terça-feira, 25 de agosto de 2026

Por que alguns são mais propensos à depressão que outros?

Um estudo da Universidade de Barcelona (UB), na Espanha, identificou 19 genes que podem contribuir para que algumas pessoas sejam mais suscetíveis à depressão, à ansiedade e a características como irritabilidade e neuroticismo.

Segundo informou a universidade em comunicado, esses genes seriam regulados pelo gene RBFOX1, que atuaria como um "maestro" de uma rede genética, coordenando quando e como diferentes genes envolvidos no funcionamento do cérebro são ativados ou processados.

Essa descoberta é especialmente relevante em transtornos psiquiátricos complexos, já que condições como a depressão, a ansiedade e o neuroticismo normalmente não dependem de um único gene, mas sim de pequenos efeitos acumulados de centenas ou milhares de genes.

No caso da depressão, a predisposição genética representa apenas uma parte do risco. Seu desenvolvimento também envolve uma combinação complexa de fatores biológicos, psicológicos, ambientais e sociais. O estudo concentra-se em identificar mecanismos genéticos que poderiam contribuir para essa suscetibilidade.

<><> Efeito em cadeia

Bru Cormand e Noèlia Fernández, coordenadores da pesquisa, explicam que "se um regulador central como o RBFOX1 estiver alterado, isso poderá desencadear um efeito em cadeia sobre vários processos ao mesmo tempo, como o desenvolvimento neuronal, a comunicação entre neurônios e a regulação da neurotransmissão, o que explicaria por que esses transtornos frequentemente aparecem juntos".

O gene RBFOX1 atua como regulador central da rede genética associada à depressão.

Os pesquisadores acrescentam que esses resultados oferecem uma nova visão dos mecanismos biológicos compartilhados entre a depressão e diversos transtornos associados e que "poderiam contribuir para o desenvolvimento de biomarcadores e tratamentos mais personalizados no futuro".

Do estudo, publicado na revista científica Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry, também participaram pesquisadores da Universidade Goethe de Frankfurt, na Alemanha.

<><> Foram identificados 19 genes ligados à depressão

Durante a pesquisa, foram identificados 19 genes regulados pelo RBFOX1 que seriam especialmente relevantes para a depressão e outros traços frequentemente observados nos pacientes.

Desse grupo, os pesquisadores destacam, além do próprio RBFOX1 como núcleo central, três genes que também regulam a expressão de outros genes (SP4, TCF4 e PAX6), além do CADM2.

"Além da depressão, esses genes também foram associados a outros transtornos: o RBFOX1 está relacionado a diversos transtornos psiquiátricos; o CADM2, a dependências e outros transtornos psiquiátricos; o TCF4, à esquizofrenia e à insônia; e tanto o SP4 quanto o PAX6 foram encontrados alterados em modelos de camundongos submetidos ao estresse", detalham os pesquisadores.

<><> Rumo a tratamentos mais personalizados

Esses resultados ampliam a compreensão dos mecanismos biológicos envolvidos na depressão e em transtornos associados e, no futuro, podem contribuir para identificar biomarcadores de risco, aprimorar a classificação dos pacientes e desenvolver novos tratamentos direcionados a vias moleculares específicas.

Os pesquisadores afirmam que atuar sobre mecanismos compartilhados "poderia beneficiar simultaneamente diversos transtornos que frequentemente aparecem juntos nos pacientes".

<><> Próximos passos da pesquisa

Apesar da relevância dessas descobertas, os pesquisadores destacaram que será necessário validá-las em outras amostras e explorar as diferenças entre homens e mulheres, considerando que a depressão apresenta maior prevalência entre as mulheres, além de realizar outros estudos complementares.

•        Por que o bullying é tão comum entre crianças e adolescentes

Os registros de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes cresceram de forma expressiva no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em julho, foram registrados 5.226 casos em 2025, um aumento de mais de 65% nas ocorrências desses crimes na comparação com o ano anterior.

Foram contabilizados 4.549 registros de bullying e 677 de cyberbullying em todo o país no ano passado, contra 2.736 e 452, respectivamente, em 2024. Os dois crimes passaram a existir formalmente no Código Penal em 2024, com Lei 14.811/2024, que tipificou a "intimidação sistemática" (bullying) e a "intimidação sistemática virtual" (cyberbullying).

