12%
dos brasileiros dizem que Lula é um clone. De onde saiu essa teoria que aparece
até em site de culinária?
"Cadê
o Lula? Por que estão escondendo seu verdadeiro paradeiro? Será por que temem
que a eleição seja dada ao seu oponente, caso realmente esteja morto?",
escreveu uma pessoa no X em 9 de novembro de 2022.
Quatro
anos atrás, poucos dias após Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter sido eleito
presidente do Brasil, teorias como essa começaram a surgir nas redes sociais.
Um
suposto "sumiço" de Lula, acompanhado de um post no X feito por um
perfil de notícias argentino que comunicava o falecimento do petista, e um
vídeo durante a transição do governo — em que o vice Geraldo Alckmin (PSB)
aparece sem o presidente — alimentaram as especulações.
Lula
havia tirado uns dias de descanso para viajar para a Bahia com a primeira-dama,
Janja, conforme noticiado pela imprensa. Mas, para muitas pessoas, a viagem
escondia uma única "verdade": Lula havia morrido.
Quando
o presidente voltou a aparecer em público, uma nova teoria surgiu: aquele não
era Lula, mas um substituto. E as versões variavam: ora ele era parte de um
grupo de sósias que se revezavam no papel de presidente, ora usava uma máscara
de silicone, ora precisava evitar eventos com reconhecimento de íris para não
ter o disfarce revelado.
Desde
então, conteúdos que buscam provar que Lula não é quem ele diz ser inundam
perfis e canais nas plataformas digitais, alcançando milhares de pessoas — e
levando muitas a acreditar nessa teoria da conspiração.
Uma
pesquisa do Instituto Meio/Ideia divulgada em agosto mostrou 12,5% dos
entrevistados — o equivalente a uma em cada oito pessoas — responderam que sim
ao serem perguntadas: "Lula foi substituído por um clone ou sósia?".
Um dos
canais de maior alcance que propaga essa teoria é o Receitas do Noca, com mais
de 2,3 milhões de inscritos no YouTube. Criado em dezembro de 2017 por Cláudio
de Andrade Antônio, o canal ficou conhecido por compartilhar receitas, dicas
para a casa, jardinagem e conteúdos do cotidiano.
Em
2024, porém, Noca passou a publicar vídeos sobre política e teorias
conspiratórias. Entre eles, estão conteúdos que levantam suspeitas de que Lula
morreu e que um sósia ocupa seu lugar.
A BBC
News Brasil identificou pelo menos oito vídeos do canal relacionados à teoria,
que somam mais de 1,6 milhão de visualizações. Nos vídeos analisados, Noca
atribui a terceiros a suspeita, mas, ao mesmo tempo, acrescenta elementos,
apresenta "evidências" e faz comentários que ajudam a reforçar a
narrativa.
Em um
vídeo publicado em 24 de outubro de 2024, que tem quase 460 mil visualizações,
por exemplo, ele falou sobre a teoria de que uma rede de clones estaria se
revezando para se passar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Noca
disse que a história "mirabolante" teria sido revelada por uma
suposta ex-funcionária do hospital onde Lula teria morrido. Em seguida,
apresentou "indícios" que corroborariam a teoria.
"Olha
esse vídeo da Gleisi Hoffmann. Lula tinha acabado de ganhar a eleição, esse
vídeo é de transição do governo. Por que eles estavam tão tristes? Alguém tinha
morrido?", questionou Noca.
Em seus
conteúdos, Noca também exibe fotos de Lula em diferentes momentos e chama
atenção para supostas diferenças na "aparência, tom de voz e estilo de
andar". "Não querendo conspirar, mas está bem diferente do
original", disse Noca.
No dia
25 de outubro de 2024, o dono do canal de receitas voltou a falar sobre o tema.
Em um novo vídeo, que soma mais de 700 mil visualizações, ele reproduziu um
áudio de uma suposta ex-funcionária do hospital onde Lula teria morrido.
A
descrição do vídeo — "NOVO áudio bombástico que recebi e que revela que
Lula é mesmo um Clone" — apresenta a alegação como uma revelação. No
áudio, a suposta funcionária levanta a suspeita de que Lula estaria
"congelado" em outro país.
Noca
mantém um padrão nas narrativas, sempre trazendo supostas "novas
evidências" para sustentar a teoria nos vídeos.
