Bolsa
Família: o que o governo Jair revela sobre os planos de Flávio e Daniella?
A
declaração da coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL),
Daniella Marques, sobre o futuro do Bolsa Família provocou uma crise na
candidatura do senador nesta segunda-feira (19).
Mas,
para além das explicações e dos desmentidos apresentados às pressas pela
campanha, existe uma maneira bastante objetiva de avaliar o compromisso da
família Bolsonaro com o principal programa de transferência de renda do país:
examinar o que aconteceu quando Jair Bolsonaro esteve na Presidência da
República.
O
histórico está documentado em auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU),
dados orçamentários e reportagens publicadas entre 2019 e 2022.
Em
resumo: durante o governo Bolsonaro, mais de um milhão de famílias chegaram a
ficar na fila de espera do Bolsa Família, houve restrições de recursos que
impediram o ingresso de novos beneficiários e a substituição do programa pelo
Auxílio Brasil produziu distorções que prejudicaram sua capacidade de combater
a pobreza.
Vamos
aos fatos…
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Fake news?
Na
entrevista à CBN Bahia, Daniella Marques, que presidiu a Caixa Econômica
Federal no governo Jair Bolsonaro, defendeu uma regra de transição de dois anos
para beneficiários que conseguissem emprego formal ou abrissem um negócio.
Afirmou também que as pessoas não poderiam permanecer indefinidamente
dependentes do programa.
A
declaração provocou reação imediata da campanha de Lula, que interpretou a
proposta como sinal de possíveis cortes. Daniella e Flávio negaram essa
interpretação. Segundo eles, o prazo de dois anos seria aplicado apenas a
famílias cuja renda aumentasse, com possibilidade de retorno ao benefício caso
a nova atividade econômica não desse certo. Flávio afirmou que não pretende
acabar nem reduzir o Bolsa Família.
É
importante distinguir as duas coisas: a fala de Daniella não demonstra, por si
só, que Flávio pretenda excluir todos os beneficiários depois de dois anos. A
proposta anunciada se refere à transição de renda, mecanismo que já existe no
programa, embora com regras diferentes.
O
problema é que a campanha ainda precisa esclarecer como pretende
operacionalizar essa mudança, quais seriam os critérios de renda e quais
garantias teriam as famílias que permanecessem em situação de pobreza. Mais
importante: a experiência anterior da família Bolsonaro no poder oferece
motivos concretos para examinar suas promessas com cautela.
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Mais de um milhão de famílias deixadas na fila
Um dos
episódios mais graves ocorreu ainda no primeiro ano de governo. Em 2019, o
Bolsa Família passou a acumular uma fila de famílias que, embora cumprissem os
requisitos de acesso ao benefício, não conseguiam recebê-lo.
A
situação não decorreu simplesmente de dificuldades administrativas. Segundo o
Tribunal de Contas da União, a principal causa foi a restrição orçamentária
imposta a partir de junho de 2019.
Em
janeiro de 2021, 1,34 milhão de famílias aguardavam atendimento, de acordo com
o órgão de fiscalização. Eram famílias que precisavam do dinheiro para
sobreviver, mas não conseguiam ingressar no programa por falta de recursos
disponíveis.
A
gravidade do problema está justamente no fato de que o Bolsa Família não era um
benefício destinado a qualquer pessoa. Seu público era formado por famílias em
situação de pobreza e extrema pobreza. Ao restringir o ingresso de novos
beneficiários, o governo deixou parte dessa população sem acesso à proteção
social prevista na política pública.
O TCU
incluiu as deficiências de concessão e focalização dos benefícios assistenciais
em sua Lista de Alto Risco da Administração Pública. A conclusão foi de que as
falhas dificultavam o acesso de milhões de brasileiros a recursos essenciais
para a sobrevivência.
A fila
voltou a crescer mesmo depois da criação do Auxílio Brasil. Em julho de 2022,
atingiu 1,569 milhão de famílias, segundo levantamento publicado pela Folha de
S.Paulo. O governo conseguiu eliminá-la durante o período eleitoral, mas, em
novembro, logo após o segundo turno, 128 mil famílias já aguardavam novamente a
concessão do benefício.