À primeira vista, os dados sugerem uma explosão da violência entre estudantes. Mas especialistas alertam que a realidade é mais complexa. O crescimento resulta da combinação de diferentes fatores como a entrada em vigor da lei que tipificou os dois crimes; uma maior disposição de famílias e escolas para denunciar; e transformações nas relações entre crianças e adolescentes, cada vez mais mediadas pelo ambiente digital.

Em outras palavras, parte do aumento pode ser explicada pela melhoria dos registros oficiais. Outra parte, porém, revela que a violência entre crianças e adolescentes continua sendo um desafio para famílias, educadores e gestores públicos.

"É importante sermos cuidadosos na análise desses dados, para que não atribuirmos esse número somente ao aumento do comportamento do bullying em si, mas ao impacto que a aprovação da lei tem na nossa sociedade", diz Benjamim Horta, fundador do Programa Escola Sem Bullying. O programa existe desde 2012 e busca auxiliar escolas e redes de ensino de todo o Brasil no combate e prevenção ao bullying.

Apesar de ser mais comum no ambiente escolar, o bullying não ocorre apenas nesse ambiente. A própria definição legal estabelece que se trata de uma intimidação sistemática, caracterizada por agressões físicas, verbais, psicológicas ou sociais repetidas contra uma pessoa. O objetivo é constranger, humilhar ou excluir a vítima, criando uma relação de poder desigual independentemente de onde ele ocorra.

Já o cyberbullying leva essa dinâmica para o ambiente virtual. Ofensas, montagens, divulgação de fotos sem consentimento, criação de perfis falsos e campanhas de humilhação passam a acontecer por aplicativos de mensagens e redes sociais, onde o conteúdo pode atingir um número muito maior de pessoas.

Essa diferença faz com que especialistas considerem o cyberbullying ainda mais difícil de combater, já que a violência deixa de ter horário para começar ou terminar.

<><> Crianças e adolescentes são a maioria das vítimas

Embora o bullying possa ocorrer com pessoas em qualquer idade, ele se concentra principalmente entre crianças e adolescentes porque esse é o período em que a construção da identidade ganha maior importância, segundo os especialistas ouvidos pela DW.

A necessidade de pertencimento ao grupo, o medo da rejeição e a busca por aceitação tornam as diferenças físicas, sociais ou comportamentais potenciais motivos de exclusão.

O próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra essa concentração etária. Dos casos registrados em 2025, a maior parte deles (48%) a vítima tinha entre 10 e 13 anos, seguido de perto por adolescentes de 14 a 17 anos, com 45% das vítimas.

"Esses pré-adolescentes de 10 a 13 anos tendem a se expor mais, compartilhar mais conteúdo sem filtro e cair com mais facilidade em armadilhas e provocações tendo em vista o próprio grau de maturidade", explica Glicia Brazil, psicóloga e vice-presidente da Comissão da Infância e Juventude do Instituto Brasileiro de Direito das Famílias e Sucessões (Ibdfam).

"Já no caso dos adolescentes a puberdade traz transformações físicas muito aceleradas e muitos, por exemplo, não estão adequados aos padrões que as redes sociais impõem. Essas pessoas acabam ficando mais inseguras, com baixa autoestima e mais vulneráveis", acrescenta a psicóloga.

Outro motivo dessa concentração de casos entre crianças e adolescente é porque nessa fase da vida, ainda estão em formação habilidades como empatia, controle emocional e resolução de conflitos. Quando esses aspectos não são estimulados, comportamentos agressivos podem se consolidar como forma de conquistar status entre colegas ou exercer poder sobre quem é percebido como mais vulnerável.

<><> Redes sociais transformaram a dinâmica da violência

O crescimento do cyberbullying acompanha uma mudança mais ampla na forma como esse público constrói suas relações sociais. Hoje, amizades, conflitos e disputas por reconhecimento acontecem simultaneamente no ambiente presencial e no digital.

As plataformas digitais potencializam esse processo por diferentes razões. A possibilidade de compartilhar conteúdos rapidamente amplia o alcance das humilhações. O aparente anonimato reduz a percepção de responsabilidade do agressor e os algoritmos das redes favorecem a circulação de conteúdos que despertam reações emocionais intensas, incluindo ofensas e exposições públicas.