No dia
27 de outubro de 2024, por exemplo, ele levantou a hipótese de que Lula não
teria participado da reunião do Brics, na Rússia, naquele ano, porque o acesso
à cúpula exigiria uma identificação por meio da íris dos olhos.
Segundo
a teoria apresenytada no vídeo, para não ter seu disfarce descoberto, o sósia
do presidente teria fingido uma queda no banheiro para justificar sua ausência
na cúpula.
"Será
que Lula não compareceu porque o sistema é de autenticação através da íris dos
olhos pelo Lula não ser Lula? Será que é uma teoria da conspiração ou é
real?", questiona Noca, antes de reproduzir um outro áudio atribuído a
ex-funcionária de hospital.
A BBC
News Brasil procurou Noca, mas não obteve retorno.
Os
vídeos sobre política são minoria no canal de Noca — cerca de 13% de um total
de mais de 1,4 mil conteúdos.
A maior
parte da audiência, portanto, foi conquistada com vídeos sobre receitas e
outros assuntos do cotidiano. Quando começou a publicar conteúdos de teor
político, Noca já tinha mais de 2 milhões de inscritos e acumulava vídeos com
mais de 10 milhões de visualizações.
Segundo
o doutor em Semiótica Paolo Demuru, a mistura de amenidades do dia a dia com
conteúdos de caráter político é comum nas redes sociais, que se tornaram um
espaço central para o debate público.
Essa
sobreposição, destaca Demuru, ajuda a suavizar discursos que, isoladamente,
poderiam ser percebidos como radicais ou extremistas, facilitando a circulação
dessas teorias.
"O
efeito de inserção dessa teoria de conspiração num discurso sobre culinária é
justamente esse: não parece tão absurdo, porque essa pessoa que está me falando
de receita parece uma pessoa simples. Parece o meu vizinho de casa, parece o
meu tio, meu primo. Então, talvez esse conteúdo que ele está postando não seja
tão absurdo assim, tem alguma base", afirma Demuru, que é autor do livro
Políticas do Encanto: Extrema Direita e Fantasias da Conspiração.
Para
ele, o ponto central é a relação de confiança construída com o público que
acompanha esses perfis. No caso de Noca, ela já existia entre uma audiência que
acompanhava o canal principalmente pelas receitas, antes dos vídeos políticos
serem inseridos.
"Esses
conteúdos políticos se enfiam de maneira sorrateira ali dentro. E, a partir
dessa confiança que já foi criada, por meio desses outros discursos, todos eles
ganham visibilidade, ganham potência nesse sentido."
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Por que tantas pessoas acreditam nessas teorias
O caso
de Noca está longe de ser isolado. No TikTok, o perfil de David França reúne
publicações sobre a teoria do suposto clone de Lula que ultrapassam 1 milhão de
visualizações. Entre elas, estão alegações de que um sósia usaria uma máscara
de silicone no rosto para se parecer com Lula e ocupar a Presidência.
Com
cerca de 89 mil seguidores, França já publicou mais de 1,4 mil vídeos na conta
— cerca de 150 relacionados à teoria, segundo levantamento da BBC News Brasil.
Um dos
mais recentes, publicado em agosto de 2026, alcançou 1,2 milhão de
visualizações. Na gravação, ele exibiu imagens de Lula no lançamento oficial da
campanha e afirmou que parte da pele da mão do petista se solta e depois é
colocada de volta.
"Se
você pensava que era só a máscara que era silicone... aí tem mais coisas, viu?
Pode acreditar", disse David.
A BBC
News Brasil procurou o dono do perfil, mas ele não respondeu ao contato.
Nos
comentários, a narrativa encontrou eco. "Por que ninguém faz nada?",
escreveu uma seguidora. "Isso tem que ser investigado de forma muito
séria", disse outra.
Conforme
mostrou uma checagem do portal Aos Fatos, Lula estava ajeitando o curativo que
usava na mão e que ficava descolando da pele durante o evento.
Em seu
livro, Demuru chama as teorias da conspiração de "fantasias da
conspiração" e argumenta que a escolha do termo ajuda a entender por que
narrativas que podem parecer tão absurdas para algumas pessoas conseguem atrair
tantas outras.
Segundo
ele, o absurdo tem um poder próprio: ele produz uma espécie de encantamento na
sociedade contemporânea, marcada por dificuldades e incertezas.
