Temporão:
os temas da saúde silenciados no debate eleitoral
Há um
silêncio perturbador que atravessa o debate político no contexto das eleições
de 2026, envolvendo vários temas caros ao campo da saúde pública.
Embora
a pesquisa Datafolha de março de 2026 aponte que a saúde lidera as preocupações
dos eleitores, as plataformas eleitorais dos vários partidos, em temas
estratégicos, ou está ausente ou se apoia em diagnósticos genéricos e propostas
superficiais.
Enquanto
setores do campo progressista silenciam por receio de confrontar crenças
religiosas ou visões conservadoras, a direita omite-se por oposição ideológica
a qualquer forma de regulação estatal sobre mercados e comportamentos.
A
perspectiva da saúde coletiva exige que se discutam as evidências científicas e
que se revelem os determinantes sociais e comerciais da saúde, que as campanhas
ocultam sob o manto da conveniência eleitoral.
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Direitos sexuais e reprodutivos: a mortalidade materna que não se discute
A
mortalidade materna no Brasil permanece como uma das mais cruéis evidências da
desigualdade racial e social no país. Um estudo nacional publicado em janeiro
de 2026 no International Journal of Environmental Research and Public Health
revelou que, entre 2000 e 2020, foram registradas no país 40.907 mortes
maternas, das quais quase 60% ocorreram entre mulheres pretas e pardas.
Os
dados demonstram que mulheres negras possuem quase o dobro de risco de morte
materna em comparação às brancas, evidenciando um racismo estrutural que
permeia a atenção obstétrica. Por outro lado, dados da Unicamp divulgados em
janeiro de 2026 indicam que, dos 19.535 óbitos maternos registrados entre 2012
e 2022, 663 estavam diretamente relacionados ao aborto, atingindo
majoritariamente mulheres pretas, indígenas e acima de 40 anos.
Em
setembro de 2025, a organização Criola reforçou este cenário ao demonstrar que,
mesmo nos casos em que o aborto é legalmente permitido (estupro, risco de vida
ou anencefalia), barreiras institucionais e judiciais impedem o acesso
tempestivo ao serviço.
A
criminalização do aborto não elimina a prática, e atua como um vetor de
letalidade penalizando corpos específicos, e transformando um grave problema de
saúde pública em uma falsa questão moral que nenhum candidato ousa enfrentar.
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Cigarros eletrônicos: a nova geração de fumantes
O
controle do tabagismo no Brasil, historicamente uma referência global, enfrenta
uma ameaça crítica com o crescimento do uso dos dispositivos eletrônicos.
Embora a Anvisa tenha mantido a proibição desses produtos em 2024, o mercado
clandestino avança de forma preocupante.
O
Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de junho de 2025, revelou
que 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos utilizam cigarros eletrônicos, um
consumo cinco vezes superior ao do tabaco convencional nesta faixa. A Pesquisa
Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE em maio de 2026,
confirmou que a experimentação entre jovens saltou de 16,8% em 2019 para mais
de 27% em 2024, um crescimento expressivo em apenas cinco anos.
Enquanto
a indústria do tabaco reposiciona-se estrategicamente para capturar novos
consumidores, ameaçando décadas de políticas públicas de cessação do tabagismo,
o tema permanece ausente dos programas de governo dos candidatos.
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Publicidade de bebidas alcoólicas
A
regulação do álcool no Brasil é marcada por uma anomalia legislativa que
completa 30 anos em 2026: A Lei 9.294/1996 que isenta a cerveja de restrições
publicitárias efetivas por possuir teor alcoólico inferior a 13 graus
Gay-Lussac. Em junho de 2025, a ACT Promoção da Saúde e mais de 100
organizações científicas assinaram uma carta aberta exigindo a proibição da
publicidade de qualquer bebida alcoólica, apoiando projetos de lei que tramitam
no Congresso Nacional
Já, a
Organização Mundial da Saúde, classifica o álcool como cancerígeno e afirma
categoricamente que não existe nível seguro de consumo, alertando para as
lacunas gritantes na regulação do marketing digital, que utiliza
influenciadores para atingir o público jovem.
Pesquisas
da USP de maio de 2026 indicam que o álcool está presente em 53% das mortes
violentas no país, atuando como catalisador de homicídios e acidentes. Apesar
disso, a discussão sobre a restrição do marketing de bebidas alcoólicas é
silenciada pelo lobby da indústria cervejeira.
