Nem protetorado nem capitulação: a
Venezuela e a resistência
Fala-se
hoje com insistência da capitulação da Venezuela diante da agenda de
Washington. As análises exageram na comparação entre o atual governo e os de
Maduro e Chávez, mas omitem aquilo que permitiria situar o caso venezuelano em
sua verdadeira dimensão: a comparação com a resistência, ou a ausência dela,
oferecida pelos demais governos progressistas e de esquerda na região.
Recuperar essa comparação é o único modo de formular corretamente a questão,
que não diz respeito ao grau de pureza de cada governo. Medir a pureza da
Revolução Bolivariana, compará-la a um padrão ideal, é operar a uma distância
das condições reais que impede pensar aquilo que de fato importa (num processo
revolucionário): a estratégia e a tática. É nesse terreno, e não no da avaliação
moral, que se decide a capacidade concreta de resistir à pressão, à coerção e à
sabotagem que os Estados Unidos exercem sobre cada um desses governos.
Todos
os governos da onda progressista e revolucionária tiveram de fazer concessões
em maior ou menor grau. Não se pode, portanto, isolar a Venezuela e reprová-la
por concessões que todos os demais governos também se viram obrigados, ainda
mais quando foi a Venezuela que suportou a pior pressão. O que está em questão
não é se o país faz concessões (ele faz, como os outros fizeram), mas se essas
concessões constituem uma capitulação, isto é, se a Venezuela deixou de
resistir. Ela não deixou. O país continua resistindo, não capitulou e não é um
protetorado, mas sim, opera sob um grau de coerçao intensa, fruto da derrota
militar que viveu no dia 3 de janeiro de 2026. Reconhecer que a resistência
continua não significa, porém, ignorar os riscos que as táticas atuais podem
representar para a Revolução. As concessões e medidas de destensionamento
adotadas podem criar condições para uma derrota futura, ao mesmo tempo em que
permitem que seus opositores reconstruam suas forças e fragilizam a coesão de
sua própria base.
O que
se evidencia não é um caso de traição a valores políticos, categoria moral que
substitui a análise pela denúncia, mas a fragilidade política de certos
projetos para sustentar os sacrifícios que a resistência exige em condições
profundamente adversas. Convém fixar, desde já, uma distinção, pois sua
confusão é a fonte de boa parte dos mal-entendidos da esquerda internacional
sobre a região. Uma concessão é uma retirada discricionária que cede terreno
numa questão específica sem abrir mão do princípio. Uma restrição estrutural é
um resultado que a dependência, a dívida ou a posição no mercado impõem, com
margem mínima de recusa. Uma derrota imposta é a supressão da autonomia por
golpe, guerra jurídica ou intervenção. E a capitulação é a reversão total dos
objetivos, a entrega integral do poder de decisão ao ator que exerce a pressão.
Essas quatro figuras não são intercambiáveis: a primeira é abundante na região,
a segunda condiciona toda ela, a terceira foi aplicada onde a resistência foi
maior, e a quarta, apesar da campanha que a proclama, não se concretizou na
Venezuela.
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O terreno da dominação
Nenhuma
análise da capacidade de resistência se sustenta, se isolada da arquitetura de
dominação que o imperialismo norte-americano construiu sobre a América Latina
ao longo de mais de um século. Um governo progressista que chega ao poder não
encontra um tabuleiro vazio, mas um campo previamente estruturado por décadas
de penetração imperial. Essa dominação opera simultaneamente em vários planos:
na assimetria militar absoluta e na rede de bases que tornam suicida qualquer
confronto aberto; na dependência econômica, na dívida e na arma silenciosa da
fuga de capitais, capaz de punir um governo desobediente esvaziando-o de
reservas monetarias sem disparar um tiro; na hegemonia comunicacional dos
monopólios midiáticos e no controle da infraestrutura tecnológica; e nos
instrumentos multilaterais, com a OEA à frente, que concedem ou retiram
legitimidade conforme a docilidade de cada governo.
A essa
arquitetura externa soma-se uma condição interna que a potencializa: a
fragilidade dos Estados latino-americanos, herança de sua formação colonial e
de sua inserção dependente no mercado mundial. Os projetos progressistas não
herdam aparelhos de Estado capazes de executar sem atritos uma vontade
soberana, mas Estados atravessados pelo clientelismo e incapazes de governar
efetivamente seus próprios territórios. Onde o Estado não chega, chegam outros
poderes, e esse vazio de soberania interna é a fresta por onde a coerção
externa penetra com maior facilidade.
