segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A batalha das identidades entre petismo e bolsonarismo

Por trás da ostensiva polarização entre socialistas e conservadores, a ciência política e a sociologia identificam um fenômeno surpreendente: ambos os lados abandonaram suas matrizes ideológicas tradicionais para adotar a mesma gramática conceitual de matriz liberal. Em vez de centralizar o debate na luta de classes ou na preservação da ordem comunitária tradicional, a política contemporânea converteu-se em uma disputa em torno de identidades particulares. Essa virada não representa uma ruptura com o establishment, mas sim a consolidação da ideologia liberal, que reduziu o horizonte político à validação moral de grupos atomizados e à busca por reconhecimento individual.

No campo progressista, a mudança é nítida. Movimentos que historicamente lutavam por transformações estruturais da economia e pela solidariedade universal de classe passaram a priorizar a representatividade e a diversidade. Conforme sinaliza Nancy Fraser (2013) ao conceituar o “neoliberalismo progressista”, a pauta pela redistribuição de renda acabou eclipsada por demandas morais e de inclusão no próprio mercado capitalista. Já na crítica marxista ortodoxa, autores como Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels (2020) denunciam que o identitarismo de esquerda funciona como uma ideologia burguesa que fragmenta a classe trabalhadora e debate apenas quem ocupa o topo da hierarquia social, sem jamais questionar a existência da própria estrutura de classes.

A resposta da direita a esse movimento consistiu em mimetizar exatamente a mesma estratégia. Conforme analisam Francis Fukuyama (2018) e Cas Mudde (2019), setores conservadores e de extrema-direita reordenaram suas pautas sob a lógica do ressentimento e da vitimização, posicionando maiorias históricas (como cristãos e populações “nacionais”) como “minorias perseguidas”. Essa “política de identidade de direita”, investigada por Rogers Brubaker (2020), utiliza o conceito de etnopluralismo para fundamentar o “direito à diferença” e a preservação cultural. O pleito pela contenção migratória ou pela rejeição a pautas progressistas passa a ser enunciado não como preconceito, mas como o exercício de um direito liberal de proteção comunitária.

Para compreender a origem dessa convergência, a teoria dos sistemas-mundo fornece um enquadramento histórico indispensável. Em Após o Liberalismo: Em Busca da Reconstrução do Mundo, Immanuel Wallerstein (2003) explica que o liberalismo se consolidou desde o século 19 como a “geocultura” dominante do capitalismo global, capaz de assimilar e domesticar suas principais oposições. Ao ingressarem nas regras do jogo constitucional e institucional, tanto socialistas quanto conservadores renunciaram a projetos sistêmicos de transformação. A ascensão contemporânea dos identitarismos em ambos os polos é o sintoma desse esgotamento: a gramática liberal dos direitos individuais e do reconhecimento moral tornou-se o único vocabulário disponível para a ação política.

No cerne dessa dinâmica está a primazia do sujeito autônomo, pilar do pensamento liberal clássico. Como aponta Charles Taylor (1992) em seus estudos sobre a “política do reconhecimento”, o imperativo da dignidade individual desdobrou-se na exigência de validação pública das identidades de grupo. Seja na afirmação de pautas de gênero e raça pela esquerda, seja na salvaguarda da liberdade de crença e expressão pela direita, a ferramenta empregada é invariavelmente o constitucionalismo de direitos. Do ponto de vista pós-liberal conservador, Patrick Deneen (2018) argumenta em Why Liberalism Failed que esse cenário é o resultado inevitável do triunfo liberal, que atomizou a sociedade e destruiu as mediações comunitárias tradicionais em nome da autossuficiência do indivíduo.

O efeito prático dessa simetria é a formação de uma “guerra cultural em espelho”, na qual cada lado alimenta o radicalismo do outro. Como observa Mark Lilla (2017) em The Once and Future Liberal, a insistência da esquerda em categorizar os cidadãos por pertencimentos de grupo fornece à direita a justificativa ideal para unificar a chamada “maioria silenciosa” em um novo bloco identitário reagente. Essa polarização estimula um ciclo ininterrupto de acusações mútuas que inviabiliza consensos universalistas, enquanto o ecossistema das plataformas digitais e a economia da atenção recompensam o tribalismo moral e a indignação imediata, suprimindo o debate sobre pautas econômicas transversais.

