Um
Milhão de Cisternas: programa que transformou o Semiárido
Há 23
anos, o governo Lula iniciava a implementação do “Programa Um Milhão de
Cisternas” (P1MC). O objetivo central do programa era garantir a segurança
hídrica das famílias que vivem no Semiárido brasileiro, uma região
historicamente marcada por secas prolongadas e por períodos de grave escassez
de água. O programa promoveu a construção em larga escala de cisternas de
placas de cimento, uma solução de baixo custo que transformou a vida de milhões
de pessoas e fortaleceu a autonomia das comunidades rurais.
O
“Programa Um Milhão de Cisternas” surgiu a partir de uma iniciativa popular dos
próprios moradores do Semiárido nordestino. Sua criação está diretamente ligada
à III Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à
Desertificação (COP-3), realizada em 1999 na cidade de Recife, Pernambuco.
Em um
evento paralelo à conferência oficial, mais de 3.000 organizações da sociedade
civil, incluindo ONGs, sindicatos, cooperativas, associações comunitárias e
movimentos sociais, se reuniram para fundar a Articulação Semiárido Brasileiro
(ASA), propondo uma agenda de convivência sustentável com o bioma.
Ainda
em 1999, a ASA lançou o “Programa de Formação e Mobilização Social para a
Convivência com o Semiárido”, tendo como principal iniciativa um projeto-piloto
que previa a construção de 500 cisternas para o armazenamento da água da chuva.
A falta de apoio governamental, no entanto, impediu a ampliação da iniciativa.
O
programa foi efetivamente impulsionado a partir de 2003, após a chegada de Lula
à Presidência da República. O “Programa Um Milhão de Cisternas” foi então
incorporado à estratégia Fome Zero e transformado em política pública, passando
a receber recursos do Orçamento Geral da União. A ASA participou ativamente da
implementação do programa, gerindo os recursos e coordenando a construção em
larga escala dos reservatórios.
As
cisternas são construídas nos quintais das casas dos moradores do Nordeste,
utilizando placas pré-fabricadas. Os reservatórios possuem capacidade para
armazenar até 16 mil litros de água — volume suficiente para abastecer uma
família de 6 pessoas por até 8 meses durante o período de estiagem.
As
cisternas são abastecidas por água da chuva captada dos telhados das
residências por um sistema de calhas e equipadas com coadores, sistemas de
filtragem e bombas manuais. O programa também auxilia no incremento da renda
das comunidades, pois os próprios moradores dos municípios beneficiados são
capacitados e remunerados para atuar na construção das cisternas.
A soma
desses reservatórios permite o acúmulo de mais de 20 bilhões de litros de água.
A água é estocada para fins diversos — consumo humano, produção de alimentos,
criação de animais e plantio e irrigação de hortas. Parte das cisternas permite
o estoque de água de reuso para utilizar na limpeza doméstica e afazeres em
geral.
A
construção das cisternas permitiu um avanço sem precedentes rumo à
universalização do acesso à água potável, melhorando as condições de vida e
atenuando o flagelo social decorrente dos períodos de estiagem no Nordeste.
Desde 2003, já foram construídos mais de 1,2 milhão de reservatórios, atendendo
mais de 5 milhões de pessoas.
O
programa teve impacto muito positivo para a saúde da população atendida. Uma
pesquisa realizada pela Fiocruz apontou redução de até 79% dos casos de doenças
diarreicas e de infecções parasitárias nas comunidades equipadas com os
reservatórios. Também houve uma redução acentuada das taxas de mortalidade
infantil e uma queda de até 37% no número de internações de crianças.
O
acesso permanente à água potável também permitiu que os pequenos agricultores
continuassem irrigando suas lavouras durante a estiagem, atenuando o impacto da
fome, mantendo sua fonte de renda e eliminando a necessidade de deslocamento
para outras regiões, como era comum até a década de 1990.
Outra
grande vantagem propiciada pelo programa é a descentralização e a
democratização da água, pois os reservatórios são individuais, construídos no
quintal de cada família. O sistema tende, portanto, a superar o modelo
tradicional de dependência dos açudes concentrados em terras particulares,
controladas por latifundiários e coronéis, ou dos carros-pipa a serviço de
políticos influentes que forneciam água em troca de votos ou favores. O
programa concede maior autonomia para as comunidades sertanejas, que passam a
ser gestoras de sua própria água, imunes às chantagens políticas e econômicas
dos poderosos da região.
Junto
com o Programa de Aquisição de Alimentos (priorizando as compras públicas de
cooperativas ligadas à agricultura familiar), com o Programa Fome Zero e com o
Bolsa Família, o “Programa Um Milhão de Cisternas” permitiu que, pela primeira
vez, os nordestinos do Semiárido conseguissem atravessar uma seca em boas
condições.
Em
2012, a Região Nordeste foi atingida pela pior estiagem dos últimos 40 anos,
mas as famílias camponesas conseguiram obter água, comida, alimentar seus
rebanhos, manter suas atividades comerciais e lavouras e atravessar a seca sem
maiores problemas. Não se registrou a migração em massa de flagelados rumo às
capitais ou cenas de famílias esmaecidas pela fome pedindo comida nas beiras
das rodovias.
O
“Programa Um Milhão de Cisternas” foi internacionalmente aclamado e inspirou
diversas iniciativas pelo mundo. Em 2017, o projeto recebeu o Prêmio
Internacional de Política para o Futuro, durante uma cerimônia realizada em
Ordos, na China. Em 2019, o P1MC foi laureado com o Prêmio Sementes da
Organização das Nações Unidas (ONU).
Após o
golpe parlamentar de 2016, no entanto, o programa passou a ser sucateado. Em
2017, o governo de Michel Temer determinou uma redução de 95% no orçamento do
P1MC, que despencou de 248 milhões de reais para 20 milhões de reais. Bolsonaro
aprofundou ainda mais o desmonte e instalou o menor número de cisternas desde o
início do projeto. A quantidade de novas cisternas caiu de 149 mil unidades em
2014 para apenas 4 mil unidades em 2022 — uma redução de 97%.
A
retomada do programa ocorreu em 2023, após o retorno de Lula à Presidência.
Desde o início do novo mandato, foram entregues mais de 104 mil cisternas e
anunciados investimentos de 1,7 bilhão de reais em tecnologias sociais de
acesso à água potável. O governo federal também determinou a extensão do
programa para novas regiões, em especial a Amazônia, e voltou a priorizar a
execução em parceria com a sociedade civil.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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