'Nuvens'
e abstenção vão decidir a eleição
Esta
coluna sempre lembra a velha máxima do ex-governador de Minas Gerais, José de
Magalhães Pinto, também conhecido por ter fundado o Banco Nacional, de que
“política é como nuvem; a cada hora está de um jeito”. Também já chamei a
atenção para o nível da abstenção como fator decisivo na eleição de outubro.
Sobretudo quando o índice de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest era de
51% na semana anterior.
A 43
dias do primeiro turno (4 de outubro) e a 64 dias do segundo turno (25 de
outubro), se houver, a pesquisa DataFolha, divulgada sexta-feira, mostrou o
quadro ainda embaralhado. Mas, tanto a pesquisa Quaest quanto a da Datafolha
não tinham nas perguntas aos eleitores contatados um fato importante que pode
ter influência fundamental nesta reta final do calendário eleitoral.
Falo da
conversa de 1 hora e 20 minutos entre o presidente Lula e o presidente Trump,
na manhã desta sexta-feira, 21 de agosto, que reabriu o diálogo entre os dois
países sobre o último tarifaço (25% + 12,50%), aplicado há duas semanas. A
reabertura das negociações, após Lula reiterar ao presidente americano que as
alegações para o tarifaço imposto pelo USTR (o escritório de comércio dos
Estados Unidos) são "infundadas”, veio por determinação de
Trump.
No meio
da tarde, o representante de comércio dos EUA, embaixador Jamieson Greer, ligou
para o seu homólogo no governo Lula, o ministro do Desenvolvimento, Indústria,
Comércio e Serviços, Márcio Fernando Dias Rosa, convidando-o para uma reunião
de trabalho para acerto de arestas no começo da próxima semana, em Washington.
É mais uma mudança de nuvens no cenário externo e nas relações entre os
governos Lula e Trump.
As
nuvens estavam pesadas e fechadas, o que beneficiava Flávio Bolsonaro, que
comemorou o tarifaço contra o Brasil em 2025 (derrubado pela Suprema Corte dos
EUA, em fevereiro). Embora tenha plantado com o irmão Eduardo uma série de
versões, que Lula disse a Trump serem "infundadas”, Flávio, para evitar o
desgaste, disse que a culpa do “tariflávio”, como é citado nas redes sociais,
“é de Lula”, por não ter negociado com Trump.
<><>
O ‘ganha-ganha’ das conversas
Pois
Lula está negociando com Trump. Talvez, com nova ajuda de Joesley Batista, do
grupo Friboi, que obteve a suspensão, por 90 dias, das tarifas para a
importação de até 300 toneladas de carne moída. A carne moída é essencial ao
hambúrguer, e o fim da tarifa ajuda a segurar a inflação. E Trump percebeu que
a inflação alta, gerada pela guerra do Golfo, que fugiu ao controle, prejudica
os republicanos nas eleições de renovação parcial do Congresso em novembro.
É
considerável o prejuízo dos tarifaços elogiados pelo clã Bolsonaro. Estudo do
Bradesco apontou que as exportações para os Estados Unidos encolheram US$ 6,9
bilhões no ano passado. O estrago só não foi maior, em faturamento e empregos
nas cadeias produtivas, porque o governo Lula fez enorme esforço de conquista
de novos mercados, conseguindo exportar US$ 2,7 bilhões para terceiros países,
reduzindo as perdas líquidas a US$ 4,2 bilhões. Conversando, os dois lados vão
encontrar um “ganha-ganha”, como sempre sustentou o vice Geraldo Alkimin.
Há
muitas questões de interesse mútuo dos dois maiores e antigos parceiros das
Américas, e a moeda a ser preservada, além da soberania brasileira, é a
democracia.