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O espectro da resistência regional
Sobre
esse terreno, todos os governos progressistas enfrentaram uma pressão que os
obrigou a fazer concessões e, quando mantiveram a resistência, sofreram alguma
forma de golpe indireto. A trajetória, considerando-se cada caso, revela um
espectro de capacidades que nenhuma interpretação moralizante capta.
Na
frente da dívida e do FMI, a maior resistência veio da Bolívia de Morales e
Arce, do Equador de Correa, da Argentina dos Kirchner e da Venezuela. Os três
primeiros pagaram caro, não com golpe militar, mas com sabotagem política e
guerra jurídica que destituiu ou perseguiu Correa, Cristina Fernández e Evo.
Resistir numa frente, porém, não é resistir em todas: Brasil e Argentina
acabaram cedendo às pressões do sistema financeiro e sacrificaram parte de sua
soberania, sobretudo a energética. As pressões extrativistas seguiram padrão
semelhante: Bolívia, Equador e Venezuela sustentaram com relativa firmeza o
princípio da soberania sobre os recursos, enquanto outros cederam o controle de
suas reservas em troca do investimento que sua condição dependente tornava
indispensável.
Na
contenção migratória, o padrão se inverte: os governos mais pressionados a
absorver as tarefas de vigilância e deportação terceirizadas por Washington
foram a Honduras, de Xiomara Castro, e o México, dos governos do Morena. Na
militarização, a linha volta a se definir: Bolívia e Equador resistiram, um ao
expulsar a DEA e o outro ao não renovar a base de Manta; México e Honduras
concederam, ao aprofundar a colaboração em segurança e ao preservar bases e
tratados de extradição. Já a pressão comercial sobre o México é menos uma série
de concessões de seus governos do que efeito de uma estrutura anterior a eles,
o T-MEC, que consolidou uma economia dependente da qual não há como se desligar
de forma simples. Ratificá-lo e renegociá-lo foi restrição imposta, não
capitulação voluntária. Sob ameaça tarifária, Colômbia, México e Brasil
viram-se obrigados a negociar e ceder em algum ponto. E Cuba abriu sua economia
ao investimento privado não como um abandono do seu projeto, mas como recurso
defensivo para sobreviver ao bloqueio.
No caso
venezuelano, as concessões que se disctuem hoje, são consequência direta de uma
agressão militar que deixou mais de uma centena de mortos e culminou no
sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores. Após o
ataque e sob a ameaça de outro ainda maior, o governo interino liderado pela
vice-presidenta Delcy Rodríguez restabeleceu as relações diplomáticas e
comerciais com os Estados Unidos, reabrindo os setores petrolífero, de
mineração e de energia elétrica à participação de empresas norte-americanas.
Internamente, impulsionou um programa de Paz e Convivência Democrática, aprovou
nova lei de anistia, incorporou figuras da oposição ao Executivo e permitiu
maior cooperação com Washington. Em resumo, as concessões feitas desde 3 de janeiro
foram substanciais: reduziram a soberania energética, o controle territorial e
diplomático e aceitaram reformas políticas exigidas pelos Estados Unidos com o
objetivo de enfraquecer o próprio governo que as implementa.
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Por que uns resistiram e outros cederam?
Nenhuma
dessas estratégias de coerção teria prosperado sem a colaboração das elites
nacionais, que, em nenhum desses países, foram derrotadas: conservam seu poder
econômico, controlam os meios de comunicação e traduzem a pressão externa em
política interna. Quase todos os governos que citamos evitaram o confronto
direto com essas elites, e não por simples fraqueza ideológica. Enfrentá-las
significava abrir uma segunda frente interna, enquanto já se travava a externa
contra Washington, e sua força repousa precisamente no respaldo do
imperialismo. Some-se a isso um limite do período: a correlação de forças
internacional não disponibilizou o investimento, alheio ao imperialismo, que
grandes transformações produtivas teriam exigido.