"As
teorias ou fantasias da conspiração nos tiram um pouco da monotonia, da
realidade da nossa vida cotidiana. Elas nos catapultam, nos levam a uma
dimensão que é aquela da imaginação. É um pouco como acontece com as crianças
que fingem viver em mundos fictícios, e isso causa a empolgação. Isso causa
engajamento coletivo, inclusive", destaca.
Ao
mesmo tempo, essas fantasias não estão separadas da política, segundo Demuru.
Elas se conectam a crenças e visões de mundo que já existem entre determinados
grupos.
"Nesse
caso da teoria do Lula, ao grupo de extrema direita ligado ao bolsonarismo, que
já carrega e já vem com uma bagagem de crenças constituídas, mas que escolhe
acreditar nessas teorias, ou melhor, fantasias, justamente porque elas promovem
uma espécie de maravilha."
Por
isso, Demuru defende que pessoas que acreditam em teorias da conspiração não
devem ser vistas simplesmente como "absolutamente ingênuas" ou como
pessoas que demonstram "maluquice" ou "ignorância".
"É
uma fuga legítima desse peso da realidade, dessa busca, desse desejo, talvez
muitas vezes genuíno, por outro mundo e por uma história que, de alguma
maneira, encante."
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A cronologia da teoria
A
teoria conspiratória de que Lula morreu e foi substituído por um clone começou
a circular em novembro de 2022, poucos dias depois de ele vencer a eleição
presidencial.
Os
primeiros posts identificados pela BBC News Brasil no X foram publicados em 4
de novembro, quando algumas pessoas começaram a perguntar: "Lula
morreu?", sem apresentar uma explicação aparente para a dúvida.
No dia
seguinte, usuários da mesma rede relataram que familiares estavam recebendo
mensagens em grupos de WhatsApp afirmando que Lula estava morto.
Horas
depois, às 21h41 de 5 de novembro, o perfil Larreta News publicou um comunicado
de falecimento, acompanhado de uma imagem de Lula, anunciando sua suposta
morte. A publicação, que continua no ar até hoje, dizia que o então presidente
eleito tinha sido internado na Bahia após sofrer um AVC (acidente vascular
cerebral).
Criado
em maio de 2022, o Larreta News se apresenta como um canal de notícias ligado a
Horacio Rodríguez Larreta, ex-prefeito de Buenos Aires. A conta já publicou
outras informações falsas, incluindo uma sobre a suposta morte do ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
A BBC
News Brasil não conseguiu contato com o perfil.
Nos
dias seguintes, começaram a circular nas redes sociais áudios atribuídos a
enfermeiras e médicas que supostamente trabalhariam no Hospital Sírio-Libanês.
Nos
relatos, sem identificação das autoras, dizia-se que Lula teria passado mal
durante a viagem para a Bahia e teria sido levado às pressas para São Paulo,
onde teria morrido. Algumas das mensagens mencionavam a publicação do Larreta
News e apontavam 20h45 como o suposto horário da morte.
Em 7 de
novembro, o pastor Sandro Rocha, apoiador da campanha de Jair Bolsonaro (PL) e
dono de um canal com mais de 700 mil seguidores no YouTube, fez uma transmissão
ao vivo questionando o paradeiro de Lula.
"Por
que estão publicando fotos antigas? Por que não tem foto nova do Lula?",
perguntou Rocha. Ao longo de novembro, ele publicou uma série de conteúdos em
que sugeriu que Lula teria morrido e que um sósia estaria no seu lugar.
Ao
mesmo tempo, a teoria passou a incorporar acontecimentos reais como supostos
indícios de que algo teria acontecido.
Um
deles foi a ida de Lula ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em 12 de
novembro de 2022 — para realizar exames antes de sua viagem à COP27, no Egito —
e o retorno ao hospital, no dia 21 daquele mês, para uma cirurgia na garganta.
"Estão
falando que o Lula morreu desde sábado dia 19/11/2022! No Hospital
Sírio-Libanês, no sexto andar! Morreu de infarto do miocárdio! Estão falando
que o STF não quer que divulguem! Isso é verdade?", escreveu uma pessoa no
X em 24 de novembro de 2022.
A
ausência de Lula na equipe de transição do governo, que foi liderada pelo vice
Geraldo Alckmin, também gerou desconfiança.
"O
rosto de espanto da mulher do outro lado com a boca aberta não esconde que
sabiam de alguma coisa. O Lula morreu nesse dia, o Geraldo falando tranquilo,
achando que iria assumir a presidência...", escreveu uma pessoa em um
vídeo da transição do governo publicado pelo Partido dos Trabalhadores, em
dezembro, no YouTube.
