Por
que testemunhamos a direita em ascensão na América Latina
Que
falta me faz poder mandar uma mensagem ou falar pelo telefone com Lejeune
Mirhan sobre questões que para ele eram tão evidentes. Agora me obrigo a
pesquisar e submeter à crítica da comunidade do 247 as reflexões que decorrem
da pesquisa.
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O tema
de hoje é: por que testemunhamos a direita em ascensão na América Latina?
A
recente inflexão política à direita e à extrema-direita na América Latina não
pode ser compreendida apenas como um fenômeno episódico ou eleitoral, mas sim
como a consequência de transformações estruturais e de profundas fraturas no
pacto social da região. A análise conjugada dos debates contemporâneos expõe
que esse reposicionamento conservador decorre primordialmente de três fatores
articulados: (a) a desilusão generalizada com as promessas da democracia
liberal; (b) a excessiva postura conciliadora dos partidos progressistas e
social-democratas; e (c) a incapacidade estrutural dos governos de esquerda em
reverter a brutal concentração de riqueza que ocorre no capitalismo.
Em
primeiro lugar, observa-se um esgotamento do próprio modelo da democracia
representativa. As instituições liberais na América Latina, ao longo das
últimas décadas, não conseguiram traduzir as garantias formais de direitos em
melhorias concretas para o cotidiano das maiorias populares. O fosso entre a
igualdade jurídica promulgada pelas constituições e a precariedade social
vivenciada nas periferias gerou um sentimento de desamparo e frustração,
transformando o desgaste do modelo liberal em terreno fértil para discursos
reativos e soluções autoritárias.
Em
segundo lugar, esse cenário foi agravado pela atuação defensiva e pela
excessiva postura moderada e conciliadora adotada pelos partidos de esquerda e
pela social-democracia tradicional. Ao optarem por governar mediante constantes
pactos com elites econômicas e forças oligárquicas tradicionais, as lideranças
progressistas muitas vezes absorveram a lógica institucional e as métricas do
próprio ecossistema neoliberal. Essa moderação tática, em vez de blindar os
governos, desmobilizou suas bases populares, esterilizou a capacidade de
promover reformas radicais e reduziu a esquerda a uma força gestora do status
quo, incapaz de encarnar os anseios de mudança da população.
Por
fim, a limitação dos governos progressistas em alterar a estrutura
socioeconômica da região acabou por selar esse desencantamento. Embora
diferentes administrações de esquerda tenham promovido avanços conjunturais e
políticas pontuais de distribuição de renda, o sistema econômico subjacente
permaneceu intacto, perpetuando mecanismos que continuam gerando uma enorme
concentração de riqueza nas mãos de poucos. Diante de crises inflacionárias,
perda de poder de compra e manutenção das desigualdades históricas, a percepção
de que a esquerda no poder não altera as estruturas do capital abriu espaço
para que discursos antissistema e ultraliberais capitalizassem a insatisfação
social.
Assim,
a ascensão das forças de direita surge como a expressão sintomática de um
eleitorado frustrado. Na ausência de transformações profundas promovidas pela
via progressista, a sociedade passa a manifestar sua rejeição tanto ao arranjo
liberal impotente quanto à esquerda que, ao conciliar em excesso, deixou de
confrontar as raízes da desigualdade no continente.
Além
desse diagnóstico, que deve parecer óbvio a muitos, há outras camadas
explicativas fundamentais para compreender como o fenômeno da nova direita e da
extrema-direita se materializa e se consolida no terreno prático da política
latino-americana — e, depois de compreendê-lo, para combatê-lo.
A pauta
da segurança pública e do combate ao crime organizado é um tema que entusiasma
o debate e tem forte apelo eleitoral. De fato, a escalada da violência urbana e
o avanço do narcotráfico se tornaram a principal preocupação da população em
diversos países da região; as questões da saúde, da educação, da mobilidade
urbana e do lazer vêm depois da preocupação com a vida.
A
direita capitaliza esse debate com mais competência, com a teatralidade
necessária para chamar a atenção. Discursos reativos e calcados no punitivismo
(modelos de “mão dura”) conseguiram capturar a angústia popular com maior
eficácia do que as propostas progressistas, que muitas vezes demonstraram
dificuldade em oferecer respostas rápidas e contundentes para o sentimento de
insegurança no cotidiano. Fato é que diagnósticos não emocionam a sociedade,
nem o eleitor.