Revela-se
aí a fragilidade dos projetos progressistas, que é estratégica, e não moral. A
coexistência com frações da elite, tolerada ou incorporada aos próprios blocos
eleitorais, limitou sua capacidade de construir uma força política própria,
disposta a um confronto sustentado e aos custos que ele impõe à população. E a
resistência real exige a disposição de suportar sacrifícios prolongados,
disposição que não se improvisa na crise: precisa ter sido construída antes,
como consciência e organização, numa base social que assuma a resistência como
projeto próprio. Porém, é importante destacar que a decisão de coexistir com a
elite, em alguns casos, partiu, sim, de uma debilidade ideológica, sob a qual
uma aliança tática foi adotada sem o preparo da base para uma eventual
superação da mesma aliança.
Cuba e
Venezuela construíram base política própria, mas a partir de condições
distintas, e é a diferença que ensina. Cuba resistiu mais porque não se aliou à
sua elite: rompeu com ela, expropriou-a e sustenta essa luta de classes até
hoje. Sua força não está apenas na firmeza dos dirigentes, mas numa
determinação ideológica que nenhum outro processo ousou assumir, além de ter
contado durante um período com a cooperação do bloco soviético. A Venezuela
partiu de outra posição: um país dependente e de desenvolvimento deformado, mas
com elevada receita oriunda do petróleo, que moldou por décadas um padrão de
consumo inadequado a uma economia periférica. Mesmo tendo passado por uma
radicalização que seus contemporâneos não conheceram e reduzido
significativamente o campo de ação da elite sob os mandatos de Chávez, a
dependência petroleira gerou outras vulnerabilidades: a queda dos preços somada
às sanções obrigou Maduro a retomar a cooperação com a elite econômica e o
capital transnacional para conter o cerco. A diferença entre as duas não se
reduz a uma superioridade ideológica; é também material e histórica, pois a
Venezuela atuou num momento quase universalmente contrarrevolucionário, muito
distante do horizonte que Cuba encontrou em 1959.
Ainda
assim, sem consumar essa ruptura com a elite nacional, a Venezuela construiu
uma base popular mais ampla que a de todos os seus processos progressistas e de
esquerda contemporâneos, e foi ela que lhe permitiu resistir onde outros
cederam. A prova é paradoxal: incapaz de quebrar essa resistência por
sabotagem, guerra jurídica, cerco e tentativas de golpe, Washington teve de
escalar para a intervenção militar, algo que nenhum outro país da região
sofreu. Ter havido uma intervenção não é sinal de que houve uma rendição, mas a
medida da resistência que a Revolução Bolivariana impôs.
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Venezuela: coerção, resistência e o risco da derrota
Não há,
portanto, capitulação na Venezuela, e isso não é slogan, mas aplicação rigorosa
da definição. A capitulação implica a reversão total dos objetivos, a entrega
completa do poder de decidir ao ator que pressiona. Avaliada por esse critério,
a situação venezuelana revela o contrário do que a campanha midiática proclama,
e essa campanha faz parte do próprio dispositivo de coerção: retratar uma
rendição total serve para dividir a base do chavismo e isolar a Venezuela da
esquerda internacional, privando-a da solidariedade que é um de seus poucos
recursos.
Os
fatos desmentem a tese da rendição, sobretudo quando se observa o que o governo
faz ativamente para não ser desmantelado. Não cede à desconstituição do PSUV e
insiste em disputá-lo nas urnas, quando o cenário ideal para os Estados Unidos
seria justamente a dissolução do instrumento político do chavismo. Mantém o
controle das forças armadas e a unidade cívico-militar entre a Força Armada
Nacional Bolivariana, o Poder Popular, as instituições e o PSUV. Não
desmantelou a PDVSA, ou seja, não renunciou ao núcleo material de sua
soberania. Manteve, além disso, seu governo, o que indica negociação sob coação
e não rendição incondicional: é nesse marco que se entende a decisão de manter
as conversações com Washington para evitar uma intervenção que o governo não se
julga em condições de enfrentar, dado o desgaste acumulado do bloqueio e do
terremoto. À mesma lógica responde o esforço para evitar a guerra civil e
apaziguar o povo com resultados concretos, deslocando a disputa do terreno da
insurreição, onde o adversário é forte, para o da gestão e da legitimidade
cotidiana.