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Auxílio Brasil custava mais e combatia menos a pobreza
Em
2021, Jair Bolsonaro decidiu extinguir o Bolsa Família (é isso mesmo que você
acaba de ler) e substituí-lo pelo Auxílio Brasil. A mudança foi apresentada
como uma reformulação da política social, com a promessa de ampliar os valores
pagos às famílias.
O
aumento dos benefícios foi real. Mas uma auditoria do TCU, concluída em
dezembro de 2022, identificou problemas graves na estrutura do novo programa.
O
primeiro deles foi a perda de eficiência no combate à pobreza. Segundo o
tribunal, para reduzir em um ponto percentual o chamado hiato de pobreza,
indicador que mede quanto falta para a renda dos pobres atingir a linha de
pobreza, o Auxílio Brasil precisava gastar R$ 1,72 bilhão por mês. O antigo
Bolsa Família conseguiria resultado equivalente com R$ 1,43 bilhão.
A
explicação estava, em parte, no desenho do programa. Ao estabelecer um
pagamento mínimo de R$ 600 por família, independentemente do número de
integrantes, o governo criou uma distorção: uma pessoa que morava sozinha podia
receber o mesmo valor de uma mãe responsável por quatro filhos.
O
resultado foi uma distribuição menos equitativa dos recursos, justamente porque
o programa deixou de considerar adequadamente as diferenças de composição
familiar.
Segundo
o TCU, a mudança também incentivou a fragmentação artificial de cadastros, com
pessoas de uma mesma família se apresentando como unidades familiares
independentes para receber benefícios separados.
A
auditoria estimou que, em outubro de 2022, até 3,5 milhões de famílias poderiam
ter sido incluídas indevidamente no programa, com risco de pagamentos
irregulares superiores a R$ 2 bilhões mensais. Trata-se de uma estimativa de
possíveis irregularidades, não da comprovação de fraude por todos esses
beneficiários.
O TCU
concluiu ainda que, com o mesmo orçamento, um desenho mais eficiente do Auxílio
Brasil poderia ter produzido uma redução da pobreza 15,2% maior.
Em
outras palavras, o governo Bolsonaro aumentou os gastos com transferência de
renda, mas organizou os pagamentos de maneira menos eficiente para alcançar as
famílias que mais precisavam.
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Promessa dos R$ 600 tinha prazo para acabar: a eleição
Outro
aspecto revelador da política social de Bolsonaro foi a maneira como o governo
conduziu o aumento do benefício em 2022.
Em
agosto daquele ano, a poucos meses da eleição presidencial, o valor mínimo do
Auxílio Brasil passou de R$ 400 para R$ 600. O aumento foi viabilizado pela
Emenda Constitucional 123, aprovada pelo Congresso Nacional, que estabeleceu um
pagamento extraordinário de R$ 200 mensais.
O
problema é que o acréscimo tinha validade somente até dezembro de 2022. O
orçamento encaminhado pelo próprio governo Bolsonaro ao Congresso para 2023 não
previa a continuidade dos R$ 600. A proposta contemplava um benefício médio de
aproximadamente R$ 405.
Isso
significa que, se dependesse exclusivamente da proposta orçamentária
apresentada pelo Executivo, o valor extraordinário pago durante a eleição não
estaria garantido no ano seguinte.
A
campanha de Bolsonaro explorou politicamente o aumento, enquanto o governo
também antecipou os pagamentos de outubro para que fossem concluídos antes do
segundo turno. Após a derrota do presidente, a fila do Auxílio Brasil voltou a
crescer.
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Caixa de Dani Marques emprestou bilhões a beneficiários
A
participação de Daniella Marques nessa história não se limita à sua proximidade
política com a família Bolsonaro. Em 2022, ela presidia a Caixa Econômica
Federal quando o governo autorizou a concessão de empréstimos consignados aos
beneficiários do Auxílio Brasil.
A
modalidade permitia que famílias pobres contratassem empréstimos com parcelas
descontadas diretamente dos benefícios futuros. Na prática, comprometia parte
de uma renda destinada a garantir necessidades básicas, como alimentação.
O
produto foi lançado em outubro de 2022, entre os dois turnos da eleição
presidencial. Até 1º de novembro daquele ano, as instituições financeiras
haviam concedido R$ 9,5 bilhões em empréstimos dessa modalidade. Desse total,
R$ 7,6 bilhões foram emprestados pela Caixa, comandada por Daniella Marques.
