sábado, 29 de agosto de 2026

OS LAÇOS DA EXTREMA DIREITA: O rastro de dinheiro que liga Israel, Cerimedo e a família Bolsonaro

As investigações sobre a atuação do marqueteiro político Fernando Cerimedo, preso na Bolívia e investigado por tentativa de feminicídio contra a ex-companheiraa, revelaram uma dimensão que vai muito além das fábricas de bots e da fatídica live contra as urnas eletrônicas brasileiras na tentativa de golpe de 2022.

Cerimedo integra uma rede internacional de tecnologia, comunicação política e mobilização da nova direita que tem, em um de seus principais núcleos, uma operação financiada pelo Estado de Israel.

A conexão passa pelo americano Brad Parscale, estrategista digital de Donald Trump, e chega à América Latina por meio de empresas e plataformas utilizadas por Cerimedo.

Parscale ganhou notoriedade como responsável pela estratégia digital da campanha de Trump em 2016 e comandou a campanha de reeleição do republicano em 2020 durante as primárias. Atualmente, está à frente da Clock Tower X, empresa que mantém um contrato milionário para uma operação de comunicação em favor de Israel.

Documentos registrados nos Estados Unidos mostram que o acordo chegou a US$ 46,5 milhões. A operação inclui publicidade, produção de conteúdo e estratégias digitais, mas tem um objetivo particularmente incomum: criar sites e conteúdos capazes de influenciar o enquadramento de respostas produzidas por sistemas de inteligência artificial. O contrato prevê explicitamente a criação de “sites e conteúdo” para produzir resultados de enquadramento em conversas com sistemas de inteligência artificial, focando em uma campanha de PR para alterar respostas do ChatGPT sobre o estado de Israel.

A rede criada pela Clock Tower X chegou a reunir diversos sites que aparentam ser veículos ou organizações independentes, mas são registrados como materiais distribuídos em nome do Estado de Israel.

O argentino mantém uma parceria empresarial com Parscale e passou a representar na América Latina ferramentas como Campaign Nucleus e EyesOver, associadas à infraestrutura tecnológica do americano. O próprio Cerimedo afirmou que Parscale forneceu a infraestrutura sobre a qual trabalha.

A estrutura foi utilizada em campanhas da direita latino-americana, incluindo as de Javier Milei, na Argentina, Rodrigo Paz, na Bolívia, e Nasry Asfura, em Honduras.

A relação com o Brasil vem de antes. Cerimedo afirma ter trabalhado para Jair Bolsonaro em 2018 e, em 2022, tornou-se um dos principais propagadores de alegações falsas sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas brasileiras. A operação ajudou a alimentar a mobilização bolsonarista contra o resultado das eleições. Já neste ano, Cerimedo participou de uma live ao lado de Eduardo Bolsonaro para tratar de urnas eletrônicas e fomentar as narrativas da extrema direita no Brasil.

A outra ponta da conexão aparece em 2026. Em junho, Flávio Bolsonaro participou, em Buenos Aires, de uma conferência organizada pela Israel Allies Foundation e pela American Friends of Isaac Accords, voltada ao fortalecimento das relações entre Israel e América Latina.

No evento, o senador prometeu, caso eleito presidente, transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém e aprofundar a aproximação entre os dois países.

A conferência reuniu parlamentares de 14 países e promoveu os chamados Acordos de Isaac, iniciativa de aproximação regional com Israel defendida pelo governo de Javier Milei e apoiada pelas duas organizações.

O movimento também aparece em outros governos da nova direita latino-americana. Milei, Rodrigo Paz e Nasry Asfura tiveram atuação documentada de Cerimedo em suas campanhas ou estruturas políticas. Ao mesmo tempo, os três promoveram aproximações com Israel.

Asfura, por exemplo, encontrou-se com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em janeiro e afirmou querer reconstruir a relação entre Honduras e Israel.

Israel financia uma operação internacional de comunicação comandada pela empresa de Parscale; Parscale mantém uma parceria empresarial e tecnológica com Cerimedo; Cerimedo possui uma trajetória documentada de atuação junto à família Bolsonaro e a outros governos da nova direita latino-americana; e, paralelamente, a família Bolsonaro estreita seus vínculos com organizações que promovem a aproximação política entre Israel e a direita do continente.

Não há como afirmar que os US$ 46,5 milhões pagos à operação de Parscale, sócio de Cerimedo, tenham sido repassados ao marqueteiro ou à família Bolsonaro.

Mas é possível afirmar que existe é uma rede transnacional que conecta Washington, Tel Aviv e a extrema direita latino-americana por meio de tecnologia, comunicação política, dados, campanhas eleitorais e organizações de aproximação com Israel. E Fernando Cerimedo está no olho deste furacão.

¨      Consultor político aliado de Milei e clã Bolsonaro prometeu ‘lutar’ por Flávio nas eleições, diz ex-companheira

O ex-consultor político argentino preso Fernando Andrés Cerimedo – assessor pessoal do presidente Rodrigo Paz, aliado do presidente Javier Milei e amigo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro –, havia dito à sua ex-companheira, a advogada Nadia Beller, que “lutaria” pelo senador e candidato à Presidência brasileira, Flávio Bolsonaro (PL), nas eleições de 2026. A informação foi dada por Beller – que foi baleada na frente de um hotel em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, no que se acusa Cerimedo de ter sido o mandante da tentativa de assassinato – à Folha de SP e publicada na quarta-feira (25/08).

