A
batalha das identidades entre petismo e bolsonarismo
Por
trás da ostensiva polarização entre socialistas e conservadores, a ciência
política e a sociologia identificam um fenômeno surpreendente: ambos os lados
abandonaram suas matrizes ideológicas tradicionais para adotar a mesma
gramática conceitual de matriz liberal. Em vez de centralizar o debate na luta
de classes ou na preservação da ordem comunitária tradicional, a política
contemporânea converteu-se em uma disputa em torno de identidades particulares.
Essa virada não representa uma ruptura com o establishment, mas sim a
consolidação da ideologia liberal, que reduziu o horizonte político à validação
moral de grupos atomizados e à busca por reconhecimento individual.
No
campo progressista, a mudança é nítida. Movimentos que historicamente lutavam
por transformações estruturais da economia e pela solidariedade universal de
classe passaram a priorizar a representatividade e a diversidade. Conforme
sinaliza Nancy Fraser (2013) ao conceituar o “neoliberalismo progressista”, a
pauta pela redistribuição de renda acabou eclipsada por demandas morais e de
inclusão no próprio mercado capitalista. Já na crítica marxista ortodoxa,
autores como Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels (2020) denunciam que o
identitarismo de esquerda funciona como uma ideologia burguesa que fragmenta a
classe trabalhadora e debate apenas quem ocupa o topo da hierarquia social, sem
jamais questionar a existência da própria estrutura de classes.
A
resposta da direita a esse movimento consistiu em mimetizar exatamente a mesma
estratégia. Conforme analisam Francis Fukuyama (2018) e Cas Mudde (2019),
setores conservadores e de extrema-direita reordenaram suas pautas sob a lógica
do ressentimento e da vitimização, posicionando maiorias históricas (como
cristãos e populações “nacionais”) como “minorias perseguidas”. Essa “política
de identidade de direita”, investigada por Rogers Brubaker (2020), utiliza o
conceito de etnopluralismo para fundamentar o “direito à diferença” e a
preservação cultural. O pleito pela contenção migratória ou pela rejeição a
pautas progressistas passa a ser enunciado não como preconceito, mas como o
exercício de um direito liberal de proteção comunitária.
Para
compreender a origem dessa convergência, a teoria dos sistemas-mundo fornece um
enquadramento histórico indispensável. Em Após o Liberalismo: Em Busca da
Reconstrução do Mundo, Immanuel Wallerstein (2003) explica que o
liberalismo se consolidou desde o século 19 como a “geocultura” dominante do
capitalismo global, capaz de assimilar e domesticar suas principais oposições.
Ao ingressarem nas regras do jogo constitucional e institucional, tanto
socialistas quanto conservadores renunciaram a projetos sistêmicos de
transformação. A ascensão contemporânea dos identitarismos em ambos os polos é
o sintoma desse esgotamento: a gramática liberal dos direitos individuais e do
reconhecimento moral tornou-se o único vocabulário disponível para a ação
política.
No
cerne dessa dinâmica está a primazia do sujeito autônomo, pilar do pensamento
liberal clássico. Como aponta Charles Taylor (1992) em seus estudos sobre a
“política do reconhecimento”, o imperativo da dignidade individual desdobrou-se
na exigência de validação pública das identidades de grupo. Seja na afirmação
de pautas de gênero e raça pela esquerda, seja na salvaguarda da liberdade de
crença e expressão pela direita, a ferramenta empregada é invariavelmente o
constitucionalismo de direitos. Do ponto de vista pós-liberal conservador,
Patrick Deneen (2018) argumenta em Why Liberalism Failed que esse
cenário é o resultado inevitável do triunfo liberal, que atomizou a sociedade e
destruiu as mediações comunitárias tradicionais em nome da autossuficiência do
indivíduo.
O
efeito prático dessa simetria é a formação de uma “guerra cultural em espelho”,
na qual cada lado alimenta o radicalismo do outro. Como observa Mark Lilla
(2017) em The Once and Future Liberal, a insistência da esquerda em
categorizar os cidadãos por pertencimentos de grupo fornece à direita a
justificativa ideal para unificar a chamada “maioria silenciosa” em um novo
bloco identitário reagente. Essa polarização estimula um ciclo ininterrupto de
acusações mútuas que inviabiliza consensos universalistas, enquanto o
ecossistema das plataformas digitais e a economia da atenção recompensam o
tribalismo moral e a indignação imediata, suprimindo o debate sobre pautas
econômicas transversais.
