Surto
de ebola preocupa cientistas
O atual
surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) voltou a colocar a
doença em destaque sob os olhos da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo
a entidade, a condição já causou mais de 2.500 mortes em três meses e avança de
"forma exponencial". Desta vez, o responsável pela contaminação é o
vírus Bundibugyo, para o qual não há vacinas ou tratamentos específicos. A
situação é agravada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e
circulação de pessoas entre fronteiras, o que dificulta a vigilância, o
atendimento médico e o controle da transmissão. Enquanto isso, a ciência luta
para entender mais sobre o patógeno e tenta buscar alternativas para combater o
quadro.
Os
avanços obtidos contra o vírus ebola, antigamente chamado de Zaire, desde a
grande epidemia da África Ocidental, entre 2014 e 2016, permitiram desenvolver
vacinas e tratamentos capazes de salvar vidas. No entanto, essas ferramentas
não podem ser automaticamente aplicadas ao surto atual, por se tratar de outro
agente patogênico.
A
discussão ganha ainda mais importância diante de uma descoberta recente, mesmo
depois de superar a fase aguda da doença, alguns pacientes podem permanecer com
o vírus alocado em determinadas regiões do organismo. Um estudo publicado na
revista Nature Microbiology investigou justamente como o ebola consegue se
esconder no sistema nervoso central humano.
Uma
coalizão internacional de pesquisadores e de outras instituições utilizaram
organoides cerebrais humanos para acompanhar a infecção durante períodos
prolongados. Essas estruturas tridimensionais, produzidas a partir de
células-tronco, permitem estudar a interação entre vírus e células nervosas em
um modelo diferente dos animais de laboratório.
Os
pesquisadores observaram que o ebola conseguiu se replicar nos organoides por
até 120 dias. O vírus infectou diferentes células, como neurônios e astrócitos,
enquanto as microglias, responsáveis por funções imunológicas no cérebro,
também foram atraídas para as áreas doentes e acabaram sendo infectadas. O
patógeno se espalhou tanto diretamente entre células vizinhas quanto por meio
do brotamento de novas partículas virais.
Segundo
os autores, o resultado é importante, sobretudo, porque indica uma chamada
'persistência produtiva'. Em vez de permanecer
inativo dentro das células, o vírus continuou capaz de produzir
partículas infecciosas. A resposta imunológica também não foi suficiente para
eliminá-lo. Os organoides apresentaram aumento de citocinas pró-inflamatórias,
sugerindo que a permanência do patógeno pode provocar uma inflamação
prolongada.
De
acordo com a publicação, esse mecanismo pode ajudar a explicar complicações
observadas em alguns sobreviventes do ebola. Meses após a infecção inicial,
algumas pessoas podem desenvolver inflamações que afetam os olhos, as meninges
ou o cérebro.
André
Bon, coordenador de infectologia do Hospital Brasília e chefe de infectologia
da Rede Américas, afirma que a persistência do vírus ebola durante meses,
depois da recuperação do paciente, é bem conhecida. "Líquidos como o humor
vítreo e o sêmen podem manter o vírus viável durante meses. Inclusive, existe
relato na literatura de transmissão sexual do ebola de um homem para uma mulher
através do sêmen contaminado desse paciente que, justamente, havia meses estava
em recuperação após a infecção aguda."
Bon diz
ainda que o conhecimento dessas persistências é relevante: "Temos pouco
conhecimento sobre algumas partes da fisiopatologia do ebola, por conta da
localidade onde a doença acontece e por não haver centros avançados de
pesquisa. Mas achados novos sobre a persistência do vírus em outros líquidos ou
tecidos corporais são importantes para entender cada vez mais a doença".
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Genomas defeituosos
O
estudo encontrou ainda alterações no material genético do ebola durante a
infecção prolongada. Foram identificados genomas virais defeituosos e mutações
que podem reduzir a capacidade de replicação do vírus. Algumas dessas mudanças
haviam sido associadas a infecções persistentes em humanos, anteriormente,
enquanto outras ainda não tinham sido descritas em sobreviventes. Os
pesquisadores ressaltam que será necessário investigar se essas mutações
realmente contribuem para a persistência ou se são apenas consequências da
replicação prolongada.