E o
governo não abandonou o programa nem o tratou como época encerrada. Ao
contrário, estimula o desenvolvimento das Comunas como forma de mobilizar uma
base popular resiliente, e desde 3 de janeiro, dá seguimento às consultas
populares voltadas à integração industrial dos processos produtivos
comunitários, isto é, a dotar a base social do chavismo de uma capacidade
produtiva própria, condição material de qualquer resistência duradoura. Longe
de virar a página, aprofunda a dimensão mais radical de seu programa.
O que
se observa na Venezuela é, portanto, algo qualitativamente distinto da
capitulação: uma resistência que sofreu os custos máximos da coerção imperial,
incluindo a ameaça e o exercício da intervenção e que, para preservar o núcleo
de seu projeto, optou por uma flexibilização defensiva. Reconhecê-lo não
autoriza o otimismo. A combinação de concessões, negociação e adiamento do
confronto pode, com o tempo, permitir que a oposição reconstrua sua força e que
a base chavista se divida entre os que leem a flexibilização como realismo e os
que a leem como retrocesso. A mesma estratégia que hoje evita a derrota militar
pode, se prolongada sem uma recomposição da força popular, preparar amanhã uma
derrota política. Não é um protetorado, pois conserva sua autonomia, seus
instrumentos e seu programa; mas tampouco tem a vitória garantida. Essa tensão,
e não a falsa dicotomia entre pureza e traição, é o conteúdo real do momento
venezuelano.
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Conclusão: a construção de uma força própria
O
problema da onda progressista latino-americana não foi a traição de seus
líderes, mas a fragilidade política de projetos que enfrentaram, numa
correlação de forças profundamente adversa, a máquina de dominação mais
poderosa da história. Diante de tal configuração, a surpresa não é que tantos
governos tenham cedido, mas que alguns tenham resistido tanto. A Venezuela,
entre eles, não capitulou.
Se isso
é assim, a pergunta decisiva se desloca. Não se trata de estabelecer se houve
traição, pois não houve, nem de esgotar o debate sobre o que ocorreu em 3 de
janeiro, especulação que nos prende ao passado e pouco ensina sobre o que vem.
Trata-se de perguntar por que a Venezuela e os projetos progressistas ao seu
redor, que condicionavam sua capacidade de resistir, não construíram a força
necessária para resistir. Essa pergunta é maior do que este ensaio pode
responder, mas formulá-la corretamente já é uma tarefa, porque redireciona a
atenção da esquerda internacional da recriminação moral para a única questão
que hoje importa: a de como construir capacidade de resistência.
A
comparação entre os que cederam cedo e os que resistiram até o limite,
Venezuela e Cuba, aponta a variável que nenhum governo pode improvisar na
crise: a existência prévia de uma força política própria, organizada e
consciente, capaz de assumir a resistência como projeto e não de sofrê-la como
imposição. O caso venezuelano confirma-o até em seu risco, pois é onde essa
força é cultivada, nas Comunas e na unidade cívico-militar, que o processo
encontra sua reserva de resistência, e é onde ela é negligenciada que se abre a
brecha da derrota. Essa força não se constrói por meio de pactos com frações da
elite nem delegando o protagonismo à figura de um líder, mas elevando a
consciência e a organização das classes populares a tal ponto que a soberania
deixe de ser política de Estado para tornar-se conquista social irreversível. É
aí, e não na repreensão àqueles que cederam, que reside a tarefa que a onda
progressista deixou pendente e que cabe à próxima resolver.
¨
US$ 13 bilhões do petróleo venezuelano estão sob controle
dos EUA — onde está o dinheiro?
Desde o
princípio do ano, para inteirar-nos do que ocorre na Venezuela devemos
recorrer a fontes fora da Venezuela. Assim, para saber porque os ingressos de
propriedade de nosso país por seu petróleo e minerais não vão
parar no Tesouro nem no Orçamento Nacional venezuelanos, tive
que rastrear a Executive Order 14373, “Safeguarding
venezuelan oil revenue for the good of the american and venezuelan people” (Salvaguardando as
receitas do petróleo venezuelano para o bem dos povos americano e venezuelano).
