Jorge
Folena: Que a Padroeira do Brasil nos salve do bolsonarismo
A
devoção a Nossa Senhora Aparecida vem desde o século XVIII, quando a imagem da
Santa foi encontrada por três pescadores no Rio Paraíba do Sul, em 1.717.
Em
razão dessa devoção popular, em 1929, num congresso Mariano, a Igreja Católica
encaminhou ao Vaticano o pedido para que Nossa Senhora Aparecida fosse
reconhecida como Padroeira do Brasil, o que foi acolhido pelo Papa Pio XI, em
16/07/1930.
Em
31/05/1931, Nossa Senhora Aparecida foi proclamada pelo Vaticano; ou seja, há
95 anos a Igreja Católica reconheceu a Santa como padroeira dos católicos
brasileiros, tendo em conta a forte tradição histórica e cultural, como
descrito por Camila Moraes no texto Há 95 anos, Nossa Senhora Aparecida era
proclamada padroeira do Brasil, publicado em 01/06/2026, no Vatican News.
Diante
das grandes movimentações populares em torno da Santa, em 1980 (durante a
ditadura de 1964-1985), em consequência da visita do Papa João Paulo II, o
governo do General Figueiredo sancionou a lei que estabeleceu o feriado
nacional de 12 de outubro, em reconhecimento da Padroeira do Brasil, pois
facilitaria os deslocamentos dos peregrinos à Basílica de Nossa Senhora
Aparecida, na mesma cidade, e que influenciou até mesmo o fluxo de pessoas para
os festejos do Círio de Nazareth, na Cidade de Belém do Pará, na mesma data.
Não foi
o Estado brasileiro que reconheceu Nossa Senhora Aparecida como padroeira do
Brasil, mas a Igreja Católica, em 1931. O Estado, diante da tradição histórica
e cultural do povo brasileiro, apenas estabeleceu o feriado nacional de 12 de
outubro, que foi sancionado por lei federal em 1980.
Assim,
nada há de inconstitucional no fato de o Estado ter estabelecido lei fixando o
feriado religioso em homenagem a Nossa Senhora da Aparecida.
A
propósito, o Supremo Tribunal Federal, quando analisou se os crucifixos ou
outros símbolos religiosos deveriam ser mantidos ou retirados de
estabelecimentos públicos, entendeu que a tradição cultural e o valor histórico
da devoção popular não constituem violação ao princípio da laicidade, devendo
tais símbolos, como feriados religiosos, serem mantidos, conforme decidido no
julgamento do tema 1.086: A presença de
símbolos religiosos em prédios públicos, pertencentes a qualquer dos Poderes da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, desde que tenha o
objetivo de manifestar a tradição cultural da sociedade brasileira, não viola
os princípios da não discriminação, da laicidade estatal e da impessoalidade.
Portanto,
não existe fundamento para os bolsonaristas neopentecostais se colocarem contra
a tradição cultural brasileira, que tem Nossa Senhora Aparecida como Padroeira
do Brasil, assim reconhecida pela Igreja Católica; igualmente, nada existe para
embasar sua contrariedade ao feriado nacional de 12 de outubro.
Longe
de ser uma fake new, a verdade é que parcela expressiva do bolsonarismo defende
a supremacia do neopentecostalismo sobre as demais religiões, entre elas a
católica e as de matriz africana, e que muitos não reconhecem a importância do
papel da mulher na sociedade, principalmente das mulheres negras, descendentes
de africanos escravizados, representadas pela imagem da Nossa Senhora Negra de
Aparecida.
O
bolsonarismo se sustenta por meio de uma política de disseminação de ódio e
preconceito, o que deve ser rejeitado, porque fere frontalmente os princípios
fundamentais da sociedade brasileira e atenta contra a Constituição, que
estabelece como um dos objetivos do Estado nacional a proibição a toda e
qualquer forma de preconceito, seja racial, sexual, religioso e de origem.
Feita a
reflexão, esperamos que, nesta reta final da campanha eleitoral de 2026, a
polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida possa servir para salvar o Brasil do
bolsonarismo, com a reeleição consagradora do presidente Lula no primeiro
turno, em 04 de outubro.
Fonte:
Brasil 247

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