Nas
redes sociais, circulavam alegações de que tudo estaria sendo mantido em
segredo por razões políticas. Segundo essa teoria, seria necessário esconder a
morte de Lula até a diplomação para evitar uma reação dos militares ou até
mesmo para impedir que Jair Bolsonaro assumisse a Presidência.
Essa
interpretação, porém, não encontra respaldo nas regras de sucessão. De acordo
com a legislação eleitoral, se o presidente eleito morrer antes da diplomação,
o vice-presidente eleito assume a condição de presidente eleito.
À
medida que Lula passou a participar de compromissos públicos, um desdobramento
dessa teoria começou a ganhar força: a de que Lula teria sido substituído por
um sósia.
Vídeos
passaram a comparar imagens antigas de Lula com fotos atuais e apontar supostas
diferenças nos dedos das mãos, nos olhos, no formato do rosto e em outras
características físicas.
Um dos
conteúdos, por exemplo, afirmou que Lula aparecia na COP27 com "10
dedos" e usava uma imagem de sua mão como suposta prova de que ele seria
um sósia. A imagem, porém, mostrava a mão direita, que tem cinco dedos, e não a
esquerda, que tem quatro — um deles, o dedo mínimo da mão esquerda, foi perdido
em um acidente de trabalho, em 1964, quando Lula era metalúrgico.
Outros
vídeos chegaram a manipular imagens para acrescentar um dedo à mão do
presidente e a exibir máscaras de silicone supostamente usadas por pessoas para
se passar por Lula.
A busca
por indícios para confirmar uma teoria é uma característica comum do discurso
conspiratório, segundo Demuru. No caso da narrativa sobre o clone de Lula,
vídeos e publicações nas redes sociais recorrem justamente a esse mecanismo,
que Demuru compara a uma espécie de "caça ao tesouro".
"Isso
é muito interessante, porque se vai atrás justamente desses pequenos detalhes:
'Mas olha, você não viu que aqui a mão do Lula tem quatro dedos? Você não viu
que que aqui o olho dele está dessa forma?' Isso gera um engajamento tanto
individual quanto coletivo", destaca.
Desde
2022, Aos Fatos e Agência Lupa — duas das principais agências de checagem do
país — publicaram pelo menos 20 verificações sobre a teoria, segundo
levantamento da BBC News Brasil.
Isso,
contudo, não impediu que a narrativa voltasse a circular. Em uma análise
publicada em setembro, o Aos Fatos mostrou que a alegação de que Lula teria
sido substituído por um clone ou sósia viralizou novamente durante a campanha
eleitoral. A agência disse à BBC News Brasil que ainda recebe pedidos de
checagem sobre o assunto.
Nos
últimos anos, a teoria também reapareceu em momentos em que Lula passou por
novos procedimentos médicos, como em setembro de 2023, quando fez uma cirurgia
no quadril, e em outubro de 2024, depois de sofrer uma queda antes de uma
viagem à Rússia.
Os
dados de buscas do Google ajudam a mostrar essa recorrência. As buscas com
"Lula morreu" voltaram a subir nesses períodos e tiveram uma nova
elevação em 2026.
Já
termos como "Lula sósia" e "Lula clone" também registraram
aumento em outros momentos, como em junho de 2025, quando vídeos comparando
fotos de Lula voltaram a circular após sua participação na cúpula do G7.
Segundo
Demuru, a própria lógica da conspiração, que surge a partir da desconfiança,
ajuda a explicar por que a narrativa continua ressoando em milhares de pessoas.
"A
criação de dúvida e da suspeita move o corpo social, porque a gente tem uma
suspeita e a gente age como se fosse um pequeno investigador e vai atrás e quer
saber um pouco dessas coisas e quer comprovar, quer ter razão também."
Ele
compara esse mecanismo ao da fofoca, que é alimentada pelo desejo coletivo de
buscar informações e saber cada vez mais sobre aquilo.
"A
fofoca não é fofoca se permanece no indivíduo, ela precisa ser compartilhada.
Da mesma forma, o discurso conspiratório, nesse caso, a teoria do clone do
Lula, age de maneira muito parecida, como se fosse uma grande fofoca que
alimenta suspeitas, dúvidas, busca de indícios, e do 'e se for verdade'."
Fonte:
BBC News Brasil

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