OS
LAÇOS DA EXTREMA DIREITA: O rastro de dinheiro que liga Israel, Cerimedo e a
família Bolsonaro
As
investigações sobre a atuação do marqueteiro político Fernando
Cerimedo, preso na Bolívia e investigado por
tentativa de feminicídio contra a ex-companheiraa, revelaram uma
dimensão que vai muito além das fábricas de bots e da fatídica live contra as urnas eletrônicas
brasileiras na tentativa de golpe de 2022.
Cerimedo
integra uma rede internacional de tecnologia, comunicação política e
mobilização da nova direita que tem, em um de seus principais núcleos, uma
operação financiada pelo Estado de Israel.
A
conexão passa pelo americano Brad Parscale, estrategista digital de Donald
Trump, e chega à América Latina por meio de empresas e plataformas utilizadas
por Cerimedo.
Parscale
ganhou notoriedade como responsável pela estratégia digital da campanha de
Trump em 2016 e comandou a campanha de reeleição do republicano em 2020 durante
as primárias. Atualmente, está à frente da Clock Tower X, empresa que
mantém um contrato milionário para uma operação de comunicação em favor de
Israel.
Documentos
registrados nos Estados Unidos mostram que o acordo chegou a US$ 46,5
milhões. A operação inclui publicidade, produção de conteúdo e estratégias
digitais, mas tem um objetivo particularmente incomum: criar sites e conteúdos
capazes de influenciar o enquadramento de respostas produzidas por sistemas de
inteligência artificial. O contrato prevê explicitamente a criação de “sites e
conteúdo” para produzir resultados de enquadramento em conversas com sistemas
de inteligência artificial, focando em uma campanha de PR para alterar
respostas do ChatGPT sobre o estado de Israel.
A rede
criada pela Clock Tower X chegou a reunir diversos sites que aparentam ser
veículos ou organizações independentes, mas são registrados como materiais
distribuídos em nome do Estado de Israel.
O
argentino mantém uma parceria empresarial com Parscale e passou a representar
na América Latina ferramentas como Campaign Nucleus e EyesOver,
associadas à infraestrutura tecnológica do americano. O próprio Cerimedo
afirmou que Parscale forneceu a infraestrutura sobre a qual trabalha.
A
estrutura foi utilizada em campanhas da direita latino-americana, incluindo as
de Javier Milei, na Argentina, Rodrigo Paz, na Bolívia, e Nasry
Asfura, em Honduras.
A
relação com o Brasil vem de antes. Cerimedo afirma ter trabalhado
para Jair Bolsonaro em 2018 e, em 2022, tornou-se um dos principais
propagadores de alegações falsas sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas
brasileiras. A operação ajudou a alimentar a mobilização bolsonarista contra o
resultado das eleições. Já neste ano, Cerimedo participou de uma live ao lado
de Eduardo Bolsonaro para tratar de urnas eletrônicas e fomentar as narrativas
da extrema direita no Brasil.
A outra
ponta da conexão aparece em 2026. Em junho, Flávio
Bolsonaro participou, em Buenos Aires, de uma conferência organizada
pela Israel Allies Foundation e pela American Friends of Isaac
Accords, voltada ao fortalecimento das relações entre Israel e América Latina.
No
evento, o senador prometeu, caso eleito presidente, transferir a embaixada
brasileira em Israel para Jerusalém e aprofundar a aproximação entre os dois
países.
A
conferência reuniu parlamentares de 14 países e promoveu os
chamados Acordos de Isaac, iniciativa de aproximação regional com Israel
defendida pelo governo de Javier Milei e apoiada pelas duas organizações.
O
movimento também aparece em outros governos da nova direita
latino-americana. Milei, Rodrigo Paz e Nasry Asfura tiveram atuação
documentada de Cerimedo em suas campanhas ou estruturas políticas. Ao mesmo
tempo, os três promoveram aproximações com Israel.
Asfura,
por exemplo, encontrou-se com o primeiro-ministro israelense Benjamin
Netanyahu em janeiro e afirmou querer reconstruir a relação entre Honduras
e Israel.
Israel
financia uma operação internacional de comunicação comandada pela empresa de
Parscale; Parscale mantém uma parceria empresarial e tecnológica com Cerimedo;
Cerimedo possui uma trajetória documentada de atuação junto à família Bolsonaro
e a outros governos da nova direita latino-americana; e, paralelamente, a
família Bolsonaro estreita seus vínculos com organizações que promovem a
aproximação política entre Israel e a direita do continente.
Não há
como afirmar que os US$ 46,5 milhões pagos à operação de Parscale,
sócio de Cerimedo, tenham sido repassados ao marqueteiro ou à família
Bolsonaro.
Mas é
possível afirmar que existe é uma rede transnacional que
conecta Washington, Tel Aviv e a extrema direita latino-americana por
meio de tecnologia, comunicação política, dados, campanhas eleitorais e
organizações de aproximação com Israel. E Fernando Cerimedo está no olho deste
furacão.
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Consultor político aliado de Milei e clã Bolsonaro
prometeu ‘lutar’ por Flávio nas eleições, diz ex-companheira
O
ex-consultor político argentino preso Fernando Andrés Cerimedo – assessor
pessoal do presidente Rodrigo Paz, aliado do presidente Javier Milei e amigo do
ex-deputado Eduardo Bolsonaro –, havia dito à sua ex-companheira, a advogada
Nadia Beller, que “lutaria” pelo senador e candidato à Presidência brasileira,
Flávio Bolsonaro (PL), nas eleições de 2026. A informação foi dada por Beller –
que foi baleada na frente de um hotel em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia,
no que se acusa Cerimedo de ter sido o mandante da tentativa de assassinato – à Folha
de SP e publicada na quarta-feira (25/08).