Essa mutação altera profundamente a função do espaço público e a saúde das instituições democráticas. A política deixa de ser uma arena para negociação de bens materiais escassos, como saúde, salários, trabalho e infraestrutura, e converte-se em um tribunal de validações simbólicas sobre a pureza moral dos discursos. Quando os conflitos políticos são enunciados em termos de identidades profundas e inegociáveis, o opositor partidário deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser percebido como uma ameaça existencial. Como alerta Wendy Brown (2019), esse esvaziamento do debate pragmático abre espaço para a proliferação de discursos autoritários que prometem proteger o indivíduo contra a dominação do grupo rival.

Em suma, o que aparenta ser um confronto radical entre esquerda e direita é, na realidade, a confirmação do triunfo e da hegemonia do liberalismo. Ao canalizarem suas energias para disputas morais e de representatividade particularista, tanto progressistas quanto conservadores renunciaram à construção de projetos de nação integradores e à articulação de alternativas reais ao modelo econômico vigente. No fim, a ruidosa batalha das guerras culturais atua como uma cortina de fumaça que oculta o consenso definitivo da política contemporânea: a aceitação do indivíduo atomizado e da busca pelo reconhecimento do seu grupo como o início e o fim de toda a ação pública.

A dinâmica da polarização política brasileira reflete com precisão esse enquadramento teórico, transformando o embate entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o bolsonarismo em uma disputa eminentemente identitária. Ao longo das últimas décadas, o petismo — originalmente gestado na luta sindical e nas pautas distributivas tradicionais — incorporou de forma central a gramática do reconhecimento das minorias, promovendo políticas de diversidade, cotas e representatividade. Embora esses avanços tenham sido cruciais para a inclusão social, a centralidade desse discurso alinhou a esquerda brasileira à tendência do “neoliberalismo progressista” (Fraser, 2013), deslocando o foco da crítica estrutural ao modelo econômico para uma pauta moral e de direitos individuais de grupos historicamente marginalizados.

Em reação direta a esse movimento, o bolsonarismo emergiu não apenas como uma oposição econômica ou partidária, mas como um projeto identitário de direita altamente articulado. Ao mimetizar a linguagem da vitimização (Fukuyama, 2018; Brubaker, 2020), o movimento construiu uma narrativa de resistência na qual a maioria cristã, a família tradicional e o “cidadão de bem” seriam a nova minoria perseguida por uma hegemonia cultural de esquerda. Amparado por um discurso que invoca o “preconceito religioso” e o direito à “liberdade de expressão”, o bolsonarismo apropriou-se da gramática liberal de proteção de direitos para defender valores conservadores, transformando a defesa da tradição em um ato de afirmação identitária reagente.

O resultado dessa espiral é a consolidação de uma “guerra cultural em espelho” que paralisa o debate sobre os grandes projetos de desenvolvimento nacional. A disputa política brasileira foi convertida em um tribunal de validações simbólicas, onde cada polo se retroalimenta do radicalismo do outro para engajar suas bases nas redes sociais. A oposição de valores inegociáveis – como as pautas de gênero e diversidade versus a moral cristã e a ordem tradicional – substituiu a deliberação pragmática sobre reforma tributária, infraestrutura, industrialização e serviços públicos essenciais, reduzindo a ação política à reafirmação de slogans e ao moralismo das bolhas digitais.

Em última análise, o embate entre petistas e bolsonaristas demonstra como a ideologia liberal absorveu o debate político no Brasil contemporâneo. A despeito do tom inflamado de lado a lado, ambas as correntes operam dentro da matriz do individualismo e do direito de pertencimento, renunciando à formulação de alternativas sistêmicas à dependência e à desigualdade estrutural do país. A ruidosa batalha das guerras culturais brasileiras funciona, assim, como uma cortina de fumaça: ao confinar a população na escolha entre duas comunidades morais antagônicas, preservam-se intactas as dinâmicas mais profundas da concentração de renda e do poder econômico.

 

Fonte: Por Rafael Cesar Ilha Pinto, em Opera Mundi

 

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