Há
ainda outro aspecto: a força das narrativas antissistema e populistas, que se
aproveitam do ressentimento e do desencanto da sociedade. As lideranças da nova
direita se projetam como outsiders antissistema, mobilizando a
indignação popular contra o establishment e a chamada “classe política”.
Diferentemente
dos partidos tradicionais de centro-direita, esses novos atores combinam a
retórica ultraliberal na economia com discursos morais e conservadores,
utilizando as redes sociais e os ecossistemas digitais para contornar os meios
de comunicação tradicionais e dialogar diretamente com o eleitorado
desencantado.
A
adesão da população a projetos conservadores decorre, em grande medida, da
busca por soluções pragmáticas para problemas imediatos, como a inflação, a
precarização do trabalho e o desgaste dos serviços públicos — sem falar ainda
no poder das igrejas neopentecostais.
Além de
tudo isso, há a mudança no perfil do eleitorado. Diante do crescimento da
economia informal e da uberização, a mensagem de autossuficiência e
empreendedorismo ressoa fortemente em parcelas do eleitorado que já não se veem
contempladas pelos discursos tradicionais de proteção trabalhista.
Há
também a dinâmica geopolítica e a tensão externa. Existe um alinhamento
transnacional entre movimentos de extrema-direita — sobretudo com o trumpismo
nos Estados Unidos —, o que fortalece localmente esses projetos na América
Latina, criando redes de apoio financeiro, tático e de comunicação que
impulsionam suas campanhas.
Ou
seja, a inflexão à direita não ocorre no vácuo: a falha dos governos
progressistas em resolver dilemas estruturais (como a concentração de renda) é
acompanhada de sua dificuldade em responder às crises conjunturais da segurança
e da precarização do trabalho. É nesse vácuo de respostas concretas que a nova
direita se estabelece como uma alternativa viável para uma sociedade esgotada.
Penso
que caberia aos partidos políticos cuidar de “fazer política”, debater com a
sociedade — mas estão todos atrás de mandatos, os quais lhes garantirão
participação em fundos partidários e eleitorais, além de cargos em governos.
Quem
falhou e falha, a meu juízo, são os partidos PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, REDE e
todos os outros que jogam esse jogo e se esqueceram de “fazer política”, o que,
na minha percepção, significa aproximar-se da sociedade, seja organicamente,
seja pelas redes sociais.
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Mau-caratismo da extrema direita. Por Luiz Marques
A noção
de “personalidade” remete à qualidade de uma pessoa. Na antiguidade era
sinônimo da máscara do ator (persona). Depois, do ser humano genérico;
um personagem no teatro da vida. “A metáfora implícita ainda pode nos
assombrar”, frisa Raymond Williams (1921-1988), em Palavras-chave.
A expressão “sociedade de espetáculo” recupera o significado teatral e o jogo
das aparências no cotidiano.
Hoje
quando o advogado alega que o cliente “perdeu sua personalidade e tornou-se
instrumento passivo de um surto”, o argumento serve para minimizar os delitos
graves. A individualização é uma atenuante de peso jurídico. Sem a consciência
e o pensamento, os atos carecem de intenção; afastam uma acusação de dolo.
As
adjetivações de personalidades individuais absolvem as incivilidades. A tida
por “irresistível” perdoa a sedução; “forte”, o nonsense; “fraca”,
o senso comum; “dominante”, o autoritarismo; “fascista”, a opção pelo
totalitarismo que é a versão contemporânea das relações exortadas no livro
do Primeiro Testamento bíblico.
Sem
mencionar as “personalidades de destaque” (Very Important Persons, VIPs).
Os vencedores ocupam camarotes no desfile de carnaval, os únicos com direito a
uma idiossincrasia sem adjetivos. Perdedores são figurantes na coreografia da
luta de classes. O trabalho somente brilha na fantasia das escolas de samba. Ou
nas revoluções, ao cobrar o que é devido aos oprimidos e explorados pelas
“elites”.