De acordo com a advogada, houve uma ocasião em que ela havia perguntado ao seu ex-companheiro sobre as chances de Flávio ganhar as eleições presidenciais. “Ele me disse que estava difícil, mas que eles iriam lutar”, contou ao periódico brasileiro, acrescentando que “entendeu” que o ex-consultor iria auxiliar o filho de Jair. “Ele respondeu: vamos lutar”.

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o pleito de 2022, Cerimedo chegou a fazer transmissões de live e publicações alegando, sem provas, supostas fraudes eleitorais. A Polícia Federal (PF) também pôs o nome de Cerimedo na lista de figuras indiciadas no inquérito do golpe, mas não entrou na denúncia emitida pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em julho deste ano, Cerimedo e Eduardo Bolsonaro participaram de uma live durante a qual ambos voltaram a atacar o sistema eleitoral brasileiro. À Folha, Beller disse que o ex-deputado federal é “um amigo muito querido” de seu ex-companheiro, e que haviam se encontrado nos Estados Unidos no mês de agosto. “Inclusive ele [Cerimedo] havia comentado que era possível que fossem juntos a Israel. O Fernando [Cerimedo] foi a Israel. Mas não me lembro de ter perguntado se o senhor Bolsonaro foi com ele”, relatou, apontando desconhecer o motivo pelo qual seu ex-companheiro tenha viajado ao país.

“Ele foi cumprir um compromisso, mas desconheço o motivo dessa reunião. Sei que esteve em Jerusalém, que circulou um pouco por lá, mas não comentou muito mais”, afirmou. 

A advogada disse que Cerimedo tem um compromisso profissional na Bolívia, já que assessora o presidente de extrema direita Rodrigo Paz, mesmo sem um cargo oficial. “Pelo que entendi, no Peru pediram que ele participasse dessas eleições, mas ele só conseguiu ajudar um pouco no segundo turno, porque seu trabalho aqui na Bolívia o ocupava muito”, explicou.

<><> Minifazenda de robôs

O Ministério Público da Bolívia acusou Fernando Cerimedo de ser o mandante da tentativa de assassinato de Nádia, a partir de mensagens encontradas em seu aparelho telefônico. Em 18 de agosto, a Justiça boliviana autorizou que ele fosse preso preventivamente por 180 dias.

Já em uma batida em propriedades ligadas ao ex-consultor, os investigadores relataram que ele possuía cerca de US$ 40 mil (R$ 206 mil) e uma minifazenda de robôs, uma estrutura tecnológica que reúne dispositivos digitais para disseminar e manipular conteúdos específicos nas redes sociais. 

“O que ele tinha eram modems móveis que não eram usados para nada ilegal e, além disso, estavam em caixas”, escreveu Cerimedo em uma carta dirigida à sua advogada, negando que se trata de uma minifazenda de robôs. 

No entanto, em 2023, ao jornal argentino La Nación, o ex-consultor admitiu o uso de contas automatizadas para influenciar os algoritmos das redes. “O serviço dos ‘trolls’ não é usado para fazer política, e sim para interferir nos algoritmos”, explicou, na ocasião. “Com os ‘trolls’, criamos essa relevância artificial. O algoritmo a detecta e conseguimos que mais pessoas vejam a postagem”.

Segundo Beller à Folha, o consultor tinha duas fazendas de robôs na Bolívia e outra maior, na capital argentina, Buenos Aires. Ele trabalhou na campanha de Milei em 2023.

“Eu nunca fui a esse lugar, mas ele me contou que era por meio de inteligência artificial que as contas eram sincronizadas em tempo real. Elas podiam até mesmo não repetir palavras, enviar mensagens diferentes, fazer publicações, comentários, inundar as redes sociais e segmentar de acordo com o público”, contou, destacando que se uma conta “incomoda alguém”, faziam várias denúncias até derrubá-la.

Segundo Nádia, o dispositivo foi aplicado em Honduras, no Chile, no Brasil, na Bolívia e na Argentina. No caso brasileiro, a estrutura foi usada em 2022 para favorecer Jair Bolsonaro.

<><> Investigações no Brasil

O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) formalizou ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, um pedido para ampliar as investigações sobre Cerimedo, envolvido em apurações referentes à disseminação de mentiras contra o sistema eleitoral brasileiro.

Segundo Falcão, o ex-consultor argentino foi indiciado pela PF em 2024 por participar da organização criminosa que tentou enfraquecer a legitimidade do processo democrático brasileiro ao espalhar mentiras de fraude nas urnas eletrônicas nas eleições de 2022. Nesse sentido, não ficou claro na denúncia se Cerimedo tinha controle direto sobre essa operação ou se apenas propagava essa narrativa. Para o parlamentar, a apreensão dos aparelhos eletrônicos são fundamentais para preencher essa lacuna.

Entre as solicitações, Falcão requer a investigação sobre possível relação financeira de Cerimedo com partidos, candidatos ou intermediários ligados a campanhas eleitorais brasileiras, além do planejamento de uso da minifazenda de robôs para interferir no processo eleitoral brasileiro.

A Moraes, o deputado pediu a preservação de todos os equipamentos e documentos apreendidos de modo que possam ser analisados pela PF. Também pediu cooperação com as autoridades bolivianas para garantir a integridade e autenticidade das provas.

 

Fonte: Por Yuri Ferreira, na Fórum/Opera Mundi

 

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