<><>
Pesquisas não medem abstenção
Pesquisas
eleitorais alegam ter margem de acerto de 95%. Mas, carecem de um fator
fundamental em qualquer votação: não têm como estimar a taxa de abstenção. Na
última eleição, de 2022, que estava mais polarizada que este ano, 20,9% dos
eleitores (mais de 32 milhões de votantes) não compareceram às zonas de votação
no primeiro turno. No segundo, foi um pouquinho menor: 20,59%.
Se
tivemos 51% de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest, quando é o
pesquisado que indica sua preferência, sem ajuda de cartelas, e a última
Datafolha indicou Lula com 39% contra 33% de Flávio no primeiro turno (brancos
e nulos eram 6%, e 4% não sabiam em quem votar), e o placar de 47% a 43% para
Lula no segundo turno (brancos e nulo aumentaram para 9% e 2% não sabiam), o
segredo da vitória estará, certamente, vinculado à distribuição da abstenção
entre os dois candidatos líderes das pesquisas.
Na
eleição de 2022, à parte toda a retórica para desgastar a credibilidade do voto
eletrônico, pois estava atrás de Lula nas pesquisas (desta vez o Tribunal
Superior Eleitoral é presidido por Nunes Marques, ministro indicado para o
Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro), o então presidente da República
articulou com a Polícia Rodoviária Federal dificultar a chegada dos eleitores
do Nordeste (principal força eleitoral de Lula) às zonas de votação, com
“blitz” nas rodovias federais contra ônibus transportando votantes. Nas grandes
cidades foi visível a redução dos ônibus em circulação por parte dos donos de
frotas.
Assisti
sexta-feira, no Hotel Fairmont, em Copacabana, interessante painel organizado
pelo LIDE, iniciativa do ex-governador de São Paulo, João Doria Jr, com os
diretores da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, e o diretor da Atlas Intel,
Andrei Roman. Os dois institutos concorrem com a Quaest e o Datafolha. A
conversa foi feita sobre o cenário anterior à reabertura de diálogo entre Lula
e Trump, que claramente beneficia o presidente contra Flávio. Ambos assinalaram
um certo desânimo dos eleitores com as duas candidaturas que polarizam o país.
Mas
Hidalgo chamou a atenção para fato pouco considerado. Para ele (antes da
conversa com Trump), Lula teria mais chance de vencer no primeiro do que no
segundo turno. Porque as pesquisas estão indicando, nas campanhas para
governador (que ajudam a manter a mobilização dos cabos eleitorais e eleitores
no segundo turno), a possibilidade de a fatura ser liquidada em 4 de outubro em
São Paulo, Rio de Janeiro e nos principais colégios eleitorais do Nordeste.
Isso aumentaria a desmotivação (abstenção) até 25 de outubro, quando será o
segundo turno. Em 2022, o eleitor de Lula, que foi “seguro” nas estradas pela
PRF, veio com mais disposição ao segundo turno.
De
novo, sem considerar o fato novo do diálogo Brasil-EUA, Andrei Roman, da Atlas
Intel, citou três temas que estavam favorecendo Flávio Bolsonaro. 1- nuvens
negras contra Lula, por denúncias de corrupção de seu filho (daí o PT fazer
pressão pela prestação de contas dos R$ 61 milhões tomados pelo senador ao
banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair
Bolsonaro); 2 – criminalidade, que cresceu no Nordeste, com avanço das facções
criminosas, o que explicaria a redução dos índices de Lula na região este ano.
Roman arrisca dizer que uma chacina ou um assassinato de grande impacto na
região poderia alterar o cenário eleitoral; e 3 – economia, o tempo está se
encarregando de esvair os impactos de duas importantes medidas no campo econômico:
a isenção do Imposto de Renda na fonte para quem ganha até cinco
salários-mínimos (R$ 8.105) e o Desenrola. A oposição está aproveitando a
quebradeira do varejo, com os altos juros do crediário, para levantar a pauta
do ajuste fiscal.