Enquanto
a pesquisa busca entender o que acontece depois que o vírus chega ao cérebro,
outra frente científica tenta responder a uma questão mais imediata: como
tratar pacientes infectados pelo Bundibugyo. Segundo uma publicação feita
recentemente na revista Nature, a Organização Mundial da Saúde priorizou alguns
candidatos ao tratamento, como os anticorpos monoclonais MBP134 e maftivimab e
o antiviral remdesivir, para avaliação clínica.
O
MBP134 chama atenção por apresentar, em estudos pré-clínicos, atividade contra
diferentes espécies de ebolavírus, incluindo Zaire, Sudão e Bundibugyo. No
entanto, resultados obtidos em laboratório não significam eficácia comprovada
em pacientes. O atual surto pode ser uma oportunidade para avaliar o tratamento
em condições reais.
A
profilaxia pós-exposição também aparece como uma prioridade. O antiviral oral
obeldesivir é um dos candidatos considerados eficientes para proteger pessoas
que tiveram contato de alto risco com pacientes infectados. Uma alternativa
oral poderia ser especialmente útil em regiões onde o acesso a estruturas
hospitalares é limitado. O sucesso, entretanto, depende de diagnóstico rápido,
rastreamento eficiente de contatos e início precoce do tratamento.
Eliana
Bicudo, infectologista do Hospital Santa Lúcia Norte (HSLN), avalia que o
artigo denuncia muito bem a lacuna de preparação global para ebolavírus
não-Zaire, especialmente o Bundibugyo. "A dependência de financiamento
emergencial é um problema estrutural, enquanto a indústria farmacêutica tem
pouco incentivo para investir em doenças raras e geograficamente restritas.
Além disso, a instabilidade política nos países afetados dificulta a
implementação das soluções propostas", diz a a especialista.
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Entrevista
Em
entrevista ao Correio, Rachel Soeiro, médica com mais de uma década de atuação
em contextos humanitários e emergências de saúde global e profissional do
Medicina Sem Fronteiras, falou sobre as diferenças entre os surtos de ebola que
aconteceram entre 2014 e 2016 e a crise atual. A especialista, que atuou in
loco durante a última epidemia, disse que o conflito armado na região e a falta
de tratamento específico estão entre as maiores dificuldades. Ela avaliou,
ainda, a importância da colaboração das comunidades afetadas para o controle
das contaminações.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Quais são, hoje, os principais desafios
para combater o surto de ebola, especialmente em regiões com poucos recursos?
Na
epidemia que está acontecendo agora, um dos desafios é que não temos tratamento
aprovado nem vacina para esse vírus. Ademais, existe um sistema de saúde que
está bem fragilizado. Então, há dificuldade para dar conta da rotina dos
serviços de saúde, como o atendimento de pacientes com doenças crônicas,
gestantes e a vacinação. É um sistema que está sobrecarregado e, agora, precisa
também conseguir dar conta dessa epidemia de ebola. Além de tudo, nessa região
existe um conflito armado que dificulta tanto o acesso dos pacientes aos
serviços de saúde quanto o contato dos profissionais às comunidades, para que
possam fazer o que nós chamamos de busca
ativa, que é procurar os casos suspeitos e pacientes que foram a óbito e com
suspeita de ebola.
• O que mudou no combate ao ebola desde os
grandes surtos entre 2014 e 2016 para agora?
Melhoraram
muito os cuidados clínicos. Em 2014 e 2016, nós aprendemos que era possível
montar um serviço de terapia intensiva dentro de um centro de tratamento de
ebola. Nas primeiras epidemias em que trabalhamos, nós não fazíamos o que
chamamos de tratamento intensivo. Não fazíamos a correção dos eletrólitos, os
pacientes se desidratam, perdem muito líquido e precisam de reposições
específicas. Também precisam de alguns medicamentos para melhorar a circulação
e o funcionamento cardíaco. Por outro lado, no final de 2016, tínhamos
tratamento e vacina aprovados para aquele vírus, agora, para o Bundibugyo, não
temos.
• Quais estratégias de prevenção e
controle de surtos têm se mostrado mais eficazes atualmente?
A
primeira coisa é o que nós chamamos de engajamento comunitário. A comunidade
precisa entender que existe uma doença que deve ser notificada o mais rápido
possível, e que esses pacientes precisam vir para um centro de tratamento para
serem isolados. É preciso compreender que, mais do que nunca, eles vão precisar
usar medidas básicas, como lavar as mãos com água e sabão, o que é desafiador
num contexto em que muitas vezes não há nem água disponível. É necessário que
saibam que qualquer suspeita precisa ser comunicada, seja uma pessoa que morre
dentro de casa sem saber o motivo, ou uma febre qualquer, que muitas vezes
acham que é malária, doença endêmica na região. A comunidade tem que estar
junto. Eles não podem esconder os sintomas, não podem mascarar os óbitos, senão
isso dificulta muito o controle da epidemia.
• Como os avanços científicos permitiram
desenvolver a vacina contra o ebola e como estão sendo desenvolvidas novas
vacinas para os outros vírus do ebola?
Em 2014
e 2016, as organizações internacionais fizeram um apelo à comunidade
internacional para que a gente pudesse ter vacinas e tratamentos disponíveis.
Houve uma mobilização de recursos e de parcerias entre instituições acadêmicas
e grandes laboratórios, para que pudéssemos ter o desenvolvimento desses
imunizantes. As clínicas de Médicos Sem Fronteiras, na época, receberam alguns
estudos clínicos; outros lugares também. Com o novo vírus, está acontecendo o
mesmo. Existem alguns acordos para que comecem a ser feitos estudos clínicos,
para que a gente entenda se o que existe hoje de vacina e tratamento poderia
ser também eficaz para esse patógeno.
• Quais são os principais obstáculos para
ampliar o acesso às vacinas contra o ebola nas regiões afetadas?
Hoje, o
estoque de vacina para o vírus do ebola está concentrado nos Estados Unidos.
Caso haja uma nova epidemia do vírus ebola, o antigo vírus Zaire, teria que ser
negociado com os Estados Unidos para que essas doses de imunizantes e de
tratamento sejam disponibilizadas para o país onde estiver acontecendo o surto.
O que temos de desafio é isso: não existe investimento em pesquisa e
desenvolvimento para que a gente tenha vacina e tratamento disponíveis para
todos os vírus que causam a doença de ebola. Assim como também não há, por
exemplo, formulações pediátricas dos medicamentos que a gente tem hoje.
• Como a experiência acumulada contra o
ebola entre 2014 e 2016 pode contribuir no surto atual da doença? Há chances de
se espalhar pelo mundo?
A
experiência acumulada é principalmente em relação a garantir que os outros
serviços de saúde mantenham o funcionamento. É preciso treinar equipes que
atuam em outras áreas, para que elas também orientem os pacientes de que, em
caso de suspeita, eles devem procurar um centro de tratamento de ebola. Os
profissionais de saúde precisam estar capacitados em termos de paramentação, de
como vão usar os equipamentos de proteção. Também aprendemos muito sobre o
manejo clínico. Hoje a gente sabe que é possível oferecer terapia intensiva
dentro de um centro de tratamento de ebola. Em relação ao risco, ele é muito
pequeno. É uma doença que está contida e, por isso, é muito importante garantir
que essa epidemia seja controlada dentro do território o quanto antes.
• Olhando para os próximos anos, quais
avanços no combate ao ebola você considera mais importantes de serem
conquistados na saúde pública?
São
três pilares, vacina, diagnóstico precoce — então é importante um teste rápido
que possa ser utilizado na hora que o paciente chega com sintomas — e o
tratamento. No entanto, vacina, diagnóstico e tratamento não serão eficazes se
a comunidade não estiver junto. Então, o pilar dessa resposta é ter a
comunidade conosco.
Fonte:
Correio Braziliense

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