De
acordo com ela, as quantidades provenientes da venda destas propriedades nossas
são depositadas em uma conta do Tesouro dos Estados Unidos, administrada pelo
Presidente daquele país. O artigo onde eu reproduzi a notícia foi rejeitado
pelos meios de comunicação impressos nacionais. Para descobrir o montante
destas riquezas venezuelanas depositadas no Treasure estadunidense
não me serviram de nada nosso Orçamento da Nação nem
os informes do Banco Central da Venezuela ou do Ministério das Finanças. Tive
que fazer uma longa pesquisa na internet para localizar informação do Financial Times segundo a qual,
desde janeiro até começo de julho de 2026, ingressaram nos Estados
Unidos 13 bilhões de dólares procedentes do petróleo venezuelano (para
os anglo-saxões um billion são mil milhões). Nem mesmo submeti
a informação à mídia impressa; assim como esta, consta em meu blog
luisbrittogarcia.blogspot.com.
Enfim,
transcorridos meses a partir da invasão agravada com bombardeio, assassinato em
massa de compatriotas e cubanos e sequestro
do Primeiro Mandatário e de sua esposa, supus que alguma fonte
vernácula me informaria sobre o paradeiro dessas demolidoras somas. Não
encontrei nem sequer indícios. Não tive outro remédio senão esquadrinhar os
informes do estadunidense Council of Foreign Relations, para
inteirar-me de que o mistério é total. “Onde foi parar todo
o dinheiro?”
indaga o Council. E a resposta é igualmente
desoladora: NINGUÉM SABE.
Citamos:
“Os povos dos Estados Unidos e da Venezuela continuam no
escuro acerca de como a administração de Trump está controlando
milhares de milhões de dólares dos ingressos do petróleo venezuelano. Sem mecanismos
contábeis nem um mapa de caminhos legível, os Estados Unidos arriscam-se à
consolidação de um regime sucessor corrupto”. E o Council prossegue:
“Enquanto a Administração de Trump repetidamente qualificou seu
controle como benéfico para ambos os países, não foi revelado publicamente
quanto petróleo venezuelano vendeu, quanto dinheiro recebeu por ele, nem como
utilizou estes recursos desde que assumiu o controle das explorações petroleiras
do país (…)”.
Em
resumo, somas provenientes da venda de nossos hidrocarbonetos que segundo
o Financial Times chegam a cerca de TREZE BILHÕES DE DÓLARES
desapareceram sem um papel, um informe, um balanço, um indício, uma conjectura.
Marx dizia que “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Desapareceram e pronto.
Com esta soma se esfumam montantes equivalentes de nossa Educação, nossa
Saúde, nossos Alimentos, nossos Serviços Públicos, nossa Infraestrutura, nossa
Cultura, nosso aparato produtivo, nossas Comunicações, nossa Defesa,
nosso futuro. Confirma o Council que “a Administração tampouco
apresentou os acordos escritos que concluiu com o governo venezuelano,
comerciantes, compradores, bancos e outras entidades
envolvidas no processo”.
Caso
houvesse dúvidas, acrescenta que “tanto Rubio como o Secretário do Tesouro,
Scott Bessent comprometeram-se separadamente a compartilhar uma cópia dos
acordos escritos que regem o controle dos EUA sobre as exportações venezuelanas
de petróleo, embora não esteja claro se tais cópias foram entregues ao
Congresso; e nem uma única cópia veio a público. Por uma boa
razão: tais acordos, acertos ou pactos, para serem válidos devem ser feitos de
acordo com o estipulado pela Constituição da República Bolivariana
da Venezuela e as leis do país, sem o que são totalmente
nulos e carecem de efeitos.
Em
resumo: tudo é opacidade, mistério, trevas, enigma, negociado fora do Horizonte
dos Eventos. Dois detalhes acrescenta o Council que confirmam
a incomensurável atrocidade do latrocínio. Entre as empresas que supostamente
teriam feito acertos “transitórios” sobre os bens da Venezuela aparecem
Trafigura e Vitold, ambas envolvidas em práticas de suborno,
ambas ancoradas em acordos secretos que parecem perpétuos. O controle sobre os
ingressos de minerais venezuelanos não se limita aos hidrocarburos: o Secretário
do Interior Doug Burgum teria garantido para si “$100 milhões em ouro”, e um
acordo de mil quilos de ouro, e outro tanto para Trafigura. Por nossa parte,
não sabemos o valor do urânio enriquecido gratuitamente “retirado” do IVIC. A
menos que resistamos, levarão toda a Venezuela.
Fonte: Por
Stephanie Weatherbee Brito, no Le Monde/Diálogos do Sul Global

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