Essa
mutação altera profundamente a função do espaço público e a saúde das
instituições democráticas. A política deixa de ser uma arena para negociação de
bens materiais escassos, como saúde, salários, trabalho e infraestrutura, e
converte-se em um tribunal de validações simbólicas sobre a pureza moral dos
discursos. Quando os conflitos políticos são enunciados em termos de
identidades profundas e inegociáveis, o opositor partidário deixa de ser um
concorrente legítimo e passa a ser percebido como uma ameaça existencial. Como
alerta Wendy Brown (2019), esse esvaziamento do debate pragmático abre espaço
para a proliferação de discursos autoritários que prometem proteger o indivíduo
contra a dominação do grupo rival.
Em
suma, o que aparenta ser um confronto radical entre esquerda e direita é, na
realidade, a confirmação do triunfo e da hegemonia do liberalismo. Ao
canalizarem suas energias para disputas morais e de representatividade
particularista, tanto progressistas quanto conservadores renunciaram à
construção de projetos de nação integradores e à articulação de alternativas
reais ao modelo econômico vigente. No fim, a ruidosa batalha das guerras
culturais atua como uma cortina de fumaça que oculta o consenso definitivo da
política contemporânea: a aceitação do indivíduo atomizado e da busca pelo
reconhecimento do seu grupo como o início e o fim de toda a ação pública.
A
dinâmica da polarização política brasileira reflete com precisão esse
enquadramento teórico, transformando o embate entre o Partido dos Trabalhadores
(PT) e o bolsonarismo em uma disputa eminentemente identitária. Ao longo das
últimas décadas, o petismo — originalmente gestado na luta sindical e nas
pautas distributivas tradicionais — incorporou de forma central a gramática do
reconhecimento das minorias, promovendo políticas de diversidade, cotas e
representatividade. Embora esses avanços tenham sido cruciais para a inclusão
social, a centralidade desse discurso alinhou a esquerda brasileira à tendência
do “neoliberalismo progressista” (Fraser, 2013), deslocando o foco da crítica
estrutural ao modelo econômico para uma pauta moral e de direitos individuais
de grupos historicamente marginalizados.
Em
reação direta a esse movimento, o bolsonarismo emergiu não apenas como uma
oposição econômica ou partidária, mas como um projeto identitário de direita
altamente articulado. Ao mimetizar a linguagem da vitimização (Fukuyama, 2018;
Brubaker, 2020), o movimento construiu uma narrativa de resistência na qual a
maioria cristã, a família tradicional e o “cidadão de bem” seriam a nova
minoria perseguida por uma hegemonia cultural de esquerda. Amparado por um
discurso que invoca o “preconceito religioso” e o direito à “liberdade de
expressão”, o bolsonarismo apropriou-se da gramática liberal de proteção de
direitos para defender valores conservadores, transformando a defesa da
tradição em um ato de afirmação identitária reagente.
O
resultado dessa espiral é a consolidação de uma “guerra cultural em espelho”
que paralisa o debate sobre os grandes projetos de desenvolvimento nacional. A
disputa política brasileira foi convertida em um tribunal de validações
simbólicas, onde cada polo se retroalimenta do radicalismo do outro para
engajar suas bases nas redes sociais. A oposição de valores inegociáveis – como
as pautas de gênero e diversidade versus a moral cristã e a ordem tradicional –
substituiu a deliberação pragmática sobre reforma tributária, infraestrutura,
industrialização e serviços públicos essenciais, reduzindo a ação política à
reafirmação de slogans e ao moralismo das bolhas digitais.
Em
última análise, o embate entre petistas e bolsonaristas demonstra como a
ideologia liberal absorveu o debate político no Brasil contemporâneo. A
despeito do tom inflamado de lado a lado, ambas as correntes operam dentro da
matriz do individualismo e do direito de pertencimento, renunciando à
formulação de alternativas sistêmicas à dependência e à desigualdade estrutural
do país. A ruidosa batalha das guerras culturais brasileiras funciona, assim,
como uma cortina de fumaça: ao confinar a população na escolha entre duas
comunidades morais antagônicas, preservam-se intactas as dinâmicas mais
profundas da concentração de renda e do poder econômico.
Fonte:
Por Rafael Cesar Ilha Pinto, em Opera Mundi

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