A
ausência deste tema no debate eleitoral impede o avanço de políticas de redução
do consumo nocivo e mantém crianças e adolescentes expostos à publicidade, que
estimula o consumo de uma substância psicoativa, vinculando seu consumo ao
sucesso social e ao lazer, ignorando os custos humanos e sanitários
imensuráveis.
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Redes sociais, negacionismo em saúde e infodemia
A
desinformação em saúde tornou-se uma ameaça direta à cobertura vacinal e à
segurança sanitária do Brasil. Uma revisão sistemática publicada em julho de
2026 na Frontiers in Public Health demonstrou que a hesitação vacinal,
alimentada por mitos como a falsa associação entre vacinas e autismo, é
diretamente impulsionada pela desinformação nas redes sociais.
Estudo
da revista Vaccine (2025) já havia identificado que a propagação de notícias
falsas é a principal razão citada por pais para a não vacinação de filhos. O
impacto é visível no ressurgimento de doenças imunopreveníveis e na
deterioração da saúde mental de jovens expostos a conteúdos nocivos e sem
controle.
A
regulação das plataformas digitais, embora urgente, é evitada pelos candidatos
sob o pretexto da liberdade de expressão, ignorando que a infodemia produz
morbimortalidade real e mensurável. A ausência de propostas para a
responsabilização das plataformas por conteúdos que atentem contra a saúde
pública cria um vácuo perigoso.
O
negacionismo científico, que ganhou força em crises sanitárias recentes,
continua a operar sem contraponto estatal estruturado, deixando o SUS
vulnerável a crises de confiança que comprometem a eficácia de campanhas de
prevenção e o enfrentamento de futuras emergências em saúde pública.
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A epidemia silenciosa dos acidentes envolvendo motocicletas
O
Brasil vive uma epidemia que nenhum candidato à Presidência aborda como um
problema de saúde pública.
Segundo
o IPEA, a mortalidade por acidentes de motocicleta aumentou mais de 15 vezes em
três décadas, tendo crescido 38,2% entre 2019 e 2024. Hoje eles representam 40%
de todos os óbitos por acidentes de trânsito no país (mais de 38 mil vidas
perdidas em um único ano); trazendo expressiva sobrecarga ao SUS, em termos de
internações, cirurgias e reabilitação.
As
vítimas são majoritariamente jovens negros da periferia, motociclistas
profissionais que sustentam famílias pelo mototáxi ou que trabalham para
aplicativos de entregas, e cujas sequelas — amputações, traumatismos
cranioencefálicos, incapacidade laboral permanente — geram importante impacto
sobre o sistema de saúde e de previdência.
A
expansão explosiva da frota, impulsionada pela precarização do transporte
público e pelo crescimento dos aplicativos de entrega, converteu a motocicleta
em instrumento de trabalho de milhões de brasileiros, mas também em vetor de
letalidade em escala epidêmica.
Apesar
disso, o tema é tratado exclusivamente no âmbito das áreas de transporte e
emprego, nunca como questão sanitária. Enquanto a regulação da atividade avança
através de estímulos à sua liberalização; a prevenção, a fiscalização, a
qualificação dos condutores, a infraestrutura viária e a assistência às vítimas
ficam em segundo plano. A ausência desse tema das plataformas dos partidos
revela a recusa em enfrentar os determinantes estruturais da morbimortalidade
por acidentes de moto no país.
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Além
dos temas analisados acima, existem dois outros que estão presentes nas agendas
dos candidatos, mas a discussão não se apresenta com a profundidade necessária.
Refiro-me aos temas da violência estrutural e do financiamento do SUS.
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Violência estrutural: a letalidade desigual
A
segurança pública no Brasil é frequentemente debatida sob uma lógica que ignora
a complexidade da violência estrutural. O Anuário Brasileiro de Segurança
Pública 2026 aponta que, embora as mortes violentas tenham sido reduzidas em
2025, a letalidade policial atingiu recordes e as vítimas continuam sendo
majoritariamente jovens negros e da periferia. O feminicídio também registrou
recorde pelo quarto ano consecutivo, com 1.571 casos em 2025, ocorrendo
majoritariamente dentro do ambiente doméstico. A violência sexual contra
crianças e adolescentes apresentou um aumento de 183,5% nos últimos 11 anos,
com 59.887 notificações apenas em 2025, revelando uma epidemia silenciosa que o
debate eleitoral sequer levanta como uma questão sanitária relevante.