De
acordo com a advogada, houve uma ocasião em que ela havia perguntado ao seu
ex-companheiro sobre as chances de Flávio ganhar as eleições presidenciais.
“Ele me disse que estava difícil, mas que eles iriam lutar”, contou ao
periódico brasileiro, acrescentando que “entendeu” que o ex-consultor iria
auxiliar o filho de Jair. “Ele respondeu: vamos lutar”.
Quando
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o pleito de 2022, Cerimedo
chegou a fazer transmissões de live e publicações alegando, sem provas,
supostas fraudes eleitorais. A Polícia Federal (PF) também pôs o nome de
Cerimedo na lista de figuras indiciadas no inquérito do golpe, mas não entrou
na denúncia emitida pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Em
julho deste ano, Cerimedo e Eduardo Bolsonaro participaram de uma live durante
a qual ambos voltaram a atacar o sistema eleitoral brasileiro. À Folha,
Beller disse que o ex-deputado federal é “um amigo muito querido” de seu
ex-companheiro, e que haviam se encontrado nos Estados Unidos no mês de agosto.
“Inclusive ele [Cerimedo] havia comentado que era possível que fossem juntos a
Israel. O Fernando [Cerimedo] foi a Israel. Mas não me lembro de ter perguntado
se o senhor Bolsonaro foi com ele”, relatou, apontando desconhecer o motivo
pelo qual seu ex-companheiro tenha viajado ao país.
“Ele
foi cumprir um compromisso, mas desconheço o motivo dessa reunião. Sei que
esteve em Jerusalém, que circulou um pouco por lá, mas não comentou muito
mais”, afirmou.
A
advogada disse que Cerimedo tem um compromisso profissional na Bolívia, já que
assessora o presidente de extrema direita Rodrigo Paz, mesmo sem um cargo
oficial. “Pelo que entendi, no Peru pediram que ele participasse dessas
eleições, mas ele só conseguiu ajudar um pouco no segundo turno, porque seu
trabalho aqui na Bolívia o ocupava muito”, explicou.
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Minifazenda de robôs
O
Ministério Público da Bolívia acusou Fernando Cerimedo de ser o mandante da
tentativa de assassinato de Nádia, a partir de mensagens encontradas em seu
aparelho telefônico. Em 18 de agosto, a Justiça boliviana autorizou que ele
fosse preso preventivamente por 180 dias.
Já em
uma batida em propriedades ligadas ao ex-consultor, os investigadores relataram
que ele possuía cerca de US$ 40 mil (R$ 206 mil) e uma minifazenda de robôs,
uma estrutura tecnológica que reúne dispositivos digitais para disseminar e
manipular conteúdos específicos nas redes sociais.
“O que
ele tinha eram modems móveis que não eram usados para nada ilegal e, além
disso, estavam em caixas”, escreveu Cerimedo em uma carta dirigida à sua
advogada, negando que se trata de uma minifazenda de robôs.
No
entanto, em 2023, ao jornal argentino La Nación, o ex-consultor
admitiu o uso de contas automatizadas para influenciar os algoritmos das redes.
“O serviço dos ‘trolls’ não é usado para fazer política, e sim para interferir
nos algoritmos”, explicou, na ocasião. “Com os ‘trolls’, criamos essa relevância
artificial. O algoritmo a detecta e conseguimos que mais pessoas vejam a
postagem”.
Segundo
Beller à Folha, o consultor tinha duas fazendas de robôs na Bolívia
e outra maior, na capital argentina, Buenos Aires. Ele trabalhou na campanha de
Milei em 2023.
“Eu
nunca fui a esse lugar, mas ele me contou que era por meio de inteligência
artificial que as contas eram sincronizadas em tempo real. Elas podiam até
mesmo não repetir palavras, enviar mensagens diferentes, fazer publicações,
comentários, inundar as redes sociais e segmentar de acordo com o público”,
contou, destacando que se uma conta “incomoda alguém”, faziam várias denúncias
até derrubá-la.
Segundo
Nádia, o dispositivo foi aplicado em Honduras, no Chile, no Brasil, na Bolívia
e na Argentina. No caso brasileiro, a estrutura foi usada em 2022 para
favorecer Jair Bolsonaro.
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Investigações no Brasil
O
deputado federal Rui Falcão (PT-SP) formalizou ao ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), Alexandre de Moraes, um pedido para ampliar as investigações
sobre Cerimedo, envolvido em apurações referentes à disseminação de mentiras
contra o sistema eleitoral brasileiro.
Segundo
Falcão, o ex-consultor argentino foi indiciado pela PF em 2024 por participar
da organização criminosa que tentou enfraquecer a legitimidade do processo
democrático brasileiro ao espalhar mentiras de fraude nas urnas eletrônicas nas
eleições de 2022. Nesse sentido, não ficou claro na denúncia se Cerimedo tinha
controle direto sobre essa operação ou se apenas propagava essa narrativa. Para
o parlamentar, a apreensão dos aparelhos eletrônicos são fundamentais para
preencher essa lacuna.
Entre
as solicitações, Falcão requer a investigação sobre possível relação financeira
de Cerimedo com partidos, candidatos ou intermediários ligados a campanhas
eleitorais brasileiras, além do planejamento de uso da minifazenda de robôs
para interferir no processo eleitoral brasileiro.
A
Moraes, o deputado pediu a preservação de todos os equipamentos e documentos
apreendidos de modo que possam ser analisados pela PF. Também pediu cooperação
com as autoridades bolivianas para garantir a integridade e autenticidade das
provas.
Fonte: Por Yuri
Ferreira, na Fórum/Opera Mundi

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