<><>
A praga da indexação
Não me
canso de mostrar na coluna O Outro Lado da Moeda que a grande causa do
crescimento da dívida pública bruta, que chegou a 81% do PIB – considero mais
realista falar da dívida pública líquida que está em 67% do PIB, pois o Banco
Central carrega diariamente quase R$ 1,5 trilhão em papéis para fazer operações
de “open market” - são os juros reais (descontada a inflação) de 10% (agora
está em 9,1%!). E desde 2022, o mundo sofre o impacto de duas fortes altas de
petróleo e alimentos devidos a guerras (na Ucrânia e Irã).
E o
ataque ao ajuste fiscal, que produziria amplo efeito no aumento do PIB e na
redução do endividamento de empresas, famílias e governo, com nova queda de
dois pontos na taxa Selic (o piso de captação do mercado, que está em 14% ao
ano), vem dos economistas do mercado, que ganham mais sem fazer força, quanto
maior for a Selic.
Dou
100% de razão ao ministro da Fazenda, Dario Duringan, quando diz que as causas
da inflação (no Brasil e no mundo) são a alta do petróleo, causada pela guerra
de EUA-Israel contra o Irã, e a especulação com preços dos alimentos,
antecipando possíveis impactos do El Niño, no último trimestre. Juro alto não
combate isso. Mas, com a praga da indexação (a jabuticaba brasileira que
realimenta a inflação com os preços do passado) o mercado ganha motivos para
apostar contra o país, impactando as expectativas e os juros.
<><>
O telhado de vidro de Zema
Quem
ouve o candidato Romeu Zema (Novo-MG), criticando a falta de ajuste fiscal e os
juros altos, deveria conhecer um pouco mais o telhado de vidro do ex-governador
de Minas Gerais. Em seus sete anos e meio de governo, deu o calote da dívida em
cima do governo federal e não fez o ajuste fiscal (gastou usando a folga do
calote).
Piores
são as críticas ao nível dos juros no país. Levantamento do Banco Central junto
a 78 instituições financeiras sobre os juros praticados no crédito pessoal não
consignado, entre 3 e 8 de agosto, mostrou a Zema Financeira com a décima maior
taxa de juros do país: 321,68% ao ano, ou 12,74% ao mês. O piso de captação do
país está em 14% ao ano e a inflação atingiu 4,44% nos 12 meses terminados em
julho. A maior taxa era da financeira Valor, com 746,41% ao ano!
A Zema
Financeira é presidida por Romero Zema, irmão do ex-governador que é sócio da
empresa. Nessas horas, sinto falta do ex-governador Leonel Brizola para
exclamar: “Mas que cara de pau, hein!?”
¨ Não há economia que
resista…Por Nuno Vasconcellos
Qualquer
pessoa sensata, que reflita sobre as medidas mais urgentes que terão de ser
tomadas pelo próximo presidente da
República —
independentemente de quem vier a ser eleito em outubro —, não terá dificuldades
para fazer a lista de prioridades. Em primeiro lugar, será preciso resolver a
situação fiscal. Em segundo lugar, será importante resolver a situação fiscal.
Em terceiro, será obrigatório, e com a máxima urgência, resolver a situação
fiscal.
Isso
mesmo! Embora a pauta de necessidades seja extensa e inclua temas sensíveis —
como a segurança pública, o retrocesso diplomático e o desarranjo institucional
—, nenhuma ação do novo governo será eficaz se a realidade não for encarada. E
a realidade é que a situação fiscal se deteriorou a tal ponto que transformou o
Brasil em um ambiente hostil para a atividade econômica.
A
voracidade de um Estado que arranca do cidadão tudo o que consegue e gasta sem
saber se terá dinheiro para honrar os compromissos é a causa primária dos males
nacionais. Contas públicas desajustadas, como consta dos manuais que Brasília
insiste em ignorar, pressionam a inflação e mantêm os juros nas alturas. A
necessidade permanente de cobrir o déficit público (que deveria ser combatido
com cortes nas despesas federais) serve de desculpa para a cobrança de impostos
escorchantes. A soma de tudo fez do Brasil um ambiente hostil a quem quer
empreender. Esta é a verdade.
