbanos impõe horários rígidos de
trabalho, estudo e compromissos que nem sempre coincidem com o ritmo
natural de sono de cada pessoa.
Um levantamento da Fiocruz (Fundação Oswaldo
Cruz) mostra que 72% dos brasileiros relatam algum tipo de problema relacionado
ao sono, incluindo quadros de insônia, o equivalente a cerca de 146 milhões de
pessoas. Nesse cenário, o alarme segue sendo um recurso necessário para manter
rotinas e evitar atrasos, mesmo que a ciência aponte que, em condições ideais,
ele poderia se tornar dispensável.
Especialistas em sono costumam recomendar que
a melhor forma de reduzir a dependência do despertador é fortalecer a
regularidade da rotina: dormir e acordar sempre em horários próximos, inclusive
nos fins de semana, evitar a exposição a telas pouco antes de deitar e garantir
tempo de sono suficiente para completar os ciclos naturais de descanso. Com o
relógio biológico bem ajustado a esses hábitos, o próprio organismo tende a
assumir, aos poucos, a função que hoje ainda cabe ao alarme.
¨
Sono excessivo pode ser
sinal de problemas de saúde
Uma meta-análise constatou que pessoas que
relataram dormir mais de oito horas por noite apresentam 28% mais risco de
desenvolver demência. Especialistas ressaltam que dormir mais não é,
essencialmente, o problema.
Apesar de horas excessivas dormindo serem
associadas com doenças que afetam o cérebro e outros sistemas do organismo,
dormir mais que o necessário também pode gerar efeitos imediatos, como a
dificuldade de raciocinar de maneira rápida e sensações de que o corpo está
dolorido.
O
sono excessivo ainda pode ser sinal de doenças
neurodegenerativas, depressão, apneia do sono e até mesmo doenças
cardiovasculares.
O professor de Neurologia da FMRP (Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto) da USP, Alan Eckeli, explica que, mesmo que a
duração do sono seja usada como indicador de descanso, isso não é o suficiente
para declarar que uma pessoa está dormindo bem.
“Aspectos como despertares frequentes durante
a noite, dificuldade para atingir fases profundas do sono e a sensação de
cansaço ao acordar também interferem na recuperação do organismo e na saúde
cerebral. Por isso, passar mais tempo na cama não significa, necessariamente,
obter os benefícios esperados do sono”, declara o professor ao Jornal
da USP.
O docente ressalta também que quantidade e
qualidade de sono são dimensões diferentes, mas que se complementam e são
medidas pessoais. Contudo, ele alerta para a atenção redobrada com sonolência
excessiva durante o dia, cochilo involuntários, dificuldades para manter a
atenção, alterações de humor, irritabilidade e queixas sobre memória e
concentração, que podem indicar que o sono não está adequado.
<><> O sono ideal
Apesar dessas variações sobre qualidade e
quantidade de sono, Alan Eckeli avalia, a partir da meta-análise publicada pela
York University na revista Plos One, que pesquisas como essa permitem
identificar uma faixa de duração que é mais associada com melhores conclusões
sobre estados de saúde.
O professor informa que “Estudos apontam que
pessoas que dormem menos de seis horas ou mais de nove horas por noite costumam
apresentar maior
associação com desfechos desfavoráveis. Uma faixa
associada a menores riscos para a saúde está no intervalo de sete a oito horas
de sono. É o que mais frequentemente aparece associado a melhores desfechos de
saúde.”
Para além da duração do sono, também é
necessário avaliar outros hábitos diários que influenciam a saúde cerebral,
como o sedentarismo, sendo necessária a prática regular de atividades físicas,
manter uma alimentação equilibrada e outras medidas importantes para prevenção
do declínio cognitivo.
Fonte:
CNN Brasil

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