Depois
da derrota de Bolsonaro, a instituição suspendeu novas contratações. A
modalidade seria posteriormente extinta no governo Lula.
O
episódio merece atenção diante da atual proposta da coordenadora econômica de
Flávio. Daniella defende agora o empreendedorismo e o acesso ao crédito como
instrumentos para permitir que os beneficiários deixem de depender do Bolsa
Família.
A
oferta de crédito pode contribuir para a geração de renda, mas a experiência de
2022 demonstra a importância de distinguir políticas de inclusão produtiva de
operações financeiras que comprometem a renda de famílias vulneráveis.
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Até os benefícios prometidos ficaram no papel
O
governo Bolsonaro também deixou de implementar medidas previstas no próprio
Auxílio Brasil. Auditoria do TCU identificou que dois dos cinco novos
benefícios voltados à chamada emancipação econômica dos beneficiários não
haviam sido implantados por razões administrativas e normativas.
Entre
eles estavam o Auxílio Criança Cidadã, voltado ao acesso à educação infantil, e
o Auxílio Inclusão Produtiva Urbana, que buscava incentivar a inserção no
mercado de trabalho.
O
tribunal também identificou a deterioração da qualidade do Cadastro Único, com
falhas de controle, atualização e acompanhamento das informações utilizadas
para selecionar os beneficiários.
Em
fiscalização posterior, que examinou dados até junho de 2023, o TCU encontrou
inconsistências de renda e composição familiar em parte expressiva dos
cadastros de beneficiários do extinto Auxílio Brasil. As falhas resultaram
tanto de problemas acumulados durante a pandemia quanto de deficiências de
gestão e fiscalização.
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O que está em disputa agora
A
proposta apresentada por Daniella Marques também merece ser examinada por outro
motivo. O Bolsa Família não foi concebido como uma alternativa permanente ao
trabalho, mas como um mecanismo de proteção a famílias cuja renda é
insuficiente para garantir condições mínimas de sobrevivência.
A
existência de emprego formal, por si só, não significa que uma família tenha
deixado de ser pobre. O tamanho da família, a renda por pessoa e a estabilidade
dos rendimentos são fatores decisivos.
Por
isso, o programa já possui mecanismos de transição que permitem a permanência
temporária de famílias cuja renda aumenta. Na regra vigente em 2026,
determinadas famílias podem continuar recebendo metade do benefício por até 12
meses, conforme as condições previstas.
Daniella
promete ampliar esse período para dois anos. Se a mudança representar apenas
uma extensão da proteção para famílias que aumentarem sua renda, ela não
equivale a um corte generalizado. Mas, se vier acompanhada de critérios que
excluam famílias ainda pobres, poderá alterar substancialmente o alcance do
programa.
A
campanha de Flávio ainda não apresentou informações suficientes para resolver
essa dúvida. Há, contudo, uma diferença fundamental entre as promessas feitas
em uma campanha e as decisões tomadas durante um mandato.
Entre
2019 e 2022, Jair Bolsonaro governou um país no qual milhões de famílias
dependiam de transferências de renda para sobreviver. Nesse período, seu
governo restringiu o ingresso de beneficiários por razões orçamentárias,
acumulou filas milionárias, criou um programa menos eficiente no combate à
pobreza e ofereceu empréstimos que comprometiam parte dos benefícios futuros.
Também
aumentou expressivamente os valores pagos em 2022, ampliou o número de famílias
atendidas e concedeu um benefício extraordinário de R$ 600. Esses resultados
precisam ser reconhecidos, assim como o fato de que o acréscimo não estava
assegurado no orçamento do ano seguinte.
É esse
conjunto de decisões, e não apenas as declarações de seus aliados, que permite
avaliar o histórico da família Bolsonaro na política de transferência de renda.
Flávio
Bolsonaro afirma agora que os beneficiários não precisam se preocupar e que o
Bolsa Família estará garantido caso ele seja eleito presidente.
Mas a
experiência do governo de seu pai deixa uma pergunta que a campanha ainda
precisa responder: se o compromisso com as famílias mais pobres é tão sólido,
por que milhões delas tiveram de esperar por um benefício justamente quando
Jair Bolsonaro teve o poder de garantir seu pagamento?
Fonte:
Por Paulo Motoryn, Noites Húngaras

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