Enquanto
isso, a política de drogas permanece um tabu, com o Congresso reagindo à
possível descriminalização pelo STF através da “PEC das Drogas”, reforçando a
linha voltada para o encarceramento massivo, ao invés de estratégias de redução
de danos. A política de segurança é reduzida a “mais polícia e mais presídios”,
ignorando que a violência é um fenômeno com determinantes sociais profundos.
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Financiamento do SUS: o Piso Constitucional sob cerco
A
Emenda Constitucional nº 29/2000, que estabelece pisos constitucionais para
aplicação mínima em saúde por União, estados e municípios, é o principal
instrumento jurídico de proteção do orçamento da saúde pública brasileira.
Apesar do crescimento real observado a partir de 2023, com o fim do teto de
gastos e a transição para o novo arcabouço fiscal, o gasto per capita
brasileiro em saúde ainda corresponde a aproximadamente um terço da média da
OCDE, e o Brasil permanece como o único país com sistema universal onde o gasto
privado supera o gasto público.
Por
outro lado, renúncias e subsídios ao setor privado atingiram R$ 88 bilhões em
2025, equivalentes a aproximadamente 36% do orçamento do Ministério da Saúde —
contra cerca de 30% em 2015 —, beneficiando principalmente grupos de maior
renda.
Apesar
das evidências do subfinanciamento crônico do SUS serem robustas, posições no
Congresso e no debate público vêm defendendo a flexibilização do piso
constitucional da saúde, argumentando que essa seria uma medida necessária para
o equilíbrio das contas públicas, e de que a atual vinculação de receitas
restringiria a alocação eficiente de recursos.
O
centro do debate na verdade é político pois o próximo governo,
independentemente de sua orientação política, enfrentará pressões para fazer o
ajuste fiscal, sendo a desvinculação dos mínimos constitucionais na saúde e na
educação, apresentada reiteradamente pela grande mídia, como um atalho
tentador.
A falta
de debate sobre tema de tamanha relevância oculta as causas estruturais do
desequilíbrio fiscal que são a política de juros, a manutenção de renúncias
fiscais e tributárias bilionárias e a regressividade do sistema de impostos,
não as salvaguardas constitucionais que garantem a saúde como um direito de
cidadania. Além disso, ao converter o piso em variável do ajuste, fragiliza-se
a sustentabilidade do financiamento e se amplia a dependência do orçamento do
SUS, das emendas parlamentares, o que compromete sua sustentabilidade política
e econômica.
O
movimento sanitário — Frente pela Vida, Abrasco, Cebes, Conass, Conasems entre
outras entidades — sustenta que a expansão do gasto público é condição
inegociável para a efetividade do SUS, especialmente diante do envelhecimento
populacional, da crescente carga de doenças crônicas e dos impactos sanitários
da crise climática. Portanto, defender a elevação do gasto público para 60% do
gasto total em saúde, é condição sine qua non para garantir, de fato, o SUS
universal.
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Considerações finais
A
ausência desses temas ou sua análise em dimensão superficial, no debate
eleitoral de 2026, não é acidental, mas sim o resultado de uma lógica política
que privilegia o imediatismo retórico em detrimento da complexidade estrutural.
Tratar
direitos reprodutivos, apostas online, cigarros eletrônicos, publicidade de
álcool, infodemia e violência estrutural entre outros temas como questões
interconectadas, exigiria admitir que a saúde é um produto direto das políticas
públicas e dos determinantes sociais e comerciais. Em cada um desses eixos,
observa-se a mesma tensão, onde a evidência científica aponta para a
necessidade de regulação e proteção social, enquanto a conveniência política
dita o silêncio e a manutenção do status quo.
A
perspectiva da saúde coletiva é o que falta para qualificar o debate, trazendo
a compreensão de que esses fenômenos possuem padrões de distribuição e fatores
de risco que devem ser enfrentados com coragem política.
Enquanto
as candidaturas se esquivam de temas considerados “espinhosos”, a realidade
impõe-se de forma trágica. Enfrentar esses silêncios é a única via para colocar
o debate político na saúde em outro patamar.
Fonte:
Por José Gomes Temporão, em Outra Saúde

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