O resultado é uma violência permanente. Comentários ofensivos, vídeos editados, boatos e imagens manipuladas podem continuar circulando mesmo depois de o conflito original ter terminado, prolongando o sofrimento da vítima e dificultando sua recuperação emocional.

É justamente por isso que especialistas defendem que o enfrentamento do bullying e cyberbullying não pode se limitar à punição dos responsáveis. O desafio passa pela construção de uma cultura de convivência baseada em respeito, educação digital e desenvolvimento de competências socioemocionais desde a infância.

"Um dos principais problemas relacionados à prevenção ao bullying e ao cyberbullying no Brasil é a falta de uma sistematização do trabalho preventivo. Isso quer dizer que escolas tentam sanar um problema complexo, muitas vezes de forma simplista, com uma ação isolada, como por exemplo, uma palestra ou uma roda de conversa, e isso acaba não surtindo o efeito desejado. E mais, isso frustra os estudantes e a comunidade de pais", explica Horta.

<><> Como mudar esse cenário

Antes de qualquer medida punitiva, especialistas defendem que o enfrentamento do bullying deve começar pela prevenção. Isso significa transformar a escola em um ambiente capaz de identificar conflitos ainda nos estágios iniciais, antes que se tornem episódios recorrentes de violência.

Para isso, é necessário investir na formação continuada de professores, coordenadores e demais profissionais da educação para reconhecer sinais de intimidação, exclusão social e sofrimento emocional entre as crianças e adolescentes.

Outra frente considerada essencial pelos especialistas é criar mecanismos eficazes de responsabilização dos agressores. Escolas precisam contar com canais seguros e confidenciais para denúncias, protocolos claros de investigação

"A escola tem que ter um programa de combate ao bullying estruturado e documentado. Ter um canal de denúncia auditável onde possam ser feitas denúncias anônimas para que essa vítima tenha coragem de denunciar. Também tem que ter protocolos antibullying com prazos bem determinados para ouvir a vítima, o agressor e finalizar o caso. Tudo é preciso estar documentado", detalha Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita, advogada, socióloga e presidente da SOS Bullying.

Nesse caso é importante, segundo os especialistas, que haja um plano individual de proteção da vítima, mantendo o sigilo da denúncia e com prevenção de retaliações.

Também é importante fortalecer a rede de apoio às vítimas e acompanhamento psicológico tanto para quem sofre quanto para quem pratica o bullying. Isso porque, em muitos casos, o comportamento agressivo está associado a problemas familiares, emocionais ou sociais que também precisam de atenção.

"Outra coisa importante é atender o autor da conduta, sem rotulá-lo permanentemente como agressor, porque isso também cria um estigma, fazendo com que ele se torne uma pessoa segregada. Quem pratica bullying não percebe o quanto isso gera dor no outro e essa empatia precisa ser trabalhada no agressor. Tem que ser uma ação conjunta de tratar a vítima e o agressor", acrescenta Brazil.

Além do ambiente escolar, especialistas ressaltam a importância da participação das famílias, que devem ser orientadas a identificar mudanças de comportamento, manter diálogo constante com os filhos.

No caso do cyberbullying, o trabalho também passa pela educação digital, ensinando crianças e adolescentes sobre uso responsável das redes sociais, privacidade e consequências legais das agressões virtuais.

"O principal sinal de que uma criança ou adolescente está sendo vítima é a mudança de comportamento. Alguns passam a ficar mais tristes ou depressivos, têm uma resistência para ir à aula ou para realizar atividades com os colegas, queda inexplicável no rendimento escolar, hematomas, ferimentos sem explicação ou até mesmo material danificado", diz Horta.

Ter políticas públicas permanentes e de uma atuação integrada entre educação, saúde, assistência social, segurança pública e sistema de Justiça é outro ponto destacado pelos especialistas. Isso inclui ampliar a presença de psicólogos e assistentes sociais nas escolas, monitorar indicadores de violência escolar, financiar programas de prevenção e avaliar continuamente os resultados das iniciativas implementadas.

"O punitivismo por si só, ele não produz mudança. Então precisamos encontrar um equilíbrio entre o que é passível de punição e o que é passível de restauração", finaliza o fundador do Programa Escola Sem Bullying.

 

Fonte: DW Brasil

 

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