>>>>
SINAL DOS TEMPOS
Um
exemplo dramático dessa realidade foi exposto na semana passada. Pressionada
por um endividamento de R$ 17,3 bilhões, a Casas Bahia se tornou mais uma entre
as quase oito mil empresas brasileiras que, neste momento, se encontram em
Recuperação Judicial — a maior quantidade da história.
O que
torna o caso emblemático é a trajetória da Casas Bahia. Criada em 1952, a
empresa nasceu e cresceu sob um modelo de negócios baseado na decisão de vender
fiado. Ao abrir a primeira loja, no município de Santo André, no ABC Paulista,
o imigrante polonês Samuel Klein — sobrevivente do holocausto — cometeu a
ousadia de oferecer crédito aos trabalhadores que chegavam em busca de emprego
nas indústrias que se instalavam em São Paulo. O nome Casas Bahia, por sinal, é
uma homenagem à origem dos primeiros fregueses.
Em 74
anos de história, o carnê da Casas Bahia ofereceu a milhões e milhões de
brasileiros de renda modesta a possibilidade de mobiliar a casa. Ninguém fazia
contas para saber a taxa de juros do crediário. O importante era que a
prestação “cabia no bolso” e era a única forma do trabalhador ter sua geladeira
ou sua televisão. A inadimplência era baixíssima.
Deu
certo? Ora, se deu!... A nacional moeda mudou sete vezes e perdeu 15 zeros
desde a fundação da empresa. O Brasil enfrentou crise atrás de crise, mas a
Casas Bahia resistiu às intempéries e cresceu. Desta vez, ela não conseguiu!
Atenção! O pedido de Recuperação Judicial de uma empresa que tem a capacidade
de superar crises impregnada no DNA, como é o caso da Casas Bahia, ao invés de
um problema de gestão, revela que ela está operando num ambiente insalubre.
CONDENADAS
AO CADAFALSO
O
Brasil tem hoje uma legião de 84 milhões de inadimplentes — e os devedores da
Casas Bahia estão entre eles. Pressionados pelo aumento dos preços dos
alimentos e dos serviços, muitos clientes viram minguar o dinheiro de que
dispunham para manter as contas em dia. Como não recebeu o dinheiro dos carnês,
a rede varejista também ficou sem recursos para se acertar com os credores.
Antes
de recorrer à Justiça, a empresa, é claro, foi atrás dos bancos para se
financiar. A questão é que, no Brasil, pedir socorro à banca muitas vezes
equivale a uma sentença de morte. Os juros são obscenos — e o problema, nesse
ponto, vai além da taxa Selic. Atualmente, ela está 14% — o que representa uma
taxa básica real de mais de 9% ao ano depois de descontada a inflação. É a
segunda maior do mundo, atrás apenas da Turquia.
O
problema está nos juros reais que o sistema financeiro cobra das empresas. A
taxa financiamento de capital de giro oscila entre 20% a 24% ao ano. Se
endividar a uma taxa lesiva como essa, com todo respeito, ao invés de resolver,
acaba agravando o problema de quem precisa de dinheiro.
Pensa
que acabou? Não! A todo instante, surge um novo imposto, uma nova taxa ou uma
alíquota mais pesada para saciar o apetite tributário federal. Um levantamento
da CNI e da CNC aponta que 22 tributos foram criados ou tiveram as alíquotas
majoradas entre os anos de 2023 e 2025.
Nessa
situação, não há empresa que resista. Para elas, é até suportável quando o
governo aumente impostos quando os juros são razoáveis. Da mesma forma, os
juros podem subir se os impostos são sensatos. Exagerar nos dois ao mesmo tempo
é que não dá! Isso é o mesmo que empurrar todo o setor produtivo para o
cadafalso.
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB/O Dia

Nenhum comentário:
Postar um comentário