Todos e
todas mantêm alguma personalidade na formação do “caráter”. O termo (charakter)
na etimologia grega traduz uma marca, signos e símbolos gráficos do alfabeto.
As variações retratam a humanidade, enquanto os fenótipos legitimam os estigmas
qual o desatino do hino sul-riograndense ao culpar os escravizados, por uma
escravidão forçada. “Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”.
Os
múltiplos elementos do que se chama caráter supera os traços do rosto. Desde o
século XIX, a individualidade define-se antes no caráter que pela
personalidade. Habitus presente no filme Dona Flor e
seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto; adaptado do romance de
Jorge Amado, onde a transgressão atrai dez milhões de espectadores às telas.
Recorde batido por Tropa de Elite 2 (2010), de José Padilha.
Refilmado nos Estados Unidos com um título vago, Meu adorável fantasma (1982).
Na
política, se repete o cacoete para esconder o conteúdo classista do candidato e
os projetos representados por partidos. O marketing enfatiza o
“bom pai”, “bom marido”. A despolitização da política vai ao encontro da média
dos eleitores e, com uma moderação aristotélica, confere estabilidade sistêmica
ao capitalismo. Faz de conta que o meio do rio caudaloso é mais prudente do que
suas margens.
Os
meios de comunicação se autoproclamam guardiões da democracia, apesar de apagar
diferenças essenciais e igualar a disputa em um torneio entre os ruins e os
piores, num desserviço ao público. Às desinformações se soma a ameaça do juízo
final aos críticos da ordem imperialista. A erva daninha plantada na mídia
hegemônica incensa os preconceitos e as mentiras nos novos profetas de Canaã.
Sábio e
generoso, o presidente Lula no lançamento oficial da candidatura não contesta
as afinidades eletivas e afetivas da massa. “Posso mentir para um chefe de
Estado, lá fora, mas não posso mentir para vocês (o povo)”. Como o pastor do
bem comum, reconduz a cidadania desgarrada ao seio da nação, reafirma o apelo à
união pela soberania nacional e ajuda a dissipar os ódios e os ressentimentos.
O
neofascismo cresce com a alavanca do inimigo externo, a imigração, tornada a
razão do mal-estar na Europa e nos EUA. No Brasil, mira um inimigo interno – em
especial, o Partido dos Trabalhadores (PT) – com o apoio ativo da Rede
Globo e do Judiciário. A “guerra de posição” cede então a uma “guerra
de movimento” contra a organização política dos setores laboriosos. O lawfare surge
em tal contexto.
Jair
Bolsonaro é fruto da estratégia das classes dirigentes no combate à oposição
democrática dos regimes de exceção. O Bozo sobrevive três décadas nos porões do
baixo clero federal ao fim da ditadura militar. Graças à nostalgia dos anos de
chumbo, a caserna abre-lhe as portas dos quartéis em reiteradas campanhas. As
Forças Armadas precisam melhorar o currículo de formandos em Agulhas Negras.
Parlamentar,
cria expedientes ilícitos com verba pública em proveito próprio, com
“rachadinhas” em gabinetes. Se a corrupção custa a colar no sobrenome é porque
o dogma neoliberal, de que o Estado é o grande ladrão, dá cem anos de perdão a
quem rouba o erário. Os filhos 01, 02, 03 e 04 orgulham a ascendência
patriarcal; a filha é tratada como resultado da “fraquejada” (sic). A
misoginia bolsonarista é reveladora do caráter putrefato da extrema direita,
nos vis ataques às mulheres.
Resta
aos que se recusaram ouvir o ruído dos pedreiros em 2013, 2015 e 2018 lamentar
o descuido das contingências. Como os versos do poeta grego-otomano
Konstantinos Kaváfis (1863-1933): “Quando ergueram mal notei os muros, esses /
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse”. Não dá para dizer que é difícil a
escolha do voto, em outubro. A esta altura do campeonato, é questão de caráter.
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Escudo das Américas é uma aliança ideológica dos EUA, não
de combate às drogas, avaliam analistas
O novo
presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou
a adesão do país à
iniciativa Escudo das Américas, liderada pelo governo dos EUA, que reúne
países latino-americanos em uma aliança de combate ao narcotráfico.
A
proposta da aliança é bastante polêmica e reacendeu o debate sobre a segurança
no continente e o papel dos EUA na coordenação da defesa regional e do
imperialismo norte-americano. Em um cenário marcado pela competição entre
grandes potências, pelo avanço de organizações criminosas transnacionais, pela
pressão migratória e por novas ameaças cibernéticas, a iniciativa levanta
questionamentos sobre soberania, integração militar e o futuro das relações
hemisféricas.
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Spunik Brasil, Yasmim Abril
Reis, doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San
Tiago Dantas, afirma que a iniciativa da aliança surge em um contexto de
fragmentação da estrutura da integração latino-americana e reflete a clássica
geopolítica dos EUA de ter tutela sobre países da região, assim como ocorreu na
Doutrina Monroe e na política do Big Stick.
"O
governo Trump tem reforçado essa lógica hemisférica nas decisões estratégicas.
Então, refletindo o que a gente poderia, talvez, chamar de uma nova roupagem de
uma esfera de influência. […] E um desses resultados que reforça a lógica
hemisférica, e até mesmo essa posição dos EUA resgatando essa roupagem, é o
Escudo das Américas", afirma.
Reis
demonstra ceticismo em relação à efetividade da aliança no combate ao
narcotráfico e cita iniciativas anteriores, como a Iniciativa de Segurança para
a Prosperidade, lançada em 2005, pelo então presidente dos EUA George W. Bush
(2001–2009), que esbarraram em questões internas de soberania e autonomia
política e não foram eficazes na eliminação do narcotráfico.
"A
gente encontra contornos institucionais no Escudo das Américas bastante
nebulosos, principalmente em relação a um plano concreto do que seria o seu
desenho institucional. […] A falta dessa clareza do seu desenho concreto
sinaliza que essas operações conjuntas, esses mecanismos de atuação, podem não
ter propriamente um efeito prático."
Na
visão da analista, o anúncio da aliança está mais ligado a uma retórica
política, a um simbolismo estratégico, do que efetivamente prático. Segundo
ela, o Escudo das Américas serve como instrumento de pressão dos EUA,
principalmente ideológica, sobre países latino-americanos usando a narrativa da
guerra às drogas como pano de fundo.
"Na
prática, esse novo arranjo vai estar mais ligado ao resgate de um longo
histórico de intervenção dos EUA na região dentro de um plano mais imaginário,
mas que guarda continuidade como o foco nas ameaças transnacionais e o papel
central dos EUA como fiador da segurança regional", avalia Reis.
Victor
Cabral, doutor em relações internacionais e professor da Pontifícia
Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), diz que o fato de os EUA
lançarem uma aliança contra o narcotráfico na América Latina, sem ter Brasil e México na mesa de negociação, sinaliza
que o interesse da iniciativa realmente não é o combate às drogas.
"Parece
muito mais um conjunto relacionado a um combate ideológico de determinados
governos para poder vir e dizer que existem nações que são inimigas, que podem,
de alguma forma, colocar as Forças Armadas dos EUA em maior prontidão para
atuar na nossa região em nome desse combate ao narcotráfico."
Ele
considera que a aliança tem uma limitação expressiva por não incluir México e
Brasil, não só por questões econômicas, mas por serem dois países produtores de
drogas, bem como rota para escoamento na logística de distribuição do
narcotráfico.
"A
nossa ausência mostra uma limitação não só do programa, mas também demonstra
que não há um interesse em si do combate às drogas; é um interesse muito mais
ideológico", afirma o especialista.
Segundo
Cabral, o fato de os países estarem fora da aliança pode colocá-los na
mira das operações da iniciativa, principalmente o Brasil, por conta do período eleitoral.
"O
Escudo das Américas pode servir como um mecanismo que proporcione operações de
países vizinhos ao Brasil em áreas próximas à nossa fronteira, dizendo que
estão fazendo combate ao narcotráfico. E isso em um semestre de eleição, onde a
gente vai provavelmente ver um discurso de que o governo brasileiro não combate
[o narcotráfico]", avalia o especialista.
Fonte:
Por Pedro Benedito Maciel Neto, em Brasil 247/A Terra é Redonda